quarta-feira, 16 de abril de 2008

"Como é que é sentir o calor?"

A história de Lúcifer que se tornou demônio por causa da mulher[1]
Por Luigi Schiavo


O filme “Cidade dos Anjos” relata a história do anjo protetor Seth que, encarregado de dar proteção aos mortais, acaba se apaixonando pela sua protegida, a doutora Meggie. Querendo experimentar a doçura da paixão, pula para dentro da realidade humana, mesmo sabendo que com isso perderia sua condição angelical e se tornaria igual aos mortais. Seth consegue ficar somente uma noite com sua amada: Meggie sofre um acidente e morre. O desespero não faz o ex-anjo cair no arrependimento, pois a lembrança do amor o ajuda a superar o terrível momento e olhar para frente com esperança. À pergunta de outro anjo: “Como é que é sentir o calor?”, Seth responde: “Maravilhoso! Prefiro ter sentido só por uma vez o calor, ter beijado só uma vez, que ter vivido a eternidade sem isso!”

O roteiro deste filme se baseia na história do anjo Lúcifer que, segundo o relato bíblico, por ter-se apaixonado pela mulher, cai para o mundo dos mortais se tornando demônio e ensinando todo tipo de maldade aos homens.

Neste breve estudo, procuraremos reconstruir este mito, que tem vários paralelos na literatura bíblica, apócrifa e pseudepígrafa, nos mitos gregos, nos orientais e na literatura de Qumrã.

A pergunta que nos guiará será: por que a mulher, o sexo e o amor sexual são culpados pelos males que afligem a humanidade?

O que motiva esta pesquisa é a busca por relações novas entre mulher e homem, sem medos e preconceitos. A Bíblia, além de livro sagrado, testemunha como se deu esta relação na história do povo de Deus. Em muitos casos os textos bíblicos, com suas formulações, serviram como fonte de opressão sobretudo das mulheres. Em outros casos, eles trazem a luta de muitas mulheres que não se conformaram com a triste realidade à qual eram submetidas. O texto bíblico também é produto de uma determinada cultura histórica, muitas vezes androcêntrica e patriarcal. Resgatar isso nos possibilita uma leitura libertadora, não só em relação à mulher, como também ao homem. Também nos oferece pistas de como velhos paradigmas, que só serviam para legitimar o poder de uns em cima de outros, podem ser superados, em favor da busca e da construção de novas relações de gênero entre mulher e homem.

1. O mito da queda de Lúcifer

1.1.

A tradição do mito da queda dos anjos que dão origem aos demônios está presente na literatura bíblica, extrabíblica e do Oriente Médio. Para a Bíblia, trata-se de uma desobediência a Javé por parte de seres inferiores, os anjos. Podemos pensar que, no mundo bíblico, este mito servia para ridicularizar de maneira disfarçada as pretensões dos governantes helenistas que, de Alexandre o Grande em diante, “alegaram que descendiam dos deuses e de mulheres humanas, denominando esses seres híbridos de heróis”[2]. Isso representava uma séria ameaça ao monoteísmo judaico.

A figura símbolo deste mito é Lúcifer. Este nome aparece pela primeira vez no livro do profeta Isaías: “Como caíste do céu, ó estrela d’alva, filho da aurora! Como foste atirado à terra, vencedor das nações! E, no entanto, dizias no teu coração: ‘Hei de subir até o céu, acima das estrelas de Deus colocarei o meu trono... Subirei acima das nuvens...’. E, contudo, foste precipitado ao Xeol, nas profundezas do abismo” (14,12-15). “O nome da personagem citada[3] vem de uma raiz que significa ser luminoso, brilhante (em árabe, o hilal é a lua nova). O autor do poema refere-se, com certeza, a uma tradição mitológica: nos textos de Ugarit, o deus Attar (Vênus), concorrente de Baal, sofreu uma queda semelhante à de Helel, aqui (...). No mundo grego conhece-se o mito de Faeton (o brilhante), filho de Eos (a aurora). O mito de seres celestes decaídos, parece, portanto, ter sido amplamente conhecido no mundo mediterrâneo antigo, e a literatura judeu-helenística lhe dará novos desenvolvimentos.”[4] O poeta latino Ovídio “menciona que cada novo dia começa quando ‘Lúcifer brilha radiante no céu, chamando a humanidade para seus afazeres diários. Lúcifer excede em brilho as estrelas mais radiantes’”.[5] É fácil, portanto, identificar Lúcifer à estrela da manhã, o planeta Vênus, que aparece antes do alvorecer.

1.2.

Na literatura bíblica encontramos o mito da queda dos anjos em Gn 6,1-4:

“Quando os homens começaram a ser numerosos sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram belas e tomaram como mulheres todas as que lhes agradavam. Javé disse: ‘meu espírito não se responsabilizará indefinidamente pelo homem, pois ele é carne; não viverá mais que 120 anos’. Ora, naquele tempo (e também depois), quando os filhos de Deus se uniram às filhas dos homens e estas lhes davam filhos, os Nefilim habitavam sobre a terra; estes homens famosos foram os heróis dos tempos antigos”.

Neste texto os filhos dos homens são os anjos de Deus, assim chamados também no livro de Jó (1,6 e 2,1). Na época do pós-exílio, Deus era imaginado a partir da corte dos reis persas, onde o soberano estava cercado por seus cortesões e ministros: do mesmo modo Deus, no céu, estava cercado pelos anjos, mensageiros e executores de suas ordens. Diz o mito que alguns destes anjos se apaixonaram pelas mulheres humanas dando origem aos heróis antigos. Mesmo a queda sendo atribuída a um pecado sexual, a mulher é aqui descrita de uma forma muito negativa: “viram que as filhas dos homens eram belas e tomaram como mulheres todas as que lhes agradaram”. A mulher é objetivada (tomada) mas também culpada por este pecado: por sua beleza, ela seduz e faz cair. A conseqüência disso é o nascimento dos heróis que, como já vimos, podem ser os reis helenistas, ou os semideuses da mitologia grega, de força sobre-humana, gerados pela união de um deus e de um mortal. É evidente aqui a condenação do helenismo que, com sua religião e sobretudo cultura, exercitava uma forte influência no mundo judaico, representando uma séria ameaça de assimilação cultural e religiosa. A condenação era estendida também aos judeus que se deixaram corromper por estas idéias diabólicas. Eram denunciados como apóstatas e acusados “de terem sido seduzidos pelo poder do mal, que chamavam por vários nomes: Satanás, Belzebul, Semihazah, Azazel, Belial, Príncipe das Trevas”[6]. Mas a culpa cai sobre as mulheres, por serem belas e atraentes...

1.3.

O Livro dos Vigilantes que pertence ao 1Enoque, um apócrifo do século II aC, traz outra versão do mesmo mito da queda dos anjos:

“Quando outrora aumentou o número dos filhos dos homens, nasceram-lhes filhas bonitas e amoráveis. Os anjos, filhos do céu, ao verem-nas, desejaram-nas e disseram entre si: ‘Vamos tomar mulheres dentre as filhas dos homens e gerar filhos’. (...) Eram ao todo 200 os que, nos dias de Jared, haviam descido sobre o cume do monte Hermon. Chamaram-no Hermon porque sobre ele juraram e se comprometeram a maldições comuns. Assim se chamavam os seus chefes: Semjaza, o superior de todos eles, Arakiba, Rameel, Kokabiel, Tamiel, Ramiel, Danel, Ezekeel, Barakijal, Azael, Armaros, Batarel, Ananel, Zakiel, Samsapeel, Satarel, Turel, Jomjael. Eram esses os chefes de cada grupo de dez” (1Enoque VI).

O mesmo livro afirma ter sido esta a causa de todos os males que afligem a humanidade:

“Azazel ensinou aos homens a confecção de espadas, facas, escudos e armaduras, abrindo os seus olhos para os metais e para a maneira de trabalhá-los. Vieram depois os braceletes, os adornos diversos, o uso de cosméticos, o embelezamento das pálpebras, toda sorte de pedras preciosas e a arte das tintas. E assim propagava-se uma grande impiedade; eles promoviam a prostituição, conduziam aos excessos e eram corruptos em todos os sentidos. Semjaza ensinava os esconjuros e as poções de feitiços, Armaros a dissipação dos esconjuros, Barakijal a astrologia, Kokabel a ciência das constelações, Ezekeel a observação das nuvens, Arakiel os sinais da terra, Samsiel os sinais do sol e Sariel as fases da lua” (1Enoque VIII).[7]

A arte da guerra e da fabricação do ferro, a sedução pelo embelezamento do corpo e a religião astral e mágica são atribuídas à queda dos anjos, que se tornam demônios, revelando aos homens os segredos de Deus. Lúcifer (“o portador da luz”) se torna Belial, cuja raiz vem de belî’ôr, que significa “sem luz”[8], enquanto o anjo Satanael (anjo mensageiro de Deus) vira, decaído, Satanás (o guardião do Tártaro)[9].

1.4.

Do ponto de vista sociológico, é razoável pensar que a queda dos anjos corresponda à queda de algum príncipe do Oriente Médio, que, do alto de seu esplendor, poder e ambição, por algum motivo desconhecido, caiu em desgraça. No caso de Is 14,12-15 pode ter se tratado de um rei assírio ou babilônico. Ez 28,12-19 aplica as mesmas imagens ao rei de Tiro, afirmando: “Tu eras um modelo de perfeição, cheio de sabedoria, de uma beleza perfeita. Estavas no Éden, Jardim de Deus. Engalanavas-te com toda sorte de pedras preciosas. (...) Desde o dia de tua criação foste íntegro em todos os teus caminhos até o dia em que se achou maldade em ti... Então te lancei do monte de Deus como um profano, e te exterminei, ó querubim protetor, dentre as pedras de fogo”. A comparação dos reis com estrelas não é uma novidade, sendo muito comum no mundo antigo[10].

Subida e queda não são novidades: acontecem toda hora e com todo mundo. O que incomoda é que o motivo de tamanho desastre é atribuído à mulher pelo fato de ela ser bela e atraente. Mas só este motivo não convence: algo mais importante existe por trás.

1.5.

No Novo Testamento, o mito da queda de Lúcifer também é presente. Encontramo-lo em Lucas 10,18, quando Jesus, diante do entusiasmo dos 72 discípulos que voltavam da missão, afirma: “Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago!”[11], palavra que tem clara referência à luz. E em João 12,31, Jesus diz: “É agora o julgamento deste mundo, agora o príncipe deste mundo será lançado fora (ou abaixo, ndr.)”. E Ap 9,1: “Vi então uma estrela que havia caído sobre a terra: foi-lhe entregue a chave do poço do Abismo”; e Ap 12,8s: “Foi derrotado, e não se encontrou mais lugar para eles no céu. Foi expulso o grande Dragão, a antiga serpente, o chamado Diabo ou Satanás, sedutor de toda a terra habitada – foi expulso para a terra, e seus Anjos foram expulsos com ele.”

1.6.

A tradição do mito da queda dos anjos continua presente em textos posteriores. É o caso do Primeiro Livro de Adão e Eva, um apócrifo cristão do século II d.C., em que Deus assim descreve a queda: “Mas o maldoso Satã, que não se manteve em sua primeira condição nem conservou sua fé – nele não havia boa intenção em relação a Mim e, embora Eu o tivesse criado, ainda assim Me desprezou e buscou a divindade, de modo que Eu o atirei do céu para baixo – , ele foi quem fez a árvore parecer agradável aos vossos olhos, até que comestes dela, obedecendo-lhe” (VI). O motivo aqui não é mais a mulher, mas o orgulho de Satanás que quer ser deus.

Todos estes paralelos comprovam a realidade e a importância da tradição e do mito dos anjos que pela queda se tornam demônios. Vamos ver agora mais de perto qual a relação da queda com a mulher.

2. A mulher demonizada

Já vimos como, nos textos mais antigos, a queda dos anjos é motivada pela paixão pela mulher (Gn 6,1 e 1Enoque VI). Mas: por que a mulher? E, quem teria interesse em culpá-la por isso?

2.1. A sexualidade como domínio.

É interessante o texto de Gn 3,1-7, por falar, simbolicamente, da dominação pela sexualidade:

“A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos, que Javé Deus tinha feito. Ela disse à mulher: ‘Então Deus disse: Vós não podeis comer de todas as árvores do jardim’? A mulher respondeu à serpente: ‘Nós podemos comer do fruto das árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Dele não comereis, nele não tocareis, sob pena de morte’. A serpente disse então à mulher: ‘Não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal’. A mulher viu que a árvore era boa ao apetite e formosa à vista, e que essa árvore era desejável para adquirir discernimento. Tomou-lhe do fruto e comeu. Deu-o também a seu marido, que com ela estava, e ele comeu. Então abriram-se os olhos dos dois e perceberam que estavam nus; entrelaçaram folhas de figueira e se cingiram.”

A dúvida que este texto levanta tem a ver com o final: os dois percebem que estavam nus. É a descoberta da sexualidade como reciprocidade, mas também como fator de dominação. A serpente é um símbolo de dominação: seu culto era bastante difuso no norte do Estado de Israel. “Trata-se de cultos de fertilidade. E este tipo de prática religiosa desenvolve simultaneamente uma maior produção e uma maior tributação, um aumento de arrecadação do Estado. Pelo culto da fertilidade, os pobres são incitados a produzir e reproduzir mais e, ao mesmo tempo, a entregar parcelas maiores de seus produtos”[12]. Cobrir as genitálias, as dores de parto, o desejo que leva à dominação, a hostilidade da mulher com a serpente (Gn 3,15-16): tudo isso é confirmação do projeto de dominação que a serpente representa. Ela é astuta (é símbolo também de sabedoria), e pode enganar. Pela sexualidade pode-se enganar, também! E a mulher, não por ser mais fraca, mas por estar mais ligada à geração da vida, é mais exposta que o homem a este engano.

Mais tarde, este fato foi interpretado, injustamente, como fraqueza da mulher. Num texto gnóstico dos séculos II e III dC, o Evangelho de Bartolomeu, o Diabo conta como seduziu Eva: “Então acordei meu filho Salapsan, e me aconselhei com ele sobre a melhor maneira de seduzir o homem, por culpa do qual fui jogado abaixo do céu (não quis adorar o homem recém-criado, ndr). E decidi o seguinte: tomei uma garrafa e recolhi nela todo o suor do meu peito e das minhas axilas, depois a coloquei na nascente das águas de onde brotam os quatro rios. Eva tomou desta água e o desejo carnal tomou posse dela, pois se ela não tivesse bebido desta água, eu não teria conseguido seduzi-la” (IV,58-59). A mulher é relacionada com o desejo sexual, e este, negativamente, como uma manifestação de fraqueza.

O texto A Caverna dos Tesouros[13], do século IV dC, mas certamente mais antigo, com partes dele encontradas também no Talmud, também fala da fraqueza da mulher por ocasião da tentação:

“Porque (Satã, ndr) introduziu-se na serpente e nela se escondeu? Porque ele sabia que o seu aspecto era horripilante. Se Eva tivesse visto a sua aparência, teria dele fugido imediatamente. Quando alguém deseja ensinar o grego a um pássaro, busca um espelho grande e coloca-o entre si e a ave; começa então a falar com ela. Tão logo a ave escuta a sua voz, volta-se para trás, e vê a sua própria imagem no espelho; e fica satisfeita de ver a suposta companheira falando com ela. Presta naturalmente atenção e escuta as palavras daquele que está a falar com ela; observa e apura o ouvido, e assim aprende a falar grego.

Assim fez Satã, introduziu-se na serpente e ficou morando nela; aguardou o momento certo, e quando viu que Eva estava sozinha, chamou-a pelo nome.

Quando esta se voltou, viu nele a sua própria imagem; e ele dirigiu-lhe a palavra e enganou-a com as suas palavras mentirosas, pois a natureza da mulher é fraca. Quando ouviu da sua boca as coisas sobre a árvore, correu imediatamente para ela e colheu o fruto da desobediência, da árvore da transgressão do mandamento, e comeu-o.

Imediatamente apareceram nuas as suas vergonhas, e ela viu a feiúra da sua nudez. Então ela fugiu nua e foi esconder-se sob outra árvore, e cobriu a sua nudez com as folhas dessa árvore. Em seguida ela chamou Adão, e este foi até junto dela; então ofereceu-lhe a mesma fruta, e ele também comeu-a” (IV, 3-9).

Mais uma vez, a serpente está relacionada à sexualidade e à sedução. É uma elaboração cristã, que oferece uma imagem preconceituosa da mulher e da sexualidade. “Comer o fruto” é uma transgressão, uma desobediência que traz como conseqüência a percepção da sua nudez, qualificada como vergonha e feiúra: há uma clara condenação da sexualidade feminina! Isso pode representar uma tentativa de controle da sexualidade da mulher e, pela sexualidade, exercer o domínio sobre ela. É extremamente interessante que a mulher destes textos é muito ativa e protagonista, mas é, por outro lado, definida como fraca, sendo representada na mesma imagem da serpente/Satanás, e acusada de desobediência e transgressão. Não seria uma tentativa de abafar a força e o protagonismo da mulher, na afirmação de que sua sexualidade é negativa, transgressora, vergonhosa e feia? Se isso for verdade, devemos pensar no sistema de dominação patriarcal, cujo símbolo é a serpente, reafirmado e reforçado pelo cristianismo posterior.

Em outro texto, a Vida de Adão e Eva[14], se confirma quanto foi dito acima. Aqui Satanás constringe Eva a um juramento para ela dar o fruto ao Adão. Disse Satanás a Eva:

“‘Mas, aproxima-te da planta e observa sua beleza’. E eu (Eva, ndr) dei uma volta à planta e vi sua beleza. E eu lhe disse: ‘Aos olhos é prazerosa’. Já eu estava com medo de tomar da fruta. E ele me disse: ‘Vem, eu te darei. Segue-me’. E eu abri (a porta) para ele e ele entrou no paraíso, passando na minha frente. Depois de ter andado um pouco, voltou-se e me disse: ‘Mudei minha idéia e não vou permitir que comas!’ Ele disse isso com a finalidade de atrair-me e arruinar-me. E me disse: ‘Jura que irás dar também ao teu marido’. E eu lhe respondi: ‘Não sei por que tipo de juramento posso jurar para ti; de qualquer jeito, o que conheço, te digo: pelo trono de Deus, o querubim e a árvore da vida, eu darei ao meu marido para ele também comer!’ Logo que ele recebeu meu juramento, veio, pulou na árvore e esparramou seu mau veneno na fruta que me deu para comer como era desejo dele. Pois o desejo é a origem de todo pecado. E eu puxei o ramo para baixo, tomei a fruta e comi” (17-19).

Novamente a mulher é culpada pelo pecado do primeiro casal. No mesmo livro Vida de Adão e Eva, existe uma afirmação muito interessante: o Diabo, não tendo conseguido dobrar Adão, vai procurar Eva e consegue o que quer: “Mas, o Mal, não tendo achado oportunidade com Adão, procura Eva no rio Tigre. Em forma de Anjo ficou diante dela que chorava, e suas lágrimas caíam no chão e em sua roupa. E ele lhe disse: ‘Sai para fora da água e pára de chorar, porque Deus ouviu o teu pedido e os anjos e todas as criaturas dele suplicam Deus sobre teu pedido’”. (IX,15) O homem seria portanto mais forte que a mulher: quem escreve deve estar convencido disso, mas sobretudo tem que afirmá-lo, para ter que convencer as mulheres, também.

2.2. A mulher perigosa.

Se à mulher se atribui a culpa e as conseqüências do pecado, ela é perigosa. Lemos em Eclesiástico 25,24: “Foi pela mulher que começou o pecado, por sua culpa todos morremos!”, e seguem todos os conselhos para o homem se proteger da mulher!

Um triste comentário deste texto se encontra nos rolos do Mar Morto: a descrição da Mulher demoníaca:

“Ela é o começo de todos os caminhos de impiedade. Ai! É a ruína de todos os que a herdam, e o desastre de todos os que a possuem. Porque seus caminhos são caminhos de morte, e suas vias sendas de pecado. Suas pistas desencaminham até à iniqüidade, e seus caminhos, à culpa da transgressão. Suas portas são portas da morte, e na entrada de sua casa avança o Xeol. Todos os que vão a ela não voltarão, e todos os que a herdam descerão à fossa. Esconde-se em emboscadas em lugares secretos (...) todos (...). Nas praças da cidade ela vigia, e se instala nas portas do povoado, e não há quem a interrompa em (sua fornicação) contínua. Seus olhos esquadrinham aqui e ali, e ergue insolentemente suas pálpebras, para ver o homem justo e alcançá-lo, e ao homem importante, para fazê-lo tropeçar. Para torcer o caminho dos retos, para separar os eleitos da justiça dos preceitos, para fazer cair no ridículo os que se apóiam nela, para mudar a norma dos que caminham retamente. Para fazer os simples rebelar-se contra Deus, para torcer seus passos fora do caminho da justiça, para levar os (...) ao engano, e a que não perseverem pelas sendas retas. Para extraviar o homem nos caminhos da fossa, e seduzir com lisonjas os filhos do homem” (4Q184, 8-17).

Por que a mulher é descrita deste modo? O pecado aqui condenado é o sexual, mas também o desvio do reto caminho, a rebeldia contra Deus, o abandono das normas da lei, etc. Podemos ler estes textos à luz do Código de Pureza (Lv 11–16) pelo qual a mulher é considerada impura e uma ameaça à pureza dos homens. Entendemos por que a comunidade sectária dos Essênios, preocupada com a rígida observância das normas de pureza legal, está com tanto medo da mulher, até exigir dos seus seguidores, pelo menos por um certo tempo, a lei celibatária[15].

Mas podemos ler os mesmos textos à luz também de livros como Eclesiastes, que assim fala da periculosidade da mulher:

“Descobri que a mulher é mais amarga que a morte, pois ela é uma armadilha, seu coração é uma rede e seus braços, cadeias. Quem agrada a Deus dela escapa, mas o pecador a ela se prende. Eis o que encontro – diz Qoelet – ao examinar coisa por coisa para chegar a uma conclusão: estive pesquisando e nada concluí. Entre mil encontrei apenas um homem, porém, entre todas as mulheres, não encontrei uma sequer. Eis a única conclusão a que cheguei: Deus fez o homem reto, este, porém, procura complicações sem conta” (7,26-29).

Quem escreve é o homem, preocupado com a mulher. Mas, qual a ameaça que esta mulher representa para ele? A mulher de Eclesiastes é a que vê e não fica calada, denuncia com vigor a ideologia do império, seu modo de produção, sua “sabedoria”, sua visão de Deus e do templo, e propõe um projeto alternativo a partir da casa e das necessidades cotidianas da vida[16]. Ela se torna perigosa por desvendar com grande coragem o terrível sistema de opressão e injustiça que dominava a sociedade do tempo, prejudicando sobretudo os mais fracos, entre eles as mulheres. Sua análise crítica desestrutura e deslegitima a ideologia de dominação. Ouvi-la é rejeitar o império e seus métodos de dominação, é assinar embaixo sua própria condenação. Na visão de muitos, sobretudo dos homens, isso não era conveniente, mas muito perigoso: por isso tal mulher era tachada de demoníaca, e devia-se fugir dela!

Na mesma linha, também o NT fala da periculosidade da mulher que vai contra o sistema vigente. A Primeira Carta aos Coríntios traz uma passagem bastante obscura, mas que se clareia à luz dos textos até aqui propostos. Diz o texto: “Sendo assim, a mulher deve trazer sobre a cabeça o sinal da sua dependência, por causa dos anjos” (11,10). Paulo está discutindo sobre a boa ordem nas assembléias e a afirmação central é que a mulher deve estar submissa ao homem: “Quero que saibais que a cabeça de todo homem é Cristo, a cabeça da mulher é o homem, e a cabeça de Cristo é Deus” (11,3). A preocupação de Paulo com a ordem nas assembléias é típica do tempo e reflete a preocupação dos homens com suas casas. Os chamados “códigos domésticos”, presentes em todo o NT (Cl 3,18–4,1; Ef 5,21-6,9; 1Pd 3,1-7), são uma adaptação da ética greco-romana do código doméstico patriarcal, que tinha como figura dominante o paterfamilias. Eles propunham a “aceitação, em nome de Jesus, de um status político-social de desigualdade e exploração”[17]. As metáforas cabeça-corpo e esposo-esposa “se convertem em paradigmas do matrimônio cristão, que reforçam o modelo cultural patriarcal de subordinação na medida em que a relação entre Cristo e a Igreja não é, evidentemente, uma relação entre iguais, por ser a igreja-esposa submetida à sua cabeça, o esposo”[18]. Portanto, a mulher deve estar submetida ao esposo.

Mas, além disso, no texto por nós citado, aparece outro problema: os cabelos da mulher! “Toda mulher que ore ou profetize com a cabeça descoberta desonra a sua cabeça (o homem, ndr); e é o mesmo que ter a cabeça raspada. Se a mulher não se cobre com o véu, mande cortar os cabelos!” Por que os cabelos da mulher representam um problema? Segundo a ética doméstica, “a mulher devia comportar-se sempre com modéstia e moderação, aparecer em público somente com seu marido, ser cuidadosa e precavida em suas palavras e evitar os adornos e o luxo excessivo”[19]. 1Pd afirma a este propósito: “Não consista o vosso adorno em exterioridades, como no trançado dos cabelos, no uso de jóias de ouro...” (3,3).

Mas, o que os cabelos da mulher têm a ver com os anjos (1Cor 11,10)? Dizia um provérbio judaico que se a mulher soltava os cabelos e começava a rolar a cabeça em círculo, os anjos caíam do céu, pois eles são considerados sexualmente libidinosos (alusão a Gn 6,1-5)[20]. Na mentalidade greco-romana, soltar os cabelos é um gesto de profundo significado sensual: a mulher faz isso só diante do marido e na intimidade conjugal. Nas representações do matrimônio, a noiva geralmente tem véu na cabeça, que é tirado somente no quarto nupcial[21]. No mundo oriental, até hoje a mulher se cobre com véu. O mistério está fortemente ligado à sexualidade: na Roma antiga, a libertinagem sexual consistia em violar três proibições: fazer amor antes do cair da noite (durante o dia era permitido só aos recém-casados); fazer amor sem criar um clima de penumbra no quarto (geralmente havia uma lâmpada que brilhava sobre os prazeres); e fazer amor com uma parceira que havia tirado todas as vestes (até as prostitutas, como está testemunhado numa pintura num prostíbulo de Pompéia, namoravam de sutiã). Segundo um ditado popular, “um homem honesto só teria oportunidade de vislumbrar a nudez da amada se a lua passasse na hora certa pela janela aberta”[22]. Portanto, sempre há um véu que esconde e protege a intimidade, criando um ar de mistério. Tirar o véu é revelar o mistério, um gesto de profunda sensualidade à qual só o marido é admitido. Se feito em público, é provocação e desonra do marido. Ter véu é, portanto, sinal de respeito, mas sobretudo de dependência da mulher em relação ao seu marido. Por isso a mulher tem que andar coberta em público!

Complementando este pensamento, o perigo da mulher consiste no fato de a paixão amorosa ser considerada uma verdadeira escravidão para o homem. “A paixão amorosa é ainda mais temível, pois torna o homem livre escravo de uma mulher, e ele a chamará senhora e, como uma serva, lhe estenderá o espelho ou uma sombrinha. (...) Quando um romano se apaixona loucamente, seus amigos e ele mesmo consideravam ou que ele perdera a cabeça por uma mulherzinha devido a um excesso de sensualidade, ou que moralmente caíra em escravidão; e, dócil como bom escravo, nosso enamorado oferecia-se à sua senhora para morrer, se ela assim lhe ordenasse.”[23]

Sendo assim, o homem deve se precaver de tamanho perigo representado pela mulher.

Finalizamos esta parte trazendo outro texto, de Apocalipse, que afirma que a condição de salvação é não ter se manchado com mulheres: 144.000 são os resgatados do Cordeiro. “Estes são os que não se contaminaram com mulheres: são virgens” (14,4). A mulher, aqui, não só contamina o homem, também pode ser a causa de sua perdição, portanto a condição para a salvação é a virgindade. É uma visão extremamente negativa da sexualidade e da mulher!

2.3. A mulher demonizada.

Depois de tudo o que temos visto, o passo para demonizar a mulher é pequeno. No Testamento de Jó[24], a mulher é colocada tão próxima do demônio que Satanás sai por detrás dela: “Virando-me (Jó, ndr), vi então Satanás. Lhe disse: ‘Vem aqui para frente e pára de te esconder. Por acaso, o leão mostra sua força na gaiola? Voa um pássaro quando está num cesto? Não é inútil isso? Para ti estou falando: sai para combater-me!’ Saiu, portanto, de trás de minha mulher” (27,1-7).

No NT, existem alguns textos que expressam esta mesma idéia:

– 1Tm 3,11: “As mulheres devem ser respeitáveis, não maldizentes (mé diabólous = não acusar ou caluniar), sóbrias, fiéis em todas as coisas”. Aplica-se aqui à mulher o mesmo verbo que está na raiz da palavra “diabo”. Isso não é por acaso. Já vimos como, segundo o padrão de comportamento doméstico, a mulher devia ficar calada (1Tm 5,13-14; Tt 2,8): “Da mesma maneira, vós, mulheres, sujeitai-vos aos vossos maridos, para que, ainda quando alguns não creiam na Palavra, sejam conquistados sem palavras, pelo comportamento de suas mulheres” (1Pd 3,1). Por isso, não só é inconveniente à mulher falar em público, quanto, ao falar mal dos outros, é duramente condenada. Assim é descrita a jovem viúva na mesma carta 1Tm: “Além disso, aprendem a viver ociosas, correndo de casa em casa; não somente elas são desocupadas, como também bisbilhoteiras, indiscretas, falando o que não devem” (1Tm 5,13); e mais para frente: “Porque já existem algumas que se desviaram, seguindo a Satanás” (5,15). Além da submissão ao homem (ficar calada), há aqui o preconceito em relação à fala da mulher, considerada inútil, sem valor, danosa, portanto demoníaca.

– Ap 2,20-24: O autor do Apocalipse reprova a Igreja de Tiatira por causa da profetisa Jezabel e de sua doutrina. Se no século I d.C. era conveniente que a mulher ficasse calada, é bastante fácil entender como uma mulher, que se declara profetisa, seja motivo de conflito e por isso condenada. “Pois deixas em paz Jezabel, esta mulher que se afirma profetisa: ela ensina e seduz meus servos a se prostituírem, comendo das carnes sacrificadas aos ídolos. Dei-lhe um prazo para que se converta; ela, porém, não quer se converter da sua prostituição. Eis que vou lançá-la num leito, e os que com ela cometem adultério, numa grande tribulação, a menos que se convertam de sua conduta. (...) Quanto a vós, (...) os que não conhecem ‘as profundezas de Satanás...”. A comparação simbólica com a rainha Jezabel de 2Rs 9,22 é muito pesada, por aquilo que ela representava no imaginário popular. O ensinamento da profetisa Jezabel é condenado como obra de Satanás, e sua ação, que se realiza, segundo o autor, sobretudo pela sedução, seria obra típica do demônio. Com toda certeza, “a influência desta mulher profetisa parece ter sido bastante forte, a ponto de contrastar a de João, que não se atribui o título de profeta”[25]. Tratar-se-ia, portanto, de um conflito de poder: João sentiu-se ameaçado pela pregação desta mulher, que ele descreve como um demônio e compara à rainha Jezabel.

– O processo de demonização da mulher aparece também em Ap 9,8, no âmbito do combate escatológico: os gafanhotos “tinham cabelos semelhantes ao cabelo das mulheres”. Os gafanhotos, que representam aqui as hostes de Satanás, têm cabelos de mulher. Na Bíblia hebraica, cabelo comprido é sinônimo de força e de vitalidade: lembramos Sansão cuja força está nas sete tranças de sua cabeleira (Jz 16,13.19); Absalão, que cortava os cabelos só uma vez por ano (2Sm 14,25-26); os nazireus, que não podiam cortar seus cabelos e que parecem ter sido combatentes da guerra santa. Cabelos, como dentes, são símbolos de força![26] Parece que os soldados partos tinham longos cabelos. Mesmo que os gafanhotos da visão de Ap 9 representem os impérios invasores, destaca-se aqui a referência explícita aos cabelos das mulheres. Com certeza no imaginário do autor cabelos longos, força destrutiva, mulher e Satanás estavam ligados. Não é por acaso que na literatura apocalíptica, geralmente, quase que não se fala da mulher, e quando ela aparece é quase sempre descrita negativamente.

2.4. O autor do Apocalipse também se serve da imagem da mulher para descrever Roma e seus abusos: “Ele me transportou então, em espírito, ao deserto, onde vi uma mulher sentada sobre uma Besta escarlate cheia de títulos blasfemos, com sete cabeças e dez chifres. A mulher estava vestida com púrpura e escarlate, adornada de ouro, pedras preciosas e pérolas; e tinha na mão um cálice de ouro cheio de abominações; são as impurezas da sua prostituição. Sobre a sua fronte estava escrito um nome, um mistério: ‘Babilônia, a Grande, a mãe das prostitutas e das abominações da terra’. Vi então que a mulher estava embriagada com o sangue dos santos e com o sangue das testemunhas de Jesus” (Ap 17,3-6). A Besta (= Roma) está intimamente ligada ao Dragão (o Diabo) (13,2-3), a tal ponto que ela, definida também como Babilônia, “tornou-se morada de demônios, abrigo de todo tipo de espíritos impuros, abrigo de todo tipo de aves impuras e repelentes” (18,2).

Mais uma vez a mulher é usada como símbolo de sedução e de todo tipo de abominação: por isso ela é relacionada ao demônio!

3. Outras histórias de mulheres...

3.1.

Os textos judaico-cristãos, até aqui lidos, apresentam a marginalização e opressão da mulher justificada pelo preconceito social e religioso. Trata-se de uma verdadeira construção da sociedade em termos patriarcais, na projeção do poder masculino sobre o feminino.

Temos bastantes elementos para dizer que, sobretudo a partir do pós-exílio, a mulher deve ter tido uma presença bastante ativa na sociedade judaica, e que isso pode ter incomodado bastante os homens. A Bíblia testemunha uma forte presença feminina na literatura deste período, na maioria das vezes em forma de resistência contra as leis judaicas preconceituosas e excludentes, de forte matriz machista. Os livros de Rute, Ester, Cântico dos Cânticos, Qoelet, Judite, figuras como a Mãe dos sete irmãos (2Mc 7), e Susana (Dn 13) nos lembram este grito de libertação contra o antigo e sempre atual preconceito dos homens em relação às mulheres.

A literatura grega, com muita argúcia, fala do processo que leva à “demonização” da mulher em dois mitos, o de Helena e o de Medéia, desvendando com bastante clareza a responsabilidade do sistema patriarcal, pelo qual o homem é quem dita as leis às quais a mulher tem que se submeter.

3.2.

A história de Helena[27], na epopéia homérica, apresenta uma lenda bastante complexa, mas significativa para nosso estudo. Helena, a mulher mais bela do mundo, dada como esposa a Menelau, rei de Esparta, foi raptada por Páris, ao qual tinha sido prometida por Afrodite, e levada à cidade de Tróia. A história diz que não foi bem um rapto, mas uma fuga de dois amantes apaixonados, tanto é que Helena leva consigo tesouros e escravas. Este fato deu origem à guerra de Tróia, retratada por Homero na Ilíada e Odisséia. No final da história, com a queda de Tróia, Menelau e os gregos reencontram Helena, mas a primeira reação é de matá-la. Desistem por causa de sua beleza. Assim ela é levada de volta a Esparta por Menelau.

Helena é sempre descrita de uma forma muito negativa. Na obra Ifigênia em Táuride, de Eurípides, ela é considerada a responsável pela ruína de Ifigênia (356), e em 521-526 e em Rhesus (260) ela aparece como sinônimo de kakós (= mal, maligno). Em outra obra de Eurípides, As Troianas, Helena é associada ao termo porné (= prostituta) mesmo que não haja aplicação direta da palavra grega. Na sua fala, Menelau não quer dar-lhe o nome de esposa (869-871), e quer matá-la (875-879; 901-902), a fim de ensinar a castidade as demais mulheres (1055-1059).

Esta excessiva preocupação dos homens com a castidade feminina talvez seja o verdadeiro nó da história!

3.3.

Outro mito grego tem a ver com a figura de Medéia, considerada o protótipo da feiticeira. Lembrada por sua grande humanidade, ela se opõe ao pai que matava os estrangeiros que chegavam ao país; ajuda os Argonautas na busca do Velo de ouro, para casar depois com Jasão, com quem foge, mas levando seu irmão como refém, depois por ela matado, para se proteger do pai. Este crime e sua natureza vingativa lhe trazem inúmeras perseguições e sofrimentos, sendo banida de todos os lugares por onde ia.

Medéia é uma mulher muito ativa, mas também violenta, que domina as práticas mágicas, e que rejeita as leis paternas pelas quais ela deve se sujeitar ao pai, ao marido, ao homem em geral. Medéia representa a mulher que foge dos padrões de comportamento feminino do tempo.

Talvez por isso mesmo ela foi descrita como bárbara, vingativa e até cruel homicida de seu irmão e de seus filhos[28].

3.4.

Helena e Medéia: elas, como muitas outras mulheres da Bíblia e do mundo inteiro, representam a afirmação da mulher que quer seguir seu próprio destino, que luta por relações diferentes, para seguir o verdadeiro amor, para o respeito da vida etc., mesmo tendo que violar as leis paternas e machistas. Isso provoca a reação violenta dos homens, expressão paradoxal da fragilidade do “sexo forte” e de seu método de dominação, cujo objetivo é a defesa de privilégios e poderes. Todas estas mulheres acabam mal, destruindo a si mesmas e aos seus familiares, por mão de um sistema que não aceita questionamentos ou práticas alternativas. Um dos métodos é tachar “o outro”, “o diferente” de “demônio”, “bruxa”, e assim por diante... Ir contra as leis estabelecidas, é ir contra a si mesmo!

4. Mudança de paradigmas

Os textos que temos lido testemunham como a tradição judaico-cristã tem-sese caracterizado por uma visão negativa da mulher, do corpo, do sexo. Tradicionalmente, eles são vistos como pecado e, quando melhor, como instrumentos de procriação. Nesta visão, o sexo não possibilita relações justas entre mulheres e homens; mas se traduz na imposição de relações sociais e sexuais injustas, em práticas de violência contra as mulheres, e também contra os homens. A conseqüência deste processo é que as mulheres passam a depender dos homens, perdem suas identidades de pessoas, são consideradas objetos a ser tomados quando os homens quiserem.

Este processo leva à imposição de um esquema piramidal de poder, com a presença forte de um senhor ou de classes que dominam e regulam as relações, impondo e padronizando comportamentos. Na relação de gênero, isso se expressa no patriarcalismo e na afirmação da superiorioridade do homem em relação à mulher. A posse e o domínio do simbólico, a construção e manipulação do imaginário coletivo são de fundamental importância na manutenção e legitimação do poder, criando paradigmas que atuam na organização da sociedade. As dualidades: rico/pobre, capitalista/proletário, masculino/feminino, forte/fraco, normal/patológico, branco/negro, verdade/mentira, real/ilusório, ativo/passivo, heterossexual/homossexual, certo/errado, belo/feio, e outros, não passam de produto e expressão desta construção simbólica. A partir disso, desenvolvem-se dispositivos de controle, repressão, sistemas normativos, direitos e deveres, na tentativa de padronizar comportamentos e atitudes, com a conseqüência de criar novas formas de exclusão e marginalização. Assim, paradigmas seculares de dominação são continuamente re-criados e re-atualizados por grupos sociais, na busca de sua legitimação[29].

Vários tipos de instrumentos são usados para veicular e impor símbolos e imagens: desenhos animados, videogames, revistas em quadrinhos, filmes, novelas, mitos, etc. Tudo isso faz parte do instrumental necessário para o poder se manter, pois as instituições não se reduzem ao simbólico, mas elas só podem existir no simbólico[30].

Temáticas como a do maléfico complô ou da conspiração sagrada, do paraíso perdido ou da mítica comunidade perfeita de “paz e igualdade” dos messianismos revolucionários, assim como a construção da imagem da mulher pérfida, da bruxa infratora das normas constituídas, ou da imagem do “judeu diferente” ou do “demônio”, tudo isso é afirmação de certos modelos culturais e sociais, com conseqüente condenação de outros. O poder se mantém através disso!

O caminho que fizemos até aqui nos permite identificar, na literatura bíblica, judaica e cristã, um esquema de poder patriarcal, definido por Elisabeth Schüssler Fiorenza como Kiriarkado[31]. Segundo este esquema de dominação, a sociedade necessita de um Kírios, um senhor, que administre e defina as relações sociais e de poder. Isso se traduz, na prática, nas imposições de relações de poder, em nível de classe, gênero, raça e etnia, como também na definição de comportamentos e na inibição de outros. A sexualidade e o corpo da mulher, dentro deste esquema, representam o campo de dominação do masculino acima do feminino. Opor-se a este padrão significa ser tachada de prostituta, seduzível e sedutora, dominada pelo desejo, fraca, perigosa, demoníaca, responsável pelos males que afligem a humanidade, e até da morte.

Não se trata simplesmente de preconceito sexual e cultural, como muitos, ingênua ou pretensiosamente, afirmam. É verdadeira e real imposição de um projeto sociopolítico incapaz de enxergar relações que não sejam de opressão, injustiça e exclusão.

Mudar de paradigmas é, portanto, necessário e urgente. Mas a partir de um diálogo teológico e político, que resgate o valor dos corpos, das mulheres e da sexualidade tanto feminina como masculina, na vontade de reler e reinterpretar as relações em conjunto, mulher e homem. Para superar os erros do passado e inaugurar uma nova fase, onde o bem, a felicidade e a realização do outro, e de ambos, física, psíquica, espiritual, seja prioritária e motivadora de novas relações coletivas de justiça.

“Como é que é sentir o calor?”: não se trata somente, portanto, de uma questão afetiva e sexual, mas de uma maneira nova de ser, mulher e homem, para que não seja mais necessário pensar em anjos a-sexuados e/ou... tentados pelas mulheres, mas para que se possa viver juntos a beleza, a intensidade e a plenitude da relação e da reciprocidade, sem medo um do outro.

Bibliografia

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Craveri, Marcello (org.). I Vangeli Apocrifi. Torino, Einaudi Tascabili, 1997, 603 p.

Diez Macho, Alejandro. Apócrifos del Antiguo Testamento. Vol. 5. Madrid, Ed. Cristiandad, 1987.

Hennecke, Edgar. New Testament Apocrypha. Vol. 1, Trowbridge Wiltshire, SCM Press LTD, 1993, 530 p.

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Josefo, Flávio. Antiguidades judías, Buenos Aires, Acervo Cultural Editores, 1961. 1130 p. (Obras Completas de Flávio Josefo).

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Martínez, Florentino García. Textos de Qumran. Petrópolis, Ed. Vozes, 1995.

Schneemelcher, Wilhelm. New Testament Apocrypha. Philadelphia, Westminster Press, 1991, 851 p.

Tricca, Maria Helena de Oliveira (org.). Apócrifos. Os Proscritos da Bíblia. 4vols. São Paulo, Ed. Mercuryo, 1995.

Notas

[1] O presente artigo é fruto de conversas e debates com os amigos: Profª. Maria Cristina Ventura Campusano da UMESP e o Prof. André Chevitarrese da UFRJ, como também da valiosa colaboração de Maria do Carmo do CEBI – GO. A todos eles, meu sincero agradecimento.

[2] PAGELS, Elaine. As origens de satanás – Um estudo sobre o poder que as forças irracionais exercem na sociedade moderna. Rio de Janeiro: Ed. Ediouro, 1996, p. 78-79.

[3] No hebraico Helel ben Shahar, no grego: eosphorus significa Lúcifer, quer dizer: “o portador da luz”, posteriormente traduzido para o latim como “estrela da manhã”.

[4] Is 14,12, nota d, da Bíblia TEB, São Paulo: Ed. Loyola, 1994. p. 628.

[5] LINK, O diabo – A máscara sem rosto. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p. 28.

[6] PAGELS, Elaine. As origens de satanás..., p. 75.

[7] O mesmo mito da queda dos anjos está presente em: 1Enoque 64,1-2; 69,4-5; 86,1-6; 106,13-17; 2Enoque 7; Jubileus 4,15.22; 5,1-8; 10,4-5; Testamento de Rubem 5,6-7; Testamento de Neftali 3,5; Documento de Damasco 2,17-3,1; 2Baruque 56,12-15; Sabedoria 2,23-24; Judas 6; 2Pd 2,4.

[8] Belial parece ter sido uma antiga divindade fenício-babilonense, considerada inimiga de Javé pelos hebreus e, portanto, má. Nos escritos de Qumrã, Belial aparece como o deus do mal por excelência (em CRAVERI, Marcello [curador]. I Vangeli apocrifi. Torino: Einaudi, 1990, p. 426, n. 1).

[9] Evangelho de Bartolomeu IV,25.

[10] sua estrela, vista pelos Magos: Mt 2,2.

[11] Segundo Fitzmyer, os v. 17-20 do cap. 10 de Lucas são de difícil reconstrução. O trabalho redacional do autor tenta costurar versículos de diferentes proveniências e cujo sentido original foi provavelmente perdido. O que nos interessa é que aparece aqui o verbo típico da visão extática: etheôroun, “ver”: Jesus tem aqui a visão da queda de Satanás do céu (em FITZMYER, Joseph A. The Gospel According to Luke X-XXIV. New York: Doubleday, 1983, p. 861-862 [The Anchor Bible 28A).

[12] SCHWANTES, Milton. Projetos de esperança – Meditações sobre Gênesis 1–11. Petrópolis: Vozes/CEDI/Sinodal, 1989, p. 82-83.

[13] Diz a tradição que a Caverna dos Tesouros, situada na Montanha Sagrada aos limites do Paraíso (existe algo parecido na mitologia egípcia), era o local onde se abrigaram Adão e Eva depois da expulsão do paraíso, para se proteger do mundo inóspito. Ali eles foram sepultados.

[14] É um apócrifo cristão que trata da experiência do primeiro casal depois da expulsão do Jardim de Éden. Foi composto talvez no século III dC.

[15] Ver a este propósito: Josefo, Guerra Judaica, II, 120.

[16] Segundo a interpretação de Ana Maria Rizzante e Sandro Galazzi, Qoelet é esta mulher, presente na sinagoga judaica e que, no lugar de ficar calada, fala, criticando o sistema opressor do tempo (em RIBLA 14 (1993), Petrópolis: Vozes/Sinodal, p. 50-72).

[17] FIORENZA, Elisabeth Schüssler. En memoria de ella. Bilbao: Desclée de Brouwer, 1989. p. 306.

[18] Ibidem, p. 325

[19] Ibidem, p. 313.

[20] CONZELMANN, Hans. 1Corinthians – A Commentary on the First Epistle to the Corinthians. Philadelphia: Fortress Press, 1988, p. 189.

[21] Interessantes, a este respeito, as representações de casamento em vasos da época, em: PANTEL, Pauline Schmitt (dir.). História das mulheres no Ocidente, vol. 1, A Antigüidade. São Paulo: Ed. Afrontamento, 1990, p. 210-219.

[22] VEYNE, Paul (org.). História da Vida Privada. I. Do Império Romano ao Ano Mil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 197.

[23] Ibidem, p. 198.

[24] É um escrito judaico de consolação na perseguição, proveniente da diáspora (talvez do Egito), e datado no século I d.C. (75-100). O autor seria Nero, irmão de Jó.

[25] SCHÜSSLER, Elizabeth Fiorenza, En memoria de ella. Bilbao: Desclée de Brouwer, 1989, p. 358.

[26] MASSYNGBERDE, Ford J. Revelation. New York: Doubleday, 1975, p. 151 (The Anchor Bible, 38).

[27] Ver a este respeito, a voz Helena em: GRIMAL, Pierre. Dicionário da Mitologia Grega e Romana. Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 1997, p. 197-200.

[28] Voz Medéia em: GRIMAL, Pierre. Dicionário da Mitologia Grega e Romana..., p. 292-294.

[29] SWAIN, Tânia Navarro (org.). História no plural. Brasília: Ed. UnB, 1993.

[30] Ver a este respeito: DURAND, Gilberto. Exploração do imaginário, em PITTA, Danielle Perin (org.). O imaginário e a simbologia de passagem. Recife: Massangana, 1984; BACZKO, Bronislaw. O imaginário social, em Enciclopédia Einaudi, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1985.

[31] FIORENZA, Elisabeth Schüssler. But she Said. Boston: Beacon Press, 1992, p. 5-10.

Fonte: Instituto Teológico Franciscano - Revista Estudos Bíblicos nº72, p.73

quinta-feira, 6 de março de 2008

Teoria de que Moisés tomou chá do Daime cria polêmica em Israel

O especialista em psicologia cognitiva Benny Shanon, da Universidade Hebraica de Jerusalém, afirma que Moisés, considerado o principal profeta da religião judaica, pode ter ingerido uma substância semelhante à ayhuasca, conhecida no Brasil como chá do Daime.

A afirmação foi publicada nesta semana em um artigo na revista de filosofia Time and Mind e causou polêmica em Israel.

A idéia de que Moisés poderia estar sob a influência de "drogas" provocou a indignação de líderes religiosos em Israel e, segundo os críticos, a teoria de Shanon "é uma ofensa ao maior profeta do povo judeu".

O rabino Yuval Sherlo disse à Radio Pública de Israel que "a teoria é absurda e nem merece uma resposta séria". De acordo com o rabino, a publicação da teoria de Shanon "põe em dúvida a seriedade tanto da ciência como da mídia".

Uma das obras de Benny Shanon, o livro Antipodes of the Mind, que analisa a relação entre substâncias psicotrópicas e a fenomenologia da consciência humana, foi publicado em 2003 pela Oxford University Press, uma das editoras acadêmicas mais renomadas do mundo.

Em entrevista à BBC Brasil, Shanon contou que começou a pesquisar a relação entre os efeitos da planta e a criação das grandes religiões, quando ele próprio experimentou o chá do Daime no Brasil.

De acordo com o pesquisador, a criação dos Dez Mandamentos poderia ser conseqüência de uma experiência com substâncias psicotrópicas, que alteram o estado cognitivo do indivíduo, e se encontram em plantas existentes inclusive no deserto do Sinai.

Foi no deserto do Sinai que, segundo a tradição, Moisés teria recebido as Tábuas da Lei, consideradas a base da civilização judaico-cristã.

Brasil

"Tudo começou quando estive no Brasil em 1991, a convite da Unicamp, para dar uma palestra sobre linguagem e pensamento", afirma Shanon.

"Depois da palestra, viajei pelo Brasil por dois meses e experimentei pela primeira vez o chá do Daime em Rio Branco, no Acre."

"Também participei de rituais religiosos e espirituais do Santo Daime, apesar do fato de que não sou adepto de nenhuma religião", acrescenta o pesquisador.

"Tinha 42 anos naquela época, e a experiência mudou a minha visão do mundo", afirma. Comecei, então, a pesquisar os efeitos dessa planta sob o aspecto da minha área, a psicologia cognitiva."

"Muitas pesquisas já foram feitas sobre os efeitos da planta, mas principalmente na área da antropologia, e não da psicologia", diz Shanon.

"Naquela época, os antropólogos geralmente escreviam apenas por meio da observação, mas sem experimentar, eles próprios, a substância", avalia o professor titular da Universidade Hebraica. "Era como escrever um livro sobre música sem ouvir música."

Desde 1991, Shanon diz ter visitado o Brasil dezenas de vezes e afirma que já ingeriu o chá do Daime mais de 100 vezes.

Experiência

"A substância abriu para mim uma dimensão do sagrado que nunca tinha vivenciado antes, tive visões muito fortes, inclusive de cantar junto com milhares de anjos", descreve o pesquisador israelense. "A experiência foi tão forte que me levou a querer integrá-la no estudo da fenomenologia da consciência humana."

"Estudei, então, todos os contextos culturais e religiosos ligados à ingestão da ayhuasca", conta Shanon.

"Cheguei à conclusão de que, nas religiões mais antigas, como a zoroastra e a hinduísta, também houve rituais ligados à ingestão de substâncias que levam a alterações cognitivas, nos quais os participantes 'viram Deus' ou 'viram vozes'."

O professor de psicologia cognitiva cita o fenômeno da sinestesia, em que se cria uma relação entre planos sensoriais diferentes e o indivíduo se encontra em um estado neurológico que possibilita que ele "veja sons".

"Na Bíblia, há frases como 'o povo viu as vozes', que me chamaram a atenção, pois descrevem exatamente a sinestesia que ocorre com a ingestão da ayhuasca", afirma Shanon. "Encontrei frases semelhantes em textos e cânticos de outras religiões."

Críticas

O pesquisador, que já recebeu críticas negativas de religiosos em Israel, diz que sua tese não constitui um desrespeito à religião, mas sim "uma tentativa de entender momentos tão importantes para toda a humanidade".

"Não acredito na visão ontológica, segundo a qual a história de Moisés e os Dez Mandamentos teria sido um evento cósmico extraordinário", afirma. "Mas também não acho que um momento tão importante possa ser considerado como uma simples lenda."

"A minha tese, segundo a qual as substâncias ingeridas por Moisés teriam gerado uma abertura cognitiva que possibilitou um contato com o sagrado, pode ser uma explicação razoável e também respeitosa de como a religião judaica nasceu", diz Shanon.

"Mas não é qualquer pessoa que ao ingerir a substância é capaz de criar os Dez Mandamentos, é necessário ser um Moisés para isso", acrescenta. "Ao meu ver, a ayhuasca libera uma criatividade interna, como a arte."

Fonte: BBC Brasil

Bill Moyers Interviews Karen Armstrong


BILL MOYERS: She was a spark plug in my PBS series on Genesis, her books are best sellers, "The History of God", "The Battle for God", "Jerusalem". She's written a biography of Buddha, and a short history of Islam. Soon we'll have her new memoir of her life after the convent where she spent seven years as a nun. Joining me now is one of the world's foremost students of religion, Karen Armstrong. Thank you.

KAREN ARMSTRONG: Thank you Bill.

BILL MOYERS: If you were God, would you do away with religion?

ARMSTRONG: Well, there are some forms of religion that must make God weep. There are some forms of religion that are bad, just as there's bad cooking or bad art or bad sex, you have bad religion too. Religion that has concentrated on egotism, that's concentrated on belligerence rather than compassion.

MOYERS: And so much of religion has been the experience of atrocity.

ARMSTRONG: But then you have to remember that this is what human beings do. Secularism has shown that it can be just as murderous, just as lethal, uh, as religion. Now I think one of the reasons why religion developed in the way that it did over the centuries was precisely to curb this murderous bent that we have as human beings.

MOYERS: You get September 11th ... you get the Crusades, you get ... do you remember the young Orthodox Jew who assassinated Itzhak Rabin? I can see him right now, looking into the camera, and he says, everything I did, I did for ...

ARMSTRONG: For God.

MOYERS: ... for the glory of God.

ARMSTRONG: Yes. Yes. Well, this is ... this is bad religion. Compassion is not a popular virtue. Very often when I talk to religious people, and mention how important it is that compassion is the key, that it's the sine-qua-non of religion, people look kind of balked, and stubborn sometimes, as much to say, what's the point of having religion if you can't disapprove of other people? And sometimes we use religion just to back up these unworthy hatreds, because we're frightened too.

MOYERS: Fear?

ARMSTRONG: There's great fear. We fear that if we're not in control, other people will cut us down to size, and so we hit out first.

From the beginning, violence was associated with religion, but the advanced religions, and I'm talking about Buddhism, Hinduism, monotheism, the Hebrew prophets, they insisted that you must transcend this violence, you must not give in to this violence, but you must learn to recognize that every single other human being is sacred.

MOYERS: That's what we're taught when ... growing up, you know, Jesus loves the little children. All the children of the world, red and yellow, black and white, they are precious in his sight. Jesus loves the little children of the world. But as soon as they grow up, they go for each other's throats.

ARMSTRONG: Yes. And a lot of this talk about love and compassion can be on the rather sloppy level. Or rather easy, facile level, where compassion is hard. It's nothing to do with feeling. It's about feeling with others. Learning to put yourself in the position of another person. There were years in my life when I was eaten up with misery and anger, I was sick of religion but when I got to understand what religion was really about, uh, not about dogmas, not about propping up the church, not about converting other people to your particular wavelength, but about getting rid of ego and approaching others in reverence, I became much happier.

But you have to go a long journey, a journey that takes you away from selfishness, from greed. And that leads you to value the sacredness in all others. I'm thinking of Abraham in Genesis — there's a wonderful story, where Abraham is sitting outside his tent and it's the hottest part of a Middle Eastern afternoon, and he sees three strangers on the horizon.

And now most of us would never dream of bringing a total stranger from the streets into our own homes, strangers are potentially lethal people. But that's exactly what Abraham does. He runs out, he bows down before them, as though they were kings, and brings them into his encampment, and makes his wife prepare an elaborate meal. And in the course of the ensuing conversation, it transpires quite naturally that one of those strangers is Abraham's God, that the act of practical compassion led to a divine encounter.

In Hebrew, the word for holy, kadosh, means separate, other. And sometimes it's the very otherness of a stranger, someone who doesn't belong to our ethnic or ideological or religious group, an otherness that can repel us initially, but which can jerk us out of our habitual selfishness, and give us intonations of that sacred otherness, which is God.

MOYERS: What happened in your case? You said that you came to this insight that you weren't a good person.

ARMSTRONG: After I left the convent, for 15 years I was worn out with religion, I wanted nothing whatever to do with it. I felt disgusted with it. If I saw someone reading a religious book on a train, I'd think, how awful.

I had no job at all, and I was asked to do a television series on Saint Paul, and I was working with an Israeli film company ...I went to Jerusalem. And there, very importantly, I encountered Judaism and Islam. And up until that point, my religious life had been very parochial, been very Catholic, and I'd never thought of Judaism as anything but the kind of prelude to Christianity, and I'd never thought about Islam at all. But in Jerusalem, where you see these three religions jostling together, often very uneasily, even violently, you become aware of the profound connections between them and it was the study of these other faiths that led me back to an appreciation of what religion was trying to do.

MOYERS: What appealed to you about Islam? Because in the context of 9/11 ... there's so much talk about Islam as a violent religion. We saw those suicide bombers, heard those suicide bombers invoking the name of Allah, saying they were doing this in the name of ... of God, and the name of their own faith. So you're saying, there are good things about this religion, that helped you rediscover your own spiritual journey.

ARMSTRONG: Ironically, the first thing that appealed to me about Islam was its pluralism. The fact that the Koran praises all the great prophets of the past. That Mohammed didn't believe he had come to found a new religion to which everybody had to convert, but he was just the prophet sent to the Arabs, who hadn't had a prophet before, and left out of the divine plan. There's a story where Mohammed makes a sacred flight from Mecca to Jerusalem, to the Temple Mount. And there he is greeted by all the great prophets of the past. And he ascends to the divine throne, speaking to the prophets like Jesus and Aaron, Moses, he takes advice from Moses, and finally encounters Abraham at the threshold of the divine sphere. This story of the flight of Mohammed and the ascent to the divine throne is the paradigm, the archetype of Muslim spirituality. It reflects the ascent that every Muslim must make to God and the Sufis, when I started talking ...

MOYERS: The mystical sect.

ARMSTRONG: The mystical branch of Islam, the Sufi movement, insisted that when you had encountered God, you were neither a Jew, a Christian, a Muslim. You were at home equally in a synagogue, a mosque, a temple or a church, because all rightly guided religion comes from God, and a man of God, once he's glimpsed the divine, has left these man-made distinctions behind.

MOYERS: How do you explain the hatred in the world of Islam toward the west, toward America in particular?

ARMSTRONG: Well, uh, all fundamentalist movements, that's whether they're Jewish, Christian or Muslim or Buddhist, all begin as an intra-religious debate, an intra-religious struggle.

Then, at a later stage, fundamentalists sometimes reach out towards a foreign foe and hence the Muslim feeling that American foreign policy is ... is holding them back.

MOYERS: Why do they think American foreign policy is the root of their ills?

ARMSTRONG: This was very much an Arab feeling. They feel that they are fighting a holy war ... that America fights Muslims, has killed Muslims, in Iraq, that America is still continuing to bomb Iraq ...

MOYERS: And yet in Bosnia, we went to the defense of Muslims there.

ARMSTRONG: Exactly, exactly. There's a running sore of the Arab-Israeli conflict, which has been festering for so long, and has become symbolic of everything that Muslims feel that is wrong with the modern world. Just as here, in the United States, fundamentalists have symbolic issues, abortion, uh, and evolution, which they can't see rationally, but they've become symbolic of ... of the evils of modernity. The state of Israel, which meant that Palestinians lost their home, has become for Muslims a symbol of their impotence in the modern world.

It wasn't always like this. At the beginning of the twentieth century, every single leading Muslim intellectual was in love with the west, and wanted their countries to look just like Britain and France. Some of them even said that the Europeans, they didn't know about America yet, that the Europeans, uh, were better Muslims than they themselves, because their modern society had enabled them to create a fairer and more just distribution of wealth, than was possible in their pre-modern climates, and that accorded more perfectly with the vision of the Quran.

Then there was the experience of colonialism under Britain and France, experiences like Suez, the Iranian revolution, Israel, and some people, not all by any means, uh, some people have allowed this ... these series of disasters to corrode into hatred. Islam is a religion of success. Unlike Christianity, which has as its main image, in the west at least, a man dying in a devastating, disgraceful, helpless death.

MOYERS: On a cross, crucified.

ARMSTRONG: The cross, crucified, and that turned into victory. Mohammed was not an apparent failure. He was a dazzling success, politically as well as spiritually, and Islam went from strength to strength to strength. But against the West, it's been able to make no headway, and this is as disturbing for Muslims as the discoveries of Darwin have been to some Christians. The Quran says that if you live according to the Quranic ideal, implementing justice in your society, then your society will prosper, because this is the way human beings are supposed to live. But whatever they do, they cannot seem to get Muslim history back on track, and this has led some, and only a minority, it must be said, to desperate conclusions.

MOYERS: You said once that you felt the fundamentalists were trying to restore God to the world.

ARMSTRONG: Yes, all fundamentalists feel that in a secular society, God has been relegated to the margin, to the periphery and they are all in different ways seeking to drag him out of that peripheral position, back to center stage.

MOYERS: They drag God back into the political world by denying democratic aspirations.

ARMSTRONG: Yes.

MOYERS: I mean, do you think democracy and fundamentalism are, uh, can co-exist?

ARMSTRONG:Fundamentalists are not friends of democracy. And that includes your fundamentalists in the United States.

Every fundamentalist movement I've studied in Judaism, Christianity and Islam is convinced at some gut, visceral level that secular liberal society wants to wipe out religion. Wants to wipe them out. Jewish fundamentalism, for example, came into being ... came really to the fore in a new way after the Nazi Holocaust ...

And some fundamentalists in the Muslim world have experienced secularism, not as we have, as a liberating process, but so rapid and accelerated that it's often been an assault.The Shahs of Iran used to have their soldiers go out with their bayonets out, taking the womens' veils off, and ripping them to pieces in front of them, because they wanted their society to look modern, never mind the fact that the vast majority of the people had not had a western education, and didn't know what was going on. On one occasion in 1935, Shah Reza Pahlevi, gave his soldiers orders to shoot at hundreds of unarmed demonstrators in one of the holiest shrines of Iran, who were peacefully protesting against western dress, uh, obligatory western dress, and hundreds of Iranians died that day. Now, in a climate like this, secularism is not experienced as something benign, it's experienced as a deadly assault.

MOYERS: When fundamentalism experienced its rebirth in this country, a quarter of a century ago, political rebirth, it was because the federal government, the Internal Revenue Service, had, uh, denied their parochial religious schools tax-exempt status ...

ARMSTRONG: Yes.

MOYERS: ... if they segregated.

ARMSTRONG: That's right.

MOYERS: And the fundamentalists became alarmed at that, and fearing that they were going to be annihilated.

ARMSTRONG: Exactly so. And similarly, in the famous Scopes Trial, which I think tells us a lot about the fundamentalist process in 1925, you'll remember, fundamentalists tried to ban the teaching of evolution in the public schools, and there was a celebrated trial, in which the fundamentalists were really ridiculed in the secular press. After the Scopes Trial, after the ridicule, they swung to the extreme right, and there they've remained.

MOYERS: The inequality gap in this country is larger, I believe, than in any other industrial society.

ARMSTRONG: Yes.

MOYERS: What does that say about the most religious country in the world? And that's your definition. America's the most religious country in the world, and yet it's the most unequal economically.

ARMSTRONG: It's ... and this should trouble us all. It should trouble us all. Religious people should join hands, and fight for ... for greater equality. Try and see if you can introduce Christian, Jewish or true Muslims values into society. Not trying to force other people, but bringing to bear that respect for the sacred rights of others that all religions, at their best, three very important words, at their best, are trying to promote.

MOYERS: Where are you in your own journey? You're not a practicing Catholic, are you?

ARMSTRONG: No. I usually call myself these days a freelance monotheist. I draw nourishment from all three of the religions of Abraham, uh, I spend my life studying these faiths, in a sense I'm still a nun. I live alone, and I've never married, and I spend my life writing and talking and reading and studying spirituality and God. And I can not see in essence any one of these three faiths as superior to any of the others. I suppose one of my hopes in life is to try to get Jews, Christians and Muslims to realize the profound unanimity, the unanimous vision that they share, and to join hands together to stop the kind of cruelty, violence and obscenity, moral obscenity that we saw on September the 11th.

MOYERS:Thank you, Sister Karen.

ARMSTRONG: Thank you, Bill.

Fonte: PBS

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

O Brasil e a tolerância religiosa

Adital - Na 2ª feira, 21 de janeiro, pela primeira vez, o povo brasileiro vive o "Dia nacional de combate à intolerância religiosa", decretado pelo Congresso Nacional e sancionado pelo presidente da República no dia 27 de dezembro de 2007, através da lei n. 11.635. O decreto é muito conciso: "Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art. 1o - Fica instituído o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, a ser comemorado anualmente em todo o território nacional no dia 21 de janeiro. Art. 2o - A data fica incluída no Calendário Cívico da União para efeitos de comemoração oficial. Art. 3o - Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação". Traz as assinaturas do presidente da República e do ministro da Cultura. Vale a pena aprofundar os motivos pelos quais esta medida é oportuna e quais os objetivos mais concretos que esta lei pode contribuir para alcançarmos.

É muito comum as pessoas dizerem que no Brasil, já vigora tolerância e até diálogo entre as confissões religiosas. De fato, o Brasil não vive a situação de certos países como a Índia, onde recentemente, no Natal de 2007, cristãos assassinaram um líder hindu fundamentalista e adeptos do hinduísmo queimaram três Igrejas cristãs, ameaçando de morte quem freqüentasse a missa do Natal. No Brasil, não existem guerras religiosas como ocorrem na Nigéria entre cristãos e muçulmanos, nem guerras sócio-econômicas nas quais a religião no lugar de contribuir para a paz, se torna pretexto de violência, como ocorre entre judeus e palestinos em Israel e, uma vez ou outra, entre católicos e ortodoxos no leste europeu. Por outro lado, mesmo em nosso Brasil, alguns programas de rádio e televisão se notabilizam por demonizar a religião dos outros e por falar de Deus como se este fosse um senhor truculento a ameaçar de condenação eterna a quem não seguir tal Igreja ou não obedecer ao pastor ou à pastora de plantão.

A escolha do dia 21 de janeiro para esta data de combate à intolerância religiosa não foi por acaso. No dia 21 de janeiro de 2000, no Rio de Janeiro, morreu a Mãe Gilda de Ogum. Ela teve um enfarte fulminante quando viu crentes que se consideram evangélicos invadirem e destruírem a sua casa de culto (Abassá de Ogum). Embora os meios de comunicação quase não publicam, ainda proliferam no Brasil, aqui e ali, alguns conflitos violentos entre membros de determinadas Igrejas e outras confissões religiosas. Em Campina Grande, PB, já há quase 20 anos, acontece um "Encontro da Nova Consciência" que reúne pessoas de várias tradições espirituais comprometidas com a paz. Há alguns anos, crentes de algumas confissões cristãs organizaram ao lado um encontro paralelo: "Encontro da Nova Consciência com Cristo" que não admite pessoas que não sejam de suas Igrejas. Estes fazem manifestações com som alto, justamente quando os religiosos das diversas tradições se unem para orar pela paz. No ano passado, crentes deste grupo fundamentalista invadiram a celebração ecumênica feita pelos outros religiosos para impedir que os Hare-krisna cantassem seus mantras e expulsar o demônio dos adeptos da Umbanda e do Candomblé. Eu e vários irmãos tivemos de atuar para impedir um confronto e para responder à revolta das pessoas agredidas que abriram um processo judicial contra os agressores.

Para fazer do Brasil um país no qual a pluralidade religiosa seja motivo de enriquecimento recíproco e não de intolerância, a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República realizou uma cartilha e um vídeo sobre "Diversidade Religiosa e Direitos Humanos" que tem contribuído para criar um clima favorável ao respeito e à complementariedade mútua entre as diversas tradições culturais e religiosas. Agora, a iniciativa deste dia nacional de combate pacifico contra a intolerância religiosa pode contribuir para que cada corrente espiritual veja que a outra não lhe é concorrente, mas complementar. A diversidade cultural e religiosa é uma riqueza inspirada pelo próprio Espírito Divino e não só deve ser aceita ou assumida, como valorizada e incentivada através do diálogo que permite a cada tradição expressar sua peculiaridade própria e sua riqueza cultural.

Na linguagem corrente, tolerar uma coisa é suportá-la. Na convivência inter-cultural e inter-religiosa, tolerar não deveria bastar. Neste caso, o termo já denota a dificuldade que as religiões têm para admitir o direito da discordância e do dissenso. Na tradição cristã, os próprios evangelhos contam Jesus Cristo teve esta dificuldade com seus discípulos. Uma vez, a caminho de Jerusalém, ele quis passar pela Galiléia. Os habitantes daquelas aldeias galiléias não o quiseram receber pelo fato dele ser judeu. Ao saber disso, dois discípulos quiseram que Jesus castigasse aqueles infiéis fazendo descer sobre eles o fogo divino. Jesus os repreendeu dizendo: "Vocês não sabem de que espírito são animados" (Lc 9, 55). A um discípulo que queria proibir alguém de expulsar o mal, porque esta pessoa não pertencia ao grupo deles (discípulos), Jesus responde: "Não o proíbam. Quem não está contra nós, está do nosso lado" (Lc 9, 49- 50). Ele quis ensinar seus discípulos a descobrir Deus no diferente, como em um oficial romano, em uma mulher estrangeira e nos samaritanos hereges.

Certamente, vale para toda pessoa espiritual, em qualquer tradição ou corrente religiosa, a palavra que, há alguns anos, os bispos católicos da Ásia escreveram: "Deus é amor e se dá de mil maneiras à humanidade. Não nos pede permissão para se revelar às diversas comunidades e grupos humanos. Reconhecer estas múltiplas formas como seu amor se revela é um modo importante de honrá-lo e corresponder ao seu amor".

Por Marcelo Barros (Monge beneditino, teólogo e escritor)

Fonte: [ADITAL] Agência de Informação Frei Tito para a América Latina