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terça-feira, 12 de abril de 2011

Deus me livre de ser feliz

Por Luiz Felipe Pondé

Deus me livre de ser feliz. Existem coisas mais sérias que a felicidade. Algum sabichão por aí vai dizer, sentindo-se inteligentinho: "Existem várias formas de felicidade!". E o colunista dirá: "Sou filósofo, cara. Conheço esse blá-blá-blá de que existem vários tipos de felicidade, mas hoje não estou a fim". Um bom teste para saber se o que você está aprendendo vale a pena é ver se o conteúdo em questão visa te deixar feliz.

Se for o caso e você tiver uns 40 anos de idade, você corre o risco de sair do "curso" engatinhando como um bebê fora do prazo de validade. A mania da felicidade nos deixa retardados. Querer ser feliz é uma praga. Quando queremos ser felizes sempre ficamos com cara de bobo. Preste atenção da próxima vez que vir alguém querendo ser feliz.

Mas hoje em dia todo mundo quer deixar todo mundo feliz porque agradar é, agora, um conceito "científico". Quem não agrada, não vende, assim como maçãs caem da árvore devido à lei de Newton.

Mas eu, talvez por causa de algum trauma (fiz análise por 20 anos e acho que Freud acertou em tudo o que disse), não quero agradar ninguém. Não considero isso uma "vantagem moral", mas uma espécie de vício. Claro, por isso tenho poucos amigos. Mas, como dizem por aí, se você tiver muitos amigos, ou você é superficial, ou eles são, ou os dois.

Quanto aos meus alunos e leitores, esses eu nunca penso em deixar felizes, graças a Deus.

Desejo para eles uma vida atribulada, conflitos infernais com as famílias, dúvidas terríveis quanto a se vale a pena ou não ter filhos e casar. Desejo que, caso optem por não ter família, experimentem a mais dura solidão da existência humana, porque, no fundo, não passam de egoístas. Mas se tiverem família, desejo que percebam como os filhos cada vez mais são egoístas porque querem ser felizes e livres.

Desejo para eles pressões violentas no mercado de trabalho. E jantares à meia-noite diante de um trabalho que não pode ficar para amanhã porque querem viajar e ter grana para gastar.

Quem quiser ser livre, que aguente a insegurança da liberdade. Quem for covarde e optar por uma vida miseravelmente cotidiana que veja um dia sua filha jogar na sua cara que você foi um covarde. Especialmente, desejo um futuro cruel para quem acredita que "ser uma pessoa de bem" a protege de ser infiel, infeliz, abandonada e invejosa. Espero que um dia descubram que, sim, eles têm um preço (apenas desejo que seja um preço alto) e que se vendam.

Espero que percebam que seus pais não foram santos e parem com essa coisa de gente brega de classe média que tenta inventar uma "tradição ética familiar" que só engana bobo.

E por que digo isso? Porque hoje todos nós estamos um tanto infantilizados e só queremos que nos digam o que achamos legal. O resultado é uma massa de obviedades. A tendência é transformar o pensamento público em autoajuda ou em "compromisso com um mundo melhor", o que é a mesma coisa.

Quem quer agradar é, no fundo, um frouxo. Vejamos alguns exemplos do produto "querer ser feliz". Comecemos por quem acha que o seu "querer ser feliz" é superior e espiritualizado. Talvez você queira virar luz quando morrer porque ser luz é legal (risadas). Deus me livre de querer virar luz quando morrer. Prefiro as trevas.Se for para continuar vivendo depois de morto, prefiro viver no "meu elemento", as trevas, porque sou cego como um morcego. Normalmente, quem quer virar luz quando morrer é gente feia ou magra demais. Mulheres bonitas vão para o inferno, logo...

E gente que acha que frango tem mãe (só porque ele "descende" do ovo de uma galinha, e ela de outro...) e por isso é crime matá-los? Trata-se de uma nova forma de compromisso com a "felicidade social e política". Entre esses "felizes que desejam a felicidade para os frangos" existem pessoas de 40 anos com cérebro de dez e pessoas de dez anos que um dia terão 40, mas com o mesmo cérebro de dez. Não creio que mudem.

Hoje é Carnaval. Espero que você não tenha pegado aquele trânsito idiota de cinco horas para ser feliz na praia.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Liberdade x Prisão bonita

Por Osho, em 'Coragem - o prazer de viver perigosamente'

Não estou aqui para dar a você algum dogma - o dogma faz com que você tenha certeza. Não estou aqui para dar a você nenhuma promessa para o futuro - nenhuma promessa para o futuro transmite segurança. Estou aqui simplesmente para deixá-lo alerta e consciente - isto é, para ficar aqui agora, com toda incerteza que existe na vida.

Sei que você veio em busca de certeza, de alguma doutrina, algum "ismo", algum lugar ao qual pertencer, alguém em quem confiar. Você está aqui por causa do medo que sente. Está procurando uma espécie de PRISÃO BONITA - de forma que possa viver sem nenhuma consciência.

Eu gostaria de fazer com que você se sentisse ainda mais inseguro, mais incerto - porque é assim que a vida é, é assim que Deus é. Quando há mais insegurança e mais perigo, o único jeito de reagir a isso é apelar para a consciência.

São duas as possibilidades. Ou você fecha os olhos e passa a ser dogmático, vira cristão, hindu ou mulçumano... e aí fica como se fosse um avestruz. Isso não muda a vida; é simplesmente fechar os olhos. Simplesmente faz de você um estúpido, alguém sem inteligência. E nessa sua falta de inteligência, você se sente seguro - todo idiota se sente seguro. Na verdade, só os idiotas se sentem seguros. O homem que está verdadeiramente vivo sempre se sentirá inseguro. Que segurança pode existir?

A vida não é um processo mecânico; não pode ser predeterminada. Ela é um mistério imprevisível. Ninguém sabe o que acontecerá em seguida. Nem Deus, que você acha que mora em algum lugar no sétimo céu; nem mesmo ele - se estiver lá -, nem ele sabe o que vai acontecer! Porque, se ele sabe o vai acontecer, então a vida é só tapeação, tudo é escrito de antemão, é determinado de antemão. Como ele pode saber o que vai acontecer se o futuro está em aberto? Se Deus sabe o que vai acontecer daqui a pouco, então a vida é só um processo mecânico, morto. Então não existe liberdade, e como pode existir vida sem liberdade? Então não há possibilidade de crescer ou não crescer. Se tudo é predestinado, não existe glória nem grandeza. Você é apenas um robô.

Não, nada é seguro. Essa é a minha mensagem. Nada pode ser seguro, porque uma vida segura seria pior do que a morte. Nada é certo. A vida é cheia de incertezas, cheia de surpresas - é aí que está a beleza dela! Você nunca chegará ao ponto em que poderá dizer, "Agora estou certo disso." Quando disser que está certo de alguma coisa, estará simplesmente declarando a própria morte; terá se suicidado.

A vida continua em marcha, com mil e uma incertezas. É aí que está a liberdade dela. Não chame a isso de insegurança.

Eu posso entender por que a mente chama a liberdade de "insegurança". Você já ficou preso numa cela por alguns meses ou anos? Se já ficou numa cela por alguns anos, você sabe que, no dia de ser solto, o prisioneiro começa a sentir uma incerteza quanto ao futuro. Tudo era garantido na cela; tudo não passava de pura rotina. Ele tinha comida, tinha proteção, não tinha  medo de ficar com fome no dia seguinte e de não haver comida - nada disso, tudo era certo. Agora, de repente, depois de muitos anos, o carcereiro vem e diz: "Agora você vai ser solto." Ele começa a tremer. Fora dos muros da prisão, mais uma vez haverá incertezas; mais uma vez ele terá que buscar, procurar; mais uma vez terá que viver em liberdade.

A liberdade dá medo. As pessoas falam sobre a liberdade, mas elas têm medo. E um homem não é homem ainda se ele tem medo da liberdade. Dou a vocês liberdade: não dou segurança. Dou a vocês entendimento; não dou conhecimento. O conhecimento lhes traz certezas. Se posso dar a você a fórmula, uma fórmula pronta, de que existe um Deus, existe um Espírito Santo e existe um único filho bem-amado, Jesus; existe um inferno e um céu e existem as boas ações e as más ações; cometa um pecado e você irá para o inferno, pratique o que eu chamo de atos virtuosos e você irá para o céu - acabou!-, então você tem certezas. É por isso que tantas pessoas optaram por ser cristãos, hindus, muçulmanos, jainistas - elas não querem liberdade, querem fórmulas fixas.

Um homem estava morrendo - de repente, num acidente de estrada. Ninguém sabia que ele era judeu, então chamaram um padre, um padre católico. Ele se curvou bem próximo ao homem- e o homem estava morrendo, nos últimos estertores da morte - e disse:

- Você acredita na Trindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo e em seu filho Jesus?
- Veja só! - respondeu o homem, abrindo os olhos-, eu aqui morrendo e ele fazendo charadas!

Quando a morte bater à sua porta, todas as certezas serão simplesmente charadas e tolices. Não se apegue a nenhuma certeza. A vida é incerteza - sua própria natureza é incerta. E um homem inteligente nunca tem certeza de nada.

A própria disposição para permanecer na incerteza é coragem. A própria disposição para ficar na incerteza é confiança. A pessoa inteligente é aquela que está sempre alerta, não importa a situação - e a enfrenta com todo seu coração. Não que ela saiba o que vai acontecer, não que ela saiba, "Faça isso e acontecerá aquilo." A vida não é uma ciência; não é uma cadeia de causas e efeitos. Aqueça a água a cem graus e ela evapora - isso é uma certeza. Mas na vida real, nada é certo como isso.

Cada pessoa é uma liberdade, uma liberdade desconhecida. É impossível predizer, impossível fazer conjecturas. É preciso viver na consciência e no entendimento.

Você vem até mim em busca de conhecimento; quer fórmulas prontas para que possa se agarrar a elas. Eu não dou nenhuma. Na verdade, se você tiver alguma, eu a tiro de você! Pouco a pouco, destruo sua certeza; pouco a pouco, faço com que você fique cada vez mais hesitante; pouco a pouco deixo-o cada vez mais inseguro. Essa é a única coisa que tem de ser feita. Essa é a única coisa que um Mestre precisa fazer! - deixá-lo em total liberdade. Em total liberdade, com todas as possibilidades em aberto, com nada pré-fixado... você terá que ficar consciente - não existe outra possibilidade.

Isso é o que eu chamo de entendimento. Se você entender isso, a insegurança passa a ser uma parte intrínseca da vida - e é bom que seja assim, porque faz da vida uma liberdade, faz da vida uma contínua surpresa. Nunca se sabe o que vai acontecer. Isso faz com que você viva em constante assombro. Não chame de incerteza - chame de assombro. Não chame de insegurança - chame de liberdade.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Superando a mentalidade "Converta a todos"

Autor: Josh, 26/Julho/2009 | Tradução: Marcelo Carahyba

Assim que deixei a fé há um ano e meio, observei antigas ideias alterando-se na minha mente sistematicamente. Uma dessas ideias era a mentalidade que diz que eu deveria estar sempre prestando atenção (preocupado) sobre o que outras pessoas "pensam".

Lembro-me das igrejas e escolas Protestantes gastarem um tempo enorme com o dedo apontado para o vento da cultura, constantemente em alerta. Cada pequena mudança na cultura, ou filosofia de fora da igreja, deveria ser trazida ao conhecimento das pessoas na igreja e criticada para a "edificação" geral. Particularmente recordo de passar muito tempo discutindo o "pós-modernismo", porque é ruim, como é ruim, como podemos contrariá-lo, e como podemos testemunhar aos confusos pós-modernistas.

De muitas maneiras, sinto que alguns comentadores cristãos neste blog fazendo isso. Eles estão aqui para "espiar" porque as pessoas estão deixando a fé, para ter uma noção das mudanças na cultura que fazem a igreja perder membros. Não os culpo por fazer isso. Se alguém possui a Verdade Absoluta do Universo em seu poder, é simplesmente natural que proteja isso - e a si mesmo - de qualquer "vã filosofia" que o mundo oferece.

Mas este post não é para eles, é para aqueles que estão deixando a fé e sentem um enorme - e talvez debilitante - responsabilidade de converter ou imunizar todos ao seu redor do Cristianismo. No tempo que passei perseguindo blogs de ex-cristãos, vi que há, por um período, uma tendência de militância anti-cristianismo por parte das pessoas que estão gravemente feridas por essas crenças e tentam proteger todo mundo de um destino semelhante. Eu mesmo passei por este período.

Mas, outro dia, me dei conta de que não tenho mais o peso das ideias do mundo em meus ombros. Não é mais minha responsabilidade saber o que todo mundo pensa, encontrar os erros em seus pensamentos e crenças, imunizar-me das mesmas, e "gentilmente" e com "respeito" corrigi-los por estar em oposição à "Verdade". Eu sinto que um enorme peso foi tirado de meus ombros.

Eu não tenho mais que acreditar em tudo "certo". Eu não tenho mais que andar por aí como um policial de ideias, me certificando de que todo mundo acredita em tudo "certo".

Recentemente tive numerosas oportunidades para sair com amigos que nunca estiveram envolvidos em igrejas. A paz em seus olhos é tão aparente. Eles não estão sobrecarregados com ansiedades associadas a crenças e a dilemas existenciais de terceiros. Eles não olham para todos à sua volta e, secretamente, pensam que estão sofrendo de um profundo vazio em suas almas. Eles apenas não se importam com isso. O que outras pessoas acreditam é problema delas, e não deles.

O que outras pessoas acreditam é da conta delas, não minha.

Como cristão, fazia um esforço consistente e consciente para verter todas as conversas em uma "oportunidade" de "aproveitar bem o tempo, porque os dias são maus". Isso, para mim pelo menos, tinha produzido a mentalidade "converta a todos" que ainda existia há algum tempo, mesmo depois de ter deixado a fé.

Mas esta atitude é algo que o Cristianismo me ensinou e se eu realmente desejo aproveitar minha vida e retirar a velha pele de Cristianismo, esta é uma atitude que não quero. Se QUERO converter outras pessoas, ok. Mas a carga - que vem do sentimento de que eu TENHO que converter os outros - pode ir embora.

E isso trouxe uma sensação ainda mais profunda de liberdade. O Cristianismo é escravidão à escravidão: da escravidão ao pecado à escravidão a Cristo. A liberdade que vem de ser escravo de nada é incrível. (E para aqueles cristãos que vão dizer que agora sou um escravo do pecado - e não o sabem - minha resposta é simples: se a escravidão do pecado é tão impotente que não posso nem percebê-la, então não me importo que seja um escravo do pecado).

De qualquer forma, outras pessoas vão acreditar no que quiserem, e aqueles que são ingênuos o bastante para cair no Cristianismo não são de minha responsabilidade divinamente dada. Pelo menos eles não irão para o inferno por acreditar em algo errado.