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segunda-feira, 10 de junho de 2013

A Pornografia das Frases de Efeito

Por Paulo Brabo, escritor.


Por mais que eu me esforce, não con­sigo pen­sar num fator que tenha con­tri­buído mais para a dilui­ção do impacto da Bíblia, tendo aberto maior bre­cha para uma lei­tura ten­den­ci­osa da sua men­sa­gem, do que o fato de que um dia alguém achou por bem dividi-​​la em versículos.

Um livro como a carta de São Paulo aos Efé­sios, que até aquele momento vinha sendo lido como um todo con­tí­nuo e orgâ­nico, acor­dou no dia seguinte esquar­te­jado de modo intei­ra­mente arbi­trá­rio, tendo adqui­rido a graça e a agra­da­bi­li­dade de lei­tura de uma pla­ni­lha do Excel. E nunca mais recuperaram-​​se da ope­ra­ção: foi reta­lhado dessa forma que cada livro da Bíblia che­gou até nós.

A divi­são em ver­sí­cu­los teve a infe­li­ci­dade de nas­cer mais ou menos ao mesmo tempo em que vinha à luz a tec­no­lo­gia dos tipos móveis de Gutem­berg – e tec­no­lo­gia sig­ni­fi­cou desde sem­pre uma coisa: não há erro for­tuito que não possa ser repro­du­zido indefinidamente.

O estrago para a inte­gri­dade da Bíblia foi enorme e, em grande parte, irre­ver­sí­vel. Mesmo diante de um texto cor­rido temos a ten­dên­cia eu e você à sele­ção e à par­ci­a­li­dade. A nova e for­jada frag­men­ta­ção con­vi­dava, pra­ti­ca­mente exi­gia, que cada iso­lada por­ção do texto bíblico fosse memo­ri­zada e enten­dida fora do seu con­texto. No caso da carta aos Efé­sios, por exem­plo, encon­tra­ram ple­ni­po­ten­ciá­ria con­sa­gra­ção entre os pro­tes­tan­tes os ver­sos oito e nove do segundo capí­tulo: por­que pela graça sois sal­vos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que nin­guém se glo­rie – ver­sos a par­tir nos quais os pro­tes­tan­tes fun­da­men­ta­ram sua tese de que a fé é essen­cial e as boas obras secun­dá­rias. Porém a arbi­trá­ria divi­são em ver­sí­cu­los dei­xou o raci­o­cí­nio de Paulo para sem­pre incom­pleto, seu argu­mento para sem­pre sus­penso e sepa­rado da frase seguinte, que qua­li­fica o que foi dito e intro­duz uma enorme revi­ra­volta: por­que somos fei­tura sua, cri­a­dos em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus pre­pa­rou de ante­mão para que andás­se­mos nelas.

A divi­são em ver­sí­cu­los, além de favo­re­cer a lei­tura sele­tiva, incen­ti­vou a feti­chi­za­ção pura e sim­ples dos tex­tos atin­gi­dos por ela, com a con­se­quente anu­la­ção do seu sig­ni­fi­cado. Na ver­dade, os tex­tos sagra­dos prestam-​​se par­ti­cu­lar­mente, por sua pró­pria natu­reza, à feti­chi­za­ção; o reta­lha­mento da Bíblia em ver­sí­cu­los ape­nas acen­tuou essa ten­dên­cia e faci­li­tou o processo.

Feti­chi­zar um texto é inflá-​​lo ao extremo, é recortá-​​lo e memorizá-​​lo e emoldurá-​​lo e reproduzi-​​lo em letras cada vez mai­o­res até dre­nar por com­pleto e tor­nar ina­ces­sí­vel o seu sig­ni­fi­cado ori­gi­nal: até que as pala­vras, dou­ra­das mas cegas, reme­tam a tudo e a nada.

Um emblema escan­da­loso da feti­chi­za­ção da Bíblia pro­mo­vida pela divi­são em ver­sí­cu­los é a caixa de pro­mes­sas (dis­po­ní­vel em diver­sos for­ma­tos na livra­ria evan­gé­lica mais pró­xima de você): uma cai­xi­nha cheia de file­tes colo­ri­dos de papel, cada um con­tendo um ver­sí­culo iso­lado da Bíblia cui­da­do­sa­mente sele­ci­o­nado para que você, lendo, sinta-​​se amado, com os flan­cos cober­tos e a pros­pe­ri­dade asse­gu­rada. Quando está pra baixo você abre a caixa e puxa uma pro­messa ao acaso, como quem lê um bis­coito da sorte: a satis­fa­ção é garan­tida, ou você pode pedir o seu espí­rito crí­tico de volta[1].

Cinco sécu­los se pas­sa­ram sem gran­des novi­da­des, porém é pre­ciso lem­brar que as ideias medío­cres dos homens dor­mem, mas não des­can­sam. Ficam em estado letár­gico, aguar­dando que novas tec­no­lo­gias per­mi­tam que arruínem-​​se as ideias gran­des e boas. E, claro, esta é a gera­ção em que esse momento che­gou: num espaço de 30 anos, os últi­mos, o com­pu­ta­dor ele­trô­nico gerou o com­pu­ta­dor pes­soal, o com­pu­ta­dor pes­soal tomou para si côn­ju­ges e for­mou a rede local, a rede local teve rela­ções extra­con­ju­gais e gerou a inter­net, e a inter­net pariu as redes sociais.

Esta­mos ins­truí­dos e capa­ci­ta­dos, colo­ni­za­do­res que somos das pai­sa­gens vir­tu­ais, e o que era impos­sí­vel é agora ine­vi­tá­vel. O twit­ter nos ensi­nou a divi­dir a rea­li­dade em por­ções iso­la­das de 140 carac­te­res, e quando a rea­li­dade tomba a lite­ra­tura não tarda a cair. Somos milhões de escri­bas e ama­nu­en­ses, intei­ra­mente pron­tos para ver­si­cu­la­ri­zar – con­ver­ter reso­lu­ta­mente em ver­sí­cu­los – toda a lite­ra­tura mun­dial, e tabulá-​​la em tra­ba­lho volun­tá­rio nos murais sempre-​​deslizantes das redes soci­ais. Não há admi­ra­dor bem-​​intencionado que não viva saque­ando a obra de poe­tas e roman­cis­tas, filó­so­fos e ensaís­tas, san­tos e com­po­si­to­res, crí­ti­cos e humo­ris­tas de todas as épo­cas, esquar­te­jando resig­na­da­mente suas ideias de modo a fazê-​​las caber nos esca­ni­nhos do twit­ter e dos gifs ani­ma­dos. Somos um mundo inteiro de taxi­der­mis­tas, e não des­can­sa­re­mos até que os melho­res e os pio­res tex­tos do mundo tenham sido redu­zi­dos a fra­ses de efeito e gotas de sabedoria.

Era ine­vi­tá­vel: as redes soci­ais, que vivem da feti­chi­za­ção e da con­se­quente anu­la­ção de todas as coi­sas, não teriam como dei­xar de seques­trar o poder da lite­ra­tura. O Face­book, em par­ti­cu­lar, assu­miu o papel de bana­li­za­dor supremo, dre­nando a vita­li­dade de tudo na expe­ri­ên­cia humana que já teve algum inte­resse e algum valor. A lite­ra­tura, aquela velha dama, não esca­pou dessa indig­ni­dade. No mural do seu Face­book alternam-​​se ver­sos pis­can­tes da Bíblia, fra­ses de Luís Fer­nando Verís­simo, pen­sa­men­tos fal­sa­mente atri­buí­dos a Sha­kes­pe­are, pro­vo­ca­ções de Gandhi, cita­ções de Mia Couto, poe­mas ani­ma­dos de Casi­miro de Abreu, letras de Chico Buar­que, péro­las de sabe­do­ria de Abraham Lin­coln e papa Fran­cesco e Bren­nan Man­ning e Dalai Lama e Mar­tin Luther King e Paulo Coe­lho e Eugene Peter­son e Richard Daw­kins e Malba Tahan e Tols­toi e coi­sas que Sha­kes­pe­are real­mente disse e Diego Mai­nardi. Tudo devi­da­mente ver­si­cu­la­ri­zado, empa­lhado e feti­chi­zado: peda­ços de carne, ao mesmo tempo expos­tos para a admi­ra­ção pública e sepa­ra­dos do corpo.

Essa, como dizia minha avó, é a hora da queima: a hora da sis­te­má­tica caixa-​​de-​​promessização de tudo neste mundo que já foi belo, humano e sagrado. Feti­chi­zar a Bíblia foi tarefa para ama­do­res; sente-​​se aí e assista enquanto reta­lha­mos cada página jamais escrita até a des­fi­gu­ra­ção completa.

Outro dia minha irmã, que está no Face­book, tro­pe­çou ali em ima­gens colo­ri­das que emol­du­ra­vam fra­ses ins­pi­ra­ti­vas – pra­ti­ca­mente Pre­ci­o­sas Pro­mes­sas – do Paulo Brabo (mais um motivo para não estar no Face­book, não?). Sendo minha irmã, ela achou meio sinis­tra aquela tie­ta­gem e me escre­veu per­gun­tando se não me inco­moda saber que coi­sas que escrevo andam cir­cu­lando pela net na forma de gotas de sabedoria.

Res­pondi que sim, claro que me inco­moda, mas que ela não devia estra­nhar por encon­trar no Face­book algo que é tão típico do Face­book: a feti­chi­za­ção de uma coisa que em outro lugar tal­vez fizesse sen­tido e tivesse o seu valor. E con­cluí que o que de fato me irrita é pen­sar que nas redes soci­ais encon­tram des­tino igual­mente indigno auto­res melhores.

Natu­ral­mente, encon­tro como todo mundo pra­zer diante de uma ideia magis­tral­mente cons­truída e arti­cu­lada – diga­mos, esta de Bor­ges: apaixonar-​​se é criar uma reli­gião cujo Deus é falí­vel. Ou esta, minha: mil gênios podem não aju­dar, mas um idi­ota faz toda a dife­rença.

Porém há um mar entre apre­ciar uma frase na cum­pli­ci­dade de uma página e reduzi-​​la a pérola de sabe­do­ria. É, pra­ti­ca­mente, a dife­rença entre fazer amor e ficar exci­tado diante de uma ima­gem de sexo que você encon­tra na inter­net. Há entre as duas coi­sas uma rela­ção mais do que casual, e você pode acre­di­tar que nesta vida há espaço para as duas coi­sas, mas são ven­tos que falam de des­ti­nos diferentes.



[1] A caixa de promessas é também conhecida pelo nome aliterado de Preciosas Promessas; os produtos complementares da mesma linha, Memoráveis Maldições e Estressantes Exigências, nunca chegaram a conquistar uma grande fatia de mercado.




quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Até quando?

Por Eduardo Galeano, jornalista e escritor.

Esta carnificina de civis começou a partir do seqüestro de um soldado. Até quando o seqüestro de um soldado israelense poderá justificar o seqüestro da soberania palestina? Até quando o seqüestro de dois soldados israelenses poderá justificar o seqüestro de todo o Líbano?

A caça aos judeus foi, durante séculos, o esporte preferido dos europeus. Em Auschwitz desembocou um antigo rio de espantos, que havia atravessado toda a Europa. Até quando os palestinos e outros árabes continuarão pagando por crimes que não cometeram? O Hezbolá não existia quando Israel arrasou o Líbano em suas invasões anteriores. Até quando continuaremos acreditando no conto do agressor agredido, que pratica o terrorismo porque tem direito de se defender do terrorismo? Iraque, Afeganistão, Palestina, Líbano... Até quando se poderá continuar exterminando países impunemente?

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Sonhar, realizar o sonho, sonhar mais alto: cultura e revolução em Slavoj Zizek

Por Demétrio Cherobini, cientista social e educador.

Uma transformação social de grande envergadura pode ser considerada pejorativamente, por muitos, um sonho. Pode ser sonho ingênuo, do ponto de vista dos senhores da ordem, uma condição em que superamos um modo de vida no qual existimos como meros meios para fins que nos são alheios. No entanto, há que se levar em conta, são sonhos que não emergem isoladamente nem são eventos acidentais no fluxo constante que é a história.

O que é, pois, sonhar? O que é que são os sonhos (diurnos ou noturnos)? Por que, afinal, sonhamos e desejamos tão ansiosamente, tão entranhadamente a emancipação que nos escapa? O que sabemos, de fato, pela simples constatação empírica diária, é que esse fenômeno existe, é que sonhamos e frequentemente sonhamos acordados (devaneamos). Em algumas situações, na realidade, chegamos a estar face-a-face com o objeto dos nossos sonhos. No entanto, raras são as vezes em que os tocamos. E mais raras ainda são as vezes em que com eles conseguimos permanecer. Por que isso acontece?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sobre - todos - os discursos sobre Deus, os nossos, os dos outros e o de todo mundo

Por Osvaldo Luiz Ribeiro, biblista e exegeta.

Todos os discursos sobre Deus, de todas as religiões, nossos e nossas, dos outros e de todo mundo, todos os discursos sobre Deus são invenções humanas, pura fantasia, imaginação, cultura, criados pelas mais diferentes razões - econômicas, políticas, sociais, históricas, biológicas, psicológicas.

Isso não tem o significado lógico de dizer que Deus não existe - tem o significado lógico de dizer que o Deus inserido em qualquer discurso humano é igualmente invenção humana. Todas as vezes que qualquer pessoa fala sobre Deus, é de uma coisa inventada e por meio de um modo inventado que ela fala.

Se Deus há fora da palavra humana, fora do pensamento humano, não se sabe nem jamais se saberá. Mas aquele e aqueles que nelas e neles vivem, é humaníssimo.

Incluo aí o Deus dos púlpitos. De todos.

Há aqueles que se deram conta disso e passaram a falar de Deus como quem faz poesia. A esses eu respeitaria numa única condição, quase nunca verificada: que sua audiência saiba que é poesia que se faz aí e saiba, sobretudo, o que isso significa. Fora dessa condição, merece desprezo, porque mente para si e para todos os que o ouvem.

Outro dia, uma e tal da manhã, eu mesmo ouvi um "teopoeta" falar de Deus na TV, pregar Jesus igualzinho a todos os pregadores da fé e da convicção inabalável - e não contive uma revolta nas tripas...

Quando ouço qualquer pessoa, amigo ou não, falar de Deus e ainda chamar outras racionalizações tão criativas e imaginativas quanto a sua - com o mesmo grau de substância, com a mesma profundidade de massa -, de tolice, quase chego a gostar do fundamentalista: pelo menos ele não se mete a intelectual (às vezes; quando o faz, o resultado é ridículo).

Sou (acho) amigo de muito pregador, muito pastor, muito cristão, muito crente. Todavia, Amicus Plato, sed magis amica veritas.

É uma pena. Eu acredito que é possível conciliar vocação pastoral, terapêutica, com as informações que temos desde o século XIX. Mas é uma pena que a pregação se faça para uma audiência que, ela sabe, não tem condições de a pôr no seu lugar.

Podia ser tão diferente... Não é preciso fazer as pessoas de bobas para cuidar delas. Fazê-las de bobas só as torna mais doentes. Há caminhos mais honrados por onde se pode ir.

Mas se vai pelo caminho mais fácil.

Nem sempre o mais ético.

PS. Se você espreme contra a parede um púlpito esclarecido, ele confessará que sabe do que você está falando, mas se a audiência desconfiar do que estamos falando, caos. Não preciso dizer mais nada. Quanto aos púlpitos que não têm sequer condição de entender do que estamos falando, bem, essa é outra história, conquanto seja, ainda, a mesma tragédia. Porque ninguém precisa saber que o pé está a pegar fogo para que o pé esteja a pegar fogo...

Fonte: Peroratio

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O aniquilamento da não-violência

Por Paulo Brabo, escritor e pensador.

Minha ideia – embora tenha sido inteiramente mal compreendida pelos ecologistas – é que o progresso não é uma ameaça à natureza, mas à liberdade.
Bernard Charbonneau, falando em nome do anarquista cristão Jacques Ellul

Aquilo que o diabo sonhou por milênios, um mundo em que não fosse mais possível viver uma vida de não-agressão, o capitalismo neoliberal possibilitou, evangelizou e metastaseou planeta afora. O nosso é um mundo em que não há mais santos, pacifistas ou mesmo gente boa. Ele foi de fato concebido, no seu ventre ideológico, de modo a que não subsista a virtude nem tenha como subsistir.

Houve épocas em que bolsões de paz e de boa vontade, muitos deles sustentados diretamente pelo sopro de Jesus de Nazaré, proveram santuário a este mundo. Os ramos da família anabatista em particular (por exemplo, os irmãos menonitas) foram por séculos os portadores de uma longa e radical tradição cristã de não-violência – inspirando e sendo inspirados por gente como Erasmo, Tolstoi, Gandhi e Martin Luther King. Um fogo semelhante nunca deixou de arder no coração da experiência católica, encarnado (por exemplo) nas paixões de Francesco, no ideal da aventura monástica e na lucidez de Dorothy Day. A não-agressão está, além disso, muito entranhada no ideário de tradições religiosas não-cristãs, em especial no budismo e no jainismo.

Esses, no entanto, foram ideais e realidades de uma outra era, açudes esgotados e sonhos anulados pela amoral capitalista. Ninguém mais é livre, por isso ninguém mais tem como dar-se ao luxo de ser bom.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Sobre manipular antônimos

Por Paulo Brabo, escritor.

As freiras nos ensinaram que há dois caminhos: o caminho da natureza e o caminho da graça. Você tem de escolher que caminho seguir. A graça não tenta agradar a si mesma. Aceita ser menosprezada, esquecida, escanteada. Aceita insultos e ofensas. A natureza só quer agradar a si mesma. Obriga os outros a agradá-la também. Tem prazer em controlar, em impor sua vontade. Encontra motivos para ser infeliz quando o mundo inteiro está resplandecendo ao seu redor, e o amor está sorrindo através de todas as coisas. [A narração inicial de Árvore da Vida, de Terrence Malick]

É sabido que critérios de classificação são coisa sempre arbitrária e artificial, pouco importando o que está sendo classificado, e que portanto as classificações prestam-se com facilidade a servir de ferramentas ideológicas de manipulação. Colocar rótulos sobre as coisas é simplificá-las, e simplificá-las é em si mesmo evitar uma discussão mais profunda (e possivelmente incômoda) sobre a natureza das coisas, do estado das coisas e do que é desejável e legítimo.

Mas não é só classificando, definindo e rotulando que se manipulam ideias e portanto pessoas; outro modo de sustentar uma ideologia é controlando-se os polos, manipulando-se artificialmente os antônimos de conceitos que são fundamentais para a manutenção do estado de coisas. “Qual é o contrário de [determinada coisa]” é uma pergunta que tem quase sempre uma resposta política.

Qual é o contrário de governo? Qual é o oposto de religião? Qual é o contrário de democracia[1]? As respostas ao mesmo tempo muito vagas e muito definidas que tendemos a imaginar para perguntas dessa natureza testemunham por si só o status de vaca sagrada de cada um desses conceitos, e explicam também porque é tão raro que nos façamos esse tipo de pergunta. “Qual é o contrário disso?” pode também significar “existirá uma alternativa a isso?”, e uma resposta não-determinada para questões desse tipo pode representar um risco muito real para o sistema.

Sendo assim, determinar-se em regime artificial o antônimo de um conceito pode equivaler a garantir que jamais se encontrará uma alternativa ideológica legítima para ele. É certificar-se que a reflexão não ameace o estado de coisas. Dizer-se, por exemplo, “o contrário de capitalismo é socialismo” é assegurar que grande parte da sociedade entenda que os horrores atribuídos ao segundo garantem que não há verdadeira alternativa para o primeiro.

Se digo tudo isso é só para declarar o óbvio, que o oposto de capitalismo não é socialismo. O oposto de capitalismo é vida, gentileza, liberdade e convivência – aquilo que em outro tempo se convencionava chamar de cristianismo.

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[1] Ou, ainda, qual é o contrário de heterossexual? O termo oposto preferencial tem sido “homoafetivo”, que alia à baixeza do politicamente correto as vergonhas da simplificação e da incorreção. Porque os heterossexuais, em especial os homens, são em geral grandes homoafetivos – no sentido de que sentem-se mais à vontade para demonstrar verdadeiro afeto a outros homens do que a mulheres, e (sem contar os confortos ou as esperanças da cama) tendem a procurar mais a companhia de outros homens do que a de mulheres.

sábado, 19 de novembro de 2011

Entrevista com Zé Celso

Fundador do Teatro Oficina dedica sua vida à libertação artística e sexual
Por Otávio Dias, da Revista Trip.

Aos 74 anos de uma vida dedicada à libertação artística e sexual, José Celso Martinez Corrêa, um dos maiores nomes da história do teatro brasileiro, faz seu manifesto a favor da diversidade: “A sexualidade é um mistério tão grande. O bicho humano tem atração por muita coisa, vai muito além do papai e mamãe, da homossexualidade. Não acredito na identidade, mas na mistura”

“Eu não acredito em gueto gay, gueto negro, gueto disso, gueto daquilo. Não acredito em ‘clube do bolinha’, em ‘cada macaco no seu galho’, em ‘não me toque’. A natureza é diversa, mas ao lado da diversidade tem a antropofagia, as coisas e os seres se entredevoram.”

José Celso Martinez Corrêa, daqui pra frente somente Zé Celso, sempre diz algo diverso. Nos últimos 50 anos, durante os quais ocupou papel central na cultura brasileira, incluído um período de mais de dez anos de “ócio criativo”, o criador, diretor, ator, autor e força motriz do Teatro Oficina, de São Paulo, vai sempre além do lugar-comum, do discurso do momento, daquilo que queremos ou não queremos ouvir.

Não seria diferente em relação ao tema que move esta edição: “Vejo a diversidade como algo que te devora. Sou contra a divisão, a afirmação de uma identidade. Não acredito em identidade brasileira, mas na mistura. Como diz João Gilberto, ‘o brasileiro não tem personalidade, ele não precisa.’”

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Deus, unplugged

Por Peter Rollins, filósofo e escritor.
Tradução: Paulo Brabo

Perto do final da vida o teólogo e ativista Dietrich Bonhoeffer começou a preocupar-se com o fato de que a compreensão cristã de Deus havia sido em grande parte reduzida ao status de uma muleta psicológica. Ele descreveu essa compreensão como um “Deus ex machina”.

A expressão, que significa “deus proveniente de uma máquina”, refere-se originalmente a uma técnica usada na Grécia antiga, pela qual uma pessoa era descida ao palco através de um mecanismo, a fim de representar a entrada em cena de um ser sobrenatural. O processo, no entanto, ganhou uma má reputação quando muitos dramaturgos de segunda categoria começaram a usar esse artifício de modo indolente e arbitrário. Quando queriam matar um personagem, criar um novo desafio para o protagonista ou resolver um conflito do enredo, essas caras simplesmente arriavam um deus história adentro. Desse modo, o ser sobrenatural não era parte orgânica da história, mas uma presença intrusiva empregada unicamente para fazer o enredo avançar ou resolver alguma questão.

A expressão deus ex machina passou a significar a introdução de um elemento que não faz parte da lógica interna do desdobramento de uma história, mas que é na verdade um artifício deselegante despejado na narrativa só para desempenhar um papel específico.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A tinta vermelha: discurso de Slavoj Žižek aos manifestantes do movimento Occupy Wall Street

Por Slavoj Žižek, filósofo e psicanalista.
Tradução: Rogério Bettoni.

Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que QUEREMOS. Qual organização social pode substituir o capitalismo vigente? De quais tipos de líderes nós precisamos? As alternativas do século XX obviamente não servem.

Então não culpe o povo e suas atitudes: o problema não é a corrupção ou a ganância, mas o sistema que nos incita a sermos corruptos. A solução não é o lema “Main Street, not Wall Street”, mas sim mudar o sistema em que a Main Street não funciona sem o Wall Street. Tenham cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem nos apoiar e já fazem de tudo para diluir nosso protesto. Da mesma maneira que compramos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar isto aqui em um protesto moral inofensivo. Mas a razão de estarmos reunidos é o fato de já termos tido o bastante de um mundo onde reciclar latas de Coca-Cola, dar alguns dólares para a caridade ou comprar um cappuccino da Starbucks que tem 1% da renda revertida para problemas do Terceiro Mundo é o suficiente para nos fazer sentir bem. Depois de terceirizar o trabalho, depois de terceirizar a tortura, depois que as agências matrimoniais começaram a terceirizar até nossos encontros, é que percebemos que, há muito tempo, também permitimos que nossos engajamentos políticos sejam terceirizados – mas agora nós os queremos de volta.

Dirão que somos “não americanos”. Mas quando fundamentalistas conservadores nos disserem que os Estados Unidos são uma nação cristã, lembrem-se do que é o Cristianismo: o Espírito Santo, a comunidade livre e igualitária de fiéis unidos pelo amor. Nós, aqui, somos o Espírito Santo, enquanto em Wall Street eles são pagãos que adoram falsos ídolos.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Confissões de um ex-apologeta

Por José Barbosa Jr, escritor e pensador.

Já faz algum tempo que quero escrever sobre este tema. Principalmente por causa da explosão de blogs e sites “apologéticos” nos últimos anos, a maioria deles de conteúdo, no máximo, razoável.

Fico à vontade para falar do assunto, pois logo após minha conversão, me transformei num “apologeta”. Estudei por mais de 15 anos seitas e heresias, tendo feito palestras sobre várias “seitas” e “heresias” em muitas igrejas nos Estados do Rio e do Pará. Especializei-me em Testemunhas de Jeová, Mórmons e Maçonaria. Também pesquisei bastante o material dos adventistas, considerado por muitos estudiosos uma seita “pseudo-cristã”. Em Belém do Pará cheguei a dirigir uma pequena missão “especializada” em dar palestras e equipar as igrejas com apostilas e material para a “evangelização” desses grupos religiosos.

Além disso, devido a minha experiência como católico praticante e fervoroso, tornei-me logo um defensor da “sã doutrina” evangélica, mostrando os erros da igreja católica em muitas palestras e apostilas. Fiz vários estudos sobre o tema e amizade com ex-padres e pessoas oriundas das mais diversas seitas.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Crise da Igreja lembra período da Reforma

Teólogo diz que excessiva concentração de poder nas mãos do papa impede as mudanças necessárias para conter fuga de fiéis

Crítico do papa Bento XVI e de seu antecessor, João Paulo II, o teólogo Hans Küng, de 83 anos, afirma que a Igreja Católica só vai recuperar os fiéis que perdeu nos últimos anos se abandonar o sistema centralizador na figura do papa - que ele compara a um monarca absoluto - e retomar o legado de reformas democráticas do Concílio Vaticano 2.º. "O momento é de mudança, e o papa e os bispos estão cegos, como há 500 anos, na época da Reforma."

Muitos católicos acham que o acobertamento dos abusos sexuais de crianças por padres afastou fiéis da Igreja. O que está errado na Igreja?

Se você encara a questão em palavras tão simples, darei uma resposta igualmente simples. O antecessor de Joseph Ratzinger (atual papa Bento XVI), João Paulo II, lançou um programa de restauração política e eclesiástica que contestava as intenções do Concílio Vaticano 2.º. Ele queria uma recristianização da Europa. E Ratzinger era o seu mais leal assistente, desde o início. Poderíamos chamar aquela época como um período de restauração do regime romano anterior ao concílio.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Por que os Evangélicos são tão crentes, mas tão feios?

Por Elienai Jr, pastor e escritor.

De tudo o que venho dizendo o que mais ofende aos meus irmãos evangélicos é o que digo com poesia. Quando moleque, ainda tão marcado pelo jeitão carioca, gostava de brincar com as pessoas que não entendiam a ironia. Fazia uma brincadeira, mas os sisudos entendiam tal e qual e se apavoravam, ou se irritavam e partiam logo para uma solução séria ou uma advertência. Percebia a surdez poética e divertia-me sadicamente com as ironias até o limite da paciência. Era o que na época chamávamos de “tirar uma casquinha”, uma molecagem.

A ironia é uma das tantas variações da mesma desistência, a da capacidade de expressar sentidos com as palavras ao pé-da-letra. Mas não uma desistência azeda, o que seria um silêncio lúgubre ou um queixume ranzinza, mas uma desistência bem humorada, leve e despretensiosa. A desistência dos poetas. Daqueles que preferem abrir mão do rigor da comunicação para não terem que ficar sem o prazer da comunhão. Já que nunca consigo traduzir tudo o que sinto e penso em palavras descritivas, divirto-me com as aproximações das metáforas. Modestas, mas cheias de beleza. Tão sugestivas, insinuantes e provocativas. Às vezes, os poetas exageram de tão felizes e se satisfazem apenas com o som das palavras, não dizem quase nada, mas tocam em quase tudo. Tão viçosas e livres dos caixotes semânticos.

sábado, 27 de agosto de 2011

Eu creio na dúvida

Por Osvaldo Luiz Ribeiro, biblista e exegeta.

O título que este artigo leva não deve ser lido como se quisesse dizer “na dúvida, (então) eu creio”. Se quisesse ser lido assim, teria sido escrito assim: “Na dúvida, eu creio”. Se este fosse o título do artigo, escrito assim, então eu estaria dizendo que, na dúvida, é melhor crer. Dizendo isso, isso que eu dissesse poderia ser aplicado a uma série de situações e, principalmente àquela que se costuma remontar à Pascal, da tal aposta. Dois sujeitos comparam suas “fés”, uma, a de um cristão, a outra, não. Se por acaso o não cristão está certo, e daí? Que mal haverá passado, por ser cristão, o cristão? Nenhum, pelo contrário. Mas e se

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Na mesma moeda

Por Paulo Brabo, escritor.

(...)

Por motivos que terei de abordar em outra ocasião, os cristãos evangélicos fogem do COMUNISMO mais do que o diabo da cruz; dito de outra forma, fogem mais do COMUNISMO do que do diabo, e tendem também a substituir um pelo outro.

O capitalismo de certa forma sempre existiu, sendo devidamente denunciado por todos os profetas, até Jesus (na linguagem dele “vem fácil vai fácil” escreve-se “de graça recebestes, de graça dai”) e depois. O mérito de Marx está em que ele expôs claramente o mecanismo econômico da exploração: demonstrou que no capitalismo todos trabalham um preciso tanto a mais do que deveriam se trabalhassem apenas para merecer o que ganham. Essa “contribuição extra”, essa mais-valia, serve para sustentar o sujeito posicionado acima de cada um na Grande

quarta-feira, 22 de junho de 2011

União gay: tem juiz e deputado precisando de carinho

Por Leonardo Sakamoto, jornalista e cientista político

Detesto fazer cobranças de apostas em público – até porque o jogo é (oficialmente) ilegal no Brasil – mas gostaria de pedir para separarem meu engradado de suco de manga. Banquei que algum espertinho no Congresso Nacional, de alguma bancada ligada à religião, ia contestar, em menos de um mês, a decisão do Supremo Tribunal Federal que reconheceu a união estável homoafetiva no último dia 5. E eis que João Campos (PSDB-GO) vai tentar no Parlamento derrubar a decisão dos ministros. Seu pedido foi apresentado em nome da Frente Parlamentar Evangélica.

Não me orgulho em ganhar as garrafinhas, pelo contrário. Preferiria pagá-las mil vezes a ter que ler notícias desse naipe. E olha que já tinha dobrado a dose de Omeprazol desde que, na última sexta, o juiz Jerônymo Pedro Villas Boas anulou uma união estável celebrada entre dois homens e proibiu registros desse tipo em qualquer cartório de Goiânia. O STF terá que, agora, se reunir de novo para fazer valer seu entendimento.

A preguiça que tenho desse pessoal é de um tamanho que vocês não imaginam. Isso sem contar a ação abnegada dos auto-intitulados representantes das forças do universo aqui na Terra para travar a legislação que tornaria crime a homofobia. Querem ter o direito de continuar dizendo que “ser viado é coisa do diabo e, por isso, precisa ser extirpado a todo o custo”, como bem me explicou um ex-comentarista deste blog tempos atrás.

Ah, mas você é cientista político e não defende a separação de poderes e não critica quando a Justiça usurpa a função que deveria ser dos eleitos democraticamente para isso? Sim e não. O país tem uma Constituição que garante direitos iguais para todos, mas no vácuo da inação do Parlamento de efetivar esses mesmos direitos, a Suprema Corte, instada a partir de casos reais sobre dúvidas reais que não podem esperar, deve sim se manifestar. Se algum nobre político reclamar que isso soa como um atestado de incompetência do Congresso, ótimo. Pegue uma senha e entre na fila.

Um casal gay não pode ficar no limbo da cidadania só porque alguém acredita que uma força sobrenatural não gosta de duas pessoas que se amam independentemente se têm pinto ou vagina. Tenho certeza que Deus – se existe – deve tomar Frontal nessas horas para aguentar os argumentos dessa turminha. De certa forma, ele está acostumado, pois é uma forma de Inquisição. Com os evangélicos tendo aprendido bem o modus operandi católico.

“E o meu direito à liberdade de expressão, de poder reclamar dos gays? Você não defende essa liberdade para os maconheiros que marcham?” Desculpe, mas se você está usando esse argumento, peço encarecidamente que procure outro blog. Vai. Mas vai mesmo e não olha para trás para não virar estátua de sal, ok? Não pela sua opinião, que por mais bizarra que seja é sempre bem-vinda neste amável circo, mas pela incapacidade de entender o que estamos discutindo aqui há anos. Que por nascerem seres humanos, todos compartilham do direito à dignidade, que precisa ser garantida a todo o custo e acima de qualquer coisa. Obrigação do Estado que, lembremos, é (ou deveria ser) laico, defendendo a liberdade de culto, mas protegendo as minorias do absolutismo bisonho dos Torquemadas contemporâneos.

Tanto o nobre magistrado quanto o excelentíssimo deputado não lograrão êxito em suas buscas pelas trevas, pela desigualdade e a intolerância. Toda ação gera uma reação, já diria São Newton. Isso já era de se esperar e não irá abalar a decisão. Mas vale lembrar que o dois não são casos únicos, mas representam uma parcela da sociedade que ficou com sangue nos olhos com a decisão do STF. Não digeriram ainda o que aconteceu e devem vomitar por um bom tempo uma série de tentativas de voltar atrás, alimentando o querido Festival de Besteiras que Assola o País, lembrando nosso saudoso Stanislaw Ponte Preta/Sérgio Porto.

Enquanto isso, o que fazemos? Simples, tratamos esse povo como a mesma complacência com a qual se trata uma criança que não entendeu ainda que não pode machucar o amiguinho só porque ele é diferente. Educando, com amor e carinho, um dia vão entender.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Mártires ou overdose

Por Nilton Bonder, rabino e escritor.

Quando os judeus pelo mundo afora se reúnem para celebrar a Páscoa, o Pessach, há dor e constrangimento. Há dor pela violência sofrida e constrangimento pela violência perpetrada. O aspecto mais difícil é relembrar o êxodo dos hebreus no antigo Egito em meio à luta do povo palestino por autodeterminação. Falar sobre a obrigação de respeito ao estrangeiro ("por que estrangeiro fostes na casa do Egito") e ensinar os filhos sobre a liberdade como um direito inalienável do ser humano gera, no mínimo, questionamentos.

Há, no entanto, uma importante reflexão para aqueles que se sublevam e rejeitam a opressão do status quo. O Êxodo em direção à terra prometida não acontece por meio de revolução, mas resolução. A lógica das revoluções é uma rotação brusca e triunfal sobre uma condição. A resolução, por sua vez, é uma determinação que produz um processo que transforma a realidade. É isso que os hebreus conheceram a 3000 anos e reviveram há 50 anos com o Estado de Israel.

As revoluções buscam transformações radicais, vias de regra violentas. Repletas de causa, manifestam a vitalidade da juventude e, ao mesmo tempo, a imaturidade da adolescência. Quem participou de revoluções conhece a glória das causas e o vazio profundo deixado por seus custos. A violência pode parecer um recurso eficiente, mas ela é traiçoeira, pois faz mudar de mãos a "causa" toda a vez que é utilizada.

No ritual dos judeus, em momento imortalizado por Jesus na última ceia, o partir do pão ázimo produz invariavelmente dois pedaços desiguais. Este pão representativo da "pobreza" humana, fala contundentemente da desigualdade. O universo não é simétrico. Irmãos aprendem isso dentro de suas próprias casas. Mesmo o amor materno produz sentimentos de profunda desigualdade e injustiça. Suportar a assimetria do mundo é parte do crescimento do ser humano. Nosso único poder de interferência nessa faceta da realidade é através de processos e não de mudanças bruscas e radicais. Gerar uma realidade mais simétrica é tanto sonho como esforço milenar da humanidade.

Os pais têm como tarefa maior ajudar seus filhos a mediar entre a realidade e estes sentimentos de injustiça. Ensiná-los a não se deixar seduzir pelas ilusões da juventude amplia suas chances de sobrevivência. Quando os pais não fazem isso, seus filhos tornam-se presa fácil para os "traficantes". Afinal as injustiças do mundo são iscas poderosas. Elas arrebatam milhares de jovens em torno da luta por ideais e não é tão estranho que jovens queiram ser "mártires". Ser mártir é chamar para si a atenção da mãe, é cativar a fantasia de virgens, não no paraíso, mas aqui mesmo na terra.

Os adolescentes-bomba da palestina ou mesmo os "bravos" guerreiros da Al-Qaida não estão morrendo como mártires, estão morrendo de overdose. Não é a toa que a religião é muitas vezes apontada como o ópio do povo. Pode ser uma droga e em excesso ela mata. A patologia mais do que a ideologia se faz presente nestes mártires que não morrem, mas se matam. E quando alguém se mata está querendo provar algo para os seus, algo que não é coletivo ou nacional, mas algo pessoal. E a violência põe seus ovos nestes vazios, em particular nestes vazios da juventude.

Triste é ver mães e pais celebrando o ato heróico de seus filhos. A realidade dramática de ver pais regozijando-se na overdose de seus filhos quando desesperadamente tentam ocultar sob bandeiras e símbolos pátrios a culpa dos vazios que geram tanta violência.

Este ato derradeiro de brincar de Deus, de poder olhar nos olhos das pessoas e escolher quem você irá matar: seja a bela jovem que você sempre quis e de quem não obteve atenção, seja uma família que inspira a sensação de nunca poder desfrutar de tanto calor. Os vazios contêm as violências. Como uma dengue espiritual o mundo precisa de um mutirão. A dengue espiritual está na casa de cada um. Erradicar os vazios onde as larvas se proliferam é a missão da maior das revoluções - estabelecer processos e não soluções impostas, em particular pela violência. É preciso mais coragem para lidar com as assimetrias da vida do que para estourar-se sob a ilusão de que a simetria será alcançada.

O ritual judaico do Pessach termina com uma canção-depoimento. Ela fala do ciclo de violência e sua infindável cadeia. "Meu pai tinha um cabrito, veio gato e o comeu, e veio o cão e dilacerou o gato, e veio o bastão e espancou o cão, e veio o fogo e consumiu o bastão, e veio a água e apagou o fogo, e veio o boi e bebeu a água, e veio o açougueiro e sacrificou o boi, e veio o anjo da morte e deu fim ao açougueiro".

Deter esse ciclo absurdo que está gerando listagens não de mártires, mas de overdoses, é prioritário. Não significa não usar a força, seja a força da opinião pública, seja a força da verdade ou seja a força da luta, desde que não se esconda no vazio e na dor de sua juventude. Talvez esteja também na força da imaginação. Foi com ela que o rabino Wolfe Blank refez a canção: "e veio o gato e miou para o cabrito, e veio o cão e brincou com o gato, e o bastão batucou para o cão, e veio o fogo e dançou para o bastão, e a água acalmou o coração agitado do fogo, e veio o boi e banhou-se na água, e veio o açougueiro e fez uma massagem no boi, e veio o anjo da transformação e gentilmente ajudou o açougueiro a compreender sua finitude e fazer a transição tão sonhada para outra profissão".

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Deus não é cristão

Por Desmond Tutu, Bispo Anglicano e Nobel da Paz de '84.
* Este texto faz parte de seu novo livro 'God Is Not A Christian: And Other Provocations'

Conta-se a história de um bêbado que atravessou a rua e abordou um homem que estava na calçada, perguntando: “Me diz aí, qual é o outro lado da rua?” O homem, um tanto perplexo, respondeu: “Esse lado, é claro!” O bêbado disse: “Estranho. Quando estava do outro lado, me disseram que era aquele”. Descobrir qual é “o outro lado da rua” depende de onde estamos. Nossa perspectiva muda dependendo do nosso contexto e das coisas que nos ajudado a formar nossa opinião. A religião é uma dos mais poderosas influências formativas, ajudando-nos a determinar como e o que apreendemos sobre a realidade e como agimos em nosso próprio contexto.

Meu primeiro ponto parece extraordinariamente simples: a maneira e o lugar onde nascemos determina em grande parte a qual fé nós pertencemos. As chances são muito grandes de que alguém que nasceu no Paquistão seja muçulmano; os nascidos na Índia mais provavelmente serão hindus; xintoísta, se nascer no Japão, e cristão se nascer na Itália. Eu não sei qual conclusão significativa podemos chegar ao pensar sobre isso – talvez que não devamos sucumbir facilmente à tentação de fazer reivindicações de exclusividade e ter um monopólio dogmático da verdade de nossa fé particular. Você poderia facilmente ser um adepto da fé que procura agora denegrir, pelo simples fato de que você nasceu neste país e não em outro.

O segundo ponto é este: não insulte os membros de outras religiões, como muitas vezes acontece, por você ser cristão acaba sugerindo que os adeptos de outras crenças na verdade são cristãos, mesmo sem saber disso. Devemos reconhecê-los pelo que eles são e com suas crenças conscientemente estabelecidas. Devemos acolhê-los e respeitá-los, como são e andar com reverência no solo sagrado deles, tirando nossos sapatos, metafórica e literalmente. Devemos nos apegar tenazmente às nossas crenças particulares, não fingindo que todas as religiões são iguais, pois elas evidentemente não são a mesma coisa. Devemos estar dispostos a aprender uns com os outros, não alegando que somente nós possuímos toda a verdade e que de alguma forma explicamos completamente a Deus.

Devemos reconhecer com humildade e alegria que a realidade divina e sobrenatural de toda forma de culto, de uma maneira ou outra, transcende todas as nossas categorias de pensamento e imaginação. Isso ocorre porque o divino – independentemente da sua designação – é infinito e nós sempre seremos finitos, sem jamais compreendermos totalmente o divino. Portanto, devemos compartilhar todos os conhecimentos que possuímos e, ao mesmo tempo, estar dispostos a aprender, por exemplo, perspectivas sobre a vida espiritual que fazem parte das outras religiões. É interessante notar que a maioria das religiões têm um ponto de referência transcendente, um mysterium tremendum, que pode ser conhecido pois se dignou a revelar-se para a humanidade. A realidade transcendente é compassiva e tem sentimentos. Os seres humanos são criaturas da supra-realidade mundana atual, com um destino que anseia, de alguma forma, por uma vida eterna em estreita ligação com o divino, sem distinção entre a criatura e o criador, entre o divino e o humano, ou em uma intimidade maravilhosa que ainda mantém a distinção entre essas duas formas de realidade.

Quando lemos os clássicos de várias religiões no tocante à oração, meditação e misticismo, encontramos uma convergência substancial, e isso é algo que deveria nos alegrar. Nós já temos o suficiente para o que conspira para nos separar, vamos celebrar o que nos une, o que temos em comum.

Certamente é bom saber que Deus criou a todos (não apenas os cristãos) à sua imagem, investindo em todos nós um valor infinito, e que foi com toda a humanidade que Deus entrou em um relacionamento de aliança. Na aliança com Noé, Deus prometeu que não destruiria sua criação novamente com água. Certamente podemos nos alegrar de que a palavra eterna, o Logos de Deus, ilumina a todos – não apenas os cristãos – que vêm ao mundo. O que chamamos de Espírito de Deus não é propriedade dos cristãos, pois existia muito antes que houvesse cristãos, inspirando e nutrindo as mulheres e os homens nos caminhos da santidade, trazendo-os à fruição, o que cada um tem de melhor.

Não fazemos justiça nem honramos o nosso Deus, se quisermos, por exemplo, negar que Mahatma Gandhi foi uma alma verdadeiramente grande, um homem santo que andou com Deus. Nosso Deus seria muito pequeno se ele não fosse também o Deus de Gandhi: se Deus é um só, como acreditamos, então ele é o único Deus de todos os povos, quer o reconheçam como tal ou não. Deus não precisa de nós para protegê-lo. Muitos entre nós talvez tenham a necessidade de ver nossa noção de Deus aprofundada e ampliada. Costuma-se dizer, meio em tom de brincadeira, que Deus criou o homem à sua imagem e o homem devolveu o elogio, sobrecarregando Deus com seus próprios preconceitos, manias e peculiaridades temperamentais. Deus continua sendo Deus, quer tenha adoradores fiéis ou não.

Vamos continuar fazendo nossas reivindicações de Cristo como um ser único e o Salvador do mundo, na esperança que vivamos as nossas crenças de tal maneira que elas nos ajudem a honrar nossa fé de forma eficaz. Contudo, nossa conduta demasiadas vezes está em contradição com o que professamos. Devemos anunciar o Deus do amor, mas somos culpados, como cristãos, de muitas vezes semear ódio e desconfiança. Adoramos Aquele que chamamos de o Príncipe da Paz, e mesmo assim temos travado mais guerras do que gostaríamos de lembrar. Alegamos ser (como Igreja) uma lugar de comunhão, de compaixão, de cuidado e de partilha, mas muitas vezes santificamos sistemas sócio-políticos que contrariam essa ideia, onde os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres ficam cada vez mais pobres, parece que estamos santificando uma competitividade cruel e furiosa que só poderia ser apropriado na selva.

Fonte: Pavablog

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Como nos tempos da inquisição

Por Rogério Martins, na Carta Capital

Após defender o Estado laico e o reconhecimento jurídico da união homoafetiva em entrevista a CartaCapital no fim de abril (clique aqui para ler), o pastor Ricardo Gondim, líder da Igreja Betesda e mestre em teologia pela Universidade Metodista, virou alvo de ferrenhos ataques de grupos evangélicos na internet. Um fiel chegou a dizer, pelo Twitter, que se pudesse “arrancaria a cabeça” do pastor herege. “É como se vivêssemos nos tempos da Inquisição”, comenta Gondim, que já previa uma reação de setores do mainstream evangélico, os movimentos neopentecostais com forte apelo midiático. Surpreendeu-se, no entanto, ao ser informado que, graças às declarações feitas à revista, não poderia mais escrever para uma publicação evangélica na qual é colunista há 20 anos.

“Fui devidamente alertado pelo reverendo Elben Lenz Cesar de que meus posicionamentos expostos para a CartaCapital trariam ainda maior tensão para a revista Ultimato”, escreveu Gondim em seu site pessoal, na sexta-feira 20. “Respeito o corpo editorial da Ultimato por não se sentir confortável com a minha posição sobre os direitos civis dos homossexuais. Todavia, reafirmo minhas palavras: em um Estado laico, a lei não pode marginalizar, excluir ou distinguir como devassos, promíscuos ou pecadores, homens e mulheres que se declaram homoafetivos e buscam constituir relacionamentos estáveis. Minhas convicções teológicas ou pessoais não podem intervir no ordenamento das leis.”

Por telefone, o pastor explicou as razões expostas pela revista evangélica para “descontinuar” a sua coluna, falou sobre as ofensas que sofreu na internet e não demonstrou arrependimento por ter falado à CartaCapital em abril. “A entrevista foi excelente para distinguir algumas coisas. Nem todos os evangélicos pensam como esses grupos midiáticos que confundem preceitos religiosos com ordenamento jurídico e querem impor sua vontade a todos.”

CartaCapital: Qual foi a justificativa dada pela revista Ultimato para descontinuar a sua coluna na publicação?
Ricardo Gondim: Eu escrevi para a Ultimato por 20 anos. Trata-se de uma publicação evangélica bimensal, na qual eu tinha total liberdade para escrever sobre o que quisesse. Não falava apenas da doutrina, mas de muitos assuntos relacionados ao cotidiano evangélico. E nunca sofri qualquer tipo de censura. Mas, agora, eles entenderam que as minhas declarações a CartaCapital eram incompatíveis com o que a Ultimato defende e expuseram três argumentos para justificar a decisão. Eu não concordo com essas teses e, para dar uma satisfação aos leitores, publiquei uma carta de despedida no meu site (www.ricardogondim.com.br).

CC: A defesa dos direitos civis de homossexuais foi um dos aspectos criticados pelo corpo editorial da revista?
RG: Sim. Eles entendem que o apoio à união civil de homossexuais abriria um precedente dentro das igrejas evangélicas para a legitimação do ato em si, a homossexualidade. Tentei explicar que uma coisa é teologia, outra é o ordenamento das leis. Num Estado é laico, não podemos impor preceitos religiosos à toda a sociedade. Uma coisa não transborda para a outra. Dei como exemplo o fato de a Igreja Católica viver muito bem em países que reconhecem juridicamente o divórcio, embora ela condene a prática e se recuse a casar pessoas divorciadas. Eu não fiz uma defesa da homossexualidade, e sim dos direitos dos homossexuais. O direito deve premiar a todos. Num Estado democrático, até mesmo os assassinos têm direitos. Não é porque eles cometeram um crime que possam ser torturados ou agredidos, por exemplo. As igrejas podem ter uma posição contrária à homossexualidade, mas não podem confundir seus preceitos com o ordenamento jurídico do país ou tentar impor sua vontade. Muitos disseram que o Supremo Tribunal Federal tripudiou sobre as igrejas evangélicas ao reconhecer a união estável homoafetiva. Nada disso, o STF estava apenas garantindo os direitos de um segmento da sociedade. Essa é sua função.

CC: Quais foram os outros aspectos criticados?
RG: Eles também criticaram uma passagem da entrevista na qual eu contesto a visão de um Deus títere, controlador da história e da liberdade humana, como se tudo que acontecesse de bom ou ruim fosse por vontade divina e ou tivesse algum significado maior. E apresentaram um argumento risível: o de que a minha tese coloca em xeque a ideia de um Deus soberano. Claro que sim! Deus soberano é uma visão construída na Idade Média, e serviu muito aos interesses de nobres e pessoas do clero que, para justificar seu poder, se colocavam como representantes da vontade divina na terra. Só que essa visão é incompatível com o mundo de hoje. O Estado é laico. As pessoas guiam os seus destinos. Deus não pode ser culpado por uma guerra, por exemplo. Não vejo nisso nenhuma expressão da vontade divina, nem como punição.

CC: O fato de o senhor ter criticado a expansão do movimento evangélico no País também foi destacada?
RG: Sim. Eu fiz um contraponto à tese de que o Brasil ficará melhor com o crescimento da comunidade evangélica. Não acho que é bem assim. Critica-se muito a Europa pelo fato de as igrejas de lá estarem vazias, mas eu não vejo isso como um sinal de decadência. Ao contrário, igreja vazia pode ser sinal do cumprimento de preceitos do protestantismo se os cidadãos estão mais engajados com suas comunidades, dedicados às suas famílias, preocupados com os direitos humanos, vivendo os preceitos do cristianismo no cotidiano. Eu critico essa visão infantilizadora da vida, na qual um evangélico precisa da igreja para tudo e Deus é responsável por tudo o que acontece.

CC: O senhor se arrepende de ter concedido aquela entrevista à CartaCapital?
RG: De maneira alguma. O repórter Gerson Freitas Jr. até conversou comigo, preocupado com a reação que as minhas declarações poderia causar na comunidade evangélica. Mas a entrevista foi excelente para distinguir algumas coisas. Nem todos os evangélicos pensam como esses grupos midiáticos que confundem preceitos religiosos com ordenamento jurídico e querem impor sua vontade a todos. Eu já esperava alguma reação, só não sabia que viria com tanta virulência. Um evangélico chegou a dizer, pelo Twitter, que se pudesse arrancaria a minha cabeça. É como se vivêssemos nos tempos da Inquisição. Recebi inúmeros e-mails com ofensas e mensagens de ódio. Não sei precisar quantos, porque fui deletando na medida em que chegavam à caixa postal. Também surgiram centenas de textos me satanizando em blogs, sites e redes sociais.

CC: E entre os fiéis da sua igreja? Houve algum constrangimento?
RG: Alguns, influenciados pelo bafafá na internet, vieram me questionar. Então fiz questão de dar uma satisfação à minha comunidade. Após discursar, acabei aplaudido de pé, fiquei até meio constrangido diante daquela manifestação de apoio.

- Considerações do Prof. Dr. Osvaldo Luiz Ribeiro -
- sobre a entrevista do Pr. Gondim -

1. Ricardo Gondim concede nova entrevista à Carta Capital, interessada nos desdobramentos, previsíveis, da primeira entrevista. Não apenas foi demitido da Ultimato, mas foi vítima de uma avalanche reacionária de e-mail e manifestações nas redes sociais contra a sua posição: houve quem dissesse que alguém devia arrancar a sua cabeça... Profundo espírito cristão esse!

2. No fundo, a vida cristã constitui uma luta: luta da Bíblia contra a Bíblia. Há tradições bíblicas que são muito violentas. Deus, em muitas narrativas, gosta de sangue, de matar, e não apenas soldados, mas mulheres, crianças, animais, qualquer coisa que respire, e, quando ele manda matar, mate, caso contrário, você é quem morrerá. São narrativas antigas, de uma época, digamos "pré-moral", à moda de Is 45,7 - Yahweh faz a "paz" e a "desgraça", dá a vida e mata, enterra e desenterra. Yahweh é rei: quem há de questionar o rei?

3. Tempos depois, passando pela fase "moral" (persa), Yahweh torna-se "bonzinho", e cria-se um - depois dois, dez, cem, mil - diabo(s) para com isso explicar o que antes se explicava por meio da teologia de um Deus ao mesmo tempo violento e amoroso. O "novo" Yahweh é só bom - mau, agora, é Satanás, logo elevado à categoria de anjo caído e pessoal, já quase (quase?) um deus. No Novo Testamento, aquilo que, à época, se entende por "bom", isso Deus faz. O resto, os diabos.

4. Todavia, está tudo junto na mesma Bíblia, de capa a capa. Sem manual. Lado a lado. Com um pouco de lucidez crítica, você separa bem as coisas. Sempre permanecerá uma faixa um pouco cinza, em que se escrevem coisas que a uns parecerá bom, a outros, mau, mas, na maior parte das narrativas, parece ser coisa fácil discernir entre coisas boas e más. Matar - nunca - é coisa boa. Nem quando é Deus a fazê-lo.

5. Os protestantes, todavia, inventaram uma coisa chamada inerrancia e infalibilidade. Por meio dessa retórica político-religiosa, contralúcida, a Bíblia inteira adquire a mesma dimensão "moral e ética" - "a" e "b" tornam-se a mesma coisa. O que poderia ser lido como "mau" e como "bom" dissolve-se numa teologia sem pé nem cabeça, política, insisto, de controle social. O resultado é que o crente desavisado e o crente de má fé servem-se dessas passagens violentas ao mesmo tempo em que se servem do Sermão do Monte - sem constrangimentos.

6. Ai, quando Gondim fala coisas das quais eles, aqueles crentes desavisados e aqueles de má fé, discordam, sacam com máxima rapidez os textos de violência, do Deus colérico, do Deus que mata, e deixam-se tomar pela "ira santa", crendo que, nessa ira, é Deus e sua santidade quem os toma - quando, sabemos, é a loucura da fé, a irracionalidade hiperbólica da demência religiosa.

7. Não, a religião não é de todo má: mas ela precisa ser educada. Sem educação, sem crítica, sem critérios, sem controle, se Deus baba por sangue, dá-lhe sangue, se Deus quer a cabeça de Gondim, dá-lhe a cabeça de Gondim - e que o Estado não se intrometa nesses assuntos de Deus! Estamos às portas da Igreja Manicômio - se é que algum dia saímos dela.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Nossas soluções

Por Cristovam Buarque, Senador e Professor da UnB

O Brasil é um país de alta criatividade em políticas sociais, com saídas para amenizar, não para mudar a realidade. A criatividade começou na escravidão, ao invés de aboli-la recorremos à Lei do Ventre Livre. Os escravos sexagenários, os velhos, eram libertados, um eufemismo para abandonados. Até a Abolição da Escravatura aconteceu sem oferecer educação nem terra para os ex-escravos e seus filhos. A Abolição foi um eufemismo para a expulsão dos escravos das fazendas para as favelas.

Modernamente também temos sido campeões de imaginação para soluções parciais.

Como o salário não era suficiente para pagar o transporte do trabalhador até o local de trabalho, ao invés de aumento salarial, criamos o vale-transporte, como se fosse um grande benefício social, quando, na verdade, foi um serviço à economia: garantir a presença do trabalhador na fábrica. A regra é a mesma para o vale-refeição. O salário não era suficiente para assegurar a alimentação mínima de um trabalhador, então a solução foi garantir a alimentação do trabalhador, mesmo que suas famílias continuassem sem comida.

Quando a inflação ficou endêmica, ao invés de combatê-la (só enfrentada em 1994), criou-se a correção monetária, que garantia moeda estável para quem tivesse acesso às artimanhas do mercado financeiro, enquanto o povo continuava com seus salários cada vez mais desvalorizados.

Hoje, quando o país vive um apagão de mão de obra qualificada, corremos para fazer escolas técnicas, esquecendo que sem o ensino fundamental os alunos não terão condições de aproveitar os cursos profissionalizantes.

A Bolsa Escola foi criada para revolucionar a escola. Como isso não foi feito, ela se transformou na Bolsa Família, sendo mais uma das soluções compensatórias agregada ao vale-alimentação e vale-gás.

As universidades boas e gratuitas são reservadas para os que podem pagar escolas privadas no ensino básico. No lugar de fazer boas escolas para todos, criamos o PROUNI e cotas para negros e índios. O Brasil melhora com essas medidas, mas não enfrenta o problema e acomoda a população, como se agora todos já fossem iguais. Promovem-se benefícios com soluções provisórias, como se elas resolvessem o problema.

A solução adiada seria uma revolução que assegurasse escola de qualidade para todas as crianças, em um programa que se espalharia pelo país, onde todas as escolas fossem federais, como o Colégio Pedro II, as escolas técnicas militares, os colégios de aplicação das universidades.

Quando a desigualdade social força a separação entre pobres e ricos que se estranham, ao invés de superar a desigualdade constroem-se muros em shoppings e condomínios, separando as classes sociais. Para impedir a convivência de classes, impedimos estações de metrô em bairros ricos, o que mostra um total desinteresse desses habitantes pelo transporte público.

Falta professor de Física, retira-se Física do currículo escolar. Os alunos não aprendem, adotamos a progressão automática. O Congresso não funciona, o STF passa a legislar. A população fala Português errado, em vez de ensinar o correto a todos legitimamos a fala errada para a parte da população sem acesso à educação. Adotamos dois idiomas: o Português dos ricos educados e o Português dos pobres sem educação; o Português dos condomínios e o Português das ruas. Ao invés de combater o preconceito e a desigualdade, legalizamos a desigualdade.

Ao invés de fazer as mudanças da estrutura para construir um sistema social eficiente, equilibrado, integrado e justo optamos por simples lubrificantes das engrenagens desencontradas da sociedade. Nossas soluções podem até ser criativas, mas são burras e injustas. É a sociedade acomodando suas deficiências. Ao invés de enfrentar e resolver os problemas, nossa criatividade ajusta a sociedade a conviver com eles. E adia e agrava os problemas porque ilude a mente e acomoda a política.

Fonte: PDT Senado

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A fotossíntese da fé e o estranho evangelho hidropônico gospel

Por Tom Fernandes

Todos nós que um dia passamos pelas séries iniciais da escola temos o ciclo da fotossíntese gravado como tatuagem em nossas lembranças de infância. Pois, mesmo assim, permita-me recordá-lo: fotossíntese é isto.

Resumindo [já que você não acessou o link da Wikipédia mesmo]: Seria a fotossíntese algo além de uma planta usar da luz solar e da água para transformar um gás poluente e perigoso como o gás carbônico em oxigênio essencial para a vida alheia e ainda alimentar a planta com sais minerais presentes no chão, na terra, no húmus? [Sim, o processo está muito simplificado, mas farei uma simples analogia, não um tratado ponto-a-ponto da coisa. Sigamos]

Ora, o que é a caminhada na vida cristã além de uma metáfora metafísica desse surpreendente processo vegetal?

Vejo na jornada da fé cristã [aquela uma proposta pelo Jesus Nazareno] um processo semelhante. Se não é a fé cristã usar de dúvidas, questionamentos, incertezas, terríveis vagos nas páginas do nosso manual da vida para, junto com a luz vinda do Filho do Homem, junto com a água que mata toda a sede, se não é a fé cristã usar tais dúvidas para gerar vida, e vida em abundância, o que mais seria?

Nisso, vejo um grave problema com a atual cultura, ou agricultura, evangélica. Se Jesus foi ao mundo, pisou em terra viva, tomou as dores nossas para si; ou seja, se Jesus nos faz a fotossíntese necessária para vivermos, como rejeitar esse processo? Ou pior, como propor um simulacro substitutivo?

Voltemos às analogias. Já ouviu falar em agricultura hidropônica, ou hidroponia? É um simulacro científico da agricultura em terra, é um experimento científico, controlado e metódico que pretende gerar vida em ambiente esterilizado, livre de germes, bactérias e outros micro-organismos da mesma monta. Pior, é agricultura sem chão, sem terra, sem minhocas e cheiro de mato. É uma coisa estéril, fria, repetitiva, com alfaces de folhas iguais, com tomates todos redondinhos, meigos e de coloração, com moranguinhos docinhos e limpinhos.

Já comeu um tomate hidropônico? Vá à papelaria mais próxima e morda uma farta placa de isopor. O gosto será o mesmo, acredite. A tal agricultura hidropônica cria vegetais de granja, numa metáfora fácil. É um simulacro, é uma reprodução fajuta de algo vivo, bom e agradável.

O que nos leva ao final da metáfora: estão fazendo o mesmo com a fé cristã nas igrejas evangélicas brasileiras. Em vez de uma fotossíntese completa, propõem um evangelho igualmente estéril, sem chão, sem terra, sem húmus; um evangelho limpinho e bonitinho, boas novas de reality show, com um monte de regras e um ser que tudo vê destemperado e louco para, ao menor deslize, nos eliminar da casa e nos mandar ao inferno dos desviados e rebeldes.

Os evangélicos morrem de medo de se contaminar de mundo, de chão, de terra. Querem ser sal diet, que não aumenta a pressão, mas também não salga, não conserva, não afasta a podridão; querem ser luz halogênica, que não de desgasta, não consome energia, mas, em compensação, não arde, não queima, não aquece, não incomoda.

Vivem os evangélicos hoje de máscaras [com todos os trocadilhos possíveis], vivem de luvas cirúrgicas e germicidas, álcool gel e antibióticos enquanto, de agricultores da vida, se tornam cientistas do cultivo suspenso, da cultura esterilizada, da agricultura hidropônica.

Ah, mas é o fim dos vermes, das larvas, das doenças e pragas na lavoura. É o fim do joio misturado ao trigo. Não, não é. Ou melhor, é. Mas, tirando as intempéries, os percalços, os ataques, tiram a força, a resistência, o crescimento vigoroso. Hoje, as igrejas evangélicas geram tomates bobões, babões e bundões. Geram abobrinhas, alfaces sem gosto, frutos sem sabor. Geram um simulacro e, pior, geram em pouca monta simulacros a custa de tempo, esforços e recursos suficientes para grandes lavouras naturais, para verdadeiros alimentos serem produzidos, vivos, sadios e saborosos.

Por fim, sinto pena de ver tanta gente cultivando feijões em algodão e crendo que são ceifeiros, mais pena sinto dos frágeis brotos estéreis, sem vida, sem chão, sem história, sem caminhada. São frutos em estufas, em bolhas de contenção, em redomas de vidro sem contato com nada e sem chance de crescer e se multiplicar. Esqueceram-se das palavras do Rabi: O reino dos céus é semelhante ao homem que semeia a boa semente no seu campo (Mateus 13.24).

[texto dedicado a Ricardo Gondim, cujos livros e textos com cheiro de terra e chuva me encheram de dúvidas, tiraram todas as minhas certezas e me levaram a uma fé cristã cristalina]