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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O fim da era de Gutenberg

Em entrevista, professor Thomas Pettitt defende que novas mídias levam humanidade de volta à era pré-Gutenberg, da cultura oral.
Por Fernanda Godoy.

NOVA YORK - Thomas Pettitt tem provocado discussão nos meios acadêmicos ao afirmar que a Humanidade está voltando à cultura de transmissão oral de informação e conhecimento, tornando a época da imprensa escrita e dos livros apenas um parêntese na História. Professor de história da cultura na Universidade do Sul da Dinamarca, ele construiu a Teoria do Parêntese de Gutenberg para analisar uma época que teria começado com a invenção da prensa, no século XV, e terminado com a era da mídia eletrônica. "Estamos caminhando para um futuro pós-imprensa", disse ele, para mais adiante acrescentar: "Alguém pode receber uma mensagem escrita quase tão rapidamente como se estivesse falando com a pessoa. É como se estivéssemos falando pelos dedos".

quarta-feira, 27 de abril de 2011

A Insegurança das Identidades Sob Ataque

Por Nilton Bonder, rabino e escritor.

O Eclesiastes diz que há um tempo para tudo, tempo de alegria, tempo de tristeza, tempo de paz e tempo de guerra. É muito possível que, quando ele foi escrito, o mundo vivesse um momento em que realmente a situação se assemelhasse a nossa experiência contemporânea.

Nos anos 90 vivemos com a nítida sensação de que o período de paz experimentado, ou os processos de pacificação que se estabeleceram, representava o início de uma definitiva forma de convivência pacífica. Estaríamos iniciando o tão esperado e milenarmente sonhado futuro de harmonia, justiça e paz. Somos então surpreendidos por tempos de guerra como se isso fosse realmente um destino sobre o qual não temos nenhum poder. A guerra seria como a chuva. Nossa sensação de impotência diante de tempos disso ou tempos daquilo pareceria fazer-nos fantoches da realidade.

Mas eu tenho a impressão que o Eclesiastes estava falando de uma outra coisa. Não se trata de resignação ou de uma proposta reacionária, mas algo similar ao que Morin nos diz ao falar que "não temos para onde ir". Isso porque o refrão marcante e chocante deste livro diz: Não há nada novo sob o sol.

À primeira vista esta frase parece extremamente pessimista: não podemos fazer nada; tudo vai ser igual; geração vem, geração vai os seres humanos são prisioneiros de uma natureza humana da qual não tem como "sair desse lugar". De certa maneira, mais do que nos percebermos como parte Gaia, de um planeta onde temos que conviver porque não temos para onde ir, compartilhamos mais do que tempo e espaço, compartilhamos naturezas.

Vivemos mais que no mesmo local cósmico, somos conterrâneos de essência. Eu acho que é isso que o Eclesiastes está dizendo: temos que lidar com uma estrutura humana que de geração em geração vai precisar de um processo de amadurecimento, vai precisar de uma educação para o futuro que não virá pronta, geneticamente feita. O bebê que, como o cachorro, identifica o outro como um igual, é o mesmo bebê capaz de grandes violências em disputas por posse ou atenção, e será este o bebê do futuro.

As diferenças do que experimentamos hoje não têm a ver com transformações de nossa natureza. Tem a ver com a maior compreensão e o aumento de recursos para que possamos promover nosso amadurecimento pessoal e coletivo. Um amadurecimento que sempre será um processo no qual teremos não só poderes, mas a responsabilidade de intervir. Vamos poder melhorar as condições de nossa civilização, mas mesmo assim teremos tempos de paz e tempos de guerra. Não necessariamente guerras em que a gente pegue avião e jogue bombas, mas guerras travadas dentro de nós mesmos. Seus armistícios serão celebrados pelo amadurecimento de não mais termos que recorrer a métodos infantis de posse, de controle e de triunfo, que hoje, como no passado, vemos tão presente na realidade.

Duas questões em relação ao diálogo me parecem importante compreendermos porque são, por um lado, a razão da existência do fundamentalismo, e, por outro, território eterno de batalhas. Transformar as espadas em arados, como o profeta Isaias sugeriu, é um processo, mas não de transformação da espécie humana e sua natureza.

Muitas vezes queremos viver no espaço da mágica ou da fantasia. Queremos exorcizar de nós o "eu" de que não gostamos, que identificamos como não sendo ideal. Isaias falava, no entanto, de substituir instrumentos de destruição por outros que propiciassem plantio. Referia-se ao processo de criar ferramentas para amadurecer as pessoas extinguindo os instrumentos que infantilizam as pessoas.

Não há dúvidas de que o mais importante instrumento é o diálogo, nos moldes que a professora Lia Diskin coloca: não pessoas em disputa, mas trafegando pelas idéias. A passagem desse diálogo de discórdia, de busca de triunfo para o diálogo verdadeiro se traduziria pela mudança do jargão da "tolerância", que é uma palavra horrível porque dela se infere um consentimento precário, para a idéia de "apreciação". Apreciar significa celebrar juntos e pensar juntos, independentemente de concordância. E este é o campo das "guerras de tempos em tempos" com as quais cada geração terá que lidar.

Há uma reflexão sobre o diálogo entre mestres Chassídicos que elucidam algumas das dificuldades e que ajudam a compreender, ou melhor, apreciar as "batalhas" que para sempre serão travadas. O Rabino de Kotzk dizia: "Se eu sou eu porque você é você, e se você é você porque eu sou eu, então eu não sou eu e você não é você e a gente não tem o que falar. Mas, se eu sou eu porque eu sou eu, e você é você porque você é você, então eu sou eu e você é você e podemos conversar".

O rabino aponta para o fato de que as inseguranças humanas se depositam todas no espaço das interações e das comparações. Quando eu sou eu porque você é você, significa que só consigo ter uma noção de identidade quando me comparo a você. A raiz desta relação de diálogo ou não-diálogo se fundamenta na questão da insegurança; uma insegurança tão profunda que na verdade nos coloca numa existência paralela, de impossibilidade de encontros e nunca poderemos conversar. Para o diálogo não importa se há discórdia ou convergência de idéias, é apenas fundamental que você esteja falando não de um lugar de insegurança, mas de um lugar de identidade, de crença, de visão.

O fenômeno do fundamentalismo em nosso tempo é basicamente produto da insegurança de identidades que se encontram sob ataque, identidades vacilantes e que se valem mais de aspectos daquilo que não são do que de suas próprias raízes e valores. Essa atitude torna as pessoas, as tribos e as identidades enganchadas a quem o outro é.

Vemos aqui nitidamente a batalha por amadurecimento que se trava em nós e que extravasa para a realidade social. Somos muitas vezes crianças transvertidas em adultos e reproduzimos relações sociais e políticas típicas desta infantilidade mascarada. A grande batalha é o fortalecimento das identidades individuais e coletivas para que possa existir mais diálogo - mais instrumentos para tornar espadas em arados. Precisamos fortalecer as culturas e as tradições religiosas para que não se sintam criticadas ou julgadas de fora, mas que elas mesmas possam fazer isso de dentro.

O primeiro passo para este mundo de diálogo é que cada um faça o seu dever de casa, o dever de casa de amadurecimento, de poder realmente desenvolver uma identidade, uma identidade que seja o fruto da sua própria história, produto de sua própria crítica e aperfeiçoamento.

O que nós vemos nas tradições religiosas do Ocidente (não falo do Oriente por sentir-me um leigo no assunto) é, por exemplo, a questão emblemática sobre Jerusalém. Essa briga por Jerusalém é basicamente uma disputa em torno de inseguranças internas das tradições ditas bíblicas. Jerusalém só será Jerusalém se ela for a Jerusalém dos judeus. Ou Jerusalém só será Jerusalém se ela for a Jerusalém dos muçulmanos, ou seja, contanto que não seja a Jerusalém dos judeus, ou então que não seja a Jerusalém dos cristãos.

Os textos sagrados que são matriz da reflexão religiosa, seja o Alcorão seja o Novo Testamento, ou o Antigo Testamento, refletem essa questão da insegurança na identidade. O Antigo Testamento precisa afirmar o quão diferente os hebreus eram da civilização egípcia ou dos povos dos canaãnitas. O Novo Testamento e o Alcorão, por sua vez são marcados por esta visão enganchada. Nestes textos os judeus, por exemplo, se prestam ao papel de um legítimo outro para estas tradições.

No Alcorão, judeus são apresentados como um modelo do "que não se é", mas mesmo que esse judeu seja um judeu simbólico, que não seja o povo judeu, a marca dessa insegurança é evidente. Já no Novo testamento o judeu é apresentado como aquele que você não quer ser, aquele que renega. Encontramos aqui resquícios desse recurso do qual todas as tradições lançam mão, umas mais outras menos, qual seja, a criação de teologias usando o outro para afirmar o que não eram, nitidamente visando fortalecer sua própria identidade.

Enquanto as tradições religiosas não entenderem que elas têm que fazer uma limpeza, livrando nossas identidades de suas inseguranças infundadas, ficará difícil o diálogo verdadeiro e processos de guerras mais internas e menos externas. Todos os líderes, sejam de uma cultura, uma nação ou uma tradição espiritual, têm como obrigação se envolver nesse processo de autodiagnóstico de suas inseguranças e buscar vencê-las com maturidade, distanciando-se de processos infantis de apontar o outro e dizer: "foi ele!".

Uma segunda questão em relação ao diálogo e que raramente paramos para pensar, é um diálogo não entre os que estão aqui na nossa geração, mas o diálogo intergerações e suas violências. Outro dia eu escrevia sobre uma história no Talmud, uma história muito simples, mas que desperta para esta questão. Conta que um rabino comprou uma tâmara tão maravilhosa que impregnava o ambiente com sua fragrância. O filho do rabino entrou na casa e disse: que cheiro fantástico é esse? O pai disse: meu filho essa tâmara é para você. O filho ficou feliz e levou a tâmara. Como viviam na mesma casa o rabino ouviu quando seu filho no outro cômodo disse a seu próprio filho, a seu neto: Veja que tâmara fantástica, é para você! Imediatamente o rabino fez um comentário que reputo importante. Disse ele: "Quando meu filho cedeu a tâmara, por um lado estremeci de tristeza, por outro, fiquei extremamente feliz. Fiquei triste porque ele me preteriu ao seu próprio filho; mas fiquei feliz porque o que ele fez era certo".

Devemos prestar atenção na tensão que existe aqui. O que o rabino fez: ele abre mão de um prazer para possibilitá-lo a seu filho que por sua vez faz o mesmo com o seu filho. O pai se sente traído por que havia aberto mão do prazer, mas não esperava ser preterido pelo neto - para seu filho era mais importante o neto uma vez que privara o pai do prazer da tâmara, propiciando-o a seu filho. Ao mesmo tempo ele se contenta, pois compreende que seus próprios valores estão presentes em seu filho e que este procedeu da mesma maneira que havia feito. Ele reconhece um vetor de preocupação prioritário para com a geração do futuro e não para a geração do passado. Essa é uma tensão extremamente difícil. Quando os pais não elaboram esta tensão em si, como no caso do rabino, eles produzem mensagens contraditórias e extremamente violentas.

Não é simples honrar os diálogos entre gerações. Devemos respeito às gerações anteriores, mas é fundamental que estas gerações anteriores assumam a responsabilidade de uma atitude madura em relação à sua tristeza por ser preterida e ter que, por vezes, abrir mão daquilo que acreditam ser certo. Cabe a essas gerações temperar sua tristeza com a alegria de reconhecer processos que favorecem e renovam as gerações futuras. A exigência de lealdade para com as instituições e os poderes que representam o passado muitas vezes rompem o diálogo com as instâncias que representam o futuro.

Essas duas questões de amadurecimento influenciam a qualidade e a disponibilidade ao diálogo. E ambas as questões aparecem nitidamente no discurso fundamentalista: 1) identificar inimigos para fortalecer sua identidade e 2) promover um vetor de compromisso mais forte do pai para com o avô do que para com o neto.

Há um detalhe nessa questão de maturidade que gostaria de ressaltar. Quando o rabino de Kotzk dizia que "se eu sou eu porque você é você" então eu não posso ser eu e não podemos dialogar, um outro aspecto fica evidente. E outro rabino Chassídico, o Ishbitzer, se preocupou em apontar. Ele dizia o seguinte: se eu sou eu e você não é você, então você não gosta de mim.

Esse é um aspecto da natureza humana e que tange a frustração e a inveja. Quando não estamos bem, qualquer um que esteja bem é o nosso inimigo; qualquer um que esteja com uma identidade fortalecida nos lembra de nossas vulnerabilidades. Muitas vezes se chega a ponto de acreditar que nossa infelicidade é produto deste que nos lembra de nossa insatisfação ou de nossa insegurança. Guerrear com este inimigo externo fica mais fácil do que se defrontar com seus inimigos e fantasmas internos.

Em outras palavras, nossa luta é por propiciar o máximo de instrumentos culturais e tradicionais que visem ao amadurecimento das pessoas. Essa luta será constante. Fazer com que ela seja travada na esfera da educação e não das guerras é o desafio maior para nossa civilização. Haverá momentos mais propícios para que uma geração experimente essa maturidade, haverá outros, sejam no âmbito da sobrevivência ou da continuidade, que serão mais difíceis. Viver é lidar com tempos disso, tempos daquilo. Fantasiar que a vida possa ser uma homeostase, um equilíbrio permanente, é abandonar a própria definição de vida.

De que maneira nós geramos processos que infantilizam as nossas populações? Como engendrar uma educação que vise a este amadurecimento?

As conquistas da civilização, particularmente o avanço científico, que amplia nossa longevidade e nos faz sonhar inconscientemente com a possibilidade da imortalidade, não ajudam a promover este amadurecimento. O mundo fica muito marcado por este aspecto jovial e imaturo que se constrói da perspectiva de um futuro infinito. O jovem e o conquistador têm todos os lugares para ir e todos os prazeres por provar. A grande bênção de saber que não há para onde ir - não porque a Terra é limitada, mas porque somos todos inquilinos temporários da existência - é em si o lugar de encontro com todos esses conterrâneos e contemporâneos, com quem dividimos, acima de tudo, nossa condição finita. Precisamos de uma cultura amadurecida que ensine isso sem morbidez. Ao invés temos, por um lado uma cultura jovial que é uma cultura de consumo, uma cultura imatura que acha que a vida é ilimitada, que os recursos são ilimitados; por outro, uma cultura de anciãos que se sentem muito ameaçados em sua identidade e que não acreditam no que ensinaram a seus filhos. Daí a criação de culturas aprisionadoras ou fundamentalistas.

As ferramentas para esta educação estão hoje mais disponíveis do que nunca. Dispomos da psicanálise que nos traz um melhor conhecimento de nós mesmos, além de entendermos melhor os processos históricos e sociais e dispomos de forma globalizada de toda a herança sapiencial de nossa civilização.

Investir na possibilidade de tornar disponíveis estes instrumentos de amadurecimento a todos os seres humanos, visando as supri-los de recursos materiais e recursos pessoais para seu desenvolvimento parece ser a única chance de diálogo e paz. Só assim promoveremos uma "liberdade tranqüila" independente de se os tempos sejam de tranqüilidade ou adversidade.

segunda-feira, 14 de março de 2011

O impostor

Por Brennan Manning

O impostor vive com medo. (...) Impostores se preocupam com aceitação e aprovação. Por causa da necessidade sufocante de agradar os outros (...) fazem das pessoas, dos projetos e das causas extensões de si, motivados não pelo compromisso pessoal, mas pelo medo de não corresponder às expectativas das pessoas. (...) Para ser aceito e aprovado, o falso 'eu' anula ou disfarça os sentimentos, tornando impossível a honestidade emocional. A sobrevivência do falso 'eu' gera o desejo compulsivo de apresentar uma imagem de perfeição diante do público, de maneira que todos nos admirem e ninguém nos conheça. A vida do impostor se transforma numa montanha russa de júbilo e depressão.

O falso 'eu' se envolve em experiências externas para dispor de uma fonte pessoal de significado. A busca por dinheiro, poder, glamour, proezas sexuais, reconhecimento e status potencializa a autovalorização e cria a ilusão de sucesso. O impostor é aquilo que ele faz.

Durante muitos anos, o desempenho ministerial era um modo de me esconder de meu verdadeiro 'eu'. Criei uma identidade por meio de sermões, livros e histórias que contava. Raciocinava da seguinte maneira: se a maioria dos cristãos tinha um bom juízo a meu respeito, então não havia nada errado comigo. Quanto mais investia no sucesso ministerial, mais real se tornava o impostor.

O impostor nos predispõe a dar importância àquilo que não é importante de fato, revestindo de falso brilho o que é menos substancial e nos afastando do que é real. O falso 'eu' nos faz viver num mundo de ilusões. O impostor é um mentiroso.

(...) A identidade dos impostores não é resultado apenas de suas conquistas, mas também dos relacionamentos interpessoais. Querem ficar bem com pessoas de prestígio porque isso potencializa o currículo e o senso de valor próprio. (...) A triste ironia é que o impostor não sabe o que é ter intimidade em nenhum relacionamento. Seu narcisismo exclui os outros. Incapaz de intimidade consigo, desconectado dos próprios sentimentos, intuições e percepções, o impostor é insensível aos humores, às necessidades e aos sonhos de outras pessoas. Compartilhar alguma coisa é impossível.

O impostor construiu a vida a partir das conquistas, do sucesso, do ativismo e de atividades autocentradas que geram recompensas e elogios dos outros. James Masterson afirmou:

Faz parte da natureza do falso 'eu' nos impedir de conhecer a verdade sobre nós mesmos, de penetrar nas causas profundas de nossa infelicidade, de nos vermos como realmente somos: vuneráveis, medrosos, apavorados e incapazes de deixar que o 'eu' verdadeiro se exponha.

(...) O impostor tem pavor de ficar sozinho. Ele sabe "que se ficar quieto, por dentro e por fora, descobrirá por si que não é nada. Será deixado sem nada além de sua insignificância, e para o falso 'eu' que afirma ser tudo tal descoberta seria a ruína". (...) O falso 'eu' foge do silêncio e da solidão porque o lembram da morte. O autor Parker Palmer afirmou:

Ficar completamente quieto e inalcançável na solidão são dois sinais de que a vida se foi, enquanto a atividade e a comunicação intensa não apenas indicam vida, como também ajudam a esquecer que nossa vida um dia cessará.

O estilo de vida frenético do impostor não tolera a inspeção da morte porque ela o confronta com a verdade insuportável:

Não há qualquer substância sob suas roupas. Você é oco, e sua estrutura de prazer e ambições não tem base sólida. Nelas, você se torna um objeto. Mas todas estão destinadas, por sua própria contingência, a serem destruídas. E quando elas forem, não sobrará nada, além de nudez e vazio, para mostrar que você é seu próprio erro.

(...) O impostor precisa ser tirado de seu esconderijo, assumido e reconhecido. Ele faz parte de meu ser. Tudo o que é negado não pode ser curado. (...) A honestidade e a disposição de subjulgar o falso 'eu' tira do caminho a armadilha do auto-engano.

A paz reside na aceitação da verdade. Qualquer faceta do 'eu' obscuro que nos recusamos a reconhecer torna-se a inimiga e nos força a assumir posturas defensivas. Como Simon Tugwell escreveu:

E os pedaços descartados de nós rapidamente encarnarão naqueles que nos rodeiam. Nem toda hostilidade é decorrente disso, mas é o principal motivo de nossa incapacidade de competir com outras pessoas, pois elas representam exatamente aqueles elementos que nos recusamos a reconhecer.

Quando confrontamos o egoísmo e a estupidez, conhecemos melhor o impostor e, assim, podemos aceitar nossa pobreza e debilidade (...). Odiar o impostor é, na verdade, odiar-se. O impostor e o 'eu' constituem uma pessoa. Menosprezar o impostor abre espaço para hostilidade, que se manifesta numa irritabilidade generalizada - irritação com aquilo que odiamos em nós mesmos e vemos nos outros. Odiar-se sempre gera algum tipo de comportamento auto-destrutivo. (...) Judas não conseguiu encarar a própria sombra; Pedro conseguiu. Pedro reconheceu o impostor dentro de si; Judas enfureceu-se contra o impostor. "O suicídio não acontece num impulso repentino. É um ato ensaiado durante anos de um padrão de comportamento punitivo inconsciente".

Há anos, Carl Jung escreveu:

A auto-aceitação é a essência do problema moral como um todo e epítome de uma perspectiva integral para a vida. Que dou comida aos pobres, que perdôo um insulto, que amo meu inimigo em nome de Cristo - todas essas são, sem dúvida, grandes virtudes. O que faço para o menor dos meus irmãos, o faço para Cristo. Mas, e se descubro que o menor entre todos eles, o mais pobre de todos os mendigos, o mais pervertido de todos os infratores, o próprio inimigo em pessoa - todos estão dentro de mim, e que eu mesmo preciso das esmolas de minha benevolência; que eu mesmo sou o inimigo que precisa ser amado? E aí? Via de regra, nesse caso, revertemos a atitude cristã. Deixa de ser uma questão de amor ou longaminidade. Dizemos ao irmão dentro de nós: 'Raca'. Condenamos e nos enfurecemos contra nós mesmos. Escondemos isso do mundo; nos recusamos até mesmo a admitir que encontramos esse menor entre os menores dentro de nós.

Fonte: O Impostor Que Vive Em Mim, pp.36-49.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Família doa metade de todas as suas posses para caridade

Por Huffington Post. Tradução: Agência Pavanews

Vamos começar assim: sabemos que a decisão de nossa família soa um pouco maluca. Afinal, quantas famílias escutam quando sua filha adolescente insiste em vender sua casa e doar metade do dinheiro para a caridade? Eu admito, nosso projeto parece bobo, impetuoso e talvez até irresponsável.


Mas foi o que fizemos. Um dia, no outono de 2006, estávamos parados em um cruzamento bem próximo de nossa casa em Atlanta. Hanna, nossa filha de 14 anos, notou uma linda Mercedes preta parada à sua direita enquanto um homem miseravelmente vestido pedia comida à sua esquerda. Perceber esse contraste a fez ficar com raiva e depois a incentivou a fazer algo.

Na urgência de Hannah em ajudar a diminuir as disparidades entre o “ter e o não-ter” de nossa sociedade, vendemos a casa de nossos sonhos e mudamos para outra com a metade do tamanho. Passamos também a doar metade dos nossos rendimentos para ajudar pessoas de diferentes partes do planeta.

Agora, três anos e meio depois, estamos eufóricos ao ver os agricultores de Gana que plantavam apenas para sua subsistência transformarem suas vidas. Eles estão saindo da linha de pobreza e alcançando a independência financeira com a ajuda do The Hunger Project [Projeto Fome]. O Hunger é uma ONG de Nova York sem fins lucrativos que ajudamos. Ao mesmo tempo, ficamos maravilhados ao ver como nossa família também mudou.

Há uma pergunta ouvida por nós seguidamente desde que começamos esta jornada: “Entendo que uma garota de 14 anos fique horrorizada com os problemas do mundo e por isso pediu para venderem sua casa… [Normalmente há uma pausa aqui, um velado “Isso pode soar brega”]. Mas, por que vocês, os pais, concordaram fazer isso?”

Minha esposa e eu discutimos essa questão e concluímos que nossas ações são perfeitamente coerente em dois aspectos: o conceito de abundância e a emoção do amor.

Vamos começar com abundância. Durante a vida, é fácil nos encontrarmos olhando o mundo pelas lentes da insuficiência. Por que eu fico sem dinheiro? E se eu não conseguir deixar o suficiente para meus filhos? E se meus colegas tiverem mais coisas do que eu?

Esse tipo de pensamento nos deixa muito enrolados. Eles nos levam a desenvolver uma mentalidade acumulativa – a crença de que poderemos perder tudo aquilo de que não guardamos. Talvez não agora, mas em algum momento sentiremos falta. São o centro de campanhas publicitárias que distorcem a realidade. Lembro-me de um famoso anúncio de uma loja de diamantes: “Ela já sabe que você a ama. Agora todos os outros também saberão”. Será?

Perdemos a noção do que realmente nos faz feliz, substituindo amor pela comunidade e pelos relacionamentos por amor a coisas. Nossa família também estava acostumada a acumular bens, desde carros modernos até a casa dos nossos sonhos, sempre crendo que precisávamos de mais coisas novas para completar nossa vida. Uma mentalidade competitiva, mas de insuficiência, tentando nos equiparar às famílias dos vizinhos de nossa rua, de nosso bairro e assim por diante.

No entanto, o pedido de Hannah paralisou a família naquele dia em 2006, nos forçando a reexaminar nossas motivações e decisões. Começamos a imaginar o quanto era o suficiente para nós. Do que realmente precisávamos? As respostas nos sacudiram. Estávamos cheios de dádivas. Mas Hannah pediu a coisa mais valiosa que tínhamos: nossa casa. Ela era um símbolo de nossa abundância, não de escassez. O mesmo não valia para todo o resto? Nosso tempo, nosso dinheiro, nossas posses. Nós tínhamos muito!

Desde aquele momento, o quanto mais examinamos essa vida abundante, mais compreendemos que todos têm mais do que suficiente em algum aspecto de sua vida. Você passa 6 horas por semana numa rede social como o Facebook? Corte isso pela metade e terá 3 horas para ajudar em uma casa de repouso ou limpar um parque em sua vizinhança. Comer fora 4 vezes por semana? Corte pela metade e invista o que economizou em um sopão para pessoas carentes. Se possível ajude a servir as refeições. Tenha uma vida de abundância, não de escassez.

Isso nos leva a pensar sobre o amor. Como disse antes, vivemos em uma cultura em que amor e consumismo estão entrelaçadas. Amamos nosso carro, amamos nossa TV nova. Amor significa nunca precisar dizer que sente muito não poder comprar para seu filho aquilo que ele queria.

Nossa família estava no centro da tempestade. Se você ama seus filhos, compra para eles aulas de dança, roupas novas, uma bicicleta reluzente. Em nosso caso, compramos a casa de nossos sonhos como expressão subconsciente de nosso amor. Aquela casa espaçosa ofereceria todo o espaço necessário para nossos filhos trazerem seus amigos e talvez até se exibirem um pouco.

Mas algo engraçado aconteceu. Em nossa grande casa, paramos de nos comunicar. Ficávamos espalhados em diferentes lugares, fisicamente e espiritualmente longe uns dos outros. A casa começou a enfraquecer nosso amor, ou pelo menos nossa habilidade de expressar esse amor.

Então, quando nossa filha nos instigou a vendê-la, estava nos empurrando para restaurar nossa comunicação, nossa conexão, nosso amor familiar. Em nossa nova e pequena “meia” casa, vivemos uns com os outros e não mais apenas perto uns dos outros. Interagimos mais, nos empenhamos mais, conversamos mais, debatemos mais, nos tocamos mais e amamos mais.

E mais uma coisa: com o dinheiro que ganhamos com a venda da grande casa, pudemos ajudar a gerar uma nova fonte de esperança para mais de 30.000 pessoas em Gana. É bom saber que todos compartilhamos o planeta e agora essas pessoas acordam pela manhã sabendo que podem oferecer mais oportunidades para seu filhos e netos.

Isso vale mais que o preço da casa.

*Kevin Salwen escreveu junto com sua filha Hannah, The Power of Half: One Family’s Decision to Stop Taking and Start Giving Back [O Poder da Metade: a decisão de uma família em parar de adquirir e começar a dar]. A obra ainda é inédita no Brasil.

Fonte: Pavablog

quinta-feira, 3 de março de 2011

O Mito da Violência Redentora

Por Ron Claassen, tradução de Paulo Roberto Purim

Existirá uma alternativa para a vingança e para a retribuição na resposta a um dano, uma injustiça? Walter Wink (em Engaging the Powers: Discernment and Resistance in a World of Domination) afirma que a resposta preferencial da nossa sociedade é a vingança, aquilo que Wink rotulou de “mito da violência redentora”.

O mito da violência redentora, ele diz, é a crença de que a violência é uma resposta necessária e apropriada e até mesmo curativa, especialmente quando administrada pelo Estado em favor da vítima. Wink salienta que Jesus rejeitou claramente a violência como meio construtivo de responder ao dano ou à injustiça, e ajuda-nos a compreender que há algumas alternativas para a violência.

Uma passagem da escritura que Wink usa para ajudar-nos a compreender que há alternativas para a violência encontra-se no quinto capítulo de Mateus, no qual Jesus diz: “Vocês ouviram o que foi dito, 'olho por olho e dente por dente', mas eu digo a vocês”. Segue-se uma série de declarações que soam terrivelmente irreais e parecem convidar a parte ofendida a tornar-se um verdadeiro “capacho”.

Jesus diz coisas como: “Se alguém bater na sua face direita, ofereça também a outra” e “Se for forçado a carregar um fardo por uma milha, carregue-o por duas” e “Se alguém tomar o seu casaco, dê a ele também a capa”. Então, como isso já não aparentasse passividade suficiente, Jesus acrescenta: “Vocês já ouviram o ditado 'ame seu próximo e odeie o seu inimigo', mas eu digo a vocês “amem os seus inimigos”. Aqui nós sem sombra de dúvida perdemos a sintonia, porque simplesmente não somos capazes de nutrir sentimentos ternos e efusivos por alguém que acaba de cometer uma ofensa séria contra nós.

Então de que forma, quando ofendidos, devemos entender e levar a sério o que Jesus está dizendo? Achei muito útil o esforço de Wink em descrever o contexto em que Jesus está falando, a fim de compreender como Jesus poderia estar querendo que respondêssemos. A mais fácil de explicar das três sugestões “capacho” é a que fala sobre carregar um fardo. O contexto era o seguinte: os soldados da força de ocupação romana freqüentemente carregavam mochilas pesadas, e tinham o costume de obrigar os habitantes locais a carregá-las para eles. Era uma prática degradante e muito incoveniente, e era interpretada como uma injustiça ofensiva pelos habitantes locais. Os soldados, por outro lado, consideravam-no seu “direito”, já que, afinal de contas, eram eles que detinham o “poder”. As autoridades do exército apoiavam o direito dos soldados a essa prática, mas perceberam também que ela deveria ser limitada para não tornar-se “abusiva demais”. Por essa razão impuseram um limite de uma milha para a distância que um soldado podia obrigar um habitante local a carregar a sua mochila.

É portanto nesse contexto que Jesus fez a declaração “Se for forçado a carregar um fardo por uma milha, carregue-o por duas”. Essa deixa então de parecer uma reação “capacho”. De fato, torna-se até um tanto agressiva. É uma reação não violenta e assertiva – e não passiva. Tente imaginar a situação. Creio que seria algo mais ou menos assim: para começar um soldado obriga um habitante local a carregar sua mochila. No final da milha, o soldado pede que o homem devolva o fardo. Mas, de acordo com a sugestão de Jesus, aquele que foi obrigado a carregar a mochila deve simplesmente continuar andando, recusando-se a obedecer a ordem de devolvê-la e sabendo que isso poderia colocar o soldado sob o risco de uma possível punição. A iniciativa foi tomada agora pela vítima, aquele que há pouco havia parecido impotente. Não apenas essa não é uma reação passiva, é muito possível que pudesse tornar-se por sua vez uma reação abusiva. Parece que é por isso que imediatamente depois de sugerir essas reações Jesus diz “amem (agape significando mais literalmente 'sejam construtivos para com') seus inimigos”.

A Justiça Reparadora não deve ser confundida com aprovar, ignorar ou afirmar que é “tudo bem” fazer o que é errado. A Justiça Reparadora precisa desenvolver reações assertivas e construtivas que tragam atenção apropriada para o problema de modo a encorajar o ofensor a reconhecer e aceitar a responsabilidade pela ofensa. Isso feito, as vítimas mostram-se surpreendentemente dispostas a considerar soluções para que a eqüidade possas ser restaurada e acordos sejam realizados para o futuro, a fim de que a injustiça não seja repetida. Se o ofensor aceita a responsabilidade e cumpre os acordos, a confiança cresce e a reconciliação (movimento ao longo de um contínuo que vai de “ódio crescente” a “afeição crescente”) acontece.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Liberdade x Prisão bonita

Por Osho, em 'Coragem - o prazer de viver perigosamente'

Não estou aqui para dar a você algum dogma - o dogma faz com que você tenha certeza. Não estou aqui para dar a você nenhuma promessa para o futuro - nenhuma promessa para o futuro transmite segurança. Estou aqui simplesmente para deixá-lo alerta e consciente - isto é, para ficar aqui agora, com toda incerteza que existe na vida.

Sei que você veio em busca de certeza, de alguma doutrina, algum "ismo", algum lugar ao qual pertencer, alguém em quem confiar. Você está aqui por causa do medo que sente. Está procurando uma espécie de PRISÃO BONITA - de forma que possa viver sem nenhuma consciência.

Eu gostaria de fazer com que você se sentisse ainda mais inseguro, mais incerto - porque é assim que a vida é, é assim que Deus é. Quando há mais insegurança e mais perigo, o único jeito de reagir a isso é apelar para a consciência.

São duas as possibilidades. Ou você fecha os olhos e passa a ser dogmático, vira cristão, hindu ou mulçumano... e aí fica como se fosse um avestruz. Isso não muda a vida; é simplesmente fechar os olhos. Simplesmente faz de você um estúpido, alguém sem inteligência. E nessa sua falta de inteligência, você se sente seguro - todo idiota se sente seguro. Na verdade, só os idiotas se sentem seguros. O homem que está verdadeiramente vivo sempre se sentirá inseguro. Que segurança pode existir?

A vida não é um processo mecânico; não pode ser predeterminada. Ela é um mistério imprevisível. Ninguém sabe o que acontecerá em seguida. Nem Deus, que você acha que mora em algum lugar no sétimo céu; nem mesmo ele - se estiver lá -, nem ele sabe o que vai acontecer! Porque, se ele sabe o vai acontecer, então a vida é só tapeação, tudo é escrito de antemão, é determinado de antemão. Como ele pode saber o que vai acontecer se o futuro está em aberto? Se Deus sabe o que vai acontecer daqui a pouco, então a vida é só um processo mecânico, morto. Então não existe liberdade, e como pode existir vida sem liberdade? Então não há possibilidade de crescer ou não crescer. Se tudo é predestinado, não existe glória nem grandeza. Você é apenas um robô.

Não, nada é seguro. Essa é a minha mensagem. Nada pode ser seguro, porque uma vida segura seria pior do que a morte. Nada é certo. A vida é cheia de incertezas, cheia de surpresas - é aí que está a beleza dela! Você nunca chegará ao ponto em que poderá dizer, "Agora estou certo disso." Quando disser que está certo de alguma coisa, estará simplesmente declarando a própria morte; terá se suicidado.

A vida continua em marcha, com mil e uma incertezas. É aí que está a liberdade dela. Não chame a isso de insegurança.

Eu posso entender por que a mente chama a liberdade de "insegurança". Você já ficou preso numa cela por alguns meses ou anos? Se já ficou numa cela por alguns anos, você sabe que, no dia de ser solto, o prisioneiro começa a sentir uma incerteza quanto ao futuro. Tudo era garantido na cela; tudo não passava de pura rotina. Ele tinha comida, tinha proteção, não tinha  medo de ficar com fome no dia seguinte e de não haver comida - nada disso, tudo era certo. Agora, de repente, depois de muitos anos, o carcereiro vem e diz: "Agora você vai ser solto." Ele começa a tremer. Fora dos muros da prisão, mais uma vez haverá incertezas; mais uma vez ele terá que buscar, procurar; mais uma vez terá que viver em liberdade.

A liberdade dá medo. As pessoas falam sobre a liberdade, mas elas têm medo. E um homem não é homem ainda se ele tem medo da liberdade. Dou a vocês liberdade: não dou segurança. Dou a vocês entendimento; não dou conhecimento. O conhecimento lhes traz certezas. Se posso dar a você a fórmula, uma fórmula pronta, de que existe um Deus, existe um Espírito Santo e existe um único filho bem-amado, Jesus; existe um inferno e um céu e existem as boas ações e as más ações; cometa um pecado e você irá para o inferno, pratique o que eu chamo de atos virtuosos e você irá para o céu - acabou!-, então você tem certezas. É por isso que tantas pessoas optaram por ser cristãos, hindus, muçulmanos, jainistas - elas não querem liberdade, querem fórmulas fixas.

Um homem estava morrendo - de repente, num acidente de estrada. Ninguém sabia que ele era judeu, então chamaram um padre, um padre católico. Ele se curvou bem próximo ao homem- e o homem estava morrendo, nos últimos estertores da morte - e disse:

- Você acredita na Trindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo e em seu filho Jesus?
- Veja só! - respondeu o homem, abrindo os olhos-, eu aqui morrendo e ele fazendo charadas!

Quando a morte bater à sua porta, todas as certezas serão simplesmente charadas e tolices. Não se apegue a nenhuma certeza. A vida é incerteza - sua própria natureza é incerta. E um homem inteligente nunca tem certeza de nada.

A própria disposição para permanecer na incerteza é coragem. A própria disposição para ficar na incerteza é confiança. A pessoa inteligente é aquela que está sempre alerta, não importa a situação - e a enfrenta com todo seu coração. Não que ela saiba o que vai acontecer, não que ela saiba, "Faça isso e acontecerá aquilo." A vida não é uma ciência; não é uma cadeia de causas e efeitos. Aqueça a água a cem graus e ela evapora - isso é uma certeza. Mas na vida real, nada é certo como isso.

Cada pessoa é uma liberdade, uma liberdade desconhecida. É impossível predizer, impossível fazer conjecturas. É preciso viver na consciência e no entendimento.

Você vem até mim em busca de conhecimento; quer fórmulas prontas para que possa se agarrar a elas. Eu não dou nenhuma. Na verdade, se você tiver alguma, eu a tiro de você! Pouco a pouco, destruo sua certeza; pouco a pouco, faço com que você fique cada vez mais hesitante; pouco a pouco deixo-o cada vez mais inseguro. Essa é a única coisa que tem de ser feita. Essa é a única coisa que um Mestre precisa fazer! - deixá-lo em total liberdade. Em total liberdade, com todas as possibilidades em aberto, com nada pré-fixado... você terá que ficar consciente - não existe outra possibilidade.

Isso é o que eu chamo de entendimento. Se você entender isso, a insegurança passa a ser uma parte intrínseca da vida - e é bom que seja assim, porque faz da vida uma liberdade, faz da vida uma contínua surpresa. Nunca se sabe o que vai acontecer. Isso faz com que você viva em constante assombro. Não chame de incerteza - chame de assombro. Não chame de insegurança - chame de liberdade.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Carta pela Compaixão

O princípio da compaixão é o cerne de todas as tradições religiosas, éticas e espirituais, nos conclamando sempre a tratar todos os outros da mesma maneira como gostaríamos de ser tratados. A compaixão nos impele a trabalhar incessantemente com o intuito de aliviarmos o sofrimento do nosso próximo, o que inclui todas as criaturas, de nos destronarmos do centro do nosso mundo e, no lugar, colocar os outros, e de honrarmos a santidade inviolável de todo ser humano, tratando todas as pessoas, sem exceção, com absoluta justiça, eqüidade e respeito.

É necessário também, tanto na vida pública como na vida privada, nos abstermos, de forma consistente e empática, de inligir dor. Agir ou falar de maneira violenta devido a maldade, chauvinismo ou interesse próprio a im de depauperar, explorar ou negar direitos básicos a alguém e incitar o ódio ao denegrir os outros - mesmo os nossos inimigos - é uma negação da nossa humanidade em comum. Reconhecemos que falhamos na tentativa de viver de forma compassiva e que alguns de nós até mesmo aumentaram a soma da miséria humana em nome da religião.

Portanto, conclamamos todos os homens e mulheres ~ a restaurar a compaixão ao centro da moralidade e da religião ~ a retornar ao antigo princípio de que é ilegítima qualquer interpretação das escrituras que gere ódio, violência ou desprezo ~ garantir que os jovens recebam informações exatas e respeitosas a respeito de outras tradições, religiões e culturas ~ incentivar uma apreciação positiva da diversidade religiosa e cultural ~ cultivar uma empatia bem-informada pelo sofrimento de todos os seres humanos - mesmo daqueles considerados inimigos

É urgente que façamos da compaixão uma força clara, luminosa e dinâmica no nosso mundo polarizado. Com raízes em uma determinação de princípios de transcender o egoísmo, a compaixão pode quebrar barreiras políticas, dogmáticas, ideológicas e religiosas. Nascida da nossa profunda interdependência, a compaixão é essencial para os relacionamentos humanos e para uma humanidade realizada. É o caminho para a iluminação e é indispensável para a criação de uma economia justa e de uma comunidade global pacífica.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

‘Alguns choravam’, diz pastor que negociou rendição de traficantes

Evangélico que acompanhou líder do AfroReggae no Complexo do Alemão defende anistia como forma de resolver confrontos no Rio
Por Flávia Salme, iG Rio de Janeiro | 01/12/2010 04:51

Na véspera da invasão da polícia ao Complexo do Alemão, um grupo de cinco pessoas da ONG AfroReggae decidiu subir o conjunto de 14 favelas na Penha, zona norte do Rio de Janeiro, e tentar convencer os traficantes a se entregarem. Liderados pelo diretor-executivo da organização, José Junior, eles argumentaram que a polícia venceria um possível confronto e que inocentes seriam as maiores vítimas. Ao lado de Junior estava um dos coordenadores da área social da entidade, Rogério Menezes, respeitado por traficantes, viciados e detentos do sistema penitenciário do Estado.

Evangelizador da Assembleia de Deus, Rogério é chamado de pastor. Em meio à negociação com os criminosos, no sábado (27), José Junior recorria ao Twitter para mandar informações em tempo real. "Pastor Rogério é o cara que mais salvou vidas que eu conheço. Muitas, inclusive, na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão. Homem de Deus", escreveu o líder do AfroReggae na ocasião.

Ex-viciado, pastor Rogério admite que já traficou drogas, pegou em armas e cometeu crimes. Foi preso. Sobreviveu a duas overdoses de cocaína, até receber um "sinal" e "ser salvo por Jesus”. Hoje, ele diz que sua vida pregressa o permite compreender o que passa pela cabeça de criminosos e apresentar argumentos para tirar muitos da marginalidade. “Já salvei uns 300 que estavam amarrados para morrer”, garante.

Sobre a ação de retomada do Complexo do Alemão pelo Estado, o pastor diz acreditar “que a intenção foi uma das melhores”. Segundo ele, “o governador tem feito um trabalho muito bom”. Contudo, o religioso defende que somente uma anistia aos traficantes será capaz de pôr fim à ameaça de guerra no Rio. “Proponho que essa decisão seja avaliada pelo governo, pelos parlamentares e pela Justiça.”

A seguir, leia mais sobre o que pensa o pastor.

iG: Às vésperas da polícia invadir a favela, no sábado (27), o senhor e o José Junior entraram no Complexo do Alemão para conversar com os traficantes. Na sua avaliação, esse gesto ajudou a evitar derramamento de sangue?

Rogério Menezes: Sim. Eu e o José Junior estávamos todo o tempo juntos. Ele virava para mim e falava “pô, Rogério, o que a gente pode fazer para ajudar?”. Eu respondia: “Junior, eu sei que é perigoso e arriscado, mas imagina se a polícia entrar? Vai morrer muita gente. Temos de ir lá”. Expliquei que o máximo que poderia acontecer era a gente ser tomado como refém. Falei: “Deus está nos mandando ir”.

iG: O que o senhor pensava naquele momento?

Rogério Menezes: Se houvesse confronto, eles iriam enfrentar, como foi noticiado, 2.600 policiais civis, militares, homens do Exército e da Marinha. Sem contar os inocentes, os jornalistas. Imagina o derramamento de sangue que poderia existir... Eu só pensava nisso.

iG: Como vocês chegaram até os traficantes?

Rogério Menezes: Entramos na favela e perguntamos onde eles estavam. Nos orientaram a chegar até a parte mais alta. Encontramos um grupo de cerca de 60 homens, os mais perigosos. Conversamos olho no olho.

iG: E como foi a conversa?

Rogério Menezes: Eles vieram até a gente. Estavam cansados, sem forças até para falar. Nós argumentamos que não dava para eles encararem. E muitos diziam “pastor, me ajuda. Pelo amor de Deus. O que o senhor pode fazer por mim?” O José Junior respondeu que não havia nada que a gente pudesse fazer e que o melhor seria se renderem à polícia; que a única garantia que a gente podia dar era a de que ninguém seria assassinado se aceitasse a rendição.

iG: E eles estavam inclinados a aceitar a proposta?

Rogério Menezes: Um dos chefões virou para mim e falou: “Pastor, o senhor me conhece. Sabe que a minha vida todinha eu tirei dentro da cadeia. O senhor quer que eu volte?” Respondi: “Rapaz, é melhor você se entregar do que ser morto. Você tem uma vida, tem família. Pensa muito bem no que você vai fazer.”

iG: E qual foi a reação?

Rogério Menezes: Muitos deles estavam desesperados, amedrontados. Alguns tremiam, estavam com os olhos arregalados. Outros olhavam para a gente como se fôssemos uma saída, um porto seguro. E a gente foi tentando acalmá-los. Mas eles diziam que era complicado se entregar. Em determinadas facções, se entregar é complicado. Eu sei disso. Hoje sou pastor, mas já fui do crime. Entendo a posição deles. Mas é aquele negócio, para o homem é impossível, mas para Deus tudo é possível.

iG: Quer dizer que alguns queriam se render, mas tinham medo de ser assassinados na cadeia por retaliação da facção criminosa a que pertencem?

Rogério Menezes: É por aí. Cada caso é um caso. Depois dessa conversa que tivemos com eles, 37 se entregaram. Um se apresentou na delegacia com a mãe, a imprensa acompanhou. É o Mister M. Teve um pai que foi entregar o filho por acreditar que isso era melhor do que vê-lo morto pelo Bope. Acredito que eles não viam saída. Eu e o José Junior os motivamos a não irem para o confronto. Ninguém imaginava que o Alemão poderia ser ocupado da forma como foi. O maior mérito foi de Deus. Mas há também o mérito do AfroReggae, do José Junior, que foi muito corajoso.

iG: Qual foi o diálogo com os traficantes que mais marcou o senhor?

Rogério Menezes: Vi homens de alta periculosidade me chamarem no canto e se abrirem para mim e para o José Junior. Teve gente que chorou. Não de medo. Chorou porque não queria o confronto, porque pensava na família. Foi o momento que mais me compadeceu. Eu ficaria o tempo todo ao lado daquelas pessoas, ainda que a polícia entrasse.

iG: Nesse grupo havia chefes do tráfico?

Rogério Menezes: Positivo. Mas não vou falar disso em detalhes. Meu trabalho é religioso e eles confiam em mim. Quero apenas afirmar que eles não queriam guerra.

iG: Quem falou mais, os senhores ou os traficantes?

Rogério Menezes: Eles ficaram mais tempo calados. Queriam ouvir a gente, queriam uma luz. Eles não estavam conversando com traficantes, mas com pessoas que simbolizavam a paz, a vida. Tem pessoas ali que me conhecem desde 1993, quando comecei a pregar. Muitos eu vi ir para a cadeia, sair da cadeia, visitei na favela. Havia homens com armas nas mãos, mas os que conversavam com a gente não estavam armados. Em momento algum eles diziam que iriam meter bala ou que optariam pelo confronto. Isso eu não vi.

iG: O senhor diz que muitos traficantes não querem se render porque temem retaliações de colegas de facção dentro da cadeia; outros que já ficaram muito tempo presos e não aceitam voltar. A polícia afirma que vai permanecer na favela até realizar as prisões e recuperar as armas. O senhor defende alguma proposta para que não aconteçam novos conflitos?

Rogério Menezes: Sou a favor da anistia. Converso muito com traficantes e com viciados, visito muita boca de fumo. Eu evangelizo muito. Faço um trabalho de Deus, um trabalho do bem, espiritual. Já tirei muitos dessa vida e encaminhei para um emprego. E já vi caso também de pessoas que largaram o crime, se mudaram para outro estado, mas não conseguiram emprego porque devem à Justiça. Tiveram de voltar e retornar para o crime, tinham família. Mas eles me diziam “pastor, o senhor viu que tentei. Voltei para o tráfico, mas não bebo, não me drogo mais, nem a baile funk eu vou. Vai acabar meu plantão na boca e vou para casa ficar com meus filhos”.

iG: O senhor não acha difícil propor para a sociedade que essas pessoas sejam anistiadas sem pagar pelos crimes que cometeram?

Rogério Menezes: É muito difícil responder sobre isso. Como religioso, acho que o culpado disso tudo são as forças espirituais do mal. Vou dar um testemunho da minha vida. Eu trabalhava, ganhava bem, três salários mínimos. Não era de uma vida errada. Mas em um determinado momento me senti sem chão. Tudo começou quando perdi meu pai. Minha mãe arrumou outro homem logo em seguida e eu não aceitei. Ela então me expulsou de casa. Eu tinha 16 anos. Bateu uma depressão tão grande, que perdi meu emprego, não conseguia trabalhar. Era morador da Baixada Fluminense, morava numa comunidade carente, conhecia bandido, conhecia traficante, mas eu era trabalhador. Nem todo mundo que mora dentro de uma comunidade é bandido. Minha família me deu estudo, o melhor que pôde dar. Mas eu caí na vida do crime, me entreguei à bebida, às drogas, fui preso. Houve momentos em que me vi sentado, chorando, querendo sair dessa. Eu despertei, procurei uma casa de recuperação. Tive apoio.

iG: Apesar da visão religiosa do senhor, a anistia não é uma proposta polêmica?

Rogério Menezes: Cada caso é um caso. Proponho que essa decisão seja avaliada pelo governo, pelos parlamentares, pela Justiça. Caso a caso, insisto. Mas, particularmente, eu acredito que num universo com 100% de criminosos, se você oferecer uma oportunidade pelo menos 40% aceitam largar essa vida. É preciso considerar que muitos temem por suas famílias. Se forem presos, quem vai sustentar suas mulheres, seus filhos? Tem que haver um projeto social também.

iG: Muitos bandidos fugiram e a polícia diz que vai capturá-los. O senhor acredita que esses traficantes vão voltar para o Complexo do Alemão futuramente? Ainda pode haver enfrentamento?

Rogério Menezes: Acredito que muitos homens que estavam ali no meio, inclusive os que fugiram, não têm antecedentes criminais. Às vezes até segura uma arma, mas é só um viciado. A polícia tem feito seu trabalho. E cabe à polícia e ao governo continuarem a fazer o seu trabalho. Contudo, também acredito que aquilo ali foi a mão de Deus a fim de despertar esses jovens. Acredito que muitos vão analisar e ver que não vale a pena se envolver com o crime. É a resposta que posso dar para essa pergunta.


iG: O senhor está certo da recuperação dessas pessoas?

Rogério Menezes: Vou dar um exemplo. Trabalha com a gente lá no AfroReggae o Gaúcho. Durante muitos anos ele foi o chefe do Alemão, era um dos mais temidos na área. Ele tirou 28 anos de cadeia e hoje está aí, fora do crime, trabalhando com carteira assinada. Isso é a prova de que enquanto há vida, há esperança. O Bem-te-vi, aquele que morreu na Rocinha, ele vivia me dizendo que queria sair do crime. Eu ia para lá pregar umas sete da noite e ele não me deixava ir embora antes das três, quatro horas da manhã. Ele tinha o prazer de estar do meu lado. Muitas vezes o vi chorar. Ele me dizia “pastor, me ajuda. Quero sair dessa vida, mas não tenho forças. A sociedade me marginaliza, não acredita em mim”. Eu dizia, “rapaz, o mais importante é Deus estar olhando para você. Deus tem um plano para sua vida. Você não pode se entregar à criminalidade”.

iG: Por que evangélicos são tão respeitados pelos criminosos?

Rogério Menezes: No sábado, na hora em que a polícia se posicionou para invadir o Complexo do Alemão, tinha um pastor na entrada da favela de terno e com a Bíblia na mão. Estava ele e a mulher dele. Aliás, havia mais de um, eram muitos. Eles ficaram entre os militares da polícia, do Exército e da Marinha, e os jovens. E eles procuravam esses jovens e diziam para que saíssem dessa vida. Ofereciam apoio: “quer se entregar comigo?”, perguntavam. No momento mais difícil, havendo risco de vida, eles estavam ali. E tem os testemunhos daqueles que saíram do crime e hoje estão aí, vivendo com dignidade. Isso mostra para eles que é possível.

Fonte: iG

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

DA SUBVERSÃO À BRINCADEIRA

Por Elienai Jr

O templo pode se tornar o lugar de seu maior desencontro e a comunhão mais legítima, uma violência inadiável.

Dias antes ele viera a um lugar que há muito não estava lá, aquela ‘Casa de Oração’ esquecida sob camadas de mentiras. Porque são necessárias muitas paredes para se esconder com eficiência uma grande mentira. Um grande templo para uma grande religião.

Os barulhos e os cheiros da procissão desembocando na cidade são familiares, homens e mulheres arrastando ofertas e expectativas. As músicas se revezam no embalo final dos que chegam ao lugar decisivo, à morada do Deus que não regateia seus rigores. E um Deus assim, tão inegociável, sempre cria filhos que aprendem a pechinchar à sombra de suas imperfeições.

Os olhos cansados esbugalham em rostos bronzeados pelo sol de tantos dias, andam-se muitos caminhos para se chegar a um templo. Olhares aflitos se destacam em faces ressecadas, cruzam-se desertos para que o templo cumpra seu papel. Gastam-se corpos, afetos, até a fé. O caminho que leva ao templo exaure forças, é epopéia de cansaços, senda de claudicantes. E toda fadiga termina se tornando um grande negócio.

E os que negociam já estão lá, como garantia de que o enorme esforço será triunfante. São mercadores mediando a grande utopia. Nenhuma fadiga, qualquer distância, incidente que seja pode ser tão imprevisível, tão suficientemente contingencial para assaltar a vitória do crente. O templo não pode ser comprometido com as precariedades do caminho.

O custo de um templo assim é alto, mas ninguém garante ofertas à altura de um Deus terrível sem pagar um preço elevado. A demanda é enorme, mas sempre haverá pombas, cabritos, bois e tudo o mais de que carecer o culto. Tudo para que Deus não seja frustrado pelo triste caminho que separa os humanos da glória.

O culto não para. Ninguém para. Nada pode estancar uma ordem que cumpre tão prodigioso papel: garantir um acerto glorioso com o divino. O templo realiza sua vocação à medida que sublima a vida dos imperfeitos. Tudo funciona lá dentro a despeito de tudo o que não funciona lá fora.

O barulho incessante empolga os guardiães do templo. É muito feliz a sensação de assistir à coreografia ininterrupta dos que chegam com tantas expectativas. E que partem já antecipando o dia em que voltarão. Nada é mais lindo aos olhos do sacerdote que o vai-e-vem inexorável da multitude encantada.

Mas um rito subversivo é urdido à margem do templo. E como todo rito é uma trama. Uma dramatização de anseios. Uma usina de novidades. Alguém costura o inusitado, fabrica uma revolta.

A primeira fabricação de um instrumento ultrasônico, aquele capaz de ultrapassar a barreira do som, foi um chicote. Isto porque o movimento da chicotada é mais veloz que o som por ela produzido. E o que direi agora pode ser a descrição mais profana que já se fez de um homem. Um nazareno reuniu todas as iras que a religião do templo lhe provocou em cada tira de corda costurada. Ele mesmo fez o chicote que interromperia o barulho do ajuntamento em transe. O slasch viria depois da dor. Eis o rito mais subversivo. Nada mais apropriado para acordar gente encantada que o som da idéia chegar depois do estrago já feito.

E foi assim. Um homem enfurecido ziguezagueou pelo pátio chicoteando com poucos critérios os que ainda negociavam. A princípio, imaginou-se serem soldados romanos descontentes pelas comissões. Houve quem afirmasse, enquanto corria, que era um endemoniado. O som do chicote e as mesas viradas dos cambistas fizeram a voz do reclamante se multiplicar em tantas que nem imaginamos quem pudesse ser, até o pátio em pandemônio dar lugar ao silêncio estupefato dos que ali permaneceram. E sozinho, resfolegante, restava com a arma ainda empunhada, Jesus.

O amor assusta ao fazer-se ódio. Desvela-se em tensão, revolta e ruptura. Sombrio e violento, mas amor.

Com câimbras na mão e a voz já rouca, vaticina pela última vez: vocês transformaram este lugar em um covil de ladrões. E pensar que um dia já foi uma Casa de Oração. A família, distante, desconfia de sua sanidade. Os discípulos, sem coragem de se aproximar, lembram do profeta. O zelo por sua casa me consumirá.

Dispersos os mercadores, uma gente, que ninguém vê há tanto tempo por ali, aparece vinda de todos os cantos, e nada os impede agora, são os cegos e os mancos. O chicote, quente e trêmulo, despenca teatral da mão de Jesus, tão lentamente quanto a compaixão que agora o envolve. Um Deus assim, tão improvável, sempre junta os filhos dos quais o templo se esqueceu.

As crianças, que tem no mundo um lugar de imaginação, a continuidade das histórias ouvidas antes de dormir, olham a cena e enxergam o que ninguém vê. Apenas continuam a história preferida. De um Davizinho que derrubava gigantes com uma atiradeira na mão, mas curava a tristeza de reis com harpas e poesia. Agora ele tinha um filho, que expulsa gigantes com um chicote, mas toca os doentes como Davi dedilhava sua harpa.

E começaram a se divertir com a mais nova brincadeira, e viam quem gritava mais alto: Hosana ao Filho de Davi!


quarta-feira, 14 de julho de 2010

O fim dos sermões

Por Elienai Cabral Junior

Há um limite para a convivência das expectativas da multidão e a linguagem lúdica de um sonhador. Pode se manter muita gente por perto, bastante tempo, contando histórias. Respondendo com novas e escorregadias perguntas, distraindo com meias palavras, usando as mesmas figuras para indicar outras imagens. O Reino de Deus, invisível. Fermento para o bolo. Um grão de mostarda. A luz no candeeiro. O sal. Um casamento surpreendente. Outra coisa com as mesmas palavras. Parábolas que postergam os julgamentos, que iludem a ilusão (Kierkegaard).

Mas há um ponto de fervura em toda esperança adiada. Um prazo estreito para o encantamento popular, quando a violência adormecida de todos acorda. Parece que é o que está acontecendo. Ninguém pede mais sinais. Nenhuma nova pergunta é feita e sequer mais uma história é tolerada. Antes, cercado por demandas, agora, rodeado por suspeitas.

Se o apetite por poder não é saciado, aquele que a todos distraiu, de quem nunca se deixou de esperar a mais vulgar e velada satisfação, deve ser consumido nas aspirações desapontadas da turba. Se Jesus não é o Cristo que se reivindica, Barrabás.

Um ídolo não tem o direito de não ser.

Não dá para não trair alguém que tinha tudo para ser o que todos esperavam. Não dá para não repudiar aquele com quem se decepcionou nas mais doces fantasias. Não dá para não condenar aquele que não consentiu com mais uma ilusão.

Um ídolo não tem o direito de se mover.

Todo líder é constituído em um jogo erótico. E toda intriga é uma pornografia. Ninguém toca no assunto, mas todos esperam secretamente que ele seja o que ninguém consegue ser. Este é o segredo que excita os ajuntamentos. Mas, se alguém acende a luz e frustra o fetiche coletivo, retomam-se as sombras, agora para destruir. Odeia-se quem não se deixou amar com máscara. Este é o segredo que perpetua as taras para os próximos ajuntamentos.

Por isso o insinuante beijo de Judas virá. Estalará como um tapa, cheio de um estranho sadismo. A primeira e mais ardida bofetada que o Filho do homem terá recebido.

As palavras de Jesus estão gastas. O prazo se esgotou. Tudo o que diz, desde então nada fala. As multidões atraídas por ele, agora o repelem. Resta o lugar de poucos, o espaço dos amigos. Quem sabe? Jesus se faz anfitrião e põe a mesa. Oferece pão, ainda que ninguém aparente chegar à saciedade. Enche as taças, que insistem em parecer vazias. Cheios estão os corações, mas de diabos. Sente-se sozinho também em casa.

O limite das palavras é um convite para os gestos de amor.

As palavras, amordaçadas, descobrem que o amor se expressa a despeito delas. Silenciosamente, Jesus encena o último sermão antes da cruz. Despe-se da capa para ocupar o lugar discretíssimo do servo. O mestre lava os pés dos discípulos. As mãos de um Deus calado conversam com os pés trôpegos da humanidade.

Nunca se olhou tanto para baixo como no dia em que Deus ficou de cócoras. Quem quisesse olhar para o céu a procura de Deus teria que vê-lo refletido nas águas turvas da bacia sobre o chão. E os pés sujos e vacilantes da humanidade, finalmente, imersos no céu gracioso de Deus.

Por um instante, vendo-o prostrado, alguém entre os discípulos, muito constrangido, se lembrou do que ouviu do próprio Jesus. Que um diabo, em um deserto, tentou fazê-lo se prostrar por poder e fama e ele recusou. Assustado, chegou a pensar: não se prostrou diante da fama para ser ouvido, mas se curvou diante de pessoas para amar… E teve medo do futuro. Do que teria que fazer com todos os seus planos.