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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Deus nos livre de um Brasil evangélico

Por Ricardo Gondim

Começo este texto com uns 15 anos de atraso. Eu explico. Nos tempos em que outdoors eram permitidos em São Paulo, alguém pagou uma fortuna para espalhar vários deles, em avenidas, com a mensagem: “São Paulo é do Senhor Jesus. Povo de Deus, declare isso”.

Rumino o recado desde então. Represei qualquer reação, mas hoje, por algum motivo, abriu-se uma fresta em uma comporta de minha alma. Preciso escrever sobre o meu pavor de ver o Brasil tornar-se evangélico. A mensagem subliminar da grande placa, para quem conhece a cultura do movimento, era de que os evangélicos sonham com o dia quando a cidade, o estado, o país se converterem em massa e a terra dos tupiniquins virar num país legitimamente evangélico.

Quando afirmo que o sonho é que impere o movimento evangélico, não me refiro ao cristianismo, mas a esse subgrupo do cristianismo e do protestantismo conhecido como Movimento Evangélico. E a esse movimento não interessa que haja um veloz crescimento entre católicos ou que ortodoxos se alastrem. Para “ser do Senhor Jesus”, o Brasil tem que virar "crente", com a cara dos evangélicos. (acabo de bater três vezes na madeira).

Avanços numéricos de evangélicos em algumas áreas já dão uma boa ideia de como seria desastroso se acontecesse essa tal levedação radical do Brasil.

Imagino uma Genebra brasileira e tremo. Sei de grupos que anseiam por um puritanismo moreno. Mas, como os novos puritanos tratariam Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Maria Gadu? Não gosto de pensar no destino de poesias sensuais como “Carinhoso” do Pixinguinha ou “Tatuagem” do Chico. Será que prevaleceriam as paupérrimas poesias do cancioneiro gospel? As rádios tocariam sem parar “Vou buscar o que é meu”, “Rompendo em Fé”?

Uma história minimamente parecida com a dos puritanos provocaria, estou certo, um cerco aos boêmios. Novos Torquemadas seriam implacáveis e perderíamos todo o acervo do Vinicius de Moraes. Quem, entre puritanos, carimbaria a poesia de um ateu como Carlos Drummond de Andrade?

Como ficaria a Universidade em um Brasil dominado por evangélicos? Os chanceleres denominacionais cresceriam, como verdadeiros fiscais, para que se desqualificasse o alucinado Charles Darwin. Facilmente se restabeleceria o criacionismo como disciplina obrigatória em faculdades de medicina, biologia, veterinária. Nietzsche jazeria na categoria dos hereges loucos e Derridá nunca teria uma tradução para o português.

Mozart, Gauguin, Michelangelo, Picasso? No máximo, pesquisados como desajustados para ganharem o rótulo de loucos, pederastas, hereges.

Um Brasil evangélico não teria folclore. Acabaria o Bumba-meu-boi, o Frevo, o Vatapá. As churrascarias não seriam barulhentas. O futebol morreria. Todos seriam proibidos de ir ao estádio ou de ligar a televisão no domingo. E o racha, a famosa pelada, de várzea aconteceria quando?

Um Brasil evangélico significaria que o fisiologismo político prevaleceu; basta uma espiada no histórico de Suas Excelências nas Câmaras, Assembleias e Gabinetes para saber que isso aconteceria.

Um Brasil evangélico significaria o triunfo do “american way of life”, já que muito do que se entende por espiritualidade e moralidade não passa de cópia malfeita da cultura do Norte. Um Brasil evangélico acirraria o preconceito contra a Igreja Católica e viria a criar uma elite religiosa, os ungidos, mais perversa que a dos aiatolás iranianos.

Cada vez que um evangélico critica a Rede Globo eu me flagro a perguntar: Como seria uma emissora liderada por eles? Adianto a resposta: insípida, brega, chata, horrorosa, irritante.

Prefiro, sem pestanejar, textos do Gabriel Garcia Márquez, do Mia Couto, do Victor Hugo, do Fernando Moraes, do João Ubaldo Ribeiro, do Jorge Amado a qualquer livro da série “Deixados para Trás” ou do Max Lucado.

Toda a teocracia se tornará totalitária, toda a tentativa de homogeneizar a cultura, obscurantista e todo o esforço de higienizar os costumes, moralista.

O projeto cristão visa preparar para a vida. Cristo não pretendeu anular os costumes dos povos não-judeus. Daí ele dizer que a fé de um centurião adorador de ídolos era singular; e entre seus criteriosos pares ninguém tinha uma espiritualidade digna de elogio como aquele soldado que cuidou do escravo.

Levar a boa notícia não significa exportar uma cultura, criar um dialeto, forçar uma ética. Evangelizar é anunciar que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, praticar a justiça e criar meios de solidariedade; Deus não é rival da liberdade humana, mas seu maior incentivador.

Portanto, Deus nos livre de um Brasil evangélico.

terça-feira, 2 de março de 2010

Curso ensina pastor a ser empresário da fé

Por JOÃO FELLET

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A seara exige obreiros empreendedores, criativos, capazes de trabalhar em grupo e de liderar com visão global

Desmerece a obra de Deus aquele que se nega a entregar o dízimo. Deus não é mendigo e não precisa de resto

A igreja é uma empresa, e uma empresa difícil de ser conduzida porque o seu estoque são almas

O ser humano é interesseiro e quer que a igreja manifeste a presença de um Deus vivo com retorno imediato

O povo não pode ouvir os obreiros falar sobre as doenças deles. Como crerão se o próprio mensageiro não recebe a benção na prática?

Frases do "Curso de Formação de Pas­tor" do SBTe

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A cartilha dos grandes empresários diz que, para se dar bem nos negócios, é fundamental estar atento às mudanças na sociedade, empregar com eficiência a propaganda, estudar o público-alvo, cuidar bem dos funcionários e vigiar a concorrência. Pois essas regras também valem para os que desejam abrir a própria igreja evangélica, segundo um curso oferecido pelo Seminário Brasileiro de Teologia (SBTe).

Uma frase presente na apostila do "Curso de Formação de Pastor" dá o tom do seu conteúdo: "A igreja é uma empresa, e uma empresa difícil de ser conduzida, porque o seu estoque são almas". Partindo da premissa de que os meios de comunicação transformaram a sociedade, o curso convoca os pastores a uma adaptação aos novos tempos: "As igrejas que não seguirem a cultura dos povos tendem a ficar vazias". A advogada e aluna do curso Laudicéia Koschitz, 39, concorda. Não acha errado, por exemplo, que as evangélicas se embelezem. "A mulher é uma obra maravilhosa de Deus e precisa se arrumar."

Hoje, diz o curso, o pastor deve ser "empreendedor, criativo, capaz de trabalhar em grupo e de liderar com visão global". As igrejas pentecostais já parecem ter entendido. Em 2002, segundo pesquisa do Eseb (Estudo Eleitoral Brasileiro), seus seguidores já eram 11,1% do total da população, número quatro vezes maior que em 1980. Para aproveitar esse crescimento vertiginoso, o curso lista atitudes que devem ser tomadas pelo pastor empreendedor. Antes de abrir uma igreja, por exemplo, ele deve estudar a região e o público-alvo. Se o local for pobre, ajudam a atrair gente a distribuição de lanches e o sorteio de cestas básicas. Na Assembléia de Deus do Jardim do Apurá (zona sul de São Paulo), o fiel que fica até o fim do culto recebe um cachorro-quente.

É importante ainda que o pastor seja "um ator, um dramaturgo" para "acomodar o povo, chamar a sua atenção e fechar a sua boca". Para ser eficiente, ele é aconselhado a se alimentar bem e a se exercitar com musculação e corrida. Quando tiver de ministrar por tempo muito longo, deve evitar o sexo nos quatro dias anteriores.

Marcelo de Souza, 36, é um aluno que concorda com a importância do preparo físico. Se não jogasse futebol sempre que possível, talvez não conseguisse andar sem parar enquanto prega e nem ficar na ponta dos pés nos momentos mais dramáticos.

Outro fator determinante para o sucesso é pregar conforme a vontade do público. Em geral, diz o curso, pessoas mais pobres tendem a gostar de "ver coisas sobrenaturais" (como sessões de exorcismo), de dançar, cantar e ouvir o pastor falar em línguas estranhas (glossolalia).

Também se deve empregar o maior número possível de fiéis na igreja. "Os que participam e se sentem valorizados não migram para outra igreja, pagam o dízimo todo mês e trazem a família e amigos para vê-los."

"O curso se vale dos melhores textos da área de administração e ensina recursos que uma empresa moderna utiliza para se manter competitiva num mercado globalizado", diz o coordenador do MBA de Marketing da Fia (Fundação Instituto de Administração), Dilson Gabriel dos Santos.

Para o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (Universidade de São Paulo) Antônio Sauaia, o curso ensina uma técnica utilizada por empresas de produtos de consumo, que atraem o consumidor por meio de vendedores que vivem no mesmo bairro dele.

Administração eclesiástica

A apostila é dividida em cinco módulos. Os quatro primeiros, com 75 páginas, tratam da legislação sobre a prática religiosa (como obter subvenções do poder público, por exemplo), das diferenças entre as principais correntes evangélicas, da importância do emprego de técnicas de oratória na pregação e de como convencer os fiéis a pagar o dízimo.

O quinto e maior, com 63% do total de páginas, é intitulado "Administração Eclesiástica". Nele, são indicados "projetos para multiplicar a quantidade de membros, templos e de caixa da igreja a cada 90 dias".

O curso pode ser encomendado pela internet (www.cursodepastor.com.br) ou por telefone, custa R$ 450 e deve ser feito por correspondência em prazo estipulado de 90 dias.

Ao seu final, o aspirante a pastor deve enviar por correio à instituição, que tem sede em Ituiutaba (MG), as respostas a um questionário que fica nas últimas páginas da apostila. Se aprovado, ganha um diploma e uma carteirinha que, segundo o SBTe, "pode ser aproveitada em qualquer das diferentes denominações de igrejas evangélicas".

O guru dos pastores

O pastor Omar Silva da Costa, 49, é o criador deste e de outros 17 cursos por correspondência também oferecidos pela internet. Os mais caros, chamados de "Bacharelado em Teologia Eclesiástica", "Mestrado em Bíblia" e "Doutorado em Divindade", custam, respectivamente, R$ 750, R$ 1.050 e R$ 1.350. Todos também têm duração de 90 dias e dão direito a carteirinha e diploma "para enriquecer o currículo".

"Decidi oferecer os cursos assim, por correspondência, porque muita gente não tem condições de pagar escolas caras e passar quatro ou cinco anos estudando até se tornar pastor. Além disso, não há escolas de teologia em todas as cidades brasileiras." Segundo Costa, o curso de formação de pastor, oferecido desde fevereiro deste ano, já foi vendido a mais de 500 pessoas --se o número estiver correto, as vendas já renderam R$ 225 mil, pelo menos. A procura tem sido tão boa que, no curso, ele prevê: "Em pouco tempo vai haver nas faculdades cursos de administração de igreja, como já há de administração hospitalar".

Fontes: IBGE e Eseb (Estudo Eleitoral Brasileiro)

Fonte: Folha Online

terça-feira, 2 de junho de 2009

A Igreja Universal e seus demônios

Há quase 20 anos o antropólogo Ronaldo de Almeida estuda as religiões pentecostais brasileiras. Em seu novo livro, "A Igreja Universal e seus demônios" (Terceiro Nome/Fapesp), ele faz um resumo da expansão do pentecostalismo no Brasil, e examina uma das protagonistas desse crescimento, a Igreja Universal do Reino de Deus. Pesquisador do Cebrap e professor da Unicamp, Almeida mostra como o antagonismo com outras religiões (em especial a umbanda) é fundamental para a Universal definir sua identidade. Nesta entrevista, o antropólogo analisa esse processo de "satanização da fé inimiga", e explica como o discurso da Universal se adapta às exigências do capitalismo contemporâneo.

Você diz que é no confronto com outras religiões que a Igreja Universal define seus contornos. Poderia falar um pouco sobre isso?


A tese do livro é que a Igreja Universal constituiu seu universo simbólico tendo como referência principal o seio do qual é fruto (os evangélicos pentecostais) mas também teve como contraponto esse caldo religioso "católico-afro-kardecista" disseminado pela sociedade brasileira. Ela é uma religiosidade que assimila e re-elabora conteúdos simbólicos e práticas rituais de outras religiões localizando-os no pólo negativo da fé cristã. Em resumo, suas práticas passam pela demonização do outro, mas ao mesmo tempo incorpora suas formas de apresentação. Assim, ela nos dá a impressão de combater aquilo do qual se alimenta o seu próprio discurso religioso. Daí o titulo "A Igreja Universal e seus demônios", que a meu ver sintetiza uma de suas formas de expansão.

A umbanda é a principal "antagonista" religiosa da Universal? Por que você acha que ela fez essa escolha?



A umbanda, devido à própria imagem de uma religião que trabalha com espíritos, alguns destes considerado "das trevas", é entendida pela Universal como a causadora dos males da vida (problemas familiares, financeiros, doenças etc). Isto fica mais explícito nos cultos de exorcismo. Mas também não podemos perder de vista que a Igreja Católica é pensada como uma adversária devido à devoção aos santos e às suas imagens, o que é considerada pela Universal como idolatria. Além disso, a Igreja Católica é um adversário forte devido ao enraizamento na sociedade brasileira. Mas o que é importante reter é que no processo de expansão da Universal ocorre este mecanismo de satanização da fé inimiga, que em outros países serão outras práticas religiosas.



Que tipo de ethos é formado e transmitido nos cultos da Universal?

Esta é uma questão ampla, mas destacaria dois aspectos: a intolerância com as religiões alheias e e um forte incentivo à prosperidade financeira, não propriamente por meio do trabalho formal mas a partir do estímulo a uma postura empreendedora por parte dos fiéis. A meu ver, este segundo aspecto está em sintonia com o contexto de crescente informalidade no mundo do trabalho que exigem soluções criativas e autônomas para a geração de renda. É menos uma ética do trabalho típica do protestantismo clássico e mais uma "viração" no mundo do trabalho para ter uma ascenção social sem culpa.


E como a Universal se relaciona com a tradição pentecostal brasileira? O que a distingue de outras pentecostais?

Além dessa questão da prosperidade financeira, destaco a interação entre os fiéis. Uma das características do meio protestante e pentecostal é a lógica congregacional, onde templos abrigam uma comunidade de fiéis que convivem por muitos anos entre si, gerando forte lações de amizade e parentesco. Não quero dizer que isto não ocorra na Universal, mas a arquitetura de seus templos (grandes salões), as várias reuniões que são realizadas diariamente, a rotatividade dos pastores entre os templos, entre outros aspectos, não favorecem o fortalecimento dos laços horizontais entre os fiéis como nas igrejas pentecostais mais clássicas. Parece-me uma religiosidade muito mais de massa, de fluxo e midiática que se contrapõe ao ethos congregacional dos "irmãos de fé" encontrado mais explicitamente nas igrejas protestantes como Batista e Presbiteriana e pentecostais tradicionais como a Assembléia de Deus e Congregação Cristã do Brasil. Convém destacar, no entanto, que devido ao sucesso deste modelo no arregimento de fiéis, algumas igrejas mais tradicionais começam a copiar o modelo da Universal.



Como se deu a chegada e expansão do pentecostalismo no Brasil?

A literatura sobre o tema costuma organizar a expansão do pentecostalismo em três momentos. O primeiro deu-se com a chegada em São Paulo, em 1910, de um missionário presbiteriano italiano que conheceu o recém-nascido pentecostalismo nos Estados Unidos e fundou a Congregação Cristã do Brasil no bairro do Brás; e a vinda de missionários suecos para Belém do Pará, em 1911, também via Estados Unidos, que fundaram a Assembléia de Deus. O segundo momento refere-se ao surto de expansão nos anos 50, sobretudo com a Cruzada Nacional de Evangelização, também vinda dos Estados Unidos e liderada pela Igreja do Evangelho Quadrangular, que gerou posteriormente as igrejas Deus é Amor e o Brasil Para Cristo. O terceiro momento, também chamado de neopentecostalismo, ocorreu como um processo autóctone a partir do final dos anos 70, do qual surgiram a Igreja Universal, a Internacional da Graça do Reino de Deus, a Renascer em Cristo, dentre outras. Creio que o importante a reter é que se o pentecostalismo é um fenômeno planetário, o Brasil se tornou um pólo emissor dessa religiosidade para outras partes do mundo, sobretudo África, América Latina e mais timidamente para Europa e o próprio Estados Unidos.



É possível hoje traçar um perfil do fiel pentecostal? Quem seria?

No ano que vem, 2010, o pentecostalismo completará 100 anos de Brasil, e o que vemos não é apenas a sua expansão numérica mas também a sua diversificação interna. Creio que falar genericamente do perfil do fiel pentecostal é simplesmente redutor. Temos aquele da teologia da prosperidade, outros ligados a movimentos sociais com militância política, outros mais voltados para uma estética e estilo de vida "gospel", como também aquele crente mais tradicional com homens usando ternos e as mulheres usando obrigatoriamente vestidos e cabelos compridos. Enfim, meu livro sobre a Igreja Universal, sem perder de vista esta diversidade interna, concentra-se em um determinado perfil, que embora específico é um exemplo paradigmático do pentecostalismo contemporâneo.

Fonte: Prosa Online - O Globo
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