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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O equívoco da maldade

Por Paulo Brabo, pensador e escritor.

Tudo é puro para os que são puros.
Tito 1:15

Com base numa frase que me disse certa vez o Hernan Pimenta, brinco há mais de um ano com a ideia de um conto de horror que não chegarei a colocar por escrito. Nessa história um homem se ocupa a vida inteira, como todos, com os variegados aborrecimentos, rancores e neuroses da condição humana; depois de morto, como a todos, lhe é concedido saber que a revelação que lhe escapou a vida inteira é que na realidade o ser humano é bom.

O horror da história está em que é só depois de morto, quando é tarde demais, que o protagonista descobre que os horrores, os temores e as culpas com os quais havia ocupado o espaço inteiro da vida eram imaginários. Nesse mundo do qual estou falando, como me disse recentemente meu amigo Danilo, é impossível que do coração do homem saia outra coisa que não o bem. Nesse mundo as pessoas ensinam umas as outras, sem trégua e de todos os modos, as disciplinas da desconfiança, da culpa, do rancor e do medo, e são essas as distrações que acabam gerando em todos os casos os erros de julgamento que passam para a história como maldade. Entrincheiramo-nos sem motivo, e as trincheiras desnecessárias que construímos tornam a guerra inevitável.

Nesse mundo todas as histórias são tragédias como o Otelo, de Shakespeare, em que um protagonista honrado mata uma pessoa honrada – a pessoa que ama – por acreditar (sem fundamento, como se descobre no final) que ela havia sido contaminada pela maldade. É a maldade imaginária ou projetada, a falsa maldade, que desencadeia a verdadeira – a qual, como se fundamenta num equívoco, não passa ela mesma de um erro de julgamento.

Nessa história de horror Deus não criou o mal e nem teria como fazê-lo, porque o seu universo é genuinamente impermeável à maldade. Somos todos bons, e o diabo é Iago, o diabo é simplesmente a ideia universalmente eficaz de que devemos desconfiar uns dos outros. O único horror verdadeiro é que vivemos cegos para o fato de que não existe horror algum[1].

Notas
[1] "Sabe qual é meu medo?" – escreveu-me o Hernan naquela ocasião (depois de ler este texto de Leonardo de Souza): – "descobrir, no final das contas, no fundo, que o ser humano é bom".


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Sonhar, realizar o sonho, sonhar mais alto: cultura e revolução em Slavoj Zizek

Por Demétrio Cherobini, cientista social e educador.

Uma transformação social de grande envergadura pode ser considerada pejorativamente, por muitos, um sonho. Pode ser sonho ingênuo, do ponto de vista dos senhores da ordem, uma condição em que superamos um modo de vida no qual existimos como meros meios para fins que nos são alheios. No entanto, há que se levar em conta, são sonhos que não emergem isoladamente nem são eventos acidentais no fluxo constante que é a história.

O que é, pois, sonhar? O que é que são os sonhos (diurnos ou noturnos)? Por que, afinal, sonhamos e desejamos tão ansiosamente, tão entranhadamente a emancipação que nos escapa? O que sabemos, de fato, pela simples constatação empírica diária, é que esse fenômeno existe, é que sonhamos e frequentemente sonhamos acordados (devaneamos). Em algumas situações, na realidade, chegamos a estar face-a-face com o objeto dos nossos sonhos. No entanto, raras são as vezes em que os tocamos. E mais raras ainda são as vezes em que com eles conseguimos permanecer. Por que isso acontece?

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Sobre o Ver

Por Bianca Assis, educadora.

Sou defensora da autonomia e do desenvolvimento da capacidade de expressão própria. Como professora de Artes Visuais, meu objetivo não é somente possibilitar o reconhecimento de códigos gráficos e obras importantes, mais que isso, por militância, é a busca de uma identidade, e o empoderamento de instrumentos para a expressão do que se é genuíno a indivíduos, coletivos, povos.

 Acredito que a voz ativa seja um direito, e um símbolo da dignidade. [Como expressei no texto “sobre o ouvir”] Mas o texto que elogia a voz trata da importância da audição. Neste texto, sobre expressão visual, quero tratar da importância do saber ver.

É comum ouvir que o individualismo pós-moderno nos torna cada vez mais sozinhos em nossa caminhada. Eu discordo. É enorme a necessidade de adaptação e de culto ao “parecer”, se não fosse assim, não existiria o status quo, a vontade incontrolável de se trocar de carro ou de aparelho celular, a fórmula social de sucesso, a moda, os cabelos alisados, as fôrmas...

A individualidade neste sentido, nada mais é do que a forma de se obter recursos, ganhar vantagem, e passar por cima de interesses coletivos, para se mostrar aos outros o quão poderosos se é. Status. As mídias ditam o padrão estético nortista, europeu, dos grupos economicamente dominantes.

Neste ponto sou testemunha do poder que possuem, pois, muitas vezes vi meus alunos negros fazendo auto-retratos com a pele branca e os cabelos amarelos, mesmo segurando o espelho em suas mãos!

Já vi também, nos primeiros meses na Escola de Belas Artes, os olhos dos exímios desenhistas treinados pelas revistas de super-heróis norte-americanos, no primeiro dia de aula com um modelo vivo negro, pequeno, fora dos padrões com os quais estamos acostumados a ver representados, daqueles que exigiriam mais dos nossos olhos na produção do seu desenho, e os produtos finais depois de 30 minutos de observação e riscos no papel, serem bizarros super-heróis na posição que o modelo havia feito. Será possível que ninguém o enxergou? Ou os olhos não são suficientes para VER as coisas?

Eu sou muito distraída quando se tratam de lugares e referências geográficas. Meu mapa seria em branco, e os prédios surgiriam de um dia para o outro, depois que sou obrigada a repará-los. Faço o mesmo caminho em Macaé há 3 meses para chegar em certo ponto, e o prédio da UFRJ só surgiu depois que precisei dobrar a sua exata esquina.

Neste ponto preciso transcrever o que o Augusto Boal diz em seu último livro “A Estética do Oprimido” porque ele diz muito do que me move, enquanto profissional, e ser político:

“... O analfabetismo é usado pelas classes, clãs e castas dominantes como severa arma de isolamento, repressão, opressão e exploração. Mais lamentável é o fato de que também não saibam falar, ver, nem ouvir. Esta é igual, ou pior, forma de analfabetismo: a cega e muda surdez estética. Se aquela proíbe a leitura e a escritura, esta aliena o indivíduo da produção da sua arte e da sua cultura, e do exercício criativo de todas as formas de Pensamento Sensível. Reduz indivíduos, potencialmente criadores, à condição de espectadores...

...Temos que repudiar a ideia de que só com palavras se pensa, pois se pensamos também com sons e imagens, ainda que de forma subliminal, inconsciente, profunda! O pensamento sensível, que produz arte e cultura, é essencial para a libertação dos oprimidos, amplia e aprofunda sua capacidade de conhecer. Só com cidadãos que, por todos os meios simbólicos (palavras) e sensíveis (som e imagem), se tornam conscientes da realidade em que vivem e das formas possíveis de transformá-la, só assim surgirá, um dia, uma real democracia.

* Para que se compreenda com clareza que existem tantas estéticas quantos grupos sociais organizados, comparem estas duas imagens: Jesus com seus apóstolos vestidos com andrajos e com a alegria passional daqueles que sentem que dizem verdades; do outro lado, o Papa, envolto em ouro e ouropéis, no seu papamóvel blindado, cercado de guardas suíços, vestidos pela griffe Michelangelo, cercado pelos seus príncipes, ornados como ele. Jesus e o atual cristianismo têm pouca coisa em comum... Ou vocês acham que esses dois grupos estariam usando a mesma e única estética universal? Ou seriam seus caminhos tão exclusivos dos interesses e propósitos de cada grupo? Para que eu possa começar a acreditar em alguma coisa que ele diga, quero ver o papa quase nu, despojado de artifícios, pregando nas ruas e nos campos. Isso, sua estética não permite; a minha, exige!” [BOAL]

E como fechar um texto sobre a visão sem citar o Saramago em seu livro “Ensaio sobre a Cegueira”? Em algum sentido a visão norteia o coletivo e ajusta os interesses. A ausência dela no livro, revela a realidade. E a intrigante mulher do médico, única personagem na cidade que não perde a visão, do que se trata? Em certo ponto ela é advertida de que se revelar que consegue enxergar, poderia ser morta.

É o que a humanidade reserva aos que vêem. Os que entendem os mecanismos são perigosos. Vide a história de cada mártir. Seu maior instrumento não foram armas ou exércitos, foi a visão.

O perigo para as estruturas opressoras, dominantes, pecaminosas não é o fato dos cidadãos terem olhos. O perigo real é usá-los!


PS. Quero lembrar com doçura algo que ouvi da minha amiga cega, Camila: Enquanto trabalhávamos na exposição sobre o Miles Davis no CCBB em 2011, em uma das baias, separadas por cores, tocava o disco do Miles com mais influência do Blues. A sala era toda azul. Entramos, ouvimos por um tempo, sem que ela soubesse, a pergunta que fiz à Camila foi
-“Pra você, que cor teria esta sala?” no que ela respondeu
“Esta sala tem cor de chuva; de avião quando está no alto do céu”.

Ela leu a cor do som, e tudo ali era mesmo azul.
Os olhos precisam de todo o corpo para enxergar com ele.
Mais azul ainda foi o mar que me veio aos olhos!


segunda-feira, 23 de abril de 2012

Onde Deus não está

Por Paulo Brabo

Se me recordo bem daquela palestra que não cheguei a assistir, a pedagoga estava dizendo que há cinco impulsos ou motivações básicas que levam as pessoas a agir como agem, e que é tarefa do professor fornecer aos alunos ferramentas para que sejam capazes de trocar os impulsos mais baixos pelos mais elevados.

A motivação mais mesquinha é o medo da punição; acima dela está a esperança de receber uma recompensa; mais nobre do que essas duas é agir obedecendo a uma regra ou a uma lei; acima desta está o desejo de receber a aprovação de um notável ou do grupo; e o impulso mais nobre seria agir de determinado modo simplesmente porque é a coisa certa a se fazer.

Assim, com os impulsos mais mesquinhos embaixo e os mais elevados em cima:

[ 1 ] Porque é a coisa certa a se fazer
[ 2 ] Para receber aprovação
[ 3 ] Em obediência a uma regra
[ 4 ] Para receber uma recompensa
[ 5 ] Para evitar a punição

O desconcertante em se ver as coisas expressas dessa forma é entender que a maioria de nós não chega jamais a ultrapassar [2] e [3]; se formos sinceros, será preciso reconhecer que a maior parte do tempo transitamos entre [4] e [5].

Os mais beatos entre nós poderiam lembrar que há uma motivação ainda mais nobre do que simplesmente fazer a coisa certa, e essa seria fazer pura e simplesmente a vontade de Deus. Uma reflexão sincera, no entanto, bastará para demonstrar que esse fictício impulso de “fazer a vontade de Deus” está por demais contaminado pelos itens [2], [3], [4] e [5] para poder alegar qualquer genuína fidelidade ao item [1].

Os antigos mestres da humanidade deixaram muito bem explicado, cada um a seu modo, que não há verdadeiro mérito em agir impulsionado pelo intervalo entre [5] e [2]. A singularidade do Novo Testamento talvez esteja em anunciar que não há mérito sequer em [1], e que mesmo no impulso de fazer a coisa certa Deus pode não estar.

A boa nova é também uma nova terrível e devastadora, porque acaba deixando claro, pelo efeito cumulativo da sua revelação, que o único impulso que deve nos levar a agir é porque é precisamente dessa forma que queremos agir. Debaixo do peso dessa liberdade e dessa autenticidade viveu e morreu Jesus; debaixo delas viveram e morreram Sócrates, São Francisco e todos os santos.

Fazer o que você quer fazer – aquilo que você absolutamente deseja e sonha e aprova e anseia e endossa e absolutamente não condena – é o único centro concebível para a vontade concebível de Deus.

"Nós, protestantes, teremos mais cedo ou mais tarde de enfrentar a seguinte questão: devemos entender a Imitação de Cristo no sentido de que devemos copiar sua vida e, se é que posso usar essa expressão, simular seus estigmas; ou no sentido mais profundo de que devemos viver nossas próprias vidas de forma tão verdadeira quanto ele viveu a sua em todas as suas implicações? Não é coisa fácil viver uma vida modelada na de Cristo, mas é indizivelmente mais difícil viver nossa própria vida de forma tão verdadeira quanto Cristo viveu a dele" [Carl Gustav Jung]

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O mundo invisível de cada um

Por Eliane Brum, jornalista e documentarista.

Estirado no calçadão, o mendigo cobre o rosto, inventa paredes e conta uma história para si mesmo. Em casa, nós fazemos o mesmo.

O homem está esticado no canteiro da Avenida Sumaré, em São Paulo. Seu corpo está exposto. Mas ele cobre a cabeça com um daqueles cobertores que nunca vi em outra cama que não as calçadas. Fala com alguém que não podemos enxergar. É uma discussão sobre macarrão. Apurando o ouvido, é possível perceber que ele pede macarrão a alguém, mas a pessoa recusa. Ele insiste, porque tem fome de macarrão. Gostaríamos de seguir escutando a conversa, mas sentimos que ficar ali seria como profanar as paredes invisíveis que ele construiu com seu cobertor de mendigo. E seguimos em respeito à privacidade do homem exposto ao mundo.

Na volta, ele continua ali. E agora ele geme. Demoramos a entender, até enxergar a braguilha aberta e perceber que ele se masturba. A descoberta não nos choca, nem nos ofende. Não é um homem exibindo sua ereção para os passantes. Mas um homem que só tem como casa e como paredes aquele cobertor de mendigo. Ele não nos remete a nenhuma tara. Ao contrário. Ele nos lembra as crianças bem pequenas, na fase em que acreditam que, ao tapar os olhos com as mãos, se tornam invisíveis. Ninguém mais pode enxergá-las porque não enxergam ninguém. “Siscondi”, elas dizem, com as mãozinhas sobre os olhos. Aquele homem ali, masturbando-se no canteiro da Sumaré com a cabeça coberta, “siscondeu”.

Seguimos porque, naquele momento, a melhor forma de vê-lo era fingir que não o víamos. Enxergá-lo era acreditar que ele se escondeu. Que o cobertor era ao mesmo tempo parede e teto. A melhor forma de respeitá-lo era fingir junto com ele que, lá fora, havia um dentro.

Seguimos comovidos, como sempre ficamos diante de um homem em uma luta feroz pela vida que escapa. Aquele homem com o rosto tapado, mas exposto a tudo, só tinha morte e inventava a vida. Estirado no asfalto, com apenas um cobertor para se proteger do tempo e da multidão, ele desejava. Desejava macarrão, desejava uma mulher. Era para ele estar quase morto, e em certa medida estava. Mas ele fingia viver. Fingia tanto que vivia.

Acho que os moradores de rua são o espelho que mais tememos. Por isso, na maior parte do tempo em que eles tentam chamar a nossa atenção, reclamando de sua fome, de seu frio, usamos nossos olhos como paredes para não enxergá-los. Na maior parte do tempo, somos nós que fingimos não vê-los por muitas razões. Uma delas é porque encarnam nossos medos mais fundos.

Suspeito de que os comerciantes que os escorraçam da porta de suas lojas o fazem não porque não reconhecem um humano ali – mas porque reconhecem. E temem o que veem mais do que podem confessar. Porque mesmo os mais duros entre nós pressentem a textura de cristal da vida, que se parte com tanta facilidade quanto profundos são os cortes que deixa para trás. E, à noite, quando estamos sós, é raro aquele que não teme perder as paredes e o teto que o protegem, mas nem tanto.

Diante de um morador de rua, tememos que um dia o mundo que criamos – e que nos custa tanto manter em pé sobre nossos ombros – possa ruir. E estaremos lá, indefesos na vitrine. Por isso, em geral, a parede que eles não desejam, mas que se mostra inabalável, é a dos nossos olhos. Fingimos que não os vemos não porque eles são diferentes – e sim porque são semelhantes demais. Mas, quando eles erguem seus frágeis muros para fazer o que todos nós fazemos entre os nossos de tijolos, apontamos. Quando apontamos, com nossos dedos e nossos gritos de decência ofendida, fingimos mais uma vez não enxergar o que enxergamos.

Ao seguirmos nossos caminhos cientes disso o suficiente para deixarmos as paredes invisíveis do morador de rua da Sumaré intocadas, pensei que era esse mesmo jogo de olhar e não olhar que rege a vida cotidiana de todos nós. Que constrói a cada dia a miséria de nossa pequeneza. A cada manhã custa muito para boa parte de nós levantar da cama. E nos levantamos ajeitando nossa máscara – ou os farrapos que restam dela – com a mesma esperança do morador de rua ao cobrir o rosto com o cobertor.

Saímos para a rua torcendo para que não nos descubram, mas a multidão está lá. No ponto de ônibus, no escritório, em toda parte. Morrendo de medo e farejando a fragilidade do outro para expô-la, na expectativa de que não descubram a sua. Apontando. Sempre apontando, enquanto em seus interiores o medo é uma sucuri que dá voltas.

É assim que nos reduzimos todo dia, na incerteza de nossa superioridade – e por isso mesmo afirmando-a o tempo todo. Em meio a tantos sorrisos de plástico, sabemos que nossos iguais esperam apenas que nosso pé falseie num degrau para se atirar sobre nós. E quando gritamos a nossa dor de existir, nossas chagas expostas como leprosos do mundo antigo, virarão as costas pela nossa inconveniência.

Diante da verdade do nosso desespero, terão paredes no lugar dos olhos e cimento enfiado nos ouvidos. Mas, se a raiz branca de nossos cabelos tingidos aparecerem, vão apontar. Se a barriga espichar a camisa, vão apontar. Se a caspa polvilhar nossa blusa, vão apontar. Se a unha estiver roída, vão apontar. Se o suor manchar a nossa roupa, vão apontar. Se gaguejarmos e nossas mãos tremerem, vão apontar. Há sempre gente demais pronta a desnudar nosso ridículo.

Espero que, diante do morador de rua da Sumaré, ninguém tenha chamado a polícia. E que ele tenha sido feliz em seu mundo invisível, onde as mulheres o desejam e um prato de macarrão o espera depois do amor. Olhar para dentro é também um olhar de súplica por humanidade. Um olhar que pede, que sonha, que fantasia, que se imagina mais bonito, mais forte, mais amado. Ali, exposto e indefeso em seu desamparo, o morador de rua conta histórias para si mesmo. Estirado na impossibilidade, ele se torna possível pela narrativa. Para além da tragédia, é grande e é belo o mendigo que inventa uma vida e estremece de gozo estirado no meio fio.

Protegida por paredes de tijolos, com as cortinas azuis da janela fechada, eu me encontro com o morador de rua em uma esquina de humanidade, para além de todas as diferenças impostas por um país desigual. Tenho certeza de que só me mantenho viva por causa do mundo invisível onde ninguém pode me alcançar para me ferir e posso fingir que a vida faz sentido mesmo quando não faz. Ali, quando os zumbis do mundo de fora me acossam com seus dedos sujos de sangue, invento a beleza e me reinvento como possibilidade. Alguns olham para dentro e enxergam apenas vísceras. Outros, horizonte.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Em nome de Jesus

Por Paulo Brabo, escritor.

O drama da narrativa bíblica reflete, em muitos sentidos, um árduo esforço divino para eliminar da mente humana o conceito de magia: a noção de que, através de fórmulas mágicas ou procedimentos estabelecidos, Deus ou o universo podem ser manipulados para atingirmos o objetivo que temos em mente.

Desde a primeira página, um dos traços mais distintivos do Deus das Escrituras é que ele não faz barganhas. Não há ritual ou palavra mágica que possa torcer o seu braço a fazer o que queremos. Se Deus concede o que homens lhe pedem é reflexo da sua magnanimidade e da intimidade de relacionamento que ele propõe, jamais da habilidade humana em manipulá-lo.

Essa obsessão divina em apagar da experiência humana a idéia da magia explica muito nas filigranas dos mandamentos e da Lei de Moisés. Israel não deve ter “outros deuses além de mim”, entre outras coisas, porque os deuses dos outros povos são entidades manipuláveis – aceitam suborno, dobram-se diante do ritual certo, vendem-se por um sacrifício, negociam, especulam e cedem a barganhas. Deus sabe que não é assim que o seu universo funciona, e não quer que seu povo adote essa visão distorcida do mundo. Pela mesma razão ele deita rigorosas proibições contra feitiçaria, amuletos e toda espécie de adivinhação.

quinta-feira, 8 de março de 2012

A Audição e o Dia da Mulher

Por Bianca Assis, educadora.

“Veja a única coisa maior que você”

Alex Haley, escritor americano do livro -Negras Raízes-, cresceu ouvindo histórias do seu avô sobre seu antepassado africano, Kunta Kinte, de nobres tradições tribais, raptado por quatro homens enquanto andava na floresta, sendo acorrentado e levado como escravo para a América. Contar histórias foi a forma encontrada para que as gerações não perdessem a identidade.

A frase que me marcou aparece no oitavo dia de vida do menino Kunta, após o ritual em que recebera seu nome. O pai, Omoro, sozinho com o filho o leva até a floresta, o levanta alto, voltado para o firmamento e diz em seu ouvido:
“Veja a única coisa maior que você”.

O homem e a mulher tem valor intrínseco. Inquestionável. Mas este texto foi importante por exibir a reverência pelo que é maior do que nós. O que não cabe no vocabulário.

“Os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo.”
-Wittgeinstein-

O mundo que é do tamanho do que a razão consegue apreender é pequeno demais, no mínimo, menor do que você. [Neste texto vou focar nas relações humanas, mas eu poderia desenvolver esta ideia relacionando-a ao mistério do mundo, ao divino, ao indizível.] O fato de alguém nunca ter tido contato com qualquer tipo de opressão deve ser motivo de gratidão, mas não lhe dá direito de reduzir o empenho da luta dos oprimidos cruelmente em seus mais diversos contextos. Sendo minoria ou maioria. A linguagem é fruto de determinada vivência, e esta reflete as fronteiras de cada mundo.

Lamentar o fato de que algum ser humano se suponha maior ou menor é óbvia. As opressões provenientes de homens ou mulheres que alegaram ter algum direito de dominar outra vida e as diversificadas formas [conscientes ou não] de fazê-lo, é grave e repugnante.

Hoje, no dia 08 de março de 2012, Dia Internacional da Mulher, eu, mulher, queria sugerir que a fala e a audição são fatores marcantes na construção dessas relações.

A FALA:
“Os movimentos de vários músculos que fazem as cordas vocais vibrarem e produzirem sons.”

A fala é ativa. É a característica masculina. Vem de dentro para fora. Rubem Alves diria que a fala é fálica, é a capacidade de penetrar o vazio que a aguarda, em forma de palavras, ruídos, canções. A fala é o semear, é o fecundar: O cérebro engravida, floresce de ideias.

A AUDIÇÃO:
“É a capacidade de reconhecer o som emitido pelo ambiente. O órgão responsável pela audição é o ouvido. As ondas sonoras chegam até o aparelho auditivo, fazem o tímpano vibrar, as vibrações viram impulsos nervosos que são transmitidos ao cérebro pelo nervo auditivo.”

A audição é o vazio sem o qual a fala não faz sentido. É a característica feminina de receber a semente, de acolher em si o mundo, de conceber e transformar através do que se recebe. Não é exclusiva das mulheres, a audição é a manifestação feminina necessária em toda a humanidade, assim como a fala, a característica masculina que em todos deve se manifestar.

A fala representa a ideia. É instrumento de poder, que pode ser agradável, comovente e transformadora, mas quando abusiva e autoritária, fere, agride, violenta. Pode ser tanto a fonte das opressões quanto a representação da conquista da dignidade.

A audição é condição para alcance da mente. Só quando o vazio se oferece, há fecundação, frutificação, Vida.

Com isso, queria que a característica feminina celebrada do dia, e fundamental em cada homem e em cada mulher, imprescindível para o desenvolvimento do mundo, levasse seu merecido destaque. Nada de lógicas invertidas, e de mulheres impenetráveis abusando de suas falas. Nada de homens incapazes de serem fecundados e transformados pela contato com os/as semelhantes.

Feliz dia Internacional das Semelhantes.
Vamos todos OUVIR?

“O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas, o que sai da boca, isto é o que contamina o homem.” Mat. 15:11.

“Nada há, fora do homem, que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai dele isto é o que contamina o homem.” Mar. 7:15

“Sabeis isto, meus amados irmãos; mas todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.” Tiago 1.19


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sobre - todos - os discursos sobre Deus, os nossos, os dos outros e o de todo mundo

Por Osvaldo Luiz Ribeiro, biblista e exegeta.

Todos os discursos sobre Deus, de todas as religiões, nossos e nossas, dos outros e de todo mundo, todos os discursos sobre Deus são invenções humanas, pura fantasia, imaginação, cultura, criados pelas mais diferentes razões - econômicas, políticas, sociais, históricas, biológicas, psicológicas.

Isso não tem o significado lógico de dizer que Deus não existe - tem o significado lógico de dizer que o Deus inserido em qualquer discurso humano é igualmente invenção humana. Todas as vezes que qualquer pessoa fala sobre Deus, é de uma coisa inventada e por meio de um modo inventado que ela fala.

Se Deus há fora da palavra humana, fora do pensamento humano, não se sabe nem jamais se saberá. Mas aquele e aqueles que nelas e neles vivem, é humaníssimo.

Incluo aí o Deus dos púlpitos. De todos.

Há aqueles que se deram conta disso e passaram a falar de Deus como quem faz poesia. A esses eu respeitaria numa única condição, quase nunca verificada: que sua audiência saiba que é poesia que se faz aí e saiba, sobretudo, o que isso significa. Fora dessa condição, merece desprezo, porque mente para si e para todos os que o ouvem.

Outro dia, uma e tal da manhã, eu mesmo ouvi um "teopoeta" falar de Deus na TV, pregar Jesus igualzinho a todos os pregadores da fé e da convicção inabalável - e não contive uma revolta nas tripas...

Quando ouço qualquer pessoa, amigo ou não, falar de Deus e ainda chamar outras racionalizações tão criativas e imaginativas quanto a sua - com o mesmo grau de substância, com a mesma profundidade de massa -, de tolice, quase chego a gostar do fundamentalista: pelo menos ele não se mete a intelectual (às vezes; quando o faz, o resultado é ridículo).

Sou (acho) amigo de muito pregador, muito pastor, muito cristão, muito crente. Todavia, Amicus Plato, sed magis amica veritas.

É uma pena. Eu acredito que é possível conciliar vocação pastoral, terapêutica, com as informações que temos desde o século XIX. Mas é uma pena que a pregação se faça para uma audiência que, ela sabe, não tem condições de a pôr no seu lugar.

Podia ser tão diferente... Não é preciso fazer as pessoas de bobas para cuidar delas. Fazê-las de bobas só as torna mais doentes. Há caminhos mais honrados por onde se pode ir.

Mas se vai pelo caminho mais fácil.

Nem sempre o mais ético.

PS. Se você espreme contra a parede um púlpito esclarecido, ele confessará que sabe do que você está falando, mas se a audiência desconfiar do que estamos falando, caos. Não preciso dizer mais nada. Quanto aos púlpitos que não têm sequer condição de entender do que estamos falando, bem, essa é outra história, conquanto seja, ainda, a mesma tragédia. Porque ninguém precisa saber que o pé está a pegar fogo para que o pé esteja a pegar fogo...

Fonte: Peroratio

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Um questão de direito

Por Turuna Tântalo, no blog Soda Cáustica.

Conta-se que pela terceira vez em menos de um mês aquela senhorinha negra, de olhar profissionalmente triste, narrava, meticulosa e dramaticamente, a mesma história de luto e desamparo. Pela terceira vez ela pedia ao Dom - como era afetuosamente chamado pelas gentes de Casa Amarela e arredores - algum dinheiro que fosse, para cumprir o destino da sua pobre mãezinha a ser enterrada.

Só que dessa vez a secretária não conteve seu ímpeto de cuidado com o erário da Igreja e do bispo e muito menos conteve seu senso implacável de justiça e verdade, e declamou irritada:

- Dom Hélder, o senhor não se lembra dessa mulher, não? Não tá vendo que ela tá mentindo?! É bem a terceira ou quarta vez que ela pede dinheiro pra enterrar a mãe? Aí é demais, né não?

O Dom sorriu encabulado e generoso lhe ofereceu as costas em direção à porta com o dinheiro na mão, não sem permitir que ela escutasse:

- É demais, sim! Esse povo já não tem direito a quase nada e você ainda quer lhe tirar o direito de mentir?!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Deus, unplugged

Por Peter Rollins, filósofo e escritor.
Tradução: Paulo Brabo

Perto do final da vida o teólogo e ativista Dietrich Bonhoeffer começou a preocupar-se com o fato de que a compreensão cristã de Deus havia sido em grande parte reduzida ao status de uma muleta psicológica. Ele descreveu essa compreensão como um “Deus ex machina”.

A expressão, que significa “deus proveniente de uma máquina”, refere-se originalmente a uma técnica usada na Grécia antiga, pela qual uma pessoa era descida ao palco através de um mecanismo, a fim de representar a entrada em cena de um ser sobrenatural. O processo, no entanto, ganhou uma má reputação quando muitos dramaturgos de segunda categoria começaram a usar esse artifício de modo indolente e arbitrário. Quando queriam matar um personagem, criar um novo desafio para o protagonista ou resolver um conflito do enredo, essas caras simplesmente arriavam um deus história adentro. Desse modo, o ser sobrenatural não era parte orgânica da história, mas uma presença intrusiva empregada unicamente para fazer o enredo avançar ou resolver alguma questão.

A expressão deus ex machina passou a significar a introdução de um elemento que não faz parte da lógica interna do desdobramento de uma história, mas que é na verdade um artifício deselegante despejado na narrativa só para desempenhar um papel específico.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A tinta vermelha: discurso de Slavoj Žižek aos manifestantes do movimento Occupy Wall Street

Por Slavoj Žižek, filósofo e psicanalista.
Tradução: Rogério Bettoni.

Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que QUEREMOS. Qual organização social pode substituir o capitalismo vigente? De quais tipos de líderes nós precisamos? As alternativas do século XX obviamente não servem.

Então não culpe o povo e suas atitudes: o problema não é a corrupção ou a ganância, mas o sistema que nos incita a sermos corruptos. A solução não é o lema “Main Street, not Wall Street”, mas sim mudar o sistema em que a Main Street não funciona sem o Wall Street. Tenham cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem nos apoiar e já fazem de tudo para diluir nosso protesto. Da mesma maneira que compramos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar isto aqui em um protesto moral inofensivo. Mas a razão de estarmos reunidos é o fato de já termos tido o bastante de um mundo onde reciclar latas de Coca-Cola, dar alguns dólares para a caridade ou comprar um cappuccino da Starbucks que tem 1% da renda revertida para problemas do Terceiro Mundo é o suficiente para nos fazer sentir bem. Depois de terceirizar o trabalho, depois de terceirizar a tortura, depois que as agências matrimoniais começaram a terceirizar até nossos encontros, é que percebemos que, há muito tempo, também permitimos que nossos engajamentos políticos sejam terceirizados – mas agora nós os queremos de volta.

Dirão que somos “não americanos”. Mas quando fundamentalistas conservadores nos disserem que os Estados Unidos são uma nação cristã, lembrem-se do que é o Cristianismo: o Espírito Santo, a comunidade livre e igualitária de fiéis unidos pelo amor. Nós, aqui, somos o Espírito Santo, enquanto em Wall Street eles são pagãos que adoram falsos ídolos.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Confissões de um ex-apologeta

Por José Barbosa Jr, escritor e pensador.

Já faz algum tempo que quero escrever sobre este tema. Principalmente por causa da explosão de blogs e sites “apologéticos” nos últimos anos, a maioria deles de conteúdo, no máximo, razoável.

Fico à vontade para falar do assunto, pois logo após minha conversão, me transformei num “apologeta”. Estudei por mais de 15 anos seitas e heresias, tendo feito palestras sobre várias “seitas” e “heresias” em muitas igrejas nos Estados do Rio e do Pará. Especializei-me em Testemunhas de Jeová, Mórmons e Maçonaria. Também pesquisei bastante o material dos adventistas, considerado por muitos estudiosos uma seita “pseudo-cristã”. Em Belém do Pará cheguei a dirigir uma pequena missão “especializada” em dar palestras e equipar as igrejas com apostilas e material para a “evangelização” desses grupos religiosos.

Além disso, devido a minha experiência como católico praticante e fervoroso, tornei-me logo um defensor da “sã doutrina” evangélica, mostrando os erros da igreja católica em muitas palestras e apostilas. Fiz vários estudos sobre o tema e amizade com ex-padres e pessoas oriundas das mais diversas seitas.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O Livro da Vida, ou por que as pessoas morrem

Por Nilton Bonder, rabino e escritor.

No período de dez dias que vai do Ano Novo Judaico até o Dia do Perdão os judeus oram intensamente para serem inscritos no Livro da Vida. Rege a tradição que um grande Livro do Destino se abre neste período e nele se inscrevem os acontecimentos: quem viverá e quem morrerá; quem pela água, quem pelo fogo; quem pela espada (bala perdida), quem pela fome; quem pela tempestade, quem pela epidemia.

Mas vai aqui um grande mal-entendido universal: a vida nada tem a ver com destino. Ficamos fascinados pelo destino achando que ele é a nossa história. Muito pelo contrário: qualquer destino já decretado não é a nossa história, mas uma história. A nossa história tem a ver com escolhas. E é dessa responsabilidade que fala o tal Livro que se abre para todos e que expressam em rito os judeus neste momento de seu calendário.

Esse não é um livro das limitações (da Morte), mas das competências e incompetências (da Vida). Nele se registram as capacidades e incapacidades de viver nossas próprias vidas. E quando não vivemos nossa própria história, quando vivemos destinos, então experimentamos uma imagem de nós e do mundo distorcida. São os ditos fantasmas. São assombros de nós mesmos provenientes do mundo dos mortos — da vida não assumida, das oportunidades evadidas.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Moralistas Imorais

Por Contardo Calligaris, psicólogo e articulista da Folha.

Uma queixa banal e barulhenta repete que a modernidade vai para a perdição. Aliás, parece que já foi: sumiram os valores que orientavam nossos pais ou, no mínimo, nossos avós. Dizem que ficamos como baratas tontas, sem rumo e sem critérios para distinguir o bem e o mal. Pois bem, penso o contrário. A modernidade é uma época profundamente moral, de uma maneira inédita pela forma e pela intensidade.

A novidade é que valores e princípios não são respeitáveis por sua origem. Se foi Deus quem disse ou foram os anciões que nos legaram, tanto faz: de qualquer forma, isso não basta. Cada um de nós, em seu foro íntimo, tem a responsabilidade de decidir o que é certo e o que é errado. Tarefa difícil: visto que recusamos a autoridade (divina ou tradicional) das normas, nosso julgamento é sempre concreto. Claro, adotamos princípios gerais, que são os mesmos de sempre; mas, para nós, a moralidade

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Pálido Ponto Azul

Por Carl Sagan, astrônomo e escritor.


Dessa distante perspectiva, a Terra pode não parecer significativa. Mas para nós, é diferente. Olhe novamente para aquele ponto. É aqui, nossa casa, somos nós. Nele, todos que você ama, todos que conhece, todos que já ouviu falar, cada ser humano que já existiu, viveu sua vida aqui. O misto de nossa alegria e sofrimento, milhares de religiões autênticas, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e ceifeiro, cada herói e covarde, cada criador e destruidor de civilização, cada rei e camponês, cada jovem casal apaixonado, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada mestre de ética, cada político corrupto, cada celebridade, cada ditador, cada santo e pecador na história de nossa espécie viveu aí - num grão de poeira suspensa num raio solar.

A Terra é um palco muito pequeno na vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores para que, em sua glória e triunfo, pudessem se tornar senhores momentâneos duma fração desse ponto. Pense nas infinitas crueldades praticadas por habitantes de um canto deste pixel aos quase indistinguíveis habitantes de algum outro canto; quão frequentes seus desentendimentos, quão desejosos de se matar uns aos outros, quão intenso são seus ódios.

Nossas arrogâncias, nossa suposta auto-importância, nossa ilusão de termos alguma posição privilegiada no universo, são desafiadas por este ponto de pálida luz. Nosso planeta é uma partícula solitária numa enorme e envolvente escuridão cósmica. Em nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que alguma ajuda virá de algures para nos salvar de nós mesmos.

A Terra é o único mundo conhecido, até então, que pode abrigar vida. Não há nenhum outro lugar, pelo menos no futuro próximo, para o qual nossa espécie possa migrar. Visitar, sim. Colonizar, ainda não. Gostando ou não, por enquanto, a Terra é onde nós temos que nos manter.

É dito que a astronomia é uma experiência construtora de caráter e humildade. Não há talvez melhor demonstração de tolice da presunção humana que esta distante imagem do nosso minúsculo mundo. Para mim, ressalta a nossa responsabilidade de lidar mais amigavelmente uns com os outros, e de proteger e amar o pálido ponto azul, o único lar por nós já conhecido.

Tradução: Marcelo Carahyba

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Quantum no Século XXI

Por Nilton Bonder, rabino e escritor.

Vivemos num mundo carente de parâmetros no qual há insuficiência de identidades e de elementos que qualifiquem. Há uma crise moral que tem dificuldade em classificar se algo é benéfico ou maléfico, justo ou injusto, permitido ou proibido. Mas se a qualidade anda em baixa, o mesmo não podemos dizer das quantidades. Elas são inéditas - de gente, de consumo, de longevidade, de destruição, de informação e de tudo mais.

Passa desapercebido ao ser humano comum que a quantidade também qualifica. As quantidades representam fronteiras entre distintas qualidades. Diz um ditado: "uma mentira é uma mentira; duas, são mentiras; mas três, é política". Ou como observou W.Minzer: "se você rouba de um autor é plágio; se você rouba de muitos é pesquisa". Plágio e pesquisa ou mentira e política são

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O fim da era de Gutenberg

Em entrevista, professor Thomas Pettitt defende que novas mídias levam humanidade de volta à era pré-Gutenberg, da cultura oral.
Por Fernanda Godoy.

NOVA YORK - Thomas Pettitt tem provocado discussão nos meios acadêmicos ao afirmar que a Humanidade está voltando à cultura de transmissão oral de informação e conhecimento, tornando a época da imprensa escrita e dos livros apenas um parêntese na História. Professor de história da cultura na Universidade do Sul da Dinamarca, ele construiu a Teoria do Parêntese de Gutenberg para analisar uma época que teria começado com a invenção da prensa, no século XV, e terminado com a era da mídia eletrônica. "Estamos caminhando para um futuro pós-imprensa", disse ele, para mais adiante acrescentar: "Alguém pode receber uma mensagem escrita quase tão rapidamente como se estivesse falando com a pessoa. É como se estivéssemos falando pelos dedos".

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Na mesma moeda

Por Paulo Brabo, escritor.

(...)

Por motivos que terei de abordar em outra ocasião, os cristãos evangélicos fogem do COMUNISMO mais do que o diabo da cruz; dito de outra forma, fogem mais do COMUNISMO do que do diabo, e tendem também a substituir um pelo outro.

O capitalismo de certa forma sempre existiu, sendo devidamente denunciado por todos os profetas, até Jesus (na linguagem dele “vem fácil vai fácil” escreve-se “de graça recebestes, de graça dai”) e depois. O mérito de Marx está em que ele expôs claramente o mecanismo econômico da exploração: demonstrou que no capitalismo todos trabalham um preciso tanto a mais do que deveriam se trabalhassem apenas para merecer o que ganham. Essa “contribuição extra”, essa mais-valia, serve para sustentar o sujeito posicionado acima de cada um na Grande

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Bestices

Por 'Carrie, a Estranha'.

Eu tenho orgulhos bestas. Orgulhos bestas são orgulhos sem razão, sem justificativa. Porque existem os orgulhos-não bestas. Sim, existem. Nem todo orgulho é besta. Orgulho de ter feito um trabalho de qualidade, de ter contribuído para determinada coisa. Eu tenho um orgulho besta de ser quem eu sou. Eu me acho especial. Muito especial. Mais especial do que a maioria das pessoas - e também tenho a sorte e a bênção de ser cercada de pessoas especiais. Eu me isolo num campo gravitacional de pessoas especiais. Por mais na merda que eu esteja, e que eu reclame horrores (e eu reclamo por qualquer coisinha), eu sei, lá no fundo, que tudo vai dar certo, afinal eu sou eu. Porra. Veja bem: não é que eu me ache melhor do que as outras pessoas. Mas eu tenho orgulho de mim, das coisas que eu fiz e faço, das coisas que já enfrentei, das pessoas que eu atraio pra perto de mim, em suma: do que eu me torno a cada dia, a cada instante e do que eu ainda

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Causas da homossexualidade

Por Drauzio Varella, médico e escritor.

Existe gente que acha que os homossexuais já nascem assim. Outros, ao contrário, dizem que a conjunção do ambiente social com a figura dominadora do genitor do sexo oposto é que são decisivos na expressão da homossexualidade masculina ou feminina.

Como separar o patrimônio genético herdado involuntariamente de nossos antepassados da influência do meio foi uma discussão que monopolizou o estudo do comportamento humano durante pelo menos dois terços do século XX.

Os defensores da origem genética da homossexualidade usam como argumento os trabalhos que encontraram concentração mais alta de homossexuais em determinadas famílias e os que mostraram maior prevalência de