quinta-feira, 1 de março de 2012

Inseridas e entrelaçadas

Por Orígenes de Alexandria (185-254 AD), teólogo e filósofo.
Tradução: Paulo Brabo

Ora, qual pessoa provida de entendimento irá considerar admissível a declaração de que o primeiro, o segundo e o terceiro dia, nos quais são mencionados tanto tarde quanto manhã, tenham existido sem sol, lua e estrelas – o primeiro dia até mesmo sem um céu? E quem se mostrará ignorante o bastante para supor que Deus, como se fosse um lavrador, tenha plantado árvores no paraíso, no Éden no leste, e nela uma árvore da vida – isto é, uma árvore de madeira visível e palpável, da qual quem comesse com dentes físicos obteria vida, e se comesse também da outra árvore, adquiriria o conhecimento do bem e do mal? Não creio que alguém duvidará de que a declaração de que Deus caminhava ao entardecer no paraíso, e que Adão tenha se escondido debaixo de uma árvore, estejam narrados figurativamente na Escritura, e que algum significado místico esteja sendo indicado por ela. O afastamento de Caim da presença do Senhor irá manifestamente levar o leitor atento a ponderar sobre o que é a presença de Deus, e de que forma alguém pode afastar-se dela. Porém, sem estendermo-nos além dos devidos limites na tarefa que temos diante de nós, será muito fácil, para quem quiser, distinguir na Escritura sagrada aquilo que está registrado como tendo de fato acontecido, mas que no entanto não se pode crer tenha ocorrido de modo racional e concebível da forma como foi historicamente narrado.

O mesmo estilo de narrativa escritural ocorre abundantemente nos evangelhos, como quando se diz que o diabo levou Jesus a uma montanha muito alta, a fim de mostrar-lhe dali todos os reinos do mundo e a glória deles. Como poderia ter literalmente acontecido, quer que Jesus se deixasse levar pelo diabo a uma montanha muito alta, quer que o diabo pudesse mostrar a ele todos os reinos do mundo (como se jazessem todos debaixo de seus olhos mortais, e adjacentes à montanha), isto é, os reinos dos persas, dos citas e dos hindus? Como poderia ter-lhe mostrado os modos pelos quais os reis desses reinos recebem glória dos homens? E tantas outras instâncias similares a esta se podem encontrar nos evangelhos por qualquer um disposto a lê-los com atenção, que notará que nas narrativas que parecem ter sido ser literalmente registradas estão inseridas e entrelaçadas coisas que não podem ser admitidas historicamente, mas podem ser aceitas num sentido espiritual.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sobre - todos - os discursos sobre Deus, os nossos, os dos outros e o de todo mundo

Por Osvaldo Luiz Ribeiro, biblista e exegeta.

Todos os discursos sobre Deus, de todas as religiões, nossos e nossas, dos outros e de todo mundo, todos os discursos sobre Deus são invenções humanas, pura fantasia, imaginação, cultura, criados pelas mais diferentes razões - econômicas, políticas, sociais, históricas, biológicas, psicológicas.

Isso não tem o significado lógico de dizer que Deus não existe - tem o significado lógico de dizer que o Deus inserido em qualquer discurso humano é igualmente invenção humana. Todas as vezes que qualquer pessoa fala sobre Deus, é de uma coisa inventada e por meio de um modo inventado que ela fala.

Se Deus há fora da palavra humana, fora do pensamento humano, não se sabe nem jamais se saberá. Mas aquele e aqueles que nelas e neles vivem, é humaníssimo.

Incluo aí o Deus dos púlpitos. De todos.

Há aqueles que se deram conta disso e passaram a falar de Deus como quem faz poesia. A esses eu respeitaria numa única condição, quase nunca verificada: que sua audiência saiba que é poesia que se faz aí e saiba, sobretudo, o que isso significa. Fora dessa condição, merece desprezo, porque mente para si e para todos os que o ouvem.

Outro dia, uma e tal da manhã, eu mesmo ouvi um "teopoeta" falar de Deus na TV, pregar Jesus igualzinho a todos os pregadores da fé e da convicção inabalável - e não contive uma revolta nas tripas...

Quando ouço qualquer pessoa, amigo ou não, falar de Deus e ainda chamar outras racionalizações tão criativas e imaginativas quanto a sua - com o mesmo grau de substância, com a mesma profundidade de massa -, de tolice, quase chego a gostar do fundamentalista: pelo menos ele não se mete a intelectual (às vezes; quando o faz, o resultado é ridículo).

Sou (acho) amigo de muito pregador, muito pastor, muito cristão, muito crente. Todavia, Amicus Plato, sed magis amica veritas.

É uma pena. Eu acredito que é possível conciliar vocação pastoral, terapêutica, com as informações que temos desde o século XIX. Mas é uma pena que a pregação se faça para uma audiência que, ela sabe, não tem condições de a pôr no seu lugar.

Podia ser tão diferente... Não é preciso fazer as pessoas de bobas para cuidar delas. Fazê-las de bobas só as torna mais doentes. Há caminhos mais honrados por onde se pode ir.

Mas se vai pelo caminho mais fácil.

Nem sempre o mais ético.

PS. Se você espreme contra a parede um púlpito esclarecido, ele confessará que sabe do que você está falando, mas se a audiência desconfiar do que estamos falando, caos. Não preciso dizer mais nada. Quanto aos púlpitos que não têm sequer condição de entender do que estamos falando, bem, essa é outra história, conquanto seja, ainda, a mesma tragédia. Porque ninguém precisa saber que o pé está a pegar fogo para que o pé esteja a pegar fogo...

Fonte: Peroratio

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

'Não há conflitos entre ETs e a Igreja'

Por Cesar Baima, jornalista.

Inspirado pelo que chama de "época de ouro" da conquista do espaço, que culminou com a chegada do homem à Lua em 1969, José Funes, então com seis anos, decidiu ser astrônomo. Quase 15 anos depois, porém, ouviu outro chamado, desta vez de Deus. Assim, logo depois que obteve seu diploma de astrônomo da Universidade de Córdoba, na Argentina, em 1985, ingressou na ordem dos jesuítas, recebendo novo diploma em filosofia antes de seguir para Roma, onde foi ordenado.

Em 2006 os dois caminhos se encontraram e Funes foi apontado diretor do Observatório do Vaticano pelo Papa Bento XVI. Homem de fé e de ciência, ele defende o diálogo como forma de superar os conflitos. Para ele, o Big Bang e o Gênesis não são contraditórios, e sim caminhos diferentes da eterna busca humana pelo conhecimento e pela verdade. Até a possibilidade de existência de vida extraterrestre já é aceita pela Igreja. "Não vejo contradição entre fé e ciência, pois a verdade é uma só", diz ele, que está no Rio para participar do workshop "The Evolving Universe", evento promovido pela PUC-Rio e pela Fundação Planetário.

Sendo, ao mesmo tempo, cientista e padre, como o senhor equilibra questões de ciência e fé?

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Um questão de direito

Por Turuna Tântalo, no blog Soda Cáustica.

Conta-se que pela terceira vez em menos de um mês aquela senhorinha negra, de olhar profissionalmente triste, narrava, meticulosa e dramaticamente, a mesma história de luto e desamparo. Pela terceira vez ela pedia ao Dom - como era afetuosamente chamado pelas gentes de Casa Amarela e arredores - algum dinheiro que fosse, para cumprir o destino da sua pobre mãezinha a ser enterrada.

Só que dessa vez a secretária não conteve seu ímpeto de cuidado com o erário da Igreja e do bispo e muito menos conteve seu senso implacável de justiça e verdade, e declamou irritada:

- Dom Hélder, o senhor não se lembra dessa mulher, não? Não tá vendo que ela tá mentindo?! É bem a terceira ou quarta vez que ela pede dinheiro pra enterrar a mãe? Aí é demais, né não?

O Dom sorriu encabulado e generoso lhe ofereceu as costas em direção à porta com o dinheiro na mão, não sem permitir que ela escutasse:

- É demais, sim! Esse povo já não tem direito a quase nada e você ainda quer lhe tirar o direito de mentir?!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Autonomia – sexualidade dá nisso

Por Osvaldo Luiz Ribeiro, biblista e exegeta.

A maçã do “pecado original” é mais ou menos como a coroa dos reis magos: não existe. A coroa não existe, porque não existem “reis” magos – são apenas “magos”. A maçã não existe, porque não se dá nome ao fruto, deixando-o genérico, como convém a fórmulas dinâmicas de ideologia.

Não há nem maçã, nem sexo ali. O “pecado” de Adão e Eva, nada tem a ver com sexo ou sexualidade. Fala-se de “comer do fruto”, e de que tal fruto constitua conhecimento do (que é) bom e do (que é) ruim”. O que está em jogo é os próprios Adão e Eva quererem eles mesmos decidir o que é “bom” e o que é “ruim”, isto é, o que é bom ou ruim para eles mesmos. O que está em jogo é os dois decidirem tomar a vida em suas próprias mãos. O que está em jogo é sua autonomia. Sua liberdade. Sua vida.

Antes que alguém se surpreenda de minha afirmação, mais por medo das consequências, do que pelo seu sentido, é bom lembrarmos que, nas narrativas, os personagens agem conforme a vontade de quem escreve as narrativas. Lá estão Adão, Eva, a serpente, o jardim, a brisa, Yahweh, os arbustos, as folhas, a pele. Lá está o medo, o castigo, a expulsão. Lá estão os personagens todos, a mobília toda, a cena inteira. E quem dirige a cena, o nome dele é “narrador”. Para o bem, quando Deus faz coisas boas, e para o mal, quando Deus faz coisas ruins, nas narrativas, é o narrador quem desenha Deus fazendo essas coisas, dizendo essas coisas. É bom ter isso em mente. É saudável. É necessário.