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sábado, 2 de junho de 2012

Do que roubamos de Deus e dos anjos

Por Osvaldo Luiz Ribeiro, biblista e exegeta.


1. Dos anjos, roubamos os sexos. A coisa é grave. Quando falamos "anjo", duvido que não nos venha à mente aquela coisa medieval, loira, de asas de ganso ou cisne, olhos de cor européia, forma grega... Anjos. Vestem túnicas, nessas representações, mas são... eunucos.

2. Mas não eram assim, antigamente. Gn 6,1-4 - a despeito das "exegeses acomodadoras da tradição" -, conhece uma antiga mitologia de sexo entre "anjos" e mulheres. É uma antiga tradição, que está por trás (sem trocadilhos!) do nascimento de Hércules e, até, de Jesus: os seres divinos - deuses, anjos - podem "conhecer" (em sentido bíblico), as mulheres.

3. Um - agora - apócrifo, Enoque, tomou essa passagem e fez, com ela, um famoso midraxe judaico, explicando, por inflação, criatividade e necessidade que foi aí e então, quando os "anjos" desceram dos céus a deitarem-se com as filhas de Eva, que aproveitaram e lhes ensinaram as "macumbarias".

4. Judas conhece Enoque e o cita com autoridade. Naqueles tempos, os anjos tinham, então, com o que se deitar com mulheres.

5. Pois bem, grande parte da tradição da Igreja castrou esses anjos, talvez para evitar cultos orgiásticos, cuja liturgia era encenada, certamente, pelos "anjos" das igrejas, conhecidos das Cartas de Apocalipse... Ali se emascularam anjos, expulsaram pessoas (gnósticas) e se excluíram livros sagrados ("apócrifos") - refiro-me à parte da crise gnóstica, essa, por trás de Judas.

6. Mas, na Idade Média, o imaginário cristão devolveu genitais aos anjos - e, agora, também às anjas. Íncubos e Súbucos visitavam muitas camas noturnas, provocando suores e gozos nas madrugadas européias, iluminadadas pelas fogueiras, que não eram de São João...

7. Mas, passou. Os anjos de hoje são andróginos, de novo, como o quis a boa prática cristã contra-gnóstica. Exceto aquelas anjinhas de vagina e barriga prenha da Igreja Matriz de Santo Antonio, em Tiradentes, Minas Gerais, impudicas, com as vergonhazinhas, pequenas, também elas, as anjinhas, esculpidas pelos cantos superiores das paredes da nave...

8. E de Deus, o que roubamos? Curiosamente, as duas histórias estão unidas. Antes de os judeus inventarem os demônios, a partir de Gn 6,1-4, seu Deus, Yahweh, podia fazer tanto o bem quanto o mau. Quem tem um Deus assim, que faz o bem e o mau, não precisa de crer em diabos, porque os diabos são explicações para uma fé que pensa que Deus faz apenas o bem, mas não o mau, mas como o mau acontece mais vezes do que o bem, então se precisa de uma explicação - os diabos! - para o mau, já que não pode ser um Deus que só faz o bem...

9. Não se castrou, literalmente, Deus. Alegoricamente, sim: era o Leão de Judá. Agora, o Gatinho de Roma/Wittenberg... Rugia, agora, mia. Isso foi há 2,5 mil anos, em Jerusalém. Corte profundo na alma daquele Deus de abrir barriga de grávidas, e tanto, que Marcião, comparando-o com o Deus de Jesus, negou que fossem o mesmo. Em certo sentido, era. Em certo sentido, não era.

10. E lá se vão, Deus e seus anjos, cada um roubado de uma parte preciosa de sua constituição - um, a capacidade de fazer desgraças e ser, por isso, Todo-Poderoso; os outros, bem, devem estar a chorar até hoje, coitados, eunucos, sendo as mulheres, admitamos, tão interessantes... Quem terá perdido mais? Deus, os anjos... ou as mulheres?

Fonte: Peroratio

quinta-feira, 1 de março de 2012

Inseridas e entrelaçadas

Por Orígenes de Alexandria (185-254 AD), teólogo e filósofo.
Tradução: Paulo Brabo

Ora, qual pessoa provida de entendimento irá considerar admissível a declaração de que o primeiro, o segundo e o terceiro dia, nos quais são mencionados tanto tarde quanto manhã, tenham existido sem sol, lua e estrelas – o primeiro dia até mesmo sem um céu? E quem se mostrará ignorante o bastante para supor que Deus, como se fosse um lavrador, tenha plantado árvores no paraíso, no Éden no leste, e nela uma árvore da vida – isto é, uma árvore de madeira visível e palpável, da qual quem comesse com dentes físicos obteria vida, e se comesse também da outra árvore, adquiriria o conhecimento do bem e do mal? Não creio que alguém duvidará de que a declaração de que Deus caminhava ao entardecer no paraíso, e que Adão tenha se escondido debaixo de uma árvore, estejam narrados figurativamente na Escritura, e que algum significado místico esteja sendo indicado por ela. O afastamento de Caim da presença do Senhor irá manifestamente levar o leitor atento a ponderar sobre o que é a presença de Deus, e de que forma alguém pode afastar-se dela. Porém, sem estendermo-nos além dos devidos limites na tarefa que temos diante de nós, será muito fácil, para quem quiser, distinguir na Escritura sagrada aquilo que está registrado como tendo de fato acontecido, mas que no entanto não se pode crer tenha ocorrido de modo racional e concebível da forma como foi historicamente narrado.

O mesmo estilo de narrativa escritural ocorre abundantemente nos evangelhos, como quando se diz que o diabo levou Jesus a uma montanha muito alta, a fim de mostrar-lhe dali todos os reinos do mundo e a glória deles. Como poderia ter literalmente acontecido, quer que Jesus se deixasse levar pelo diabo a uma montanha muito alta, quer que o diabo pudesse mostrar a ele todos os reinos do mundo (como se jazessem todos debaixo de seus olhos mortais, e adjacentes à montanha), isto é, os reinos dos persas, dos citas e dos hindus? Como poderia ter-lhe mostrado os modos pelos quais os reis desses reinos recebem glória dos homens? E tantas outras instâncias similares a esta se podem encontrar nos evangelhos por qualquer um disposto a lê-los com atenção, que notará que nas narrativas que parecem ter sido ser literalmente registradas estão inseridas e entrelaçadas coisas que não podem ser admitidas historicamente, mas podem ser aceitas num sentido espiritual.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Autonomia – sexualidade dá nisso

Por Osvaldo Luiz Ribeiro, biblista e exegeta.

A maçã do “pecado original” é mais ou menos como a coroa dos reis magos: não existe. A coroa não existe, porque não existem “reis” magos – são apenas “magos”. A maçã não existe, porque não se dá nome ao fruto, deixando-o genérico, como convém a fórmulas dinâmicas de ideologia.

Não há nem maçã, nem sexo ali. O “pecado” de Adão e Eva, nada tem a ver com sexo ou sexualidade. Fala-se de “comer do fruto”, e de que tal fruto constitua conhecimento do (que é) bom e do (que é) ruim”. O que está em jogo é os próprios Adão e Eva quererem eles mesmos decidir o que é “bom” e o que é “ruim”, isto é, o que é bom ou ruim para eles mesmos. O que está em jogo é os dois decidirem tomar a vida em suas próprias mãos. O que está em jogo é sua autonomia. Sua liberdade. Sua vida.

Antes que alguém se surpreenda de minha afirmação, mais por medo das consequências, do que pelo seu sentido, é bom lembrarmos que, nas narrativas, os personagens agem conforme a vontade de quem escreve as narrativas. Lá estão Adão, Eva, a serpente, o jardim, a brisa, Yahweh, os arbustos, as folhas, a pele. Lá está o medo, o castigo, a expulsão. Lá estão os personagens todos, a mobília toda, a cena inteira. E quem dirige a cena, o nome dele é “narrador”. Para o bem, quando Deus faz coisas boas, e para o mal, quando Deus faz coisas ruins, nas narrativas, é o narrador quem desenha Deus fazendo essas coisas, dizendo essas coisas. É bom ter isso em mente. É saudável. É necessário.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Deus criou a Mulher de que osso mesmo?

Por Gilbert SF e Zevit Z.

Outra condição genética, afetando 100% dos machos humanos, é a falta congênita de um báculo. Enquanto a maior parte dos mamíferos (incluindo espécies comuns como cachorros e ratos) e boa parte dos outros primatas (com a exceção de macacos-aranha) têm um osso no pênis, machos humanos não o possuem e precisam contar com a hidráulica de fluidos para manter ereções. O báculo de um grande cachorro pode ter 10cm de comprimento x 1,3cm de espessura x 1cm de grossura… Báculos humanos já foram relatados, comumente em associação a outras doenças congênitas ou anormalidades do pênis.

Uma das histórias de criação no Gênesis pode ser um mito explicatório onde a Bíblia tenta encontrar uma causa para a qual os machos humanos não possuam este osso particular. Nossa opinião é que Adão não perdeu uma costela na criação de Eva. Qualquer israelita na Antiguidade (ou, se for assim, qualquer criança) deve saber que há um número igual (e par) de costelas tanto em homens quanto em mulheres. Mais do que isso, costelas não possuem

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Babel: De volta à confusão

Por Nilton Bonder, rabino e escritor.

As guerras são sempre míticas. Nelas se revelam aspectos do imaginário humano que manifestam forças profundas da natureza e da vida.

O conflito no Iraque, entre tantos significados políticos e culturais, possui um elemento que o torna quase místico. É de lá que vem a história da Torre de Babel bíblica, inspirada em questões civilizacionais da antiga Mesopotâmia.

O relato do Gênesis tenta retratar a angústia de uma civilização diante das mutações externas e internas que caracterizam a própria vida. Claramente, uma polêmica entre o processo de urbanização promovido pelo advento da monocultura agrícola e a velha ordem de pastores e de agricultura de subsistência, contrastava a Babilônia e seus jardins suspensos com uma antiga ordem que questionava a ética do progresso baseado na matéria.

Tratava-se de um mundo globalizado — todos falavam, aparentemente,

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Que uma serpente não decida por nós

Por Alex Sandro Carrari

Adão e Eva são o Todo Homem e Toda Mulher bíblicos, seu pecado é o nosso pecado

Deixemos de lado Adão e Eva como nomes próprios. Não os tratemos como indivíduos sobre os quais pese a total culpa do primeiro delito. Não pensemos que Adão e Eva eram invólucros de pleno purismo interior vivendo em estado de imperturbada perfeição (A perfeição do homem é a perfeição de uma vocação, não de uma situação, como escreve F. Varillon). Desprendamo-nos da idéia de um primeiro casal exemplar e puro sulcando delituosamente a maçã num paraíso primordial. Desconsideremos que a árvore ocultava uma ameaça. Que o mal estava contido no fruto. No lugar do casto e ingênuo casal das origens, coloquemo-nos a nós mesmos, com seco realismo, abocanhando nossa mais alucinada ganância, nossa mais ostentosa ambição, nosso mais agudo desejo de dominação.

Como Deus sereis. O prêmio é a conquista imediata da alteridade, o completo desimpedimento da percepção. A árvore não é boa nem má, a ciência é neutra, sua manipulação é que a inclina para o bem ou para o mal. Dependendo da vontade daquele que da ciência se apropria, pode ser que seja inventada a cura para o câncer, ou, pode ser que apareça uma bomba mais devastadora do que a de Nagasaki e Hiroshima. A cobiça gerada no coração, de onde procedem os maus desígnios como dizia o Nazareno, é que antecede a fatídica dentada. O gesto consumado só evidencia a mais ativa e sombria potencialidade que se abriga em nosso íntimo, o mal em estado embrionário.

Convidados a tomar parte na vida divina através do humilde acolhimento, inaugurando alvoradas, fruindo crepúsculos dias a fio no mundo, optamos pela via do rompimento; a negação de nossa humana vocação. Colocado em termos que diariamente arrazoamos sobre seus benefícios, nada mais tentador que inventarmo-nos como Deus. Quanto aos encargos de conhecer o bem e o mal fingimos não saber do que se trata, melhor ainda – e isso limpa a nossa barra – dizemos que tanto o bem quanto o mal pertencem a Deus, e que não nos compete arquitetar sobre o caso. O velho determinismo fatalista disfarçado de piedade.

Tapamos o entendimento para a evidência de que a Bíblia não fecha com a afirmação de ser o homem totalmente mau – totalmente depravado como queria o obscuro legista de Genebra – nem totalmente bom – como querem alguns educadores atuais –, mas que é dotado de ambas as tendências. Inclina-se tanto para uma quanto para a outra. Desconversamos quanto ao relato do Gênesis onde queremos ver uma “Queda”, a escritura não classificar, e não dar espaço, para compreendermos o ato de Adão como pecado. Parece que o melhor para nossa disposição ao cinismo é não sabermos que na opinião do Pentateuco o homem é dotado de “impulsos malignos”, quer dizer, há em seu caráter uma tendência para o mal.

Fazemos de conta que nunca ouvimos dizer que a expressão que a Bíblia usa para essa tendência para o mal é yetzer, palavra que deriva da raiz YZR, que significa “formar”, “modelar”, algo como o ceramista que modela o barro para fazer um vaso. Que a palavra yetzer tem como significado “forma”, “estrutura”, “propósito” com referência a imaginação. Yetzer, portanto, significa fantasias, sejam elas boas ou más. Não, não levamos em conta que estes impulsos só são possíveis à base daquilo que é peculiarmente humano: a imaginação. Ser bom ou mal é algo dado somente ao ser humano. A questão problema do bem e do mal surge quando há imaginação[1]. Jesus deixa isso às claras quando alerta para o enraizamento da maldade na profundidade de nosso ser, onde fervilham maquinações que quando colocadas para fora revelam o que realmente vai em nosso interior.

Está certo que o homem só desenvolve seu impulso para o mal após ter rompido sua unidade primordial com a natureza e ter adquirido autoconsciência e aprimorado, com malignidade, sua imaginação. Na concepção judaica – que não leva em conta as neuras de Stº Agostinho e Calvino – o homem nasce com a capacidade de pecar, mas pode também de voltar-se para Deus e se redimir alinhando seus passos ao desejo divino, sem que para isso precise ser forçado, ou predestinado. A idéia de escolha é fundamental na mentalidade judaica, pois, ela determina quais impulsos o homem vai seguir se para o bem, se para o mal.

Que uma serpente não decida por nós

Não levamos em consideração que o “pecado original” nos termos em que fomos treinados a acreditar se conforma à nossa ociosa falta de atitude e brio pessoal em nos colocarmos em nosso lugar e arcarmos com os desmazelos próprios do nosso ego avultado. Nossa preguiça, e, pouca ou nenhuma disposição para cingir tudo o que estamos destinados a ser, avoluma o débito impagável que Adão e Eva deixaram em nossa conta. Até polimos a expressão do Bispo de Hipona, não por ser coesa com o Sacro texto, mas por ser coerente com nossa anuência em deixar que uma serpente sempre decida por nós.

A noção de “pecado original” como enunciado dogmático provoca em nós uma resignação aliviante ao sugerir que entramos na vida com dois pontos a menos em nosso cômputo, ambos perdidos lá no Éden, sem sequer termos tido a chance de protestar – como se por um acaso fosse-nos dada a chance de fazê-lo fossemos mesmo capazes. No início não queríamos, com o tempo, deixamos de ser homens, falidos e descontentes com nossa sorte, porém, relutantes em assumir nossa responsabilidade pelo que fizemos no passado e pelo que faremos daqui em diante. A sublimação voluntária de nossa responsabilidade e consciência evolutiva do mal que nós mesmos gestamos, fizeram florescer imagens de Satãs e Luciferes heróicos como o de Milton ou patéticos como o de Goethe, tornando o pecado mais interessante e o pecador mais atraente que o santo, embora não admitamos publicamente.

Isolando o dogma, a necessidade de redenção pessoal foi arquitetada a partir da noção de “pecado original” e “Queda”, que não constam em Gênesis, mas para todos os efeitos é dito e ensinado que constam, tornando-se pedras fundamentais sobre as quais foi construída a mensagem cristã de salvação.

O pecado de todos nós e o que estamos destinados a ser

Passivos e trêmulos observamos da coxia Adão, o homem-pecador em cena, homem-insurrecionário, altivo e rebelde tumultuando o céu, instalando com apenas uma dentada a desordem cósmica como efeito do orgulho que lhe penetrou o coração. (Um início caricatural do mundo, em que Deus cria tudo perfeitamente e o homem abala essa perfeição introduzido o caos e a desordem). Daí as imagens de auto-afirmação – a cobiça de Adão no Éden ao pé da árvore da ciência – seguidas de sexo desordenado – fora dele quando foram expulsos – que povoam nossa mente quando pensamos no pontual primeiro delito e em sua extensão; e viram que estavam nus. Não por acaso, no imaginário cristão, o primeiro casal só foi conhecer o sexo após a "Queda" e a expulsão do paraíso. Uma definição prometéica do pecado, que nas obras de T.S.Eliot começou a ser redefinida.

Eliot expôs um mundo de lume fosco acinzentado, habitado por homens ocos e empregados de aparência débil, diagnosticando a verdadeira doença de nosso tempo, enquanto que nossa geração avança manquejando, não para sua realização, mas para o queixume e o tédio. Becket nos apresentou personagens que lançam olhares apreensivos das latas de lixo e dos montes de sujeira, onde chafurdam inertes e impotentes, trocando palavras desconexas e banais. Kafka nos fez apavorar com a parábola do ordinário empregado de escritório cuja primeira reação, ao ver-se transformado num terrível inseto, é calcular se ainda dará pra chegar a tempo ao trabalho. No século XXI a figura prometéica perdeu lugar na cena, que foi ocupada pelos fracos, passivos e trêmulos observadores da coxia.

Ao localizarmos a “Queda” com excessivo rigor na história do fruto proibido, nublamos o entendimento para o verdadeiro gerador do pecado no homem que consta, por exemplo, na paulada criminosa de Caim em Abel, na arrogância religiosa da Torre de Babel, na tentativa de homicídio contra José; a recusa do homem em viver em reciprocidade com seu próximo, compartilhando a terra e dividindo seus frutos e conquistas. O primeiro pecado humano não é um pecado de orgulho, é um pecado de condescendência. A má ação original de Eva – que representa o Todo Homem e Toda Mulher – não foi comer o fruto, pois, antes mesmo de esticar o braço e apanhá-lo seu coração já o havia cobiçado, renunciando a sua posição de domínio sobre si e responsabilidade sobre seus atos. A má ação original de Eva foi deixar que uma cobra lhe dissesse o que fazer.

A meia verdade da mítica serpente, não por acaso fálica, se confirmou, não morreram eles e não morremos nós ao comermos da árvore. Não se trata dessa morte que, acossados, tanto fazemos questão de desconversar. Não se trata desse nosso medo mais acirrado. Trata-se de outro tipo de morte. Da morte antecipada, da morte provocada, da vida abreviada, do fôlego extinto ao meio dia, das primaveras corrompidas. Asseveramos com tanta ansiedade a inauguração da morte física como um castigo divino, que ofuscamos o brilho de nossa mais fulgente virtude, emanar as qualidades invisíveis do Eterno antes que se rompa o fio de prata. Ambicionamos ser iguais a Deus sem acolhe-lho, então negamos, suprimimos, rejeitamos nossa humanidade, nos desumanizamos no processo; deixamos de ser homem. O homem é a criatura que está destinada a realizar seu próprio destino através do acolhimento do divino. Quando cede esse direito de decisão a outrem, e opta por não acolher o dom da reciprocidade divina, deixa de ser homem, se torna desumano.

O pecado que convencionamos chamar de “original” não é o pecado apenas de um, ou dois indivíduos num estranho e longínquo Jardim de Delícias, antes, é o pecado de todos nós na secularidade das nossas vidas, porque todos pecaram. No egoísmo somos solidários em pecado com o genérico Adão, para a morte. Na reciprocidade somos solidários em santidade com o Cristo ressuscitado, para a vida. O apático esquivamento de nossas responsabilidades, nossas decisões pessoais transferidas a outrem, a alienação de uma vida de harmonia com o semelhante, a passividade diante das varias expressões da maldade, a negação da nossa humana vocação; eis o pecado em sua origem. Eis o pecado original.

Notas
[1] Erich Fromm, O ESPÍRITO DE LIBERDADE, p 128-131

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Jardim do Éden revisitado

Por Roque de Barros Laraia, da UnB

ABSTRACT: Análise do mito de Lilith, primeira esposa de Adão, segundo a tradição judaica, que foi expurgada do texto, hoje conhecido, pela censura dos editores bíblicos que procuraram adequar o livro sagrado aos valores e padrões morais de suas épocas. O Autor mostra que esses cortes não foram suficientes para apagar totalmente a figura de Lilith da tradição oral e, muito menos, de alguns textos rabínicos. No decorrer deste mito fica claro que, ao consumir o fruto proibido, Adão adquiriu o conhecimento do bem e do mal e não apenas o da sexualidade. Mas, o mais importante é o fato que Lilith representa a primeira reação feminina ao domínio masculino.

Claude Lévi-Strauss cautelosamente evitou a realização de uma análise estruturalista do Gênesis, sob a alegação de que "a mitologia do Velho Testamento foi distorcida pelas operações intelectuais dos editores bíblicos" (Leach, 1983:74), além do fato de considerar o contexto etnográfico como "quase inteiramente ausente" nos referidos textos. Esta argumentação foi refutada por Leach em seu brilhante artigo "A Legitimidade de Salomão"(Id., ibid.), no qual demonstrou a existência na Bíblia de evidências etnográficas passíveis de serem analisadas pelo método antropológico, além da consideração que a seqüência cronológica que foi estabelecida pelos "editores" tem, "por si mesma, um significado estrutural".

Concordamos com Leach sobre a disponibilidade do material bíblico para a análise antropológica e também que os antropólogos, que utilizam os mitos de outras religiões, devem abandonar o seu "melindre extraordinário com a análise do Cristianismo e do Judaísmo que são religiões nas quais eles próprios, ou seus amigos próximos, estão profundamente envolvidos." (:136). Retomamos, portanto, neste trabalho, o texto bíblico do Gênesis, buscando demonstrar que os "editores bíblicos", através do tempo, procuraram mediante uma atitude censorial uma espécie de "pasteurização"[1] do discurso original, numa tentativa de adequá-lo aos valores morais e culturais de suas respectivas épocas. Contudo, os trechos que foram objetos de cortes não tiveram o seu registro totalmente apagado, continuam disponíveis em outros textos, principalmente os da religião Judaica. A legitimidade etnográfica deste material pode ser invocada, pois o Cristianismo é uma religião derivada do Judaísmo, partilhando com o mesmo o discurso mítico contido no Velho Testamento.

Ao retomarmos a análise das histórias que têm como cenário o Jardim do Éden seguimos a trilha aberta por Frazer, Freud e principalmente o próprio Leach (1970), mas, ao contrário destes autores, pretendemos utilizar os trechos que foram extirpados nas sucessivas edições do discurso mítico.

No sétimo dia da Criação, Deus criou o homem à sua imagem: "à imagem de Deus o criou: macho e fêmea os criou." (Gênesis, 1,27). Tal afirmação categórica é uma negação da versão mais difundida: a de que o homem foi criado antes da mulher. Neste ponto, existem interpretações diferentes. A primeira é a de que Adão seria um ser andrógino (macho e fêmea) e que a separação de Eva representaria a cisão da criatura original andrógina em duas (Unterman, 1992:25). A androginia de Adão é explicada em alguns textos rabínicos, como no Sepher Ha-Zohar, que contêm a afirmação de rabi Abba: "O primeiro homem era macho e fêmea ao mesmo tempo pois a escritura diz: E Elohim disse: façamos o homem à nossa imagem e semelhança (Gênesis, 1,26). É precisamente para que o homem se assemelhasse a Deus que foi criado macho e fêmea ao mesmo tempo"[2].

Existe, contudo, uma outra interpretação, que nos parece mais fascinante, a de que, a exemplo do que foi feito com os animais, Deus teria criado um casal: Adão e uma mulher que antecedeu a Eva. Esta mulher primordial teria sido Lilith[3], figura bastante conhecida da antiga tradição judaica. Lilith não se submeteu à dominação masculina. A sua forma de reivindicar igualdade foi a de recusar a forma de relação sexual com o homem por cima. Por isso, fugiu para o Mar Vermelho. Adão queixou-se ao Criador, que enviou três anjos em busca da noiva rebelde. Os três anjos eram Sanvi, Sansanvi e Samangelaf[4]. Os emissários do Senhor tentaram em vão convencer a fujona.

Ameaçaram afogá-la no mar[5]. Lilith, porém, respondeu: "Deixem-me, não sabeis que não fui criada em vão e que é meu destino dizimar recém-nascidos; enquanto é um menino tenho poder sobre ele até o oitavo dia, se é menina, até o vigésimo. No entanto, ela jurou aos anjos, em nome do Deus vivo, de que sempre que avistasse as figuras ou apenas os nomes dos mensageiros de Deus, deixaria a criança em paz. Também aceitou o fato de que diariamente iriam perecer cem de seus próprios filhos." (Gorion, :53). Lilith foi transformada em um demônio feminino, a rainha da noite, que se tornou a noiva de Samael, o Senhor das forças do mal.

Segundo uma velha tradição, Lilith seria uma figura sedutora, de longos cabelos, que voa à noite, como uma coruja, para atacar os homens que dormem sozinhos. As poluções noturnas masculinas podem significar um ato de conúbio com a demônia, capaz de gerar filhos demônios para a mesma. As crianças recém-nascidas são as suas principais vítimas. A crença em Lilith, durante muito tempo, serviu para justificar as mortes inexplicáveis dos recém-nascidos. Uma forma de proteger as crianças contra a fúria da bela demônia é escrever na porta do quarto os nomes dos três anjos enviados pelo Senhor. Outra maneira é a de afixar no berço do recém-nascido, três fitas, cada uma delas com um nome dos três anjos. Segundo Unterman, na véspera do Shabat e da Lua Nova, quando uma criança sorri é porque Lilith está brincando com ela. Para protegê-la deve se bater três vezes de leve no nariz da criança, pronunciando uma fórmula de proteção contra Lilith[6]. O mesmo Autor afirma que, na Idade Média, era considerado perigoso beber água nos solstícios e equinócios, períodos estes em que o sangue menstrual de Lilith pinga nos líquidos expostos. Finalmente, uma outra tradição judaica afirma que a lendária rainha de Sabá que teria visitado Salomão nada mais era do que Lilith. O sábio rei, contudo, descobriu o ardil, ao levantar a saia da rainha e constatar que as suas pernas eram peludas.

Segundo uma lenda judaica, após a expulsão do paraíso, Adão para se mortificar ficou cento e trinta anos afastado de Eva. Uma ocasião que estava dormindo sozinho, Lilith o encontrou e deitou-se ao seu lado e dele concebeu um sem número de demônios. Os que se defrontavam com eles eram torturados e mortos (Gorion, :54).

A rebelião de Lilith contra Adão e o Criador levou à necessidade da criação de Eva, esta formada a partir de uma costela de Adão (Gênesis, 2, 21). É possível, portanto, imaginar que um corte foi realizado entre o capítulo 1, versículo 28, e o capítulo 2, versículo 21. É provável que este corte tenha ocorrido, mesmo em época bastante remota, como no quarto século antes de Cristo, quando se supõe que o texto escrito tomou uma forma aproximada da atual (Leach, 1983:77). O próprio teor do capítulo 1, versículo 28, sustenta esta hipótese: "E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra ..." Como seria possível abençoar a ambos e recomendar a multiplicação se Eva ainda não estava criada?

Roberto Sicuteri (1986:27) chama a atenção para um outro detalhe importante: após a criação de Eva, extraída da costela de Adão, este diz: "Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada varôa, porquanto do varão foi tomada" (Gênesis, 2, 23). Para Sicuteri, esta agora soa como desta vez numa inequívoca referência a uma mulher anterior.

Eva, porém, à sua maneira, repetiria o gesto de rebelião de sua antecessora. Deus tinha permitido ao homem comer todas as frutas do jardim, com apenas uma exceção: "Mas da árvore da ciência do bem e do mal, d'ela não comerás; porque no dia que d'ela comeres, certamente morrerás." (Gênesis, 2,17). É exatamente esta interdição que é rompida por Eva. A versão canônica é que a mulher assim procedeu tentada pela serpente, sob a alegação de que o consumo da fruta proibida a tornaria tão poderosa como Deus. Acreditando na pérfida serpente, Eva comeu do fruto proibido e convenceu o seu companheiro a fazer o mesmo. A punição por este ato de desobediência original foi a perda da imortalidade, a partir de então os homens tornaram-se mortais. Existem outras interpretações para esta história. Os teólogos modernos acreditam que a serpente foi a forma tomada pelo demônio para tentar Eva. Existe também a crença de que Lilith teria se transformado em serpente para tentar Eva e se vingar de Adão. Uma terceira interpretação é a que faz parte de uma tradição judaica: "a serpente bíblica era um animal astucioso, que caminhava ereto sobre as duas pernas, falava e comia os mesmos alimentos que o homem. Quando viu como os anjos prestigiavam Adão, teve ciúme dele, e a visão do primeiro casal tendo relação sexual despertou na serpente o desejo por Eva. Por instigação de Satã ou Samael, ou, segundo algumas versões, possuída por ele, a serpente persuadiu Eva a comer o fruto proibido e seduziu-a. Como castigo, suas mãos e pernas foram cortadas e ela teve de se arrastar sobre o seu ventre, todo alimento que comia sabia a pó, e tornou-se eterna inimiga do homem.(...) Quando teve relação sexual com Eva, injetou sua peçonha nela e em todos os seus descendentes. Essa peçonha só foi removida do povo de Israel quando estavam no monte Sinai e receberam o Torá." (Unterman, 1992:236).

Expulsos do paraíso, Adão e Eva tiveram, segundo a versão canônica, dois filhos: Caim e Abel (Gênesis, 4, 1 e 2). As causas do fratricídio cometido por Caim são bastante conhecidas, por isso passamos diretamente para uma outra versão: "num paroxismo de ciúme pela não aceitação de sua oferenda e por uma irmã gêmea que Abel desposara (o grifo é nosso), Caim matou seu irmão." (Unterman, 1992:54). Chamamos a atenção para um elemento novo que surge neste momento, a existência de uma irmã gêmea que fora desposada por Abel. Posteriormente, voltaremos a tratar deste assunto. No momento, interessa-nos mais a versão de que Caim, de fato, não era filho de Adão, mas da serpente que tinha seduzido Eva. E mais, quando foi banido para o leste do Éden, Deus lhe atribuiu chifres, para afugentar os animais que lhe pudessem atacar. A sua punição consistia em perambular pela terra, sem descanso, sem que ninguém o pudesse matar. Contudo, foi morto por um seu descendente, Lamech que o confundiu com um animal selvagem. A versão atual não faz menção ao "parricídio" de Lamech, mas nos dá indício que neste ponto também agiram os editores bíblicos. Vejamos o que diz os versículos 23 e 24 do capítulo 8 do Gênesis: 23. "E disse Lamech as suas mulheres: Ada e Zilla, ouvi a minha voz; vós, mulheres de Lamech, escutai o meu dito; porque eu matei um varão por minha ferida, e um mancebo por minha pisadura". 24."Porque sete vezes Caim será castigado, mas Lamech setenta vezes sete." Por que este último versículo atribui uma maior punição a Lamech? A resposta nos é dada pelo versículo l5 do mesmo capítulo: "O Senhor porém disse-lhe: Portanto qualquer que matar a Caim sete vezes será castigado. E pôs o Senhor um sinal em Caim, para que não o ferisse qualquer que o achasse." Este versículo não deixa dúvida sobre quem foi a vítima da flecha de Lamech, além disto refere-se a um sinal colocado por Deus em Caim, que pode ser os chifres mencionados na tradição judaica.

O versículo 25 do capítulo 8, também, é bastante significativo: "E tornou a Adão a conhecer a sua mulher; e ela pariu um filho, e chamou o seu nome Seth; porque disse ela Deus me deu outra semente em lugar de Abel; porquanto Caim o matou." Esta frase de Eva ficaria melhor na boca de Adão (não teria sido ele que a proferiu?), porque Adão somente considera como a sua descendência a de Seth (desde que Abel não deixou descendentes). Contudo, os versículos 17 a 22 do capítulo 8 referem-se a grande descendência de Caim. Para se ter uma idéia de sua dimensão, basta registrar que Lamech era neto de Mehujael, bisneto de Caim; ou seja, cinco gerações o separava de seu maldito ancestral. Resta, então, uma dúvida que nos permite formular duas hipóteses: a primeira, Adão teria repudiado a linhagem de Caim em função do fratricídio; a segunda é que Adão não considerava a descendência de Caim, sabedor da infidelidade de Eva.

Em seu artigo "O Gênesis enquanto um mito", Leach (1983) demonstrou as característica míticas das estórias bíblicas. Repetindo os argumentos desse Autor, podemos analisar o Velho Testamento como um mito porque existe uma comunidade de pessoas que acreditam no texto sagrado "quer correspondam aos fatos históricos ou não". Os disparates e contradições existentes no discurso bíblico reforçam a sua definição como mito, porquanto "a não racionalidade do mito é a sua verdadeira essência, pois a religião exige uma demonstração de fé que se faz suspendendo-se a dúvida crítica."

Utilizando-se da linguagem técnica da comunicação, Leach demonstra que uma das características do mito é o da redundância, ou seja, uma mesma mensagem deve ser repetida várias vezes para melhor atingir os receptores. Assim, no discurso canônico, o homem é criado duas vezes: (Gênesis 1, 27) "E creou Deus o homem à sua imagem..." e (Gênesis 2,7) "E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra...". Além disso, existe ainda um outro momento da criação da humanidade a partir da descendência de Noé: (Gênesis 9, 1): "E abençoou Deus a Noé e a seus filhos, e disse-lhes: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra." As reincidências das redundâncias visa a superação dos ruídos das interferências que surgem entre o transmissor e os receptores. Os adeptos da Bíblia acreditam na natureza divina do transmissor, mas a maioria deles ignora as interferências provocadas pelos chamados editores bíblicos. A Antropologia não está interessada na discussão do caráter divino do transmissor. Os antropólogos acreditam mesmo na existência de diversos transmissores que foram, no decorrer do tempo, os responsáveis pela criação do mito. Neste trabalho, enfatizamos os ruídos que se colocaram entre os emissores ancestrais e os receptores que continuam a existir. As distorções apontadas por Lévi-Strauss ao invés de nos afugentarem serviram de estímulos para a análise que faremos a seguir.

Do ponto de vista antropológico, o Gênesis é um mito de origem que busca explicar o surgimento do primeiro homem e como tal não difere muito de outros mitos, integrantes das diferentes cosmologias existentes, principalmente em dois pontos fundamentais:

1) O mito não visa a explicação do surgimento de toda a humanidade - como depois foi sugerido pelos exegetas judaicos e cristãos - mas, apenas o surgimento de um povo específico, no caso os hebreus. Tal fato está confirmado pelo versículo 16 do capítulo 4: "E saiu Caim de diante da face do Senhor, e habitou na terra de Nod, da banda do oriente do Éden." O versículo seguinte afirma que "Caim conheceu a sua mulher e ela concebeu, e pariu Enoch..." Há duas interpretações possíveis para estes dois versículos: a primeira é que o conheceu significa apenas ter relações sexuais e, portanto, Caim teria chegado ao leste do Éden já com uma companheira. Mas a interpretação mais plausível é que de fato tenha encontrado um outro povo. Isto é mais condizente com o estilo dos mitos de origens, marcados fortemente pelo etnocentrismo.

2) O mito narra a história do pecado original. É portanto semelhante às narrativas que mostram que o homem perdeu a imortalidade em função de sua própria culpa. Uma escolha mal feita, um ato de desobediência (como no Gênesis) ou uma ofensa a um ser sobrenatural. Os Tupi Guarani seriam imortais se a primeira mulher não tivesse duvidado dos poderes de Mahíra. O texto bíblico relata a dupla desobediência da mulher: Lilith não atende a convocação do Senhor para voltar para Adão; Eva come do fruto proibido e convence Adão a fazer o mesmo.

O pecado original transforma os seres puros, criados por Deus, em seres impuros. A mulher, a principal responsável pela queda, expressa a sua impureza através da própria biologia. Assim o fluxo menstrual é considerado pelos hebreus como uma forma de poluição que exige rituais de purificação para aqueles que são contaminados. Ao se relacionar sexualmente com a serpente, Eva foi contaminada pela terrível peçonha da mesma. Tal contaminação é transmitida a toda sua descendência, tanto aos filhos de Seth como de Caim. Esta peçonha foi retirada do povo de Israel, no monte Sinai, quando Deus estabeleceu um novo pacto com os Hebreus (Êxodo, 34, 10-28), conclamando-os a uma forte endogamia. O casamento com outros povos possibilitaria uma nova contaminação com a peçonha de Eva. O etnocentrismo da religião judaica contrasta, neste ponto, com o caráter universalista do cristianismo. Maria, a mãe de Jesus, torna-se a mãe de toda humanidade para com a sua pureza livrá-la da contaminação original. O sacrifício de Cristo seria um novo pacto de Deus com os homens, mas desta vez uma aliança universal.

Todos os mitos de origem defrontam-se com a questão do incesto. É comum o caso de um casal de gêmeos que dá origem à espécie humana. Nestes casos, o mito estabelece uma relação de inversão com as práticas sociais de seus adeptos. A relação sexual consangüínea é permitida aos ancestrais, que vivem naquele tempo, mas se torna uma prática abominável para os mortais comuns. O Gênesis não escapa desta característica. Mesmo se desprezarmos a pouco conhecida irmã gêmea de Abel, tão cobiçada por Caim[7], as práticas incestuosas aparecem no Gênesis. Primeiro, com o próprio Adão e a Eva, filhos de um mesmo Criador, portanto tecnicamente irmãos, e carne da mesma carne, conforme proclamou Adão. Segundo, com Seth que gerou a Enos, provavelmente com a parceria de uma mulher, filha de Adão.

Em uma cultura fortemente marcada por oposições binárias, do tipo bem/mal, mulheres permitidas/mulheres proibidas etc., temos que concordar, mais uma vez, com Leach que as personagens do Gênesis pertencem a uma terceira categoria de seres, os anômalos ou os mediadores, que são capazes de praticar atos proibidos ao restante da humanidade.

Discordamos, portanto, de Leach quando estabelece que o consumo do fruto proibido levou o primeiro homem e a primeira mulher ao conhecimento da sexualidade, quando diz que "Adão e Eva comem o fruto proibido e tornam-se conscientes da diferença sexual". Baseamos a nossa discordância tanto na análise dos textos canônicos quanto os não canônicos. Quanto a estes últimos, lembramos que Lilith abandonou Adão porque queria ficar por cima no ato sexual; a serpente desejou Eva estimulada pela visão da mulher tendo relações sexuais com o primeiro homem. Quanto aos primeiros, recordamos que o versículo 28, do capítulo 1, apontado anteriormente neste trabalho como anterior à Eva, e conseqüentemente antes de sua desobediência, recomendava ao casal inicial "frutificai e multiplicai-vos e enchei a terra..." O próprio versículo 27, quando diz "macho e fêmea os criou", já sugere a possibilidade do intercurso sexual. Por outro lado, não existe nenhuma indicação de relacionamento com a sexualidade nos trechos mais relacionados com a desobediência original como nos versículos 4 e 5, do capítulo 3: 4. "Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis." 5. "Porque Deus sabe que no dia em que d'ele comerdes se abrirão aos vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal." Foram, com certeza, editores bíblicos de um período mais recente, dominados por uma ética sexual do tipo que hoje chamamos judaico-cristã, que adaptaram o texto tornando-o mais compatível com uma moral sexual mais rígida e estabelecendo uma nova dicotomia de categorias do bem e do mal. Foram eles que consideraram a prática sexual como pecaminosa.

A principal mensagem do conjunto de mitos produzidos por uma sociedade de pastores e guerreiros nômades, fortemente patriarcal e patrilinear como demonstram as genealogias do Gênesis, imbuída de uma ideologia machista, refere-se exatamente à questão da mulher vista como um ser extremamente perigoso, necessitando portanto ser fortemente controlada. Esta forma de perigo fica demonstrada, no mito, pelo comportamento das duas primeiras mulheres, as esposas de Adão. Lilith recusou ser dominada pelo homem. "Por que devo deitar embaixo de você?" - pergunta ela - "Eu também sou feita do pó, e assim sendo somos iguais"[8]. E nem mesmo a tentativa de Adão de dominá-la pela força produz resultado; ela invoca o nome de Deus e foge para o mar Vermelho, uma região abundante em demônios lascivos, com os quais ela reproduz diariamente uma centena de lilim (demônios, filhos de Lilith). A sua rebelião a transforma definitivamente em um ser demoníaco, perpétuo inimigo dos homens e de suas crianças. É muito significativo que Lilith não ataque as mulheres, com a exceção apenas das noivas. Eva, denominada por Adão "a mãe de todos os seres viventes", e mais fácil de ser subjugada porque não foi feita como ele do pó, mas de uma parte dele, também demonstrou a sua capacidade de ser perigosa. Ao ser seduzida pela serpente, desobedeceu a ordem de Deus de não comer do fruto proibido e convenceu ao homem a fazer o mesmo ("Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi" - Gênesis, 3, 12), condenando toda humanidade a ser exilada do Éden. Estruturalmente, Lilith e Eva cometeram o mesmo crime, o da desobediência ao Senhor e foram punidas da mesma forma: Todos os dias, por toda a eternidade, Lilith, "a mãe dos demônios" tem que se conformar com a morte de 100 lilim; da mesma forma, Eva é a responsável pela morte de todos os seus descendentes que poderiam ser imortais se continuassem a viver no Paraíso.

Concluindo, a nossa intenção neste trabalho foi uma reconstrução de um mito de origem de um grupo de pastores nômades que mais tarde foram identificados como Hebreus, pertencentes a uma mesma área cultural, cujos maiores expoentes foram as culturas Babilônica e Sumeriana. Muito dos mitemas encontrados nos mitos bíblicos tem a sua origem nas versões mais antigas dos povos da Mesopotâmia. O processo de canonização do Torá (e conseqüentemente da Bíblia) iniciou-se aproximadamente no ano 400 a.C., durante o governo de Ezra[9], um dos chamados editores bíblicos. Não pretendemos reconstituir aqui todas as modificações sofridas após o livro sagrado dos judeus ter sido apropriado pelo Cristianismo, apenas daremos uma idéia destas transformações indicando a quantidade de textos que foram considerados apócrifos[10] pelos diferentes editores.

Cerca do ano 100 a.C., os rabinos preocupados com a canonização do Torah consideraram como verdadeiros todos os textos que foram produzidos antes de 500 a.C., mantendo uma constante discussão sobre os demais. Este processo culminou entre a queda de Jerusalém (70 a.C.) e o ano de 135, pelos componentes da chamada escola de Yavneh. A partir desta época nenhum novo livro podia ser acrescentado e rejeitado. Tal fato deixou de lado um considerável número de textos em hebreu ou aramaico, que foram então denominados os livros escondidos ou os apócrifos. Muitos destes textos foram incorporados no Septuagint, uma versão grega do Velho Testamento, produzida em 270 a.C. e, desta forma, é uma variante mais extensa que a Bíblia judaica. A tradição protestante é mais fiel ao texto Hebreu, enquanto a católica está mais próxima do Septuagint.

São considerados apócrifos nas Igrejas Protestantes e aceitos pela Igreja Católica os livros de Tobias (escrito em Hebreu e Aramaico, 200 a.C.), Judith (escrito em Hebreu, 200 a.C.), A Sabedoria de Salomão (composto nos meios helenísticos, 100 a.C.), Baruch (100 a.C.), A Carta de Jeremias, Macabeus I e II (o primeiro escrito em Hebreu e o segundo em Grego, ambos cerca de 200 a.C.), Adições ao livro de Daniel (data desconhecida), Adições ao livro de Ester (provavelmente 100 a.C.) e A Sabedoria de Jesus Sirach (escrito em Hebreu, 200 a.C.).

São considerados apócrifos tanto nas Igrejas Protestantes como na Católica os livros de Macabeus III e IV (100 a.C.), Ezra III e IV (200 a.C.) e a Prece de Manasseh (data incerta).

São considerados apócrifos pela Igreja Católica e pseudografados pelas Igrejas Protestantes os livros A Carta de Aristea (200 a.C.), Jubileus (escrito em Hebreu no fim do segundo século a.C.), O Testamento dos Doze Patriarcas (escrito em hebreu ou aramaico, entre o primeiro e o segundo século a.C.), Enoch I (165 a.C.), Salmos de Salomão (escrito em hebreu, cerca de 50 a.C.), A Assunção de Moisés (início da era cristã), A Ascensão de Isaias (idem), O Apocalipse de Baruch (50 a.C.), os Livros Sibilinos (inicio da era cristã) e o Documento de Damasco (200 a.C.).

Tal inventário[11] mostra a quantidade de material que foi retirado das bíblias atuais e que provavelmente, em muitos casos, contêm uma quantidade razoável de informações míticas à disposição dos estudiosos preocupados com uma análise antropológica da cosmologia judaica. De nossa parte, contentamos-nos em ter realizado uma análise que, seguindo os passos da efetuada por Leach, parece-nos mais abrangente e mais fiel às versões mais arcaicas do mito hebreu.

Notas

[1] Utilizamos o verbo pasteurizar no sentido de realizar um processo através do qual se extrai o que não é desejável.

[2] De Pauly, apud Roberto Sicuteri.

[3] "Lilith é usualmente derivado da palavra Babilônica/Assíria Lilitu `um demônio feminino ou um espírito do vento' - parte de uma tríade mencionada nas invocações mágicas babilônicas. Mas aparece mais cedo como Lilake em uma inscrição Sumeriana do ano 2000 a.C. que contém a lenda `Gilgamesh e o Salgueiro'. É uma demônia vivendo em um tronco de salgueiro vigiado pela deusa Inanna (Anath) em uma margem do Eufrates. A etmologia do hebreu popular parece derivar Lilith de layl, noite, e ela freqüentemente aparece como um monstro noturno peludo no folclore Árabe." (Graves e Patai, 1983:68).

[4] Robert Graves & Raphael Patai (1983) citam os nomes Senoy, Sansenoy e Semangelof, como as palavras que devem ser usadas para afugentar Lilith. Estes Autores não estão certos que estes sejam os nomes próprios dos emissários do Senhor.

[5] "De acordo com uma lei sumeriana, se uma mulher 'odeia' seu marido e diz para ele 'Voce não é mais meu marido' ela deve ser lançada no rio" (Campbell e Freedman, 1970). Provavelmente é numa lei semelhante a esta que se baseia a ameaça dos anjos.

[6] Entre nós existe o costume de dizer que uma criança que está sorrindo brinca com um anjo. Esta afirmação é da mesma estrutura mítica que a referida no texto, passando, porém, por uma transformação simples do tipo "substitua cada elemento por seu oposto binário" (Leach, 1983:81). No texto, a criança brinca com o demônio, entre nós com o anjo.

[7] Casando-se ao leste do Eden, Caim poderia ter se livrado do pecado do incesto, mas Leach compara o fratricídio a uma forma homossexual de incesto.

[8] Com esta frase, Lilith indica a simultaneidade de sua criação e o fato de ter sido feita da mesma matéria que Adão. Neste sentido, é bastante esclarecedor o trecho de Fox, R. (1993:17): "Deus pega um punhado de terra ("o pó da terra", em hebraico "adamah"), e molda o homem ("adam"), como se a semelhança existente entre duas palavras pudesse apontar para uma verdadeira ligação entre dois objetos."

[9] Ezra foi governador de Judá, a serviço de Artaxerxes I, Rei da Pérsia. Restaurou os muros da cidade de Jerusalém e procurou dar maior liberdade ao povo judeu. A sua principal preocupação foi a de regulamentar os livros sagrados, sendo Autor de um deles (Musaph-Andriesse, 1982).

[10] Este termo era utilizado inicialmente para se referir aos livros excluidos do conjunto canônico, tendo mais tarde adquirido um significado pejorativo.

[11] As informações sobre o processo de canonização e a relação dos apócrifos e pseudografados foram extraídas do livro de Musaph-Andriesse.

Bibliografia

CAMPBELL Jr., E. e FREEDMAN, D.
1970 The biblical archaelogist, New York, A. Doubleday Anchor Original.

De PAULY, J. (org.)
1978 Il libro dello Zohar, Atanor.

FOX, R.L.
1993 Bíblia, verdade e ficção, São Paulo, Cia. das Letras.

GRAVES, R. e PATAI, R.
1983 Hebrew myths. The book of Genesis, New York, Greenwich House.

LEACH, E.
1983 "A legitimidade de Salomão", "Nascimento virgem" e "Gênesis enquanto um mito", in Da MATTA (ed.), Edmund Leach, São Paulo, Ática.

1970 "Lévi-Strauss in the Garden of Eden: an examination of some recent developments in the analysis of myth", in HAYES, E.N. e HAYES, T., Claude Lévi-Strauss, the anthropologist as hero, Cambridge, MA, The M.I.T. Press.

MUSAPH-ANDRIESSE, R.C.
1982 From Torah to Kabbalah. A basic introduction to the writing of judaism, New York, Oxford University Press.

SICUTERI, R.
1986 Lilith. A lua negra, São Paulo, Paz e Terra.

UNTERMAN, A.
1992 Dicionário judaico de lendas e tradições, Rio de Janeiro, Jorge Zahar.