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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Pastor presbiteriano abandona preconceito e se torna uma das principais vozes contra a intolerância religiosa

Por Clarissa Monteagudo do Jornal Extra

Na primeira Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa em 2008, o pastor Marcos Amaral, da Igreja Presbiteriana de Jacarepaguá, aceitou o convite do babalaô Ivanir dos Santos, seu amigo dos tempos de articulação política, para representar os evangélicos. Foi na cara e na coragem, como diz. Ao ver a multidão em trajes afro, o pastor gelou. Até então, aquela imagem era associada ao demônio. Apavorado, Marcos Amaral buscou refúgio no alto do carro de som. Mas, ao descer, o pedido de uma senhora fez o líder mudar de rota e se tornar hoje uma das principais vozes em defesa da liberdade religiosa.

— Eu estava morrendo de medo. Nunca tinha estado em contato com “essa gente” porque, para mim, nessa época, não eram pessoas. Quando desci, pensei em ir embora. Quando estava saindo, uma jovem correu atrás de mim e me pediu para tirar uma foto com a mãe dela. Vi uma senhora negra com roupas de baiana. Ela me pediu: “O senhor pode orar por mim?” e botou a minha mão no turbante dela. Aquela velhinha me quebrou. Nunca mais a vi, mas ela nunca saiu de mim — lembrou o pastor.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Babel: De volta à confusão

Por Nilton Bonder, rabino e escritor.

As guerras são sempre míticas. Nelas se revelam aspectos do imaginário humano que manifestam forças profundas da natureza e da vida.

O conflito no Iraque, entre tantos significados políticos e culturais, possui um elemento que o torna quase místico. É de lá que vem a história da Torre de Babel bíblica, inspirada em questões civilizacionais da antiga Mesopotâmia.

O relato do Gênesis tenta retratar a angústia de uma civilização diante das mutações externas e internas que caracterizam a própria vida. Claramente, uma polêmica entre o processo de urbanização promovido pelo advento da monocultura agrícola e a velha ordem de pastores e de agricultura de subsistência, contrastava a Babilônia e seus jardins suspensos com uma antiga ordem que questionava a ética do progresso baseado na matéria.

Tratava-se de um mundo globalizado — todos falavam, aparentemente,

quarta-feira, 27 de abril de 2011

A Insegurança das Identidades Sob Ataque

Por Nilton Bonder, rabino e escritor.

O Eclesiastes diz que há um tempo para tudo, tempo de alegria, tempo de tristeza, tempo de paz e tempo de guerra. É muito possível que, quando ele foi escrito, o mundo vivesse um momento em que realmente a situação se assemelhasse a nossa experiência contemporânea.

Nos anos 90 vivemos com a nítida sensação de que o período de paz experimentado, ou os processos de pacificação que se estabeleceram, representava o início de uma definitiva forma de convivência pacífica. Estaríamos iniciando o tão esperado e milenarmente sonhado futuro de harmonia, justiça e paz. Somos então surpreendidos por tempos de guerra como se isso fosse realmente um destino sobre o qual não temos nenhum poder. A guerra seria como a chuva. Nossa sensação de impotência diante de tempos disso ou tempos daquilo pareceria fazer-nos fantoches da realidade.

Mas eu tenho a impressão que o Eclesiastes estava falando de uma outra coisa. Não se trata de resignação ou de uma proposta reacionária, mas algo similar ao que Morin nos diz ao falar que "não temos para onde ir". Isso porque o refrão marcante e chocante deste livro diz: Não há nada novo sob o sol.

À primeira vista esta frase parece extremamente pessimista: não podemos fazer nada; tudo vai ser igual; geração vem, geração vai os seres humanos são prisioneiros de uma natureza humana da qual não tem como "sair desse lugar". De certa maneira, mais do que nos percebermos como parte Gaia, de um planeta onde temos que conviver porque não temos para onde ir, compartilhamos mais do que tempo e espaço, compartilhamos naturezas.

Vivemos mais que no mesmo local cósmico, somos conterrâneos de essência. Eu acho que é isso que o Eclesiastes está dizendo: temos que lidar com uma estrutura humana que de geração em geração vai precisar de um processo de amadurecimento, vai precisar de uma educação para o futuro que não virá pronta, geneticamente feita. O bebê que, como o cachorro, identifica o outro como um igual, é o mesmo bebê capaz de grandes violências em disputas por posse ou atenção, e será este o bebê do futuro.

As diferenças do que experimentamos hoje não têm a ver com transformações de nossa natureza. Tem a ver com a maior compreensão e o aumento de recursos para que possamos promover nosso amadurecimento pessoal e coletivo. Um amadurecimento que sempre será um processo no qual teremos não só poderes, mas a responsabilidade de intervir. Vamos poder melhorar as condições de nossa civilização, mas mesmo assim teremos tempos de paz e tempos de guerra. Não necessariamente guerras em que a gente pegue avião e jogue bombas, mas guerras travadas dentro de nós mesmos. Seus armistícios serão celebrados pelo amadurecimento de não mais termos que recorrer a métodos infantis de posse, de controle e de triunfo, que hoje, como no passado, vemos tão presente na realidade.

Duas questões em relação ao diálogo me parecem importante compreendermos porque são, por um lado, a razão da existência do fundamentalismo, e, por outro, território eterno de batalhas. Transformar as espadas em arados, como o profeta Isaias sugeriu, é um processo, mas não de transformação da espécie humana e sua natureza.

Muitas vezes queremos viver no espaço da mágica ou da fantasia. Queremos exorcizar de nós o "eu" de que não gostamos, que identificamos como não sendo ideal. Isaias falava, no entanto, de substituir instrumentos de destruição por outros que propiciassem plantio. Referia-se ao processo de criar ferramentas para amadurecer as pessoas extinguindo os instrumentos que infantilizam as pessoas.

Não há dúvidas de que o mais importante instrumento é o diálogo, nos moldes que a professora Lia Diskin coloca: não pessoas em disputa, mas trafegando pelas idéias. A passagem desse diálogo de discórdia, de busca de triunfo para o diálogo verdadeiro se traduziria pela mudança do jargão da "tolerância", que é uma palavra horrível porque dela se infere um consentimento precário, para a idéia de "apreciação". Apreciar significa celebrar juntos e pensar juntos, independentemente de concordância. E este é o campo das "guerras de tempos em tempos" com as quais cada geração terá que lidar.

Há uma reflexão sobre o diálogo entre mestres Chassídicos que elucidam algumas das dificuldades e que ajudam a compreender, ou melhor, apreciar as "batalhas" que para sempre serão travadas. O Rabino de Kotzk dizia: "Se eu sou eu porque você é você, e se você é você porque eu sou eu, então eu não sou eu e você não é você e a gente não tem o que falar. Mas, se eu sou eu porque eu sou eu, e você é você porque você é você, então eu sou eu e você é você e podemos conversar".

O rabino aponta para o fato de que as inseguranças humanas se depositam todas no espaço das interações e das comparações. Quando eu sou eu porque você é você, significa que só consigo ter uma noção de identidade quando me comparo a você. A raiz desta relação de diálogo ou não-diálogo se fundamenta na questão da insegurança; uma insegurança tão profunda que na verdade nos coloca numa existência paralela, de impossibilidade de encontros e nunca poderemos conversar. Para o diálogo não importa se há discórdia ou convergência de idéias, é apenas fundamental que você esteja falando não de um lugar de insegurança, mas de um lugar de identidade, de crença, de visão.

O fenômeno do fundamentalismo em nosso tempo é basicamente produto da insegurança de identidades que se encontram sob ataque, identidades vacilantes e que se valem mais de aspectos daquilo que não são do que de suas próprias raízes e valores. Essa atitude torna as pessoas, as tribos e as identidades enganchadas a quem o outro é.

Vemos aqui nitidamente a batalha por amadurecimento que se trava em nós e que extravasa para a realidade social. Somos muitas vezes crianças transvertidas em adultos e reproduzimos relações sociais e políticas típicas desta infantilidade mascarada. A grande batalha é o fortalecimento das identidades individuais e coletivas para que possa existir mais diálogo - mais instrumentos para tornar espadas em arados. Precisamos fortalecer as culturas e as tradições religiosas para que não se sintam criticadas ou julgadas de fora, mas que elas mesmas possam fazer isso de dentro.

O primeiro passo para este mundo de diálogo é que cada um faça o seu dever de casa, o dever de casa de amadurecimento, de poder realmente desenvolver uma identidade, uma identidade que seja o fruto da sua própria história, produto de sua própria crítica e aperfeiçoamento.

O que nós vemos nas tradições religiosas do Ocidente (não falo do Oriente por sentir-me um leigo no assunto) é, por exemplo, a questão emblemática sobre Jerusalém. Essa briga por Jerusalém é basicamente uma disputa em torno de inseguranças internas das tradições ditas bíblicas. Jerusalém só será Jerusalém se ela for a Jerusalém dos judeus. Ou Jerusalém só será Jerusalém se ela for a Jerusalém dos muçulmanos, ou seja, contanto que não seja a Jerusalém dos judeus, ou então que não seja a Jerusalém dos cristãos.

Os textos sagrados que são matriz da reflexão religiosa, seja o Alcorão seja o Novo Testamento, ou o Antigo Testamento, refletem essa questão da insegurança na identidade. O Antigo Testamento precisa afirmar o quão diferente os hebreus eram da civilização egípcia ou dos povos dos canaãnitas. O Novo Testamento e o Alcorão, por sua vez são marcados por esta visão enganchada. Nestes textos os judeus, por exemplo, se prestam ao papel de um legítimo outro para estas tradições.

No Alcorão, judeus são apresentados como um modelo do "que não se é", mas mesmo que esse judeu seja um judeu simbólico, que não seja o povo judeu, a marca dessa insegurança é evidente. Já no Novo testamento o judeu é apresentado como aquele que você não quer ser, aquele que renega. Encontramos aqui resquícios desse recurso do qual todas as tradições lançam mão, umas mais outras menos, qual seja, a criação de teologias usando o outro para afirmar o que não eram, nitidamente visando fortalecer sua própria identidade.

Enquanto as tradições religiosas não entenderem que elas têm que fazer uma limpeza, livrando nossas identidades de suas inseguranças infundadas, ficará difícil o diálogo verdadeiro e processos de guerras mais internas e menos externas. Todos os líderes, sejam de uma cultura, uma nação ou uma tradição espiritual, têm como obrigação se envolver nesse processo de autodiagnóstico de suas inseguranças e buscar vencê-las com maturidade, distanciando-se de processos infantis de apontar o outro e dizer: "foi ele!".

Uma segunda questão em relação ao diálogo e que raramente paramos para pensar, é um diálogo não entre os que estão aqui na nossa geração, mas o diálogo intergerações e suas violências. Outro dia eu escrevia sobre uma história no Talmud, uma história muito simples, mas que desperta para esta questão. Conta que um rabino comprou uma tâmara tão maravilhosa que impregnava o ambiente com sua fragrância. O filho do rabino entrou na casa e disse: que cheiro fantástico é esse? O pai disse: meu filho essa tâmara é para você. O filho ficou feliz e levou a tâmara. Como viviam na mesma casa o rabino ouviu quando seu filho no outro cômodo disse a seu próprio filho, a seu neto: Veja que tâmara fantástica, é para você! Imediatamente o rabino fez um comentário que reputo importante. Disse ele: "Quando meu filho cedeu a tâmara, por um lado estremeci de tristeza, por outro, fiquei extremamente feliz. Fiquei triste porque ele me preteriu ao seu próprio filho; mas fiquei feliz porque o que ele fez era certo".

Devemos prestar atenção na tensão que existe aqui. O que o rabino fez: ele abre mão de um prazer para possibilitá-lo a seu filho que por sua vez faz o mesmo com o seu filho. O pai se sente traído por que havia aberto mão do prazer, mas não esperava ser preterido pelo neto - para seu filho era mais importante o neto uma vez que privara o pai do prazer da tâmara, propiciando-o a seu filho. Ao mesmo tempo ele se contenta, pois compreende que seus próprios valores estão presentes em seu filho e que este procedeu da mesma maneira que havia feito. Ele reconhece um vetor de preocupação prioritário para com a geração do futuro e não para a geração do passado. Essa é uma tensão extremamente difícil. Quando os pais não elaboram esta tensão em si, como no caso do rabino, eles produzem mensagens contraditórias e extremamente violentas.

Não é simples honrar os diálogos entre gerações. Devemos respeito às gerações anteriores, mas é fundamental que estas gerações anteriores assumam a responsabilidade de uma atitude madura em relação à sua tristeza por ser preterida e ter que, por vezes, abrir mão daquilo que acreditam ser certo. Cabe a essas gerações temperar sua tristeza com a alegria de reconhecer processos que favorecem e renovam as gerações futuras. A exigência de lealdade para com as instituições e os poderes que representam o passado muitas vezes rompem o diálogo com as instâncias que representam o futuro.

Essas duas questões de amadurecimento influenciam a qualidade e a disponibilidade ao diálogo. E ambas as questões aparecem nitidamente no discurso fundamentalista: 1) identificar inimigos para fortalecer sua identidade e 2) promover um vetor de compromisso mais forte do pai para com o avô do que para com o neto.

Há um detalhe nessa questão de maturidade que gostaria de ressaltar. Quando o rabino de Kotzk dizia que "se eu sou eu porque você é você" então eu não posso ser eu e não podemos dialogar, um outro aspecto fica evidente. E outro rabino Chassídico, o Ishbitzer, se preocupou em apontar. Ele dizia o seguinte: se eu sou eu e você não é você, então você não gosta de mim.

Esse é um aspecto da natureza humana e que tange a frustração e a inveja. Quando não estamos bem, qualquer um que esteja bem é o nosso inimigo; qualquer um que esteja com uma identidade fortalecida nos lembra de nossas vulnerabilidades. Muitas vezes se chega a ponto de acreditar que nossa infelicidade é produto deste que nos lembra de nossa insatisfação ou de nossa insegurança. Guerrear com este inimigo externo fica mais fácil do que se defrontar com seus inimigos e fantasmas internos.

Em outras palavras, nossa luta é por propiciar o máximo de instrumentos culturais e tradicionais que visem ao amadurecimento das pessoas. Essa luta será constante. Fazer com que ela seja travada na esfera da educação e não das guerras é o desafio maior para nossa civilização. Haverá momentos mais propícios para que uma geração experimente essa maturidade, haverá outros, sejam no âmbito da sobrevivência ou da continuidade, que serão mais difíceis. Viver é lidar com tempos disso, tempos daquilo. Fantasiar que a vida possa ser uma homeostase, um equilíbrio permanente, é abandonar a própria definição de vida.

De que maneira nós geramos processos que infantilizam as nossas populações? Como engendrar uma educação que vise a este amadurecimento?

As conquistas da civilização, particularmente o avanço científico, que amplia nossa longevidade e nos faz sonhar inconscientemente com a possibilidade da imortalidade, não ajudam a promover este amadurecimento. O mundo fica muito marcado por este aspecto jovial e imaturo que se constrói da perspectiva de um futuro infinito. O jovem e o conquistador têm todos os lugares para ir e todos os prazeres por provar. A grande bênção de saber que não há para onde ir - não porque a Terra é limitada, mas porque somos todos inquilinos temporários da existência - é em si o lugar de encontro com todos esses conterrâneos e contemporâneos, com quem dividimos, acima de tudo, nossa condição finita. Precisamos de uma cultura amadurecida que ensine isso sem morbidez. Ao invés temos, por um lado uma cultura jovial que é uma cultura de consumo, uma cultura imatura que acha que a vida é ilimitada, que os recursos são ilimitados; por outro, uma cultura de anciãos que se sentem muito ameaçados em sua identidade e que não acreditam no que ensinaram a seus filhos. Daí a criação de culturas aprisionadoras ou fundamentalistas.

As ferramentas para esta educação estão hoje mais disponíveis do que nunca. Dispomos da psicanálise que nos traz um melhor conhecimento de nós mesmos, além de entendermos melhor os processos históricos e sociais e dispomos de forma globalizada de toda a herança sapiencial de nossa civilização.

Investir na possibilidade de tornar disponíveis estes instrumentos de amadurecimento a todos os seres humanos, visando as supri-los de recursos materiais e recursos pessoais para seu desenvolvimento parece ser a única chance de diálogo e paz. Só assim promoveremos uma "liberdade tranqüila" independente de se os tempos sejam de tranqüilidade ou adversidade.

quinta-feira, 31 de março de 2011

A vergonha de Deus

Por Nilton Bonder, 10/OUT/2001

O professor ouviu um ruído e foi olhar. No chão estava o Marquinhos filho do vizinho que tinha caído da varanda e sangrava profusamente. Mesmo sendo uma pessoa de idade tomou o menino nos braços e começou a correr desesperado para o Hospital a poucas quadras. No caminho vinha descendo a ladeira uma senhora que, ao vê-lo esbaforido, gritou: "Calma, professor... vai dar tudo certo. Não se apresse tanto. Deus vai ajudar... e o senhor já não tem idade para correr assim com uma criança no colo!". Ela então se aproximou e, em pânico, constatou: "Ai meu Deus, é meu netinho! Corre professor, corre, pelo amor de Deus, corre."

O verdadeiro Deus está na urgência que reconhece no rosto "um netinho", um seu. Até então aparece o deus da idolatria, respaldado muitas vezes pela fé que não enxerga a urgência do outro. A base das religiões bíblicas é o reconhecimento de que o ser humano é a imagem e semelhança de Deus. Não reconhecer esta semelhança seja num executivo do mundo financeiro nova-iorquino, seja num fanático islâmico, seja num negro africano desnutrido, seja num chinês que não parece diferente de outro chinês, é a prova dos nove do sucesso ou falência do establishment religioso (de todas as religiões) de levar a verdadeira mensagem a seus adeptos.

Há vários inimigos invisíveis que estão ficando visíveis nesta crise pela qual passa o mundo. Há o inimigo de uma civilização que nos aliena em relação ao outro. Uma cultura de fobia do outro e de sonharmos com um mundo de privacidade. Uma espécie de des-socialização que nos leva a ser novamente nômades e coletores. Nômades porque podemos estar em qualquer lugar, sem apreço e carinho pelo lugar; e coletores porque não plantamos para o futuro, apenas para o nosso breve futuro pessoal.

E a América não é este mal, apesar de muitos simboliza-la como este mal. Afinal este mal pode estar mais vivo na Arábia Saudita com seus sheiks e monarcas trilionários do que numa Nova Iorque símbolo de integração entre raças, culturas e religiões. O mimado príncipe Bin Laden, que à moda de tantos filhos de nobres e milionários do Ocidente precisa de um hobby para dar sentido a sua pobre existência, é talvez mais Ocidental do que seus seguidores o percebam. Sem deixar de reconhecer que o presidente Bush tem nas mãos o potencial de uma Guerra Santa seja na crise em si ou seja em posturas como as assumidas nas questões de comércio internacional ou questões ambientais do planeta.

Mas o inimigo invisível maior está nas próprias religiões. Não que elas estejam em guerra. Elas nunca estiveram tão aliadas como na atualidade. Elas se compreendem porque funcionam de forma muito semelhante. São elas a maior fonte de doutrinação da juventude, mergulhadas que estão nas ideias de "certo" e "errado". Afinal não foi desta árvore do "Certo e Errado" que comeram no paraíso como pecado maior?

É claro que os fundamentalistas e os fanáticos de cada uma destas tradições são o rosto deste mal, mas as tradições religiosas não realizam Guerras Santas contra esta heresia maior que é não reconhecer a urgência do outro. As tradições religiosas não são proféticas na denúncia de si próprias, no compromisso absoluto com a ética e com uma visão universal. E se o Islã hoje está em evidência, por mérito próprio, não escapa também o judaísmo com o fomento de fundamentalistas-nacionalistas. Não escapa a Igreja com seu corporativismo e ideias subliminares de salvação por uma única porta. Ou o fundamentalismo evangélico que vê Satã por todos os lados, ou em outras palavras, inimigos por todos os lados.

Enquanto as religiões não cerrarem fileiras contra sua própria heresia (esqueça-se a do outro!) elas serão parte do inimigo invisível. E não se trata de encontros ecumênicos e inter-religiosos como um cenário de papelão à frente de bastidores de intolerância e soberba.

O mundo marcha à guerra e não há vergonha maior do que a das religiões. Elas não veem a urgência por que não ajudaram este mundo a compreender que qualquer morte é a de um netinho. Que se prestem hoje no século XXI como pano de fundo para terror e horror é um fracasso inominável, vergonha inocultável.

O século XXI chegou com esta surpreendente novidade: ou percebemos que é do "nosso netinho" que se trata a questão e não de um outro virtual, ou perecemos. Isto porque o futuro será cheio do "outro" ao contrário do que supunham os analistas. Falavam eles de um mundo de computadores, cada um trabalhando em casa, menos horas de trabalho, mais automatização, mais "eu" e menos "os outros" em nossas vidas. Porém o mundo globalizado não é um mundo grande, é um mundo pequeno cheio de gente. O século XXI estará repleto do outro. É um outro cada vez mais numeroso - nunca existiram tantos outros em nenhuma era. E esse outro vive muito - nunca viveram tanto os outros em nenhuma era. É chegado o momento de abandonar o vício da busca de inimigos.

Os inimigos somos nós mesmos. E as religiões que não buscarem este inimigo em si são as religiões idólatras desta nova Era. Não se trata mais de ser Monoteísta, isso é passado. Trata-se de saber como cada uma delas honra este Deus único pelo respeito máximo a seu semelhante. Dizia George Santayana que "O fanatismo consiste no ato de redobrar esforços por conta de se ter esquecido dos objetivos."

As religiões parecem esquecer seu objetivo maior que não é reconhecer Deus apenas como sendo Um, mas cada ser humano, Sua imagem e semelhança, como um ser único. E pelos que morreram, vergonha sobre nós religiosos. E pelos que irão morrer, mais vergonha! E quando estivermos vendo imagens pela televisão onde apareçam crianças ou jovens ensanguentados, olhemos mais de perto - "serão nossos netinhos".

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Paz sem perdão

Por Nilton Bonder

Encravado na liturgia do Dia do Perdão, o Iom Kipur dos judeus, está o Livro de Jonas. Um Livro pouco compreendido cuja notoriedade se dá mais pelo incidente de ser o herói engolido por um grande peixe, do que por seu conteúdo. O enredo do Livro nada mais é do que a banal convocação de um profeta para que sirva de mensageiro de uma advertência do Criador à cidade de Ninive exortando que esta se arrependesse. O profeta reluta em aceitar a intimação divina mas acaba por fim cumprindo-a. A cidade de Ninive se arrepende, o profeta fica deprimido e o Criador lhe dá uma lição de moral mostrando que toda a relação verdadeira implica em responsabilidade e esta, por sua vez, em flexibilidade.

Na realidade, o Livro esta mais preocupado em mostrar uma dimensão da persona de todos nós que é representada por Jonas. O profeta fica deprimido com a missão com a qual é incumbido porque sabe que este D'us de Israel é um D'us compassivo. Um D'us que é capaz de conceder perdão até mesmo a Ninive, cidade da Assíria, arquiinimiga de Israel, é insuportável para um nacionalista ardente como Jonas. Mais que isto, como é comum a textos bíblicos onde o personagem é uma representação de um traço humano, o nome do herói é revelador. Ele é Jonas filho de Amitai. A raiz da palavra "Amitai" é a palavra "verdade". Jonas-o-filho-da-Verdade não consegue suportar o D'us do arrependimento, o D'us de um olhar distinto para o que já foi rotulado de "o outro".

Perdoar é um comportamento que exige uma redefinição do outro. Passa pela flexibilização das verdades já assumidas. Jonas fica constrangido por um D'us que abre mão da verdade ou das verdades. Mas o mais doloroso do perdão é que este exige uma redefinição de nós mesmos. É mais fácil que o outro permaneça perverso do que ter que refazer toda a nossa compreensão do mundo e da realidade.

A paz é uma espiral do perdão. Quanto mais dizemos: "eu sinto muito", menos provavelmente teremos que dizer. Quanto mais precisarmos ouvir "eu sinto muito", menos provável que o aceitemos.

O problema israelense-palestino fica fora do enquadramento das fotos da mídia do soldado israelense perseguindo a criança palestina. Perseguindo este soldado estão por um lado as ditaduras e o fundamentalismo árabe com suas verdades e por outro o radicalismo religioso e o pânico histórico por segurança presentes em camadas da população israelense com suas verdades. O filósofo Martin Buber dizia que o drama israelense-palestino estava no fato de ambos se apoiarem sobre verdades. E a verdade de um, incontestavelmente, legitima a demonização do outro.

Talvez fosse necessária uma nova partilha da Palestina. Onde dois povos já existentes - israelense e palestino - convivessem em harmonia pela ordem do perdão; e onde outros dois povos - israelense e palestino - vivessem em conflito preservado pelo zelo de suas verdades. Poderíamos então entender que já há uma paz feita e uma paz ainda por fazer. Uma paz a se fazer, para constrangimento de todos, na qual o D'us da verdade de um venha a se revelar o mesmo D'us da verdade do outro.

Ou talvez outros tempos venham a chegar onde não se faça necessária qualquer partilha seja entre povos distintos ou dentro de um mesmo povo. Uma cena permanece viva na memória de minha última visita a Jerusalém. Era um dia de celebração para o Islã e a esplanada das mesquitas, onde a verdade do Islã construiu sobre a verdade de Israel, estava repleta por 1/4 de milhão de muçulmanos. Num dado momento, desde o bairro judeu da cidade velha, deparei-me com a seguinte vista: os judeus rezavam para o Muro das Lamentações, enquanto os muçulmanos eram visíveis no topo da colina em suas orações e, ao fundo, as igrejas se sobressaiam com suas torres e com os sons de seus sinos. Tive então um estranho insight. Do que é visto desde às alturas, desde a perspectiva deste D'us para quem oram, não há diferença nenhuma entre os tempos messiânicos de harmonia absoluta e estes tempos que vivemos de confronto e conflito. O sonho, a utopia, que perpassa estas três civilizações não se encontra meramente no futuro, mas aqui mesmo, neste lugar... em outro lugar. Aquilo de que os profetas falavam: aqui há outra forma de enxergar a realidade. Este enxergar é toda a distância que existe entre o possível e o impossível deste lugar.