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terça-feira, 31 de julho de 2012

No princípio era a Bíblia

Por Jean Lauand, titular sênior da FEUSP e professor titular do Programa de Pós-graduação em Educação da UMESP.

As expressões cotidianas que tiveram origem na Bíblia, mas nem sempre nos damos conta

Quais são os grandes referenciais de comunicação comuns a todos os brasileiros? Ao contrário de outros países e épocas, não temos clássicos que todos tenham lido; nem riquíssimos repertórios de provérbios, que, no Oriente, são conhecidos por qualquer criança. Não são patrimônio de todos episódios da história pátria, que possam ser trazidos para aplicação a outros casos. Nem um Alcorão, que nos países árabes abastece de metáforas e frases feitas os diversos setores da vida secular.

Para nós, o futebol é de longe o principal fornecedor de metáforas e expressões para a vida cotidiana: situações políticas, econômicas, afetivas, profissionais etc. são rapidamente compreendidas por meio do recurso a seu amplíssimo repertório. Um par de exemplos, de comunicação aparentemente difícil, mas que se tira de letra, bem e rapidamente, evocando o futebol.

sábado, 2 de junho de 2012

Do que roubamos de Deus e dos anjos

Por Osvaldo Luiz Ribeiro, biblista e exegeta.


1. Dos anjos, roubamos os sexos. A coisa é grave. Quando falamos "anjo", duvido que não nos venha à mente aquela coisa medieval, loira, de asas de ganso ou cisne, olhos de cor européia, forma grega... Anjos. Vestem túnicas, nessas representações, mas são... eunucos.

2. Mas não eram assim, antigamente. Gn 6,1-4 - a despeito das "exegeses acomodadoras da tradição" -, conhece uma antiga mitologia de sexo entre "anjos" e mulheres. É uma antiga tradição, que está por trás (sem trocadilhos!) do nascimento de Hércules e, até, de Jesus: os seres divinos - deuses, anjos - podem "conhecer" (em sentido bíblico), as mulheres.

3. Um - agora - apócrifo, Enoque, tomou essa passagem e fez, com ela, um famoso midraxe judaico, explicando, por inflação, criatividade e necessidade que foi aí e então, quando os "anjos" desceram dos céus a deitarem-se com as filhas de Eva, que aproveitaram e lhes ensinaram as "macumbarias".

4. Judas conhece Enoque e o cita com autoridade. Naqueles tempos, os anjos tinham, então, com o que se deitar com mulheres.

5. Pois bem, grande parte da tradição da Igreja castrou esses anjos, talvez para evitar cultos orgiásticos, cuja liturgia era encenada, certamente, pelos "anjos" das igrejas, conhecidos das Cartas de Apocalipse... Ali se emascularam anjos, expulsaram pessoas (gnósticas) e se excluíram livros sagrados ("apócrifos") - refiro-me à parte da crise gnóstica, essa, por trás de Judas.

6. Mas, na Idade Média, o imaginário cristão devolveu genitais aos anjos - e, agora, também às anjas. Íncubos e Súbucos visitavam muitas camas noturnas, provocando suores e gozos nas madrugadas européias, iluminadadas pelas fogueiras, que não eram de São João...

7. Mas, passou. Os anjos de hoje são andróginos, de novo, como o quis a boa prática cristã contra-gnóstica. Exceto aquelas anjinhas de vagina e barriga prenha da Igreja Matriz de Santo Antonio, em Tiradentes, Minas Gerais, impudicas, com as vergonhazinhas, pequenas, também elas, as anjinhas, esculpidas pelos cantos superiores das paredes da nave...

8. E de Deus, o que roubamos? Curiosamente, as duas histórias estão unidas. Antes de os judeus inventarem os demônios, a partir de Gn 6,1-4, seu Deus, Yahweh, podia fazer tanto o bem quanto o mau. Quem tem um Deus assim, que faz o bem e o mau, não precisa de crer em diabos, porque os diabos são explicações para uma fé que pensa que Deus faz apenas o bem, mas não o mau, mas como o mau acontece mais vezes do que o bem, então se precisa de uma explicação - os diabos! - para o mau, já que não pode ser um Deus que só faz o bem...

9. Não se castrou, literalmente, Deus. Alegoricamente, sim: era o Leão de Judá. Agora, o Gatinho de Roma/Wittenberg... Rugia, agora, mia. Isso foi há 2,5 mil anos, em Jerusalém. Corte profundo na alma daquele Deus de abrir barriga de grávidas, e tanto, que Marcião, comparando-o com o Deus de Jesus, negou que fossem o mesmo. Em certo sentido, era. Em certo sentido, não era.

10. E lá se vão, Deus e seus anjos, cada um roubado de uma parte preciosa de sua constituição - um, a capacidade de fazer desgraças e ser, por isso, Todo-Poderoso; os outros, bem, devem estar a chorar até hoje, coitados, eunucos, sendo as mulheres, admitamos, tão interessantes... Quem terá perdido mais? Deus, os anjos... ou as mulheres?

Fonte: Peroratio

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O Cristianismo nosso de cada dia

Por Maria Carolina Maia, Revista VEJA.

O historiador best-seller Geoffrey Blainey reconstrói a longa trajetória da maior religião do ocidente em mais um título da série ‘Uma Breve História de...’ e conta como a doutrina cristã influenciou a cultura ocidental

“Se os oito cristãos citados a seguir, todos influentes em seu tempo, se reunissem em torno da mesa de jantar, que conversas surgiriam”, pergunta o historiador australiano Geoffrey Blainey antes de citar nomes como São Paulo, Francisco de Assis e Martinho Lutero. São fórmulas como essas que atraem os leitores – e não são poucos – a livros como Uma Breve História do Cristianismo (Fundamento, 328 páginas, 29,50 reais) que mal chegou ao Brasil e já encontrou seu espaço na lista dos mais vendidos do país.

O livro, em si, não é espetacular. É uma espécie de história for dummies, tomando de empréstimo a expressão usada pelos americanos para designar a informação mastigada e servida na colher, feita a partir de uma gama não necessariamente extensa de fontes de pesquisa. Aquele que talvez seja o seu conteúdo mais interessante – o legado do Cristianismo para a civilização ocidental – está esparso ao longo do livro e consolidado de maneira concentrada em suas últimas três páginas. Mas é exatamente esse formato simples, com apelo a imagens, que torna os livros de Blainey tão acessíveis e populares. E desperta olhares desconfiados em colegas acadêmicos.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O fim da era de Gutenberg

Em entrevista, professor Thomas Pettitt defende que novas mídias levam humanidade de volta à era pré-Gutenberg, da cultura oral.
Por Fernanda Godoy.

NOVA YORK - Thomas Pettitt tem provocado discussão nos meios acadêmicos ao afirmar que a Humanidade está voltando à cultura de transmissão oral de informação e conhecimento, tornando a época da imprensa escrita e dos livros apenas um parêntese na História. Professor de história da cultura na Universidade do Sul da Dinamarca, ele construiu a Teoria do Parêntese de Gutenberg para analisar uma época que teria começado com a invenção da prensa, no século XV, e terminado com a era da mídia eletrônica. "Estamos caminhando para um futuro pós-imprensa", disse ele, para mais adiante acrescentar: "Alguém pode receber uma mensagem escrita quase tão rapidamente como se estivesse falando com a pessoa. É como se estivéssemos falando pelos dedos".

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A Solução Final de Lutero

Por Paulo Brabo

“O que devem fazer os cristãos contra este povo rejeitado e condenado, os judeus?”

Há alguns anos perdi instantaneamente um amigo luterano quando citei, numa conversa, trechos das fortíssimas diatribes que Lutero escreveu contra os judeus. Ao mesmo tempo em que recusou-se a acreditar que Lutero tivesse dito aquilo, meu amigo decidiu que não queria ter nada com alguém como eu que recusava-se a crer que seu herói não havia sido infalível. Lembro ter achado curioso que Lutero, que lutou com todas as forças para derrubar o dogma da infabilidade papal, tivesse de alguma forma adquirido entre os seus seguidores a fama de infalível.

“Em primeiro lugar, queimem-se suas sinagogas e suas escolas.”

Lutero era um sujeito de extremos. Identifico-me às vezes com ele. Como eu, o reformador cometia a indiscrição de escrever demais, publicando às vezes centenas de panfletos por ano; como eu, ele caiu mais de uma vez na armadilha da própria retórica.

“Em segundo lugar, recomendo que suas casas sejam também arrasadas e destruídas.”

No começo da sua carreira, quando simpatizava com os judeus, Lutero chegou a identificar-se com eles:

Os judeus são parentes de sangue do Senhor; se fosse apropriado vangloriar-se na carne e no sangue, os judeus pertencem mais a Cristo do que nós. Rogo, portanto, meu caro papista, que se te cansares de me vilipendiar como herético, que comeces a me injuriar como judeu.

Essa atitude logo mudou quando os judeus recusaram-se a converter-se como moscas diante da sua pregação, e – pior – quando Lutero viu alguns de seus cristãos convertendo-se às “mentiras” do judaísmo. Embora seja lembrado como um ardente defensor da graça, Lutero, como todos, não foi capaz de viver à altura dela. Da mesma forma que incontáveis cristãos antes e depois dele, o reformador perdeu de vista o cerne escandaloso da mensagem do Reino, a espantosa notícia de que Deus não tem favoritos e derrama sua gentileza e sua graciosidade mesmo sobre os que o rejeitam da forma mais deliberada.

“Terceiro, recomendo que todos os seus livros de oração sejam tirados deles.”

Hoje em dia, lendo essas passagens, é muito fácil lembrar que a Alemanha de Lutero seria mais tarde berço de Hitler e das atrocidades nazistas. Somos tentados a associar rapidamente as duas coisas e, na verdade, ninguém deveria ousar separá-las. Duas observações importantes são no entanto necessárias: primeiro, Lutero não estava escrevendo algo de que seus contemporâneos discordariam. Quando maldizia os judeus ele apenas colocava a sua pena em favor da maré cultural do seu tempo. Na Europa medieval, em que todas as pessoas que se davam a algum respeito eram cristãos, os judeus eram (e apenas em parte trocadilho) tomados para Cristo. Judeus eram culpados de todos os males, acusados de todos os crimes, responsabilizados por todas as pragas. Quando uma colheita falhava, você não tinha duvidas sobre quem havia jogado sobre ela o seu mal-olhado. Quando uma criança desaparecia, você não tinha dúvidas de na faca de quem ela havia sido sacrificada. Os judeus eram “o outro”, os estranhos, aqueles dos quais a gente de bem desvia o rosto. Eram, em tudo e para todos, o bode expiatório.

“Quarto, recomendo que seus rabis sejam proibidos de ensinar, sob pena de morte ou de amputação.”

Segundo, há uma diferença importante entre a posição nazista e a hostilidade medieval aos judeus, tendência que o reformador apenas seguia. Lutero era anti-judeu, Hitler era anti-semita; a primeira questão é religiosa, a segunda, racial. Lutero abraçaria um judeu que se convertesse ao cristianismo; sob Hitler, os judeus convertidos ao cristianismo foram perseguidos e mortos.

“Quinto, recomendo que o salvo-conduto para o livre-trânsito nas estradas seja completamente negado para os judeus.”

Nenhuma dessas coisas, naturalmente, justifica as declarações e a posição de Lutero – mas devem ser levadas em conta na análise do que ele estava dizendo e das suas implicações.

“Sexto, recomendo que todo o dinheiro e peças de ouro e prata sejam tomados deles e colocados sob custódia.”

Vale ainda lembrar que, embora pareça extremamente virulenta, a posição radical de Lutero não difere muito das duríssimas objeções que muitos cristãos levantam nos nossos dias contra outros grupos. O “outro” nos nossos dias é outro. Os cristãos escolheram novos alvos: dependendo da sua inclinação, os bodes expiatórios são hoje em dia os comunistas, os homossexuais, os muçulmanos, os católicos, os evangélicos, os negros, os pobres, os ricos ou uma informe combinação de todos esses.

“Sétimo, recomendo que se coloque um malho, um machado, uma enxada, uma pá, um ancinho ou um fuso nas mãos dos jovens judeus e judias.”

Continuamos a agir como se houvesse diferença. São sempre eles que carecem da graça. O coração duro é sempre dos outros.

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Sobre os Judeus e Suas Mentiras
Por Martinho Lutero, 1543

O que devem fazer os cristãos contra este povo rejeitado e condenado, os judeus? Já que eles vivem entre nós, não devemos ousar tolerar a sua conduta, agora que sabemos das suas mentiras e suas injúrias e suas blasfêmias. Se o fizermos, tornamo-nos participantes de suas mentiras, sua injúria e sua blasfêmia. Portanto não temos como apagar o inextinguível fogo da ira divina, da qual falam os profetas, e tampouco temos como converter os judeus. Com oração e temor de Deus devemos colocar em prática uma dura misericórdia, para ver se conseguimos salvar pelo menos alguns deles dentre as chamas crescentes. Não ousamos vingar a nós mesmos. Vingança mil vezes pior do que qualquer uma que poderíamos desejar já os toma pela garganta. Quero dar-lhes minha sincera recomendação:

Em primeiro lugar, queimem-se suas sinagogas e suas escolas, e cubra-se com terra o que recusar-se a queimar, de modo que homem algum torne a ver deles uma pedra ou cinza que seja. Isso deve ser feito em honra de nosso Senhor e da Cristandade, de modo que Deus veja que somos cristãos, e não fazemos vista grossa ou deliberadamente toleramos tais mentiras, maldições e blasfêmias públicas tendo como alvo seu Filho e seus cristãos. Pois o que quer que tenhamos tolerado inadvertidamente no passado – e eu mesmo estive ignorante dessas coisas – será perdoado por Deus. Mas se nós, agora que estamos informados, protegermos e acobertarmos essa casa de judeus, deixando-a existir debaixo do nosso nariz, na qual eles mentem, blasfemam, amaldiçoam, vilipendiam e insultam a Cristo e a nós, seria o mesmo que se estivéssemos fazendo tudo isso e muito mais nós mesmos, como bem sabemos.

Em segundo lugar, recomendo que suas casas sejam também arrasadas e destruídas. Pois nelas elem perseguem os mesmos objetivos que em suas sinagogas. Eles devem ao invés disso ser alojados debaixo de um único teto ou pavilhão, como ciganos. Isso fará com que eles aprendam que não são senhores no nosso país, da forma como se vangloriam, mas que vivem em exílio e no cativeiro, da forma como gemem e lamentam incessantemente a nosso respeito diante de Deus.

Terceiro, recomendo que todos os seus livros de oração e obras talmúdicas, nos quais são ensinados tais idolatrias, mentiras, maldições e blasfêmia, sejam tirados deles.

Quarto, recomendo que seus rabis sejam de agora em diante proibidos de ensinar, sob pena de morte ou da amputação de algum membro. Pois eles perderam da forma mais justa o direito a tal posição ao manterem os judeus cativos com a declaração de Moisés (em Deutoronômio 17:10ss) na qual ele ordena que obedeçam os seus mestres sob pena de morte, embora Moisés acrescente claramente: “o que eles ensinam segundo a lei do Senhor”. Esses desprezíveis ignoram isso. Eles arbitrariamente empregam a obediência do pobre povo de forma contrária à lei do Senhor, infundindo neles esse veneno, essa maldizer, essa blasfêmia. Do mesmo modo o papa nos manteve cativos com a declaração de Mateus 16, “Tu és Pedro,” etc, induzindo-nos a crer em todas as mentiras e falsidades que provinham de sua mente diabólica. Ele não ensinava em conformidade com a palavra de Deus, e perdeu portanto seu direito a ensinar.

Quinto, recomendo que o salvo-conduto para o livre-trânsito nas estradas seja completamente negado para os judeus. Eles não tem o que fazer no campo, visto que não são proprietários de terras, oficiais do governo, mercadores ou coisa semelhante. Que fiquem em suas casas.

Sexto, recomendo que sejam proibidos de emprestar a juros, e que todo o dinheiro e peças de ouro e prata sejam tomados deles e colocados sob custódia. O motivo de tal medida é que, como foi dito, eles não possuem qualquer outro modo de ganhar a vida que não seja emprestar a juros, e através da usura furtaram e roubaram de nós tudo que possuem. Esse dinheiro deveria ser agora usado para nenhum outro fim que não o seguinte: quando acontecer de um judeu se converter, serão dados a ele cem, duzentos ou trezentos florins, da forma como sugerirem suas circunstâncias pessoais. Com isso ele poderá estabelecer-se em alguma ocupação de modo a sustentar sua pobre mulher e filhos e dar suporte aos velhos e fracos. Pois tais ganhos malignos são amaldiçoados se não colocados em uso com a benção de Deus numa causa digna e justa.

Sétimo, recomendo que se coloque um malho, um machado, uma enxada, uma pá, um ancinho ou um fuso nas mãos dos jovens judeus e judias, e deixe-se que eles ganhem o seu pão com o suor do seu rosto, como foi imposto sobre os filhos de Adão (Gênesis 3:19). Pois não é justo que eles deixem que nós, os gentios malditos, labutemos debaixo do nosso suor enquanto eles, o povo santo, gastam o seu tempo atrás do fogareiro, banqueteando-se e peidando, e acima de tudo isso vangloriando-se blasfemamente do seu senhorio sobre os cristãos através do nosso suor.

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quarta-feira, 1 de junho de 2011

Nossas soluções

Por Cristovam Buarque, Senador e Professor da UnB

O Brasil é um país de alta criatividade em políticas sociais, com saídas para amenizar, não para mudar a realidade. A criatividade começou na escravidão, ao invés de aboli-la recorremos à Lei do Ventre Livre. Os escravos sexagenários, os velhos, eram libertados, um eufemismo para abandonados. Até a Abolição da Escravatura aconteceu sem oferecer educação nem terra para os ex-escravos e seus filhos. A Abolição foi um eufemismo para a expulsão dos escravos das fazendas para as favelas.

Modernamente também temos sido campeões de imaginação para soluções parciais.

Como o salário não era suficiente para pagar o transporte do trabalhador até o local de trabalho, ao invés de aumento salarial, criamos o vale-transporte, como se fosse um grande benefício social, quando, na verdade, foi um serviço à economia: garantir a presença do trabalhador na fábrica. A regra é a mesma para o vale-refeição. O salário não era suficiente para assegurar a alimentação mínima de um trabalhador, então a solução foi garantir a alimentação do trabalhador, mesmo que suas famílias continuassem sem comida.

Quando a inflação ficou endêmica, ao invés de combatê-la (só enfrentada em 1994), criou-se a correção monetária, que garantia moeda estável para quem tivesse acesso às artimanhas do mercado financeiro, enquanto o povo continuava com seus salários cada vez mais desvalorizados.

Hoje, quando o país vive um apagão de mão de obra qualificada, corremos para fazer escolas técnicas, esquecendo que sem o ensino fundamental os alunos não terão condições de aproveitar os cursos profissionalizantes.

A Bolsa Escola foi criada para revolucionar a escola. Como isso não foi feito, ela se transformou na Bolsa Família, sendo mais uma das soluções compensatórias agregada ao vale-alimentação e vale-gás.

As universidades boas e gratuitas são reservadas para os que podem pagar escolas privadas no ensino básico. No lugar de fazer boas escolas para todos, criamos o PROUNI e cotas para negros e índios. O Brasil melhora com essas medidas, mas não enfrenta o problema e acomoda a população, como se agora todos já fossem iguais. Promovem-se benefícios com soluções provisórias, como se elas resolvessem o problema.

A solução adiada seria uma revolução que assegurasse escola de qualidade para todas as crianças, em um programa que se espalharia pelo país, onde todas as escolas fossem federais, como o Colégio Pedro II, as escolas técnicas militares, os colégios de aplicação das universidades.

Quando a desigualdade social força a separação entre pobres e ricos que se estranham, ao invés de superar a desigualdade constroem-se muros em shoppings e condomínios, separando as classes sociais. Para impedir a convivência de classes, impedimos estações de metrô em bairros ricos, o que mostra um total desinteresse desses habitantes pelo transporte público.

Falta professor de Física, retira-se Física do currículo escolar. Os alunos não aprendem, adotamos a progressão automática. O Congresso não funciona, o STF passa a legislar. A população fala Português errado, em vez de ensinar o correto a todos legitimamos a fala errada para a parte da população sem acesso à educação. Adotamos dois idiomas: o Português dos ricos educados e o Português dos pobres sem educação; o Português dos condomínios e o Português das ruas. Ao invés de combater o preconceito e a desigualdade, legalizamos a desigualdade.

Ao invés de fazer as mudanças da estrutura para construir um sistema social eficiente, equilibrado, integrado e justo optamos por simples lubrificantes das engrenagens desencontradas da sociedade. Nossas soluções podem até ser criativas, mas são burras e injustas. É a sociedade acomodando suas deficiências. Ao invés de enfrentar e resolver os problemas, nossa criatividade ajusta a sociedade a conviver com eles. E adia e agrava os problemas porque ilude a mente e acomoda a política.

Fonte: PDT Senado

domingo, 22 de maio de 2011

O despertar da consciência e a transcendência histórica

Por Mircea Eliade

De tanto ouvir dizer (...) que tudo o que o homem das sociedades arcaicas pensou, imaginou ou desejou, todos os seus mitos e ritos, todos os seus deuses e experiências religiosas não passavam de um monstruoso acúmulo de insanidades, crueldades e superstições felizmente abolidas pelo progresso racional do homem, de tanto ouvir quase sempre a mesma coisa, o público acabou por convencer-se disso e desinteressou-se do estudo objetivo da história das religiões. Pelo menos uma parte desse público tenta satisfazer sua legítima curiosidade lendo obras de má qualidade sobre os mistérios das Pirâmides, os milagres da Ioga, as "revelações primordiais", ou sobre Atlântida - enfim, ela se interessa pela pavorosa literatura dos diletantes, dos neo-espiritualistas ou dos pseudo-ocultistas.

De certa maneira, os responsáveis por isso encontram-se entre nós, historiadores das religiões. Quisemos a todo custo apresentar uma história objetiva das religiões, sem perceber que o que chamávamos objetividade seguia as modas do pensamento do nosso século. (...) Como se o estudo histórico de um rito ou de um mito fosse exatamente a mesma coisa que a história de certo país ou a monografia de certo povo primitivo. Em suma, negligenciamos um fato essencial: na expressão "história das religiões", a ênfase deve ser dada à palavra religião, e não à história. Pois, se existem várias maneiras de se praticar a história - desde a história das técnicas até a história do pensamento humano -, só existe uma maneira de se abordar a religião: atentar para os fatos religiosos. (...)

Sei muito bem que estamos lidando com fenômenos religiosos e que, pelo simples fato de serem fenômenos, ou seja, de se manifestarem, de se revelarem a nós, são cunhados como uma medalha pelo momento histórico que os viu nascer. Não existe fato religioso "puro", fora da história, fora do tempo. A mais nobre mensagem religiosa, a mais universal experiência mística, o mais comum dos comportamentos humanos - como por exemplo o temor religioso, o rito, a prece - singularizam-se e delimitam-se à medida que se manifestam. Quando o Filho de Deus se encarnou e se tornou o Cristo, teve de falar o aramaico; ele só podia se comportar como um hebreu do seu tempo - e não como um iogue, um taoísta ou um xamã. Sua mensagem religiosa, por mais universal que fosse, estava condicionada pela história passada e contemporânea do povo hebreu. Se o Filho de Deus tivesse nascido na Índia, sua mensagem oral teria sido obrigada a conformar-se à estrutura das línguas indianas, à tradição histórica e pré-histórica daquele conglomerado de povos.

(...) Todos concordam que um fato espiritual, sendo um fato humano, é necessariamente condicionado por tudo aquilo que concorre para compor um homem, desde a anatomia e a fisiologia até a linguagem. Em outros termos, um fato espiritual pressupõe o ser humano integral, ou seja, a entidade fisiológica, o homem social, o homem econômico, e assim por diante. Todavia, todos esses condicionamentos não conseguem esgotar, por si sós, a vida espiritual.

(...) O homem integral conhece outras situações além da sua condição histórica. Conhece, por exemplo, o estado de sonho, ou de devaneio, ou o da melancolia ou do despreendimento, ou da contemplação estética, ou da evasão etc. - e todos esses estados não são "históricos", embora sejam, para a existência humana, tão autênticos e importantes quanto a sua situação histórica. Aliás, o homem conhece vários ritmos temporais, e não somente o tempo histórico. Basta ele escutar uma bela música, ou apaixonar-se, ou rezar, para sair do presente histórico e reintegrar o presente eterno do amor e da religião. Basta ele abrir um romance ou assistir a um espetáculo dramático para encontrar um outro ritmo temporal - o que poderíamos chamar tempo adquirido - que, em todo o caso, não é o tempo histórico. Concluiu-se depressa demais que a autenticidade de uma existência depende unicamente da consciência de sua própria historicidade. Essa consciência histórica tem um papel bem modesto na consciência humana, sem falar das zonas do inconsciente que pertencem também ao ser humano integral. Quanto mais uma consciência estiver desperta, mais ela ultrapassará sua própria historicidade.

Fonte: ELIADE, Mircea. Imagens e Símbolos - Ensaio sobre o simbolismo mágico-religioso. São Paulo: Martins Fontes, 2002. pp.24-29.

sexta-feira, 18 de março de 2011

1926, Appoio moral

Por Paulo Brabo


“Assim como foi pela fraqueza da mulher que Satanaz logrou arruinar a raça, assim outra vez, no fim dos seculos, o mesmo inimigo está fazendo seu esforço derradeiro – pelas mulheres.”

O grande paradoxo do cristianismo é que os mesmos que professam-se seguidores daquele que disse “não julgueis para que não sejais julgados” (Mateus 7:1) mostram-se (na maioria histórica das vezes) os primeiros a emitir os julgamentos mais mesquinhos, preconceituosos, precipitados e injustos – e não acham dificuldade em encontrar outros crentes que se apressem em concordar com esses seus julgamentos.

“Esta ultima manifestação do desequilibrio feminino – de cortar os cabellos – é das peiores e das mais significantes.”

O grande paradoxo do cristianismo é que historicamente a ninguém mais do que os cristãos aplicam-se as críticas e advertências ferozes que Jesus promulgou contra os fariseus, que davam “o dízimo da hortelã, do endro e do cominho”, mas negligenciavam “o mais importante da lei: a justiça, a misericórdia e a fé” (Mateus 23:23) – isto é, preocupavam-se com ninharias ao mesmo tempo em que davam as costas à essência da mensagem: “coavam o mosquito e engoliam o camelo” (Mateus 23:24).

“Não deixa de ser um revolta, uma espécie de Bolchevismo feminino.”

As tentações do cristão não são, aparentemente, as paixões da carne, mas as do espírito: tolerar o erro em si mesmos e condená-lo sem misericórdia nos outros; confundir os sinais da passagem do tempo com sinais dos fins dos tempos; desonrar a memória do seu Mestre recusando-se a aprender de fato com ele; manchar a obra do seu Salvador usurpando o papel que ele mesmo permanece adiando assumir, o de Condenador e Juiz.

Leia o texto completo da carta de 1926 da qual extraí as passagens em destaque acima.

Curioso é que um cristão evangelicamente correto dos dias de hoje fatalmente julgará os argumentos e as conclusões do autor da carta muito rasos, obtusos e inconsistentes à luz da mensagem mais abrangente da Bíblia; ignoro se seremos capazes de avaliar tão rigorosamente e com tamanha lucidez os nossos próprios julgamentos – hoje.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Desiderata*

Por Max Ehrmann; tradução de Marcelo Carahyba

Vá placidamente por entre o barulho e a pressa,
e lembre-se da paz que pode haver no silêncio.

Na medida do possível, sem violar-se,
seja amigável com todas as pessoas.
Fale a sua verdade calma e claramente;
e escute os outros,
mesmo o estúpido e o ignorante;
eles também tem sua história.
Evite pessoas barulhentas e agressivas,
elas são tormento para o espírito.

Se você se comparar a outros,
pode se tomar vaidoso ou amargo;
porque sempre haverá grandiosos e medíocres em relação a você.

Desfrute suas conquistas assim como seus planos.
Mantenha-se interessado em sua própria carreira,
ainda que modesta;
é o que realmente se possui na sorte incerta dos tempos.
Exercite a cautela nos negócios;
porque o mundo é cheio de embustes.
Mas não deixe que isso o torne cego às virtudes que existem;
muitas pessoas lutam por altos ideais;
e por toda parte a vida é cheia de heroísmo.

Seja você mesmo.
Principalmente não finja afeição.
Nem seja cínico sobre o amor;
porque em face à toda aridez e desencantamento
ele é perene como a grama.

Aceite gentilmente o conselho dos anos,
renunciando graciosamente às coisas da juventude.
Cultive a força espiritual que o protegerá no infortúnio inesperado.
Mas não se desespere com perigos imaginários.
Muitos temores nascem da cansaço e da solidão.

Adote uma disciplina sadia,
seja gentil consigo mesmo.
Você é filho do Universo,
não menos que as árvores e as estrelas;
você tem o direito de estar aqui.
E, seja claro ou não para você,
sem dúvida o Universo se desenrola como deveria.

Portanto, esteja em paz com Deus,
seja qual for sua forma de concebê-lo,
e sejam quais forem suas tarefas e aspirações,
na barulhenta confusão da vida mantenha-se em paz com a sua alma.

Com todas as suas falácias, exigências, e sonhos desfeitos,
este é ainda um mundo maravilhoso.
Seja entusiasmado.
Lute para ser feliz.



* Desiderata (do latim: "coisas desejadas" ou "aspirações", plural de desideratum) é uma prosa poética do escritor estadunidense Max Ehrmann (1872-1945), datada de 1927. Aproximadamente em 1959, o Rev. Frederick Kates da Saint Paul's Church, em Baltimore, Maryland, utilizou o poema numa coleção de devocionais que havia compilado para sua congregação com a seguinte nota: "Old Saint Paul's Church, Baltimore A.D. 1692". Nos anos '60, o poema circulou amplamente com a crença de que havia sido escrito por um anônimo em 1692, ano de fundação da igreja, e de que lá fora encontrado. O verso "Muitos temores nascem da cansaço e da solidão" pode ser encontrado na música 'Há Tempos' da extinta banda Legião Urbana. No álbum da banda, 'As Quatro Estações', existe uma nota referenciando a "lenda" do antigo manuscrito da igreja de Baltimore.

Fonte: Acervo pessoal e Wikipédia.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Trechos do livro 'Os Lucros da Religião' (1918)

Por Upton Sinclair

Verme maldito

Na mais significativa das lendas a respeito de Jesus, conta-se que o diabo tomou-o a uma montanha muito alta e mostrou-lhe todos os reinos do mundo num único momento de tempo; e o diabo disse a ele: “Dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória; porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero”. Jesus, como sabemos, respondeu e disse “Vai-te para trás, Satanás!” E estava sendo sincero: ele se recusaria a ter qualquer coisa em comum com a glória do mundo, com “poder temporal”; ele escolheu a carreira de um agitador revolucionário, e morreu a morte de um perturbador da paz. E por dois ou três séculos a sua igreja seguiu os seus passos, promovendo o seu evangelho proletariado. Os cristãos primitivos tinham “tudo em comum, exceto suas esposas”; viviam à margem da sociedade, escondendo-se em catacumbas desertas, sendo atirados aos leões e fervidos em óleo.

Mas o diabo é um verme sutil; ele não desiste diante da primeira derrota, pois conhece a natureza humana e a intensidade das forças que batalham em seu favor. Ele não conseguiu pegar Jesus, mas voltou para pegar a igreja de Jesus.

Ele veio quando, através do poder da nova ideia revolucionária, a Igreja havia conquistado uma posição de tremenda influência no Império Romano decadente; e o verme sutil assumiu a aparência de ninguém menos do que o próprio Imperador, sugerindo que ele deveria converter-se à nova fé, de modo que a Igreja e ele pudessem trabalhar juntos para a maior glória de Deus. Os bispos e pais da Igreja, cheios de ambição para a sua organização, caíram no estratagema, e Satanás saiu rindo à valer consigo mesmo. Ele tinha conseguido tudo que havia pedido a Jesus trezentos anos antes; tinha conseguido a maior religião do mundo. O quão completo e rápido foi o seu sucesso pode ser julgado pelo fato que cinquenta anos mais tarde encontramos o Imperador Valentiniano vendo-se compelido a publicar um edito limitando as doações das sensibilizadas mulheres das igrejas de Roma.

Daquele tempo em diante o cristianismo tem se mostrado… o principal inimigo do progresso social. Dos dias de Constantino até os dias de Bismarck e Mark Hanna, Cristo e César tem sido um, e a Igreja tem servido de escudo e armadura para o poder econômico predatório. Com apenas uma ressalva digna de nota: a Igreja nunca foi capaz de suprimir por completo a memória de seu fundador proletário. Ela fez o máximo nesse sentido, naturalmente; temos visto os seus acadêmicos distorcendo por completo o sentido das palavras dele, e a Igreja Católica chegou mesmo a manter o uso de uma língua morta, de modo que suas vítimas não pudessem ouvir as palavras de Jesus numa forma que pudessem entender.



Das tais

O fundador do cristianismo era homem especializado em crianças. Ele não tinha medo de ver seus discursos perturbados por elas, e não as considerava supérfluas. “Das tais é o reino dos céus”, ele disse; e sua igreja herdou essa tradição – “apascentai meus cordeirinhos”. Havia crianças na Grã-Bretanha na primeira parte do século XIX, e podemos saber o que era feito delas recorrendo à História Industrial da Inglaterra, de Gibbins:

Algumas vezes traficantes comuns tomavam o lugar dos donos de indústrias e transferiam um certo número de crianças para uma região fabril e ali as mantinham, em algum porão escuro, até que pudessem repassá-las para um dono de moinho que precisasse de mão de obra, o qual então viria e examinaria sua altura, força e habilidades corporais, exatamente como faziam os proprietários de escravos nos mercados da América. Depois disso as crianças estavam simplesmente à mercê dos seus proprietários, nominalmente na qualidade de aprendizes, mas na verdade como meros escravos, sem direito a salário, que não valia à pena sequer alimentar e vestir de forma adequada, pois eram muito baratos e podiam ser facilmente substituídos. Normalmente as autoridades paroquianas providenciavam, a fim de livrar-se dos deficientes mentais, que um idiota fosse assumido pelo proprietário do moinho a cada vinte crianças sadias. O destino desses infelizes deficientes mentais era ainda pior que o dos outros. O segredo de seu destino final nunca foi revelado, mas podemos gerar uma idéia de seus pavorosos sofrimentos pelas tribulações enfrentadas pelas outras vítimas da ganância e da crueldade capitalistas. As horas de trabalho eram limitadas apenas pela exaustão, depois que diversos modos de tortura haviam sido aplicados sem resultado para obrigá-los a continuar trabalhando. As crianças freqüentemente trabalhavam dezesseis horas por dia, dia e noite.

No ano de 1819 foi proposta no Parlamento uma lei que limitava o trabalho de crianças de até nove anos de idade a quatorze horas diárias. Essa pareceria ser uma providência muito razoável, com grande probabilidade de ganhar a aprovação de Cristo; ainda assim a proposta foi violentamente oposta pelos empregadores cristãos, apoiados pelo sacerdócio cristão. Ela interferia na liberdade de contratação e portanto na vontade da Providência; era anátema para uma igreja estabelecida, cuja função era em 1819, como é em 1918 e como era em 1918 a.C., ensinar a origem e a sanção divinas da ordem econômica vigente. “Anu e Baal convocaram-me, ó Hamurabi, adorador dos deuses…” é como começa o código legal mais antigo que chegou até nós, de 2250 a.C., e a cerimônia de coroação da igreja da Inglaterra está fundamentada na mesma tese. O dever de submissão, não apenas ao rei divinamente escolhido, mas ao divinamente escolhido Latifundiário e ao divinamente escolhido Dono de Indústrias, está implícita em cada cerimônia da igreja, e explícita em inúmeros de seus credos. Na litania o povo suplica por mais abundante graça de modo a ouvirem mansamente “a Tua Palavra”; e transcrevo a seguir a “Palavra” na forma que obriga-se as criancinhas a decorarem. Se existe no mundo um sumário mais perfeito da ética escravagista, desconheço-o.

Meu dever para com meu próximo é [...] honrar e obedecer ao Rei e a todos que são colocados em posição de autoridade abaixo dele; submeter-me a todos os meus governantes, professores, pastores espirituais e mestres; conduzir-me de forma subserviente e reverente diante de todos que gozam de padrão social superior ao meu; não cobiçar os bens de outros homens, mas aprender a trabalhar verdadeiramente de forma a merecer meu sustento e cumprir meu dever dentro daquele nível social para o qual agradou a Deus chamar-me.

Fonte: Bacia das Almas => Verme maldito, Das tais

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Provincianos do tempo

Os provincianos do tempo estão convencidos de que o presente é a única coisa que importa, e que tudo que ocorreu antes pode ser ignorado com sem maiores problemas. Para eles o mundo contemporâneo é rico, novo e suficiente, e o passado não tem nenhum interesse. Estudar história é tão inútil quanto aprender o código Morse, ou aprender a dirigir um carro de boi.

A verdade é que o mundo moderno foi inventado no passado. Quem não sabe disso não sabe os fatos básicos a respeito de si mesmo. Por que motivo age como age. De onde veio.

Todos nós somos governados pelo passado, embora ninguém compreenda isso. Ninguém reconhece o poder do passado. Mas se você pensar no assunto, o passado sempre foi mais importante do que o presente. O presente é como uma ilha de coral que aponta acima da da água, mas que está construída sobre milhões de corais mortos sob a superfície. Do mesmo modo, o nosso mundo cotidiano está construído sobre milhões e milhões de eventos e decisões que ocorreram no passado.

Um adolescente toma café da manhã e vai até uma loja comprar um CD da sua banda favorita. O adolescente pensa que vive no momento moderno. Mas quem definiu o que é uma “banda?” Quem definiu “loja”? Quem definiu “adolescente?” “Café da manhã?” Isso pra não falar no resto, todo o seu ambiente social — família, escola, roupas, transporte e governo.

Nada disso foi decidido no presente. A maior parte dessas coisas foi definida há mais de cem anos. O adolescente está em pé na montanha que é o passado. E não percebe. Ele é governado pelo que não vê, por aquilo em que não pensa, por aquilo que não conhece. Esse mesmo adolescente é radicalmente contra qualquer espécie de controle — restrições dos pais, propaganda, leis do governo. Mas o governo invisível do passado, que decide praticamente tudo na sua vida, passa despercebido.

Fonte: Extraído de dois trechos de Timeline, de Michael Crichton. Roubado dA Bacia das Almas.