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sábado, 2 de junho de 2012

Do que roubamos de Deus e dos anjos

Por Osvaldo Luiz Ribeiro, biblista e exegeta.


1. Dos anjos, roubamos os sexos. A coisa é grave. Quando falamos "anjo", duvido que não nos venha à mente aquela coisa medieval, loira, de asas de ganso ou cisne, olhos de cor européia, forma grega... Anjos. Vestem túnicas, nessas representações, mas são... eunucos.

2. Mas não eram assim, antigamente. Gn 6,1-4 - a despeito das "exegeses acomodadoras da tradição" -, conhece uma antiga mitologia de sexo entre "anjos" e mulheres. É uma antiga tradição, que está por trás (sem trocadilhos!) do nascimento de Hércules e, até, de Jesus: os seres divinos - deuses, anjos - podem "conhecer" (em sentido bíblico), as mulheres.

3. Um - agora - apócrifo, Enoque, tomou essa passagem e fez, com ela, um famoso midraxe judaico, explicando, por inflação, criatividade e necessidade que foi aí e então, quando os "anjos" desceram dos céus a deitarem-se com as filhas de Eva, que aproveitaram e lhes ensinaram as "macumbarias".

4. Judas conhece Enoque e o cita com autoridade. Naqueles tempos, os anjos tinham, então, com o que se deitar com mulheres.

5. Pois bem, grande parte da tradição da Igreja castrou esses anjos, talvez para evitar cultos orgiásticos, cuja liturgia era encenada, certamente, pelos "anjos" das igrejas, conhecidos das Cartas de Apocalipse... Ali se emascularam anjos, expulsaram pessoas (gnósticas) e se excluíram livros sagrados ("apócrifos") - refiro-me à parte da crise gnóstica, essa, por trás de Judas.

6. Mas, na Idade Média, o imaginário cristão devolveu genitais aos anjos - e, agora, também às anjas. Íncubos e Súbucos visitavam muitas camas noturnas, provocando suores e gozos nas madrugadas européias, iluminadadas pelas fogueiras, que não eram de São João...

7. Mas, passou. Os anjos de hoje são andróginos, de novo, como o quis a boa prática cristã contra-gnóstica. Exceto aquelas anjinhas de vagina e barriga prenha da Igreja Matriz de Santo Antonio, em Tiradentes, Minas Gerais, impudicas, com as vergonhazinhas, pequenas, também elas, as anjinhas, esculpidas pelos cantos superiores das paredes da nave...

8. E de Deus, o que roubamos? Curiosamente, as duas histórias estão unidas. Antes de os judeus inventarem os demônios, a partir de Gn 6,1-4, seu Deus, Yahweh, podia fazer tanto o bem quanto o mau. Quem tem um Deus assim, que faz o bem e o mau, não precisa de crer em diabos, porque os diabos são explicações para uma fé que pensa que Deus faz apenas o bem, mas não o mau, mas como o mau acontece mais vezes do que o bem, então se precisa de uma explicação - os diabos! - para o mau, já que não pode ser um Deus que só faz o bem...

9. Não se castrou, literalmente, Deus. Alegoricamente, sim: era o Leão de Judá. Agora, o Gatinho de Roma/Wittenberg... Rugia, agora, mia. Isso foi há 2,5 mil anos, em Jerusalém. Corte profundo na alma daquele Deus de abrir barriga de grávidas, e tanto, que Marcião, comparando-o com o Deus de Jesus, negou que fossem o mesmo. Em certo sentido, era. Em certo sentido, não era.

10. E lá se vão, Deus e seus anjos, cada um roubado de uma parte preciosa de sua constituição - um, a capacidade de fazer desgraças e ser, por isso, Todo-Poderoso; os outros, bem, devem estar a chorar até hoje, coitados, eunucos, sendo as mulheres, admitamos, tão interessantes... Quem terá perdido mais? Deus, os anjos... ou as mulheres?

Fonte: Peroratio

sábado, 20 de agosto de 2011

Ortodoxos, conservadores e reformistas

Entrevista com Nilton Bonder, rabino e escritor.

Quais as diferenças básicas entre os ortodoxos e não ortodoxos? Como enxerga a sociedade multi-étnica que vem se construindo em Israel? Como conviver com as diferenças? E no Brasil, no Rio, como os judeus religiosos convivem com as diferenças?

A ortodoxia é um produto do mundo moderno tanto quanto os movimentos liberais. É uma reação a transformação profunda do mundo neste último século. A ortodoxia busca o cumprimento fiel dos princípios do judaísmo demonstrando grande intransigência em relação a tudo que é novo. Os não ortodoxos acreditam que é princípio fundamental do judaísmo o próprio processo de mudança e de renovação. A lei judaica é conhecida como halachá, literalmente: "a caminhada". É sobre esta "caminhada" que versam a discórdia entre

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A Solução Final de Lutero

Por Paulo Brabo

“O que devem fazer os cristãos contra este povo rejeitado e condenado, os judeus?”

Há alguns anos perdi instantaneamente um amigo luterano quando citei, numa conversa, trechos das fortíssimas diatribes que Lutero escreveu contra os judeus. Ao mesmo tempo em que recusou-se a acreditar que Lutero tivesse dito aquilo, meu amigo decidiu que não queria ter nada com alguém como eu que recusava-se a crer que seu herói não havia sido infalível. Lembro ter achado curioso que Lutero, que lutou com todas as forças para derrubar o dogma da infabilidade papal, tivesse de alguma forma adquirido entre os seus seguidores a fama de infalível.

“Em primeiro lugar, queimem-se suas sinagogas e suas escolas.”

Lutero era um sujeito de extremos. Identifico-me às vezes com ele. Como eu, o reformador cometia a indiscrição de escrever demais, publicando às vezes centenas de panfletos por ano; como eu, ele caiu mais de uma vez na armadilha da própria retórica.

“Em segundo lugar, recomendo que suas casas sejam também arrasadas e destruídas.”

No começo da sua carreira, quando simpatizava com os judeus, Lutero chegou a identificar-se com eles:

Os judeus são parentes de sangue do Senhor; se fosse apropriado vangloriar-se na carne e no sangue, os judeus pertencem mais a Cristo do que nós. Rogo, portanto, meu caro papista, que se te cansares de me vilipendiar como herético, que comeces a me injuriar como judeu.

Essa atitude logo mudou quando os judeus recusaram-se a converter-se como moscas diante da sua pregação, e – pior – quando Lutero viu alguns de seus cristãos convertendo-se às “mentiras” do judaísmo. Embora seja lembrado como um ardente defensor da graça, Lutero, como todos, não foi capaz de viver à altura dela. Da mesma forma que incontáveis cristãos antes e depois dele, o reformador perdeu de vista o cerne escandaloso da mensagem do Reino, a espantosa notícia de que Deus não tem favoritos e derrama sua gentileza e sua graciosidade mesmo sobre os que o rejeitam da forma mais deliberada.

“Terceiro, recomendo que todos os seus livros de oração sejam tirados deles.”

Hoje em dia, lendo essas passagens, é muito fácil lembrar que a Alemanha de Lutero seria mais tarde berço de Hitler e das atrocidades nazistas. Somos tentados a associar rapidamente as duas coisas e, na verdade, ninguém deveria ousar separá-las. Duas observações importantes são no entanto necessárias: primeiro, Lutero não estava escrevendo algo de que seus contemporâneos discordariam. Quando maldizia os judeus ele apenas colocava a sua pena em favor da maré cultural do seu tempo. Na Europa medieval, em que todas as pessoas que se davam a algum respeito eram cristãos, os judeus eram (e apenas em parte trocadilho) tomados para Cristo. Judeus eram culpados de todos os males, acusados de todos os crimes, responsabilizados por todas as pragas. Quando uma colheita falhava, você não tinha duvidas sobre quem havia jogado sobre ela o seu mal-olhado. Quando uma criança desaparecia, você não tinha dúvidas de na faca de quem ela havia sido sacrificada. Os judeus eram “o outro”, os estranhos, aqueles dos quais a gente de bem desvia o rosto. Eram, em tudo e para todos, o bode expiatório.

“Quarto, recomendo que seus rabis sejam proibidos de ensinar, sob pena de morte ou de amputação.”

Segundo, há uma diferença importante entre a posição nazista e a hostilidade medieval aos judeus, tendência que o reformador apenas seguia. Lutero era anti-judeu, Hitler era anti-semita; a primeira questão é religiosa, a segunda, racial. Lutero abraçaria um judeu que se convertesse ao cristianismo; sob Hitler, os judeus convertidos ao cristianismo foram perseguidos e mortos.

“Quinto, recomendo que o salvo-conduto para o livre-trânsito nas estradas seja completamente negado para os judeus.”

Nenhuma dessas coisas, naturalmente, justifica as declarações e a posição de Lutero – mas devem ser levadas em conta na análise do que ele estava dizendo e das suas implicações.

“Sexto, recomendo que todo o dinheiro e peças de ouro e prata sejam tomados deles e colocados sob custódia.”

Vale ainda lembrar que, embora pareça extremamente virulenta, a posição radical de Lutero não difere muito das duríssimas objeções que muitos cristãos levantam nos nossos dias contra outros grupos. O “outro” nos nossos dias é outro. Os cristãos escolheram novos alvos: dependendo da sua inclinação, os bodes expiatórios são hoje em dia os comunistas, os homossexuais, os muçulmanos, os católicos, os evangélicos, os negros, os pobres, os ricos ou uma informe combinação de todos esses.

“Sétimo, recomendo que se coloque um malho, um machado, uma enxada, uma pá, um ancinho ou um fuso nas mãos dos jovens judeus e judias.”

Continuamos a agir como se houvesse diferença. São sempre eles que carecem da graça. O coração duro é sempre dos outros.

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Sobre os Judeus e Suas Mentiras
Por Martinho Lutero, 1543

O que devem fazer os cristãos contra este povo rejeitado e condenado, os judeus? Já que eles vivem entre nós, não devemos ousar tolerar a sua conduta, agora que sabemos das suas mentiras e suas injúrias e suas blasfêmias. Se o fizermos, tornamo-nos participantes de suas mentiras, sua injúria e sua blasfêmia. Portanto não temos como apagar o inextinguível fogo da ira divina, da qual falam os profetas, e tampouco temos como converter os judeus. Com oração e temor de Deus devemos colocar em prática uma dura misericórdia, para ver se conseguimos salvar pelo menos alguns deles dentre as chamas crescentes. Não ousamos vingar a nós mesmos. Vingança mil vezes pior do que qualquer uma que poderíamos desejar já os toma pela garganta. Quero dar-lhes minha sincera recomendação:

Em primeiro lugar, queimem-se suas sinagogas e suas escolas, e cubra-se com terra o que recusar-se a queimar, de modo que homem algum torne a ver deles uma pedra ou cinza que seja. Isso deve ser feito em honra de nosso Senhor e da Cristandade, de modo que Deus veja que somos cristãos, e não fazemos vista grossa ou deliberadamente toleramos tais mentiras, maldições e blasfêmias públicas tendo como alvo seu Filho e seus cristãos. Pois o que quer que tenhamos tolerado inadvertidamente no passado – e eu mesmo estive ignorante dessas coisas – será perdoado por Deus. Mas se nós, agora que estamos informados, protegermos e acobertarmos essa casa de judeus, deixando-a existir debaixo do nosso nariz, na qual eles mentem, blasfemam, amaldiçoam, vilipendiam e insultam a Cristo e a nós, seria o mesmo que se estivéssemos fazendo tudo isso e muito mais nós mesmos, como bem sabemos.

Em segundo lugar, recomendo que suas casas sejam também arrasadas e destruídas. Pois nelas elem perseguem os mesmos objetivos que em suas sinagogas. Eles devem ao invés disso ser alojados debaixo de um único teto ou pavilhão, como ciganos. Isso fará com que eles aprendam que não são senhores no nosso país, da forma como se vangloriam, mas que vivem em exílio e no cativeiro, da forma como gemem e lamentam incessantemente a nosso respeito diante de Deus.

Terceiro, recomendo que todos os seus livros de oração e obras talmúdicas, nos quais são ensinados tais idolatrias, mentiras, maldições e blasfêmia, sejam tirados deles.

Quarto, recomendo que seus rabis sejam de agora em diante proibidos de ensinar, sob pena de morte ou da amputação de algum membro. Pois eles perderam da forma mais justa o direito a tal posição ao manterem os judeus cativos com a declaração de Moisés (em Deutoronômio 17:10ss) na qual ele ordena que obedeçam os seus mestres sob pena de morte, embora Moisés acrescente claramente: “o que eles ensinam segundo a lei do Senhor”. Esses desprezíveis ignoram isso. Eles arbitrariamente empregam a obediência do pobre povo de forma contrária à lei do Senhor, infundindo neles esse veneno, essa maldizer, essa blasfêmia. Do mesmo modo o papa nos manteve cativos com a declaração de Mateus 16, “Tu és Pedro,” etc, induzindo-nos a crer em todas as mentiras e falsidades que provinham de sua mente diabólica. Ele não ensinava em conformidade com a palavra de Deus, e perdeu portanto seu direito a ensinar.

Quinto, recomendo que o salvo-conduto para o livre-trânsito nas estradas seja completamente negado para os judeus. Eles não tem o que fazer no campo, visto que não são proprietários de terras, oficiais do governo, mercadores ou coisa semelhante. Que fiquem em suas casas.

Sexto, recomendo que sejam proibidos de emprestar a juros, e que todo o dinheiro e peças de ouro e prata sejam tomados deles e colocados sob custódia. O motivo de tal medida é que, como foi dito, eles não possuem qualquer outro modo de ganhar a vida que não seja emprestar a juros, e através da usura furtaram e roubaram de nós tudo que possuem. Esse dinheiro deveria ser agora usado para nenhum outro fim que não o seguinte: quando acontecer de um judeu se converter, serão dados a ele cem, duzentos ou trezentos florins, da forma como sugerirem suas circunstâncias pessoais. Com isso ele poderá estabelecer-se em alguma ocupação de modo a sustentar sua pobre mulher e filhos e dar suporte aos velhos e fracos. Pois tais ganhos malignos são amaldiçoados se não colocados em uso com a benção de Deus numa causa digna e justa.

Sétimo, recomendo que se coloque um malho, um machado, uma enxada, uma pá, um ancinho ou um fuso nas mãos dos jovens judeus e judias, e deixe-se que eles ganhem o seu pão com o suor do seu rosto, como foi imposto sobre os filhos de Adão (Gênesis 3:19). Pois não é justo que eles deixem que nós, os gentios malditos, labutemos debaixo do nosso suor enquanto eles, o povo santo, gastam o seu tempo atrás do fogareiro, banqueteando-se e peidando, e acima de tudo isso vangloriando-se blasfemamente do seu senhorio sobre os cristãos através do nosso suor.

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quinta-feira, 31 de março de 2011

A vergonha de Deus

Por Nilton Bonder, 10/OUT/2001

O professor ouviu um ruído e foi olhar. No chão estava o Marquinhos filho do vizinho que tinha caído da varanda e sangrava profusamente. Mesmo sendo uma pessoa de idade tomou o menino nos braços e começou a correr desesperado para o Hospital a poucas quadras. No caminho vinha descendo a ladeira uma senhora que, ao vê-lo esbaforido, gritou: "Calma, professor... vai dar tudo certo. Não se apresse tanto. Deus vai ajudar... e o senhor já não tem idade para correr assim com uma criança no colo!". Ela então se aproximou e, em pânico, constatou: "Ai meu Deus, é meu netinho! Corre professor, corre, pelo amor de Deus, corre."

O verdadeiro Deus está na urgência que reconhece no rosto "um netinho", um seu. Até então aparece o deus da idolatria, respaldado muitas vezes pela fé que não enxerga a urgência do outro. A base das religiões bíblicas é o reconhecimento de que o ser humano é a imagem e semelhança de Deus. Não reconhecer esta semelhança seja num executivo do mundo financeiro nova-iorquino, seja num fanático islâmico, seja num negro africano desnutrido, seja num chinês que não parece diferente de outro chinês, é a prova dos nove do sucesso ou falência do establishment religioso (de todas as religiões) de levar a verdadeira mensagem a seus adeptos.

Há vários inimigos invisíveis que estão ficando visíveis nesta crise pela qual passa o mundo. Há o inimigo de uma civilização que nos aliena em relação ao outro. Uma cultura de fobia do outro e de sonharmos com um mundo de privacidade. Uma espécie de des-socialização que nos leva a ser novamente nômades e coletores. Nômades porque podemos estar em qualquer lugar, sem apreço e carinho pelo lugar; e coletores porque não plantamos para o futuro, apenas para o nosso breve futuro pessoal.

E a América não é este mal, apesar de muitos simboliza-la como este mal. Afinal este mal pode estar mais vivo na Arábia Saudita com seus sheiks e monarcas trilionários do que numa Nova Iorque símbolo de integração entre raças, culturas e religiões. O mimado príncipe Bin Laden, que à moda de tantos filhos de nobres e milionários do Ocidente precisa de um hobby para dar sentido a sua pobre existência, é talvez mais Ocidental do que seus seguidores o percebam. Sem deixar de reconhecer que o presidente Bush tem nas mãos o potencial de uma Guerra Santa seja na crise em si ou seja em posturas como as assumidas nas questões de comércio internacional ou questões ambientais do planeta.

Mas o inimigo invisível maior está nas próprias religiões. Não que elas estejam em guerra. Elas nunca estiveram tão aliadas como na atualidade. Elas se compreendem porque funcionam de forma muito semelhante. São elas a maior fonte de doutrinação da juventude, mergulhadas que estão nas ideias de "certo" e "errado". Afinal não foi desta árvore do "Certo e Errado" que comeram no paraíso como pecado maior?

É claro que os fundamentalistas e os fanáticos de cada uma destas tradições são o rosto deste mal, mas as tradições religiosas não realizam Guerras Santas contra esta heresia maior que é não reconhecer a urgência do outro. As tradições religiosas não são proféticas na denúncia de si próprias, no compromisso absoluto com a ética e com uma visão universal. E se o Islã hoje está em evidência, por mérito próprio, não escapa também o judaísmo com o fomento de fundamentalistas-nacionalistas. Não escapa a Igreja com seu corporativismo e ideias subliminares de salvação por uma única porta. Ou o fundamentalismo evangélico que vê Satã por todos os lados, ou em outras palavras, inimigos por todos os lados.

Enquanto as religiões não cerrarem fileiras contra sua própria heresia (esqueça-se a do outro!) elas serão parte do inimigo invisível. E não se trata de encontros ecumênicos e inter-religiosos como um cenário de papelão à frente de bastidores de intolerância e soberba.

O mundo marcha à guerra e não há vergonha maior do que a das religiões. Elas não veem a urgência por que não ajudaram este mundo a compreender que qualquer morte é a de um netinho. Que se prestem hoje no século XXI como pano de fundo para terror e horror é um fracasso inominável, vergonha inocultável.

O século XXI chegou com esta surpreendente novidade: ou percebemos que é do "nosso netinho" que se trata a questão e não de um outro virtual, ou perecemos. Isto porque o futuro será cheio do "outro" ao contrário do que supunham os analistas. Falavam eles de um mundo de computadores, cada um trabalhando em casa, menos horas de trabalho, mais automatização, mais "eu" e menos "os outros" em nossas vidas. Porém o mundo globalizado não é um mundo grande, é um mundo pequeno cheio de gente. O século XXI estará repleto do outro. É um outro cada vez mais numeroso - nunca existiram tantos outros em nenhuma era. E esse outro vive muito - nunca viveram tanto os outros em nenhuma era. É chegado o momento de abandonar o vício da busca de inimigos.

Os inimigos somos nós mesmos. E as religiões que não buscarem este inimigo em si são as religiões idólatras desta nova Era. Não se trata mais de ser Monoteísta, isso é passado. Trata-se de saber como cada uma delas honra este Deus único pelo respeito máximo a seu semelhante. Dizia George Santayana que "O fanatismo consiste no ato de redobrar esforços por conta de se ter esquecido dos objetivos."

As religiões parecem esquecer seu objetivo maior que não é reconhecer Deus apenas como sendo Um, mas cada ser humano, Sua imagem e semelhança, como um ser único. E pelos que morreram, vergonha sobre nós religiosos. E pelos que irão morrer, mais vergonha! E quando estivermos vendo imagens pela televisão onde apareçam crianças ou jovens ensanguentados, olhemos mais de perto - "serão nossos netinhos".

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Paz sem perdão

Por Nilton Bonder

Encravado na liturgia do Dia do Perdão, o Iom Kipur dos judeus, está o Livro de Jonas. Um Livro pouco compreendido cuja notoriedade se dá mais pelo incidente de ser o herói engolido por um grande peixe, do que por seu conteúdo. O enredo do Livro nada mais é do que a banal convocação de um profeta para que sirva de mensageiro de uma advertência do Criador à cidade de Ninive exortando que esta se arrependesse. O profeta reluta em aceitar a intimação divina mas acaba por fim cumprindo-a. A cidade de Ninive se arrepende, o profeta fica deprimido e o Criador lhe dá uma lição de moral mostrando que toda a relação verdadeira implica em responsabilidade e esta, por sua vez, em flexibilidade.

Na realidade, o Livro esta mais preocupado em mostrar uma dimensão da persona de todos nós que é representada por Jonas. O profeta fica deprimido com a missão com a qual é incumbido porque sabe que este D'us de Israel é um D'us compassivo. Um D'us que é capaz de conceder perdão até mesmo a Ninive, cidade da Assíria, arquiinimiga de Israel, é insuportável para um nacionalista ardente como Jonas. Mais que isto, como é comum a textos bíblicos onde o personagem é uma representação de um traço humano, o nome do herói é revelador. Ele é Jonas filho de Amitai. A raiz da palavra "Amitai" é a palavra "verdade". Jonas-o-filho-da-Verdade não consegue suportar o D'us do arrependimento, o D'us de um olhar distinto para o que já foi rotulado de "o outro".

Perdoar é um comportamento que exige uma redefinição do outro. Passa pela flexibilização das verdades já assumidas. Jonas fica constrangido por um D'us que abre mão da verdade ou das verdades. Mas o mais doloroso do perdão é que este exige uma redefinição de nós mesmos. É mais fácil que o outro permaneça perverso do que ter que refazer toda a nossa compreensão do mundo e da realidade.

A paz é uma espiral do perdão. Quanto mais dizemos: "eu sinto muito", menos provavelmente teremos que dizer. Quanto mais precisarmos ouvir "eu sinto muito", menos provável que o aceitemos.

O problema israelense-palestino fica fora do enquadramento das fotos da mídia do soldado israelense perseguindo a criança palestina. Perseguindo este soldado estão por um lado as ditaduras e o fundamentalismo árabe com suas verdades e por outro o radicalismo religioso e o pânico histórico por segurança presentes em camadas da população israelense com suas verdades. O filósofo Martin Buber dizia que o drama israelense-palestino estava no fato de ambos se apoiarem sobre verdades. E a verdade de um, incontestavelmente, legitima a demonização do outro.

Talvez fosse necessária uma nova partilha da Palestina. Onde dois povos já existentes - israelense e palestino - convivessem em harmonia pela ordem do perdão; e onde outros dois povos - israelense e palestino - vivessem em conflito preservado pelo zelo de suas verdades. Poderíamos então entender que já há uma paz feita e uma paz ainda por fazer. Uma paz a se fazer, para constrangimento de todos, na qual o D'us da verdade de um venha a se revelar o mesmo D'us da verdade do outro.

Ou talvez outros tempos venham a chegar onde não se faça necessária qualquer partilha seja entre povos distintos ou dentro de um mesmo povo. Uma cena permanece viva na memória de minha última visita a Jerusalém. Era um dia de celebração para o Islã e a esplanada das mesquitas, onde a verdade do Islã construiu sobre a verdade de Israel, estava repleta por 1/4 de milhão de muçulmanos. Num dado momento, desde o bairro judeu da cidade velha, deparei-me com a seguinte vista: os judeus rezavam para o Muro das Lamentações, enquanto os muçulmanos eram visíveis no topo da colina em suas orações e, ao fundo, as igrejas se sobressaiam com suas torres e com os sons de seus sinos. Tive então um estranho insight. Do que é visto desde às alturas, desde a perspectiva deste D'us para quem oram, não há diferença nenhuma entre os tempos messiânicos de harmonia absoluta e estes tempos que vivemos de confronto e conflito. O sonho, a utopia, que perpassa estas três civilizações não se encontra meramente no futuro, mas aqui mesmo, neste lugar... em outro lugar. Aquilo de que os profetas falavam: aqui há outra forma de enxergar a realidade. Este enxergar é toda a distância que existe entre o possível e o impossível deste lugar.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Jesus é nascido em Chanuka

Por Nilton Bonder

Jesus, para o Judaísmo, é um personagem histórico, um judeu. Nasceu como tal, viveu como tal e morreu como tal. Não um judeu comum, mas um líder espiritual e mártir envolvido com a luta de sobrevivência de seu povo em meio à invasão romana. Uma invasão que não lavava as mãos, mas representava o poder vigente do conquistador. Jesus, que falava através de sua tradição e pregava o uso radical da solidariedade, falava ao fraco, ao órfão, à viúva e ao estrangeiro _ preocupação fundadora dos Salmos judeus.

Se o descrito acima é verdade, como explicar a relação de Jesus e o Judaísmo como uma das maiores questões mal resolvidas da civilização ocidental? Como é possível que Jesus seja o "divisor de águas'' entre o que é compreendido como judeu e não-judeu entre as tradições bíblicas? Para isso teríamos que analisar não tanto a religião, mas a história e a política. Gostaria mesmo é de me aprofundar nas similaridades e não nas distinções dos mitos judaico-cristãos.

É inverno e as noites são as mais longas do ano. É frio e a lua é nova. As trevas tomam conta do Hemisfério Norte. Um antigo ritual de celebrar as luzes em meio à escuridão fala da esperança, conhecida da experiência humana, de que as longas noites darão lugar a noites mais curtas. O inverno cederá à primavera e à luz, escassa no ápice do inverno, terá sua semente plantada justamente nesse breu. A noite seguinte ao solstício de inverno, a mais longa de todas as noites, graças a D'us, será menor.

Essa celebração antiga, de tempos imemoriais da civilização agrícola, havia ganho uma dimensão histórica para a nação judaica. Pouco mais de dois séculos antes de Jesus, sob a invasão militar e cultural helênica, um levante marcaria profundamente o imaginário da nação. Sob sanções que lhes impediam de preservar sua tradição além de sua autonomia política, um grupo liderado pela família dos Hasmoneus levantou-se contra o poderoso exército grego. Numa luta de escaramuças e subversão conseguiram o impossível _ não só venceriam, restaurando uma dinastia judaica, mas reconquistariam seu símbolo de unidade nacional _ a cidade de Jerusalém e o Templo sagrado. No Templo conspurcado pela intervenção invasora não havia mais óleo para acender a chama eterna que simbolizava o funcionamento da vida espiritual do povo. Eis que um último recipiente com óleo sagrado ainda estava lacrado. Seu conteúdo não supriria mais do que poucas horas. No entanto, a luz permaneceu acesa por oito dias.

Esta é a festa de Chanuká, a festa das luzes, para a tradição judaica, que ocorre no período do Natal. Ela comemora a certeza de que quando se pensa que não há mais como manter a chama acesa, se descobre o necessário para durar para além do tempo. O número oito (oito dias) é simbólico da transcendência do tempo. Para os judeus, a unidade principal de tempo _ a semana _ desmarcava que ao final do sétimo dia se seguisse o primeiro (domingo) e não o oitavo dia. O oitavo dia é o dia após o tempo. O candelabro ardendo por oito dias é símbolo do que não se apagará jamais. Os judeus passaram então a celebrar o acendimento de velas por oito dias, acrescentando uma a cada dia durante a festa de Chanuka. Essa era a sua maneira de vencer as trevas _ lembrar do ciclo que resgata as luzes. Ao olhar as velas, os judeus passam de geração em geração uma certeza de valor espiritual profunda _ D'us te ama.

A luz é esta presença que está até na mais escura das noites. A "noite'' passou a ser simbólica do exílio. O escuro é um lugar que fica a caminho da luz. Para chegar à alvorada é necessário viver-se a madrugada. E todo aquele que sensibiliza seus olhos na escuridão começa a enxergar. As luzes que vencerão a invasão, o exílio do passado, venceriam também a invasão do presente.


Jesus é nascido em Chanuka. Seu mito é o mito das luzes em meio à escuridão. É a luz que acolhe o fraco em meio à escuridão do poder e da opressão. Na dimensão individual representa a restauração do templo, da vida, em nossas almas. Quantas vezes estamos descaídos sem energia vital, sem direção e descobrimos em nós o "óleo lacrado'' para dar continuidade à luz? A surpresa dessa descoberta é a famosa "conversão'' de que muitas tradições cristãs falam e o judaísmo através da "teshuvá'' _ o retorno ao caminho.

Não é por acaso que os judeus acendem luzes em seu candelabro de oito braços. O candelabro é representativo da "árvore da vida'', com seus troncos abertos aos céus. Luzes em árvores. Árvores que estão nuas no inverno mas nas quais percebemos em meio a seu cinza a luz vibrante da vida. Reinaugurar a vida e manter a chama acesa são as mensagens de Chanuka e do Natal, do nascimento daquele que é luz para a tradição cristã. E por que os judeus não celebram a luz de Jesus? Porque a linguagem e o imaginário judaico não passam pela forma humana. Abraão, Moisés e David são sempre apresentados em seu aspecto humano. Essa foi uma fusão com a linguagem romana que aconteceria mais de dois séculos depois do tempo de Jesus. Para os judeus a "luz'' é filha de D'us e é assim que ele está em todos nós. A "luz'' vem do estudo, da inspiração e da ação junto aos outros.

Jesus guarda um grande segredo para judeus e cristãos. Para os judeus ele não é nada mais do que eles mesmos. Se presente entre nós, poderia assumir o culto de uma sinagoga e liderar na leitura da Torá. Para os cristãos, ele que é "filho de D'us'', o mais próximo de todos, é o "outro'' _ um judeu.

Um dia, tal como Jacób e Esaú fizeram, ao reencontrarem-se judeus e cristãos vão dizer a mesma coisa: Eis que olhar a tua face é como olhar a face de D'us. Ou talvez: Tu que eras o outro, nada mais és do que eu. Neste reencontro está o sonho de um mundo melhor. Onde a luz é transcender a escuridão da diferença. No entanto, não é nunca livrar-se dela. Pois a luz que dá esperança vem do meio do breu. Não é luz apenas, mas a luz que nos faz ver luz.