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quinta-feira, 24 de maio de 2012

Impulsividade

Por Antônio Carlos Alves de Araújo, psicólogo.

Este é sem sombra de dúvida um tema que atinge pelo menos metade da humanidade. Inicialmente defino impulsividade como a máxima expoente do complexo de inferioridade; o traçado de ambas é idêntico em quase todos os sentidos. Cada evento por mais diminuto que seja, adquire uma reação máxima do ponto de vista emocional. Não tratarei aqui das sociopatias, mas apenas dos casos psicológicos. Na impulsividade tudo é uma prova terrível, sendo que a única saída para a pessoa provar um pouco de sua autoestima é a total competição. Este processo é sentido como que interminável para o sujeito em questão. A impulsividade é uma defesa contra a assimilação parcimoniosa de uma crítica. Esta é sentida não apenas como um ataque frontal perante a auto imagem da pessoa, mas, como um dano irreparável, ou que se levantou um segredo que irá humilhar o indivíduo no mais alto grau imaginável. Os elementos intrínsecos que compõe a impulsividade são: ódio, medo e ansiedade respectivamente. Todos são incontroláveis e invadem por completo a mente da pessoa.

A consequência direta da impulsividade é a vivência constante da culpa. Advém então, tentativas de reparação quase que megalomaníacas, como sacrifícios exagerados, presentes exorbitantes e coisas do gênero. Se importar com mínimas coisas causa uma escravização quase que diária no sujeito, que toma empréstimos constantes da agressividade, formando um ciclo vicioso. Todos já perceberam que o impulsivo fala na maioria das vezes verdades sobre os outros, mas, o problema é que sempre centra apenas na negatividade, na tentativa de punir, humilhar e destruir seu oponente. Muitos poucos conseguem absorver este tipo de ataque quase que inesperado. A desgraça absoluta do impulsivo é a esfera negativa do poder. Será sempre lembrado pela dor e sofrimento que despertou no outro, sendo que não tardará para que o nefasto sentimento de vingança assole totalmente o núcleo das relações das partes envolvidas. O problema do impulsivo não passa apenas pelo exagero, mas a palavra correta seria o despropósito diante de determinado fato ou evento. Se fosse pensar em exemplos teríamos diversas situações cotidianas em nossa sociedade: àquela pessoa no ambiente de trabalho totalmente neurotizada, as infindáveis discussões no trânsito que além do stress produzem diariamente tragédias, conflitos entre casais pela simples disputa de poder que acirra ao máximo a impulsividade de um  ou ambos.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Ciência x Judiciário

Hélio Schwartsman, filósofo e articulista da Folha.

Aproveito a crisezinha no Judiciário para propor uma reflexão mais geral: o sistema de Justiça, como o concebemos e administramos, faz algum sentido? E a resposta a essa candente questão, já o antecipo, é um "sim" pontuado por muitos "nãos". Mas comecemos pelo começo.

O problema é basicamente a ciência, que não tem sido gentil com o Direito.

Praticamente todos os sistemas jurídicos do Ocidente se baseiam na capacidade dos indivíduos de decidir entre o certo e o errado, mas uma série de descobertas científicas feitas nas últimas décadas arranham bastante essa noção.

Psicólogos, por exemplo, demonstraram de inúmeras maneiras que mesmo o mais mentalmente saudável dos seres humanos pode agir como um sádico, infligindo castigos e aplicando "choques elétricos" em seus semelhantes, se for submetido a um pouco de pressão social para fazê-lo. A tese da obediência devida, em que pese minar o conceito de Bem x Mal, não era tão estapafúrdia assim.

Mesmo para os que seguem acreditando que o crime é uma questão de frutos podres, estudos psicológicos e neurocientíficos mostram que existem certos tipos de personalidade mais propensos a cometer delitos. A relação não é determinista, mas probabilística. O indivíduo que obtém uma pontuação alta nos testes para psicopatia ou não está fadado a assassinar os pais, devorar os vizinhos e disparar sua metralhadora contra criancinhas numa creche. Não obstante, encontraremos proporcionalmente mais pessoas com altos escores nas escalas de psicopatia, de personalidade narcisística ou "borderline" nas cadeias do que na população geral.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Moralistas Imorais

Por Contardo Calligaris, psicólogo e articulista da Folha.

Uma queixa banal e barulhenta repete que a modernidade vai para a perdição. Aliás, parece que já foi: sumiram os valores que orientavam nossos pais ou, no mínimo, nossos avós. Dizem que ficamos como baratas tontas, sem rumo e sem critérios para distinguir o bem e o mal. Pois bem, penso o contrário. A modernidade é uma época profundamente moral, de uma maneira inédita pela forma e pela intensidade.

A novidade é que valores e princípios não são respeitáveis por sua origem. Se foi Deus quem disse ou foram os anciões que nos legaram, tanto faz: de qualquer forma, isso não basta. Cada um de nós, em seu foro íntimo, tem a responsabilidade de decidir o que é certo e o que é errado. Tarefa difícil: visto que recusamos a autoridade (divina ou tradicional) das normas, nosso julgamento é sempre concreto. Claro, adotamos princípios gerais, que são os mesmos de sempre; mas, para nós, a moralidade

sábado, 16 de julho de 2011

O Deus que não tem ninguém na sua lista

Por Paulo Brabo

Nesse momento entra em cena esse sujeito J. Harold Ellens, um psicólogo norte-americano que em seus livros e artigos defende essencialmente uma ideia: a de que a notícia evangelical da graça incondicional e do perdão universal dos pecados não representa apenas a única chance para a salvação espiritual da humanidade, mas a única chance para a salvação dos nossos distúrbios mentais. E que, de fato, não existe diferença entre uma coisa e outra.

Desde que a psicologia ganhou alguma reputação como disciplina e como prática seus méritos, seu vocabulário e suas ênfases tem sido apropriados (ou, alternativamente, questionados) por muitos cristãos a fim de legitimar suas próprias versões da ortodoxia. Ellens, no entanto, está a milhas de distância da banalidade de obras

segunda-feira, 14 de março de 2011

O impostor

Por Brennan Manning

O impostor vive com medo. (...) Impostores se preocupam com aceitação e aprovação. Por causa da necessidade sufocante de agradar os outros (...) fazem das pessoas, dos projetos e das causas extensões de si, motivados não pelo compromisso pessoal, mas pelo medo de não corresponder às expectativas das pessoas. (...) Para ser aceito e aprovado, o falso 'eu' anula ou disfarça os sentimentos, tornando impossível a honestidade emocional. A sobrevivência do falso 'eu' gera o desejo compulsivo de apresentar uma imagem de perfeição diante do público, de maneira que todos nos admirem e ninguém nos conheça. A vida do impostor se transforma numa montanha russa de júbilo e depressão.

O falso 'eu' se envolve em experiências externas para dispor de uma fonte pessoal de significado. A busca por dinheiro, poder, glamour, proezas sexuais, reconhecimento e status potencializa a autovalorização e cria a ilusão de sucesso. O impostor é aquilo que ele faz.

Durante muitos anos, o desempenho ministerial era um modo de me esconder de meu verdadeiro 'eu'. Criei uma identidade por meio de sermões, livros e histórias que contava. Raciocinava da seguinte maneira: se a maioria dos cristãos tinha um bom juízo a meu respeito, então não havia nada errado comigo. Quanto mais investia no sucesso ministerial, mais real se tornava o impostor.

O impostor nos predispõe a dar importância àquilo que não é importante de fato, revestindo de falso brilho o que é menos substancial e nos afastando do que é real. O falso 'eu' nos faz viver num mundo de ilusões. O impostor é um mentiroso.

(...) A identidade dos impostores não é resultado apenas de suas conquistas, mas também dos relacionamentos interpessoais. Querem ficar bem com pessoas de prestígio porque isso potencializa o currículo e o senso de valor próprio. (...) A triste ironia é que o impostor não sabe o que é ter intimidade em nenhum relacionamento. Seu narcisismo exclui os outros. Incapaz de intimidade consigo, desconectado dos próprios sentimentos, intuições e percepções, o impostor é insensível aos humores, às necessidades e aos sonhos de outras pessoas. Compartilhar alguma coisa é impossível.

O impostor construiu a vida a partir das conquistas, do sucesso, do ativismo e de atividades autocentradas que geram recompensas e elogios dos outros. James Masterson afirmou:

Faz parte da natureza do falso 'eu' nos impedir de conhecer a verdade sobre nós mesmos, de penetrar nas causas profundas de nossa infelicidade, de nos vermos como realmente somos: vuneráveis, medrosos, apavorados e incapazes de deixar que o 'eu' verdadeiro se exponha.

(...) O impostor tem pavor de ficar sozinho. Ele sabe "que se ficar quieto, por dentro e por fora, descobrirá por si que não é nada. Será deixado sem nada além de sua insignificância, e para o falso 'eu' que afirma ser tudo tal descoberta seria a ruína". (...) O falso 'eu' foge do silêncio e da solidão porque o lembram da morte. O autor Parker Palmer afirmou:

Ficar completamente quieto e inalcançável na solidão são dois sinais de que a vida se foi, enquanto a atividade e a comunicação intensa não apenas indicam vida, como também ajudam a esquecer que nossa vida um dia cessará.

O estilo de vida frenético do impostor não tolera a inspeção da morte porque ela o confronta com a verdade insuportável:

Não há qualquer substância sob suas roupas. Você é oco, e sua estrutura de prazer e ambições não tem base sólida. Nelas, você se torna um objeto. Mas todas estão destinadas, por sua própria contingência, a serem destruídas. E quando elas forem, não sobrará nada, além de nudez e vazio, para mostrar que você é seu próprio erro.

(...) O impostor precisa ser tirado de seu esconderijo, assumido e reconhecido. Ele faz parte de meu ser. Tudo o que é negado não pode ser curado. (...) A honestidade e a disposição de subjulgar o falso 'eu' tira do caminho a armadilha do auto-engano.

A paz reside na aceitação da verdade. Qualquer faceta do 'eu' obscuro que nos recusamos a reconhecer torna-se a inimiga e nos força a assumir posturas defensivas. Como Simon Tugwell escreveu:

E os pedaços descartados de nós rapidamente encarnarão naqueles que nos rodeiam. Nem toda hostilidade é decorrente disso, mas é o principal motivo de nossa incapacidade de competir com outras pessoas, pois elas representam exatamente aqueles elementos que nos recusamos a reconhecer.

Quando confrontamos o egoísmo e a estupidez, conhecemos melhor o impostor e, assim, podemos aceitar nossa pobreza e debilidade (...). Odiar o impostor é, na verdade, odiar-se. O impostor e o 'eu' constituem uma pessoa. Menosprezar o impostor abre espaço para hostilidade, que se manifesta numa irritabilidade generalizada - irritação com aquilo que odiamos em nós mesmos e vemos nos outros. Odiar-se sempre gera algum tipo de comportamento auto-destrutivo. (...) Judas não conseguiu encarar a própria sombra; Pedro conseguiu. Pedro reconheceu o impostor dentro de si; Judas enfureceu-se contra o impostor. "O suicídio não acontece num impulso repentino. É um ato ensaiado durante anos de um padrão de comportamento punitivo inconsciente".

Há anos, Carl Jung escreveu:

A auto-aceitação é a essência do problema moral como um todo e epítome de uma perspectiva integral para a vida. Que dou comida aos pobres, que perdôo um insulto, que amo meu inimigo em nome de Cristo - todas essas são, sem dúvida, grandes virtudes. O que faço para o menor dos meus irmãos, o faço para Cristo. Mas, e se descubro que o menor entre todos eles, o mais pobre de todos os mendigos, o mais pervertido de todos os infratores, o próprio inimigo em pessoa - todos estão dentro de mim, e que eu mesmo preciso das esmolas de minha benevolência; que eu mesmo sou o inimigo que precisa ser amado? E aí? Via de regra, nesse caso, revertemos a atitude cristã. Deixa de ser uma questão de amor ou longaminidade. Dizemos ao irmão dentro de nós: 'Raca'. Condenamos e nos enfurecemos contra nós mesmos. Escondemos isso do mundo; nos recusamos até mesmo a admitir que encontramos esse menor entre os menores dentro de nós.

Fonte: O Impostor Que Vive Em Mim, pp.36-49.