segunda-feira, 14 de março de 2011

O impostor

Por Brennan Manning

O impostor vive com medo. (...) Impostores se preocupam com aceitação e aprovação. Por causa da necessidade sufocante de agradar os outros (...) fazem das pessoas, dos projetos e das causas extensões de si, motivados não pelo compromisso pessoal, mas pelo medo de não corresponder às expectativas das pessoas. (...) Para ser aceito e aprovado, o falso 'eu' anula ou disfarça os sentimentos, tornando impossível a honestidade emocional. A sobrevivência do falso 'eu' gera o desejo compulsivo de apresentar uma imagem de perfeição diante do público, de maneira que todos nos admirem e ninguém nos conheça. A vida do impostor se transforma numa montanha russa de júbilo e depressão.

O falso 'eu' se envolve em experiências externas para dispor de uma fonte pessoal de significado. A busca por dinheiro, poder, glamour, proezas sexuais, reconhecimento e status potencializa a autovalorização e cria a ilusão de sucesso. O impostor é aquilo que ele faz.

Durante muitos anos, o desempenho ministerial era um modo de me esconder de meu verdadeiro 'eu'. Criei uma identidade por meio de sermões, livros e histórias que contava. Raciocinava da seguinte maneira: se a maioria dos cristãos tinha um bom juízo a meu respeito, então não havia nada errado comigo. Quanto mais investia no sucesso ministerial, mais real se tornava o impostor.

O impostor nos predispõe a dar importância àquilo que não é importante de fato, revestindo de falso brilho o que é menos substancial e nos afastando do que é real. O falso 'eu' nos faz viver num mundo de ilusões. O impostor é um mentiroso.

(...) A identidade dos impostores não é resultado apenas de suas conquistas, mas também dos relacionamentos interpessoais. Querem ficar bem com pessoas de prestígio porque isso potencializa o currículo e o senso de valor próprio. (...) A triste ironia é que o impostor não sabe o que é ter intimidade em nenhum relacionamento. Seu narcisismo exclui os outros. Incapaz de intimidade consigo, desconectado dos próprios sentimentos, intuições e percepções, o impostor é insensível aos humores, às necessidades e aos sonhos de outras pessoas. Compartilhar alguma coisa é impossível.

O impostor construiu a vida a partir das conquistas, do sucesso, do ativismo e de atividades autocentradas que geram recompensas e elogios dos outros. James Masterson afirmou:

Faz parte da natureza do falso 'eu' nos impedir de conhecer a verdade sobre nós mesmos, de penetrar nas causas profundas de nossa infelicidade, de nos vermos como realmente somos: vuneráveis, medrosos, apavorados e incapazes de deixar que o 'eu' verdadeiro se exponha.

(...) O impostor tem pavor de ficar sozinho. Ele sabe "que se ficar quieto, por dentro e por fora, descobrirá por si que não é nada. Será deixado sem nada além de sua insignificância, e para o falso 'eu' que afirma ser tudo tal descoberta seria a ruína". (...) O falso 'eu' foge do silêncio e da solidão porque o lembram da morte. O autor Parker Palmer afirmou:

Ficar completamente quieto e inalcançável na solidão são dois sinais de que a vida se foi, enquanto a atividade e a comunicação intensa não apenas indicam vida, como também ajudam a esquecer que nossa vida um dia cessará.

O estilo de vida frenético do impostor não tolera a inspeção da morte porque ela o confronta com a verdade insuportável:

Não há qualquer substância sob suas roupas. Você é oco, e sua estrutura de prazer e ambições não tem base sólida. Nelas, você se torna um objeto. Mas todas estão destinadas, por sua própria contingência, a serem destruídas. E quando elas forem, não sobrará nada, além de nudez e vazio, para mostrar que você é seu próprio erro.

(...) O impostor precisa ser tirado de seu esconderijo, assumido e reconhecido. Ele faz parte de meu ser. Tudo o que é negado não pode ser curado. (...) A honestidade e a disposição de subjulgar o falso 'eu' tira do caminho a armadilha do auto-engano.

A paz reside na aceitação da verdade. Qualquer faceta do 'eu' obscuro que nos recusamos a reconhecer torna-se a inimiga e nos força a assumir posturas defensivas. Como Simon Tugwell escreveu:

E os pedaços descartados de nós rapidamente encarnarão naqueles que nos rodeiam. Nem toda hostilidade é decorrente disso, mas é o principal motivo de nossa incapacidade de competir com outras pessoas, pois elas representam exatamente aqueles elementos que nos recusamos a reconhecer.

Quando confrontamos o egoísmo e a estupidez, conhecemos melhor o impostor e, assim, podemos aceitar nossa pobreza e debilidade (...). Odiar o impostor é, na verdade, odiar-se. O impostor e o 'eu' constituem uma pessoa. Menosprezar o impostor abre espaço para hostilidade, que se manifesta numa irritabilidade generalizada - irritação com aquilo que odiamos em nós mesmos e vemos nos outros. Odiar-se sempre gera algum tipo de comportamento auto-destrutivo. (...) Judas não conseguiu encarar a própria sombra; Pedro conseguiu. Pedro reconheceu o impostor dentro de si; Judas enfureceu-se contra o impostor. "O suicídio não acontece num impulso repentino. É um ato ensaiado durante anos de um padrão de comportamento punitivo inconsciente".

Há anos, Carl Jung escreveu:

A auto-aceitação é a essência do problema moral como um todo e epítome de uma perspectiva integral para a vida. Que dou comida aos pobres, que perdôo um insulto, que amo meu inimigo em nome de Cristo - todas essas são, sem dúvida, grandes virtudes. O que faço para o menor dos meus irmãos, o faço para Cristo. Mas, e se descubro que o menor entre todos eles, o mais pobre de todos os mendigos, o mais pervertido de todos os infratores, o próprio inimigo em pessoa - todos estão dentro de mim, e que eu mesmo preciso das esmolas de minha benevolência; que eu mesmo sou o inimigo que precisa ser amado? E aí? Via de regra, nesse caso, revertemos a atitude cristã. Deixa de ser uma questão de amor ou longaminidade. Dizemos ao irmão dentro de nós: 'Raca'. Condenamos e nos enfurecemos contra nós mesmos. Escondemos isso do mundo; nos recusamos até mesmo a admitir que encontramos esse menor entre os menores dentro de nós.

Fonte: O Impostor Que Vive Em Mim, pp.36-49.

Um comentário:

Turquinha disse...

Excelente texto, gostei muito.