segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

‘A Igreja precisa de uma reforma urgente’, afirma jesuíta egípcio em carta dirigida a Bento XVI

O jesuíta egípcio mais destacado nos âmbitos eclesial e intelectual, Henri Boulad, lança um SOS para a Igreja de hoje em uma carta dirigida a Bento XVI. A carta foi transmitida através da Nunciatura no Cairo. O texto circula em meios eclesiais de todo o mundo.

Henri Boulad é autor de Deus e o mistério do tempo (Loyola, 2006) e O homem diante da liberdade (Loyola, 1994), entre outros.

A carta está publicada no sítio Religión Digital, 31-01-2010. A tradução é do Cepat.

Eis a carta.

Santo Padre:

Atrevo-me a dirigir-me diretamente a Você, pois meu coração sangra ao ver o abismo em que a nossa Igreja está se precipitando. Saberá desculpar a minha franqueza filial, inspirada simultaneamente pela “liberdade dos filhos de Deus” a que São Paulo nos convida e pelo amor apaixonado à Igreja.

Agradecer-lhe-ei também que saiba desculpar o tom alarmista desta carta, pois creio que “são menos cinco” e que a situação não pode esperar mais.

Permite-me, em primeiro lugar, apresentar-me. Sou jesuíta egípcio-libanês do rito melquita e logo farei 78 anos. Há três anos sou reitor do Colégio dos jesuítas no Cairo, após ter desempenhado os seguintes cargos: superior dos jesuítas em Alexandria, superior regional dos jesuítas do Egito, professor de Teologia no Cairo, diretor da Cáritas-Egito e vice-presidente da Cáritas Internacional para o Oriente Médio e a África do Norte.

Conheço muito bem a hierarquia católica do Egito por ter participado durante muitos anos de suas reuniões como Presidente dos Superiores Religiosos de Institutos no Egito. Tenho relações muito próximas com cada um deles, alguns dos quais são ex-alunos meus. Por outro lado, conheço pessoalmente o Papa Chenouda III, que via com frequência. Quanto à hierarquia católica da Europa, tive a ocasião de me encontrar pessoalmente muitas vezes com alguns de seus membros, como o cardeal Koening, o cardeal Schönborn, o cardeal Martini, o cardeal Daneels, o arcebispo Kothgasser, os bispos diocesanos Kapellari e Küng, os demais bispos austríacos e outros bispos de outros países europeus. Estes encontros se produzem por ocasião das minhas viagens anuais para dar conferências pela Europa: Áustria, Alemanha, Suíça, Hungria, França, Bélgica... Nestas ocasiões me dirijo a auditórios muito diversos e à mídia (jornais, rádios, televisões...). Faço o mesmo no Egito e no Oriente Próximo.

Visitei cerca de 50 países nos quatro continentes e publiquei cerca de 30 livros em aproximadamente 15 línguas, sobretudo em francês, árabe, húngaro e alemão. Dos 13 livros nesta língua, talvez Você tenha lido Gottessöhne, Gottestöchter (Filhos, filhas de Deus), que o seu amigo o Pe. Erich Fink, da Baviera, lhe fez chegar em suas mãos.

Não digo isto para me vangloriar, mas para lhe dizer simplesmente que as minhas intenções se fundam em um conhecimento real da Igreja universal e de sua situação atual, em 2009.

Volto ao motivo desta carta e tentarei ser o mais breve, claro e objetivo possível. Em primeiro lugar, algumas constatações (a lista não é exclusiva):

1. A prática religiosa está em constante declive. Um número cada vez mais reduzido de pessoas da terceira idade, que desaparecerão logo, são as que frequentam as igrejas da Europa e do Canadá. Não resta outro remédio senão fechar estas igrejas ou transformá-las em museus, mesquitas, clubes ou bibliotecas municipais, como já se está fazendo. O que me surpreende é que muitas delas estão sendo completamente reformadas e modernizadas mediante grandes gastos com a ideia de atrair os fiéis. Mas não será suficiente para frear o êxodo.

2. Seminários e noviciados se esvaziam no mesmo ritmo, e as vocações caem vertiginosamente. O futuro é sombrio e há quem se pergunte quem irá substituir os sacerdotes. Cada vez mais paróquias europeias estão a cargo de sacerdotes da Ásia ou da África.

3. Muitos sacerdotes abandonam o sacerdócio e os poucos que ainda o exercem – cuja idade média ultrapassa muitas vezes a da aposentadoria – têm que se encarregar de muitas paróquias, de modo expeditivo e administrativo. Muitos deles, tanto na Europa como no Terceiro Mundo, vivem em concubinato à vista de seus fiéis, que normalmente os aceitam, e de seu bispo, que não pode aceitá-lo, mas que tem em conta a escassez de sacerdotes.

4. A linguagem da Igreja é obsoleta, anacrônica, chata, repetitiva, moralizante, totalmente desadaptada à nossa época. Não se trata em absoluto de acomodar-se nem de fazer demagogia, pois a mensagem do Evangelho deve ser apresentada em toda a sua crueza e exigência. Seria preciso antes promover essa “nova evangelização”, a que nos convidava João Paulo II. Mas esta, ao contrário do que muitos pensam, não consiste em absoluto em repetir a antiga, que já não diz mais nada, mas em inovar, inventar uma nova linguagem que expresse a fé de modo apropriado e que tenha significado para o homem de hoje.

5. Isto não poderá ser feito senão mediante uma renovação em profundidade da teologia e da catequese, que deveriam ser repensadas e reformuladas totalmente. Um sacerdote e religioso alemão que encontrei recentemente me dizia que a palavra “mística” não é mencionada uma única vez no Novo Catecismo. Não podia acreditar nisso. Temos de constatar que a nossa fé é muito cerebral, abstrata, dogmática e se dirige muito pouco ao coração e ao corpo.

6. Em consequência, um grande número de cristãos se volta para as religiões da Ásia, as seitas, a nova era, as igrejas evangélicas, o ocultismo, etc. Não é de estranhar. Vão buscar em outros lugares o alimento que não encontram em casa, têm a impressão de que lhes damos pedras como se fossem pão. A fé cristã, que em outro tempo outorgava sentido à vida das pessoas, é para elas hoje um enigma, restos de um passado que acabou.

7. No plano moral e ético, os ditames do Magistério, repetidos à saciedade, sobre o matrimônio, a contracepção, o aborto, a eutanásia, a homossexualidade, o matrimônio dos sacerdotes, as segundas uniões, etc., já não dizem mais nada a ninguém e produzem apenas desleixo e indiferença. Todos estes problemas morais e pastorais merecem algo mais que declarações categóricas. Necessitam de um tratamento pastoral, sociológico, psicológico e humano... em uma linha mais evangélica.

8. A Igreja católica, que foi a grande educadora da Europa durante séculos, parece esquecer que a Europa chegou à sua maturidade. A nossa Europa adulta não quer ser tratada como menor de idade. O estilo paternalista de uma Igreja “Mater et Magistra” está definitivamente defasada e já não serve mais. Os cristãos aprenderam a pensar por si mesmos e não estão dispostos a engolir qualquer coisa.

9. Os países mais católicos de antes – a França, “primogênita da Igreja”, ou o Canadá francês ultra-católico – deram uma guinada de 180º e caíram no ateísmo, no anticlericalismo, no agnosticismo, na indiferença. No caso de outros países europeus, o processo está em marcha. Pode-se constatar que quanto mais dominado e protegido pela Igreja esteve um povo no passado, mais forte é a reação contra ela.

10. O diálogo com as outras igrejas e religiões está em preocupante retrocesso hoje. Os grandes progressos realizados há meio século estão sob suspeita neste momento.

Diante desta constatação quase demolidora, a reação da igreja é dupla:

– Tende a minimizar a gravidade da situação e a consolar-se constatando certo dinamismo em sua facção mais tradicional e nos países do Terceiro Mundo.

– Apela para a confiança no Senhor, que a sustentou durante 20 séculos e será capaz de ajudá-la a superar esta nova crise, como o fez nas precedentes. Por acaso, não tem promessas de vida eterna?

A isto respondo:

– Não é apoiando-se no passado nem recolhendo suas migalhas que se resolverão os problemas de hoje e de amanhã.

– A aparente vitalidade das Igrejas do Terceiro Mundo é equívoca. Segundo parece, estas novas Igrejas, mais cedo ou mais tarde, atravessarão as mesmas crises que a velha cristandade europeia conheceu.

– A Modernidade é irreversível, e é por ter esquecido isso que a Igreja já se encontra hoje em semelhante crise. O Vaticano II tentou recuperar quatro séculos de atraso, mas tem-se a impressão de que a Igreja está fechando lentamente as portas que se abriram então, e é tentada a voltar para Trento e o Vaticano I, mais que voltar-se para o Vaticano III. Recordemos a declaração de João Paulo II tantas vezes repetida: “Não há alternativa para o Vaticano II”.

– Até quando continuaremos jogando a política do avestruz e a esconder a cabeça na areia? Até quando evitaremos olhar as coisas de frente? Até quando seguiremos dando as costas, encrespando-nos contra toda crítica, em vez de ver ali uma oportunidade de renovação? Até quando continuaremos postergando ad calendas graecas uma reforma que se impõe e que foi abandonada durante muito tempo?

– Somente olhando decididamente para frente e não para trás a Igreja cumprirá sua missão de ser “luz do mundo, sal da terra e fermento na massa”. Entretanto, o que infelizmente constatamos hoje é que a Igreja está no final da fila da nossa época, depois de ter sido a locomotiva durante séculos.

– Repito o que dizia no começo desta carta: “São menos cinco” – fünf vor zwölf! A História não espera, sobretudo em nossa época, em que o ritmo se embala e se acelera.

– Qualquer operação comercial que constata um déficit ou disfunção se reconsidera imediatamente, reúne especialistas, procura recuperar-se, mobiliza todas as suas energias para superar a crise.

– Por que a Igreja não faz algo semelhante? Por que não mobiliza todas as suas forças vivas para um aggiornamento radical? Por quê?

– Por preguiça, desleixo, orgulho, falta de imaginação, de criativadade, omissão culpável, na esperança de que o Senhor as resolverá e que a Igreja conheceu outras crises no passado?

– Cristo, no Evangelho, nos alerta: “Os filhos das trevas são mais espertos que os filhos da luz...”.

Então, o que fazer? A Igreja tem hoje uma necessidade imperiosa e urgente de uma tripla reforma:

1. Uma reforma teológica e catequética para repensar a fé e reformulá-la de modo coerente para os nossos contemporâneos.

Uma fé que já não significa nada, que não dá sentido à existência, não é mais que um adorno, uma superestrutura inútil que cai por si mesma. É o caso atual.

2. Uma reforma pastoral para repensar de cabo a rabo as estruturas herdadas do passado.

3. Uma reforma espiritual para revitalizar a mística e repensar os sacramentos com vistas a dar-lhes uma dimensão existencial e articulá-los com a vida.

Teria muito a dizer sobre isto. A Igreja de hoje é muito formal, muito formalista. Tem-se a impressão de que a instituição asfixia o carisma e que o que em última instância conta é uma estabilidade puramente exterior, uma honestidade superficial, certa fachada. Não corremos o risco de que um dia Jesus nos trate de “sepulcros caiados”?

Para terminar, sugiro a convocação de um Sínodo geral a nível da Igreja universal, do qual participarão todos os cristãos – católicos e outros – para examinar com toda franqueza e clareza os pontos assinalados anteriormente e os que forem propostos. Este Sínodo, que duraria três anos, terminaria com uma Assembleia Geral – evitemos o termo “concílio” – que sintetizasse os resultados desta pesquisa e tirasse daí as conclusões.

Termino, Santo Padre, pedindo-lhe perdão pela minha franqueza e audácia e solicito a vossa paternal bênção. Permita-me também dizer-lhe que vivo estes dias em sua companhia, graças ao seu extraordinário livro Jesus de Nazaré, que é objeto da minha leitura espiritual e de meditação cotidiana.

Seu afetíssimo no Senhor,
Pe. Henri Boulad, SJ

Fonte: IHU

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Abuso espiritual não tem denominação, diz autora de "Feridos em nome de Deus"

A jornalista Marília de Camargo César responde às perguntas sobre o seu livro "Feridos em nome de Deus" (São Paulo: Mundo Cristão), em que denuncia abusos cometidos por pastores evangélicos. Para ela, o abuso espiritual não tem denominação, mas estará "onde houver um líder sendo superidealizado, reverenciado como super-herói, visto como senhor de todas as respostas, ali estará um enorme potencial para o abuso". Leia a entrevista, concedida ao PRAZER DA PALAVRA.

PRAZER DA PALAVRA -- Seu livro, que é uma perspectiva de dentro, inaugura o jornalismo investigativo no meio evangélico ou já há outros trabalhos desse teor?

MARÍLIA DE CAMARGO CÉSAR -- Honestamente, não sei responder a esta pergunta; se disser que sim, posso incorrer em alguma grande injustiça. Mas não tenho conhecimento de nenhuma outra obra nesse estilo de reportagem, como a que tive o privilégio de escrever. Percebo no meio evangélico brasileiro uma grande quantidade de livros escritos por pastores, teólogos, conselheiros, sempre com um tom mais acadêmico e formal. Diferente do “Feridos”, que é uma grande reportagem com um tom um pouco mais editorial em alguns momentos.

PRAZER -- Que peso teve sua experiência pessoal na decisão e motivação para escrever "Feridos em nome de Deus"?

MARÍLIA -- Minha experiência pessoal foi fundamental para me mover nesse projeto. A dor de meus amigos, principalmente, uma vez que não fui atingida pessoalmente por abuso espiritual. Não tinha com minhas antigas lideranças uma relação de co-dependência, como muitos dos feridos tinham. Eu vi como ficaram essas pessoas depois de acordarem para a realidade do abuso emocional que viveram e aquilo tocou profundamente meu coração e meu instinto jornalístico. Eu sabia que havia naquelas situações um fato importante a ser registrado, que poderia elucidar e ajudar outros caminhantes. Mas foi uma enorme surpresa ver a repercussão da obra – muito acima de toda e qualquer expectativa.

PRAZER -- Você participa regularmente de uma igreja local? Pode dizer qual?

MARÍLIA -- Frequento, com minha família, há um ano a Igreja Batista da Água Branca (IBAB), do pastor Ed René Kivitz, que tem tido uma paciência de Jó comigo, por causa da infinidade de questionamentos que tenho levado a ele.

PRAZER -- Que cuidados teve para preservar as suas fontes, além dos nomes trocados. Você acrescentou ou omitiu fatos para dificultar a identificação?

MARÍLIA -- Sim, eu mudei algumas informações para dificultar a identificação, mas as pessoas que congregavam em minha antiga comunidade sabem, pelas histórias, distinguir quem são as pessoas. O interessante é que já recebi retornos desse tipo: aquele fulano que você descreve no capítulo tal é de tal igreja, não é? Só pode ser! E eu digo, não, não é. Isto demonstra que as histórias se repetem, infelizmente.

PRAZER -- Qual foi a reação ao livro no seu círculo de amigos? Qual foi a reação das sua fontes? Em sua igreja local, como receberam sua obra?

MARÍLIA -- Eu fiquei muito feliz e emocionada com os primeiros retornos, de pessoas machucadas que leram o livro e vieram me procurar. Descreveram um sentimento de nova compreensão dos fatos. Entenderam que também tiveram sua parcela de responsabilidade nas situações de abuso – a enorme carência, a idolatria de homens falíveis, a bajulação. Antes, eles se viam apenas como vítimas, depois de lerem o livro entenderam que, no final, são todos, abusados e abusadores, vítimas, por compartilharem uma atmosfera espiritual adoentada e uma teologia cheia de problemas.

PRAZER -- Quando viu a publicidade que seu livro ganhou na mídia secular, não se viu "entregando o ouro ao bandido"?

MARÍLIA -- Não, claro que não! Eu fiquei espantada com o interesse da revista Época no assunto – e não me venham com teorias conspiratórias dizendo que dei uma entrevista para as “organizações Globo”. Que coisa mais tacanha. Eu trabalho no Valor Econômico, é bom que se entenda, conheço uma porção de jornalistas bacanas, sou jornalista há 300 anos (risos) tenho acesso a eles, não estou sendo “usada pela Globo”, como querem alguns, para falar mal de evangélicos. Isso não existe! Jornalistas não cristãos que leram a entrevista vieram me procurar, interessados em debater o tema do livro – isso é entregar ouro ao bandido? Acho que é, sim, uma tremenda oportunidade de mostrar que existe um Deus de Graça e Perdão que está sendo vituperado por lideranças sem ética, que estão detonando uma comunhão que teria que ser mais sadia e produtora de bem-estar.

PRAZER -- O abuso é algo pentecostal ou ultrapentecostal ou se distribui igualmente por todo o protestantismo?

MARÍLIA -- O abuso está por todo lado, nas históricas, nas novas, onde houver um líder sendo superidealizado, reverenciado como super-herói, visto como senhor de todas as respostas, ali estará um enorme potencial para o abuso.

PRAZER -- Os casos de abuso espiritual que chegaram ao seu conhecimento e que estão no livro lhe parecem suficientes para analisar o universo evangélico brasileiro? Você não incorreu em generalizações?

MARÍLIA -- Eu tinha um prazo a cumprir e, como trabalho diariamente no jornal, não tinha tempo nem vontade de escrever um tratado definitivo sobre o assunto. Queria passar para o papel as emoções dessas pessoas e as minhas próprias, não queria perder o timing. Poderia, sim, ter ouvido mais pessoas, houve algumas que ouvi e que não entraram no livro justamente para não tornar a obra uma leitura muito pesada. Eu queria chegar a um equilíbrio e penso que consegui. Mas, claro, deve haver uma multidão que não está ali representada, que sofreu outros tipos de abusos que não estão relatados. Se fosse entrar na área de assédio sexual, então.... este seria um outro livro.

PRAZER -- Você ouviu o outro lado (o lado dos líderes que feriram)?

MARÍLIA -- Apenas em um dos casos, que foi justamente o caso mais importante para mim, por envolver a liderança de minha antiga congregação. Algumas histórias do livro são originadas ali. Não achei pertinente ouvir o outro lado em todas as demais histórias porque, como não conhecia as outras lideranças envolvidas, achei que o livro poderia ganhar um tom acusatório que eu não queria que ele tivesse.

PRAZER -- Você acha que falta Graça no púlpito evangélico brasileiro?

MARÍLIA -- Se eu disser que sim, aí, sim estarei generalizando. Encontrei Graça no púlpito da Igreja Batista da Água Branca e encontrei graça em outros púlpitos que visitei. Sei que há centenas de boas igrejas, lideradas por bons pastores, pessoas sóbrias, que enxergam as suas limitações e pregam a Graça acima de todas as doutrinas. Tenho certeza disso! Quero enfatizar que havia, sim, MUITA GRAÇA também sendo pregada na igreja que freqüentei durante dez anos, ali aprendi tantas coisas boas, senão não teria ficado 10 anos! O problema são as sutilezas – as coisas vão mudando de mansinho, sem que se perceba, e um dia você acorda e aquela igreja que você freqüentava mudou. Os pastores tornaram-se onipotentes, inquestionáveis, poderosos. Infelizmente, muitas vezes só enxergamos isso quando os feridos se levantam e têm coragem de falar.

Fonte: Prazer da Palavra
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Há abusos em nome de Deus

Jornalista relata os danos do assédio espiritual cometido por líderes evangélicos
por Kátia Mello

A igreja evangélica está doente e precisa de uma reforma. Os pastores se tornaram intermediários entre Deus e os homens e cometem abusos emocionais apoiados em textos bíblicos. Essas são algumas das afirmações polêmicas da jornalista Marília de Camargo César em seu livro de estreia, Feridos em nome de Deus (editora Mundo Cristão), que será lançado no dia 30. Marília é evangélica e resolveu escrever depois de testemunhar algumas experiências religiosas com amigos de sua antiga congregação.

QUEM É
Marília de Camargo César, 44 anos, jornalista, casada, duas filhas

O QUE FEZ
Editora assistente do jornal O Valor, formada pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero

O QUE PUBLICOU
Seu livro de estreia é Feridos em nome de Deus (editora Mundo Cristão)



ÉPOCA – Por que você resolveu abordar esse tema?
Marília de Camargo César – Eu parti de uma experiência pessoal, de uma igreja que frequentei durante dez anos. Eu não fui ferida por nenhum pastor, e esse livro não é nenhuma tentativa de um ato heroico, de denúncia. É um alerta, porque eu vi o estado em que ficaram meus amigos que conviviam com certa liderança. Isso me incomodou muito e eu queria entender o que tinha dado errado. Não quero que haja generalizações, porque há bons pastores e boas igrejas. Mas as pessoas que se envolvem em experiências de abusos religiosos ficam marcadas profundamente.

ÉPOCA – Qual foi a história que mais a impressionou?
Marília – Uma das histórias que mais me tocaram foi a de uma jovem que tem uma doença degenerativa grave. Em uma igreja, ela ouviu que estava curada e que, caso se sentisse doente, era porque não tinha fé suficiente em Deus. Essa moça largou os remédios que eram importantíssimos no tratamento para retardar os efeitos da miastenia grave (doença autoimune que acarreta fraqueza muscular). O médico dela ficou muito bravo, mas ela peitou o médico e chegou a perder os movimentos das pernas. Ela só melhorou depois de fazer terapia. Entendeu que não precisava se livrar da doença para ser uma boa pessoa.

ÉPOCA – Que tipo de experiência você considera como abuso religioso e que marcas são essas?
Marília – Meu livro é sobre abusos emocionais que acontecem na esteira do crescimento acelerado da população de evangélicos no Brasil. É a intromissão radical do pastor na vida das pessoas. Um exemplo: uma missionária que apanha do marido sistematicamente e vai parar no hospital. Quando ela procura um pastor para se aconselhar, ele fala assim para ela: “Minha filha, você deve estar fazendo alguma coisa errada, é por isso que o teu marido está se sentindo diminuído e por isso ele está te batendo. Você tem de se submeter a ele, porque biblicamente a mulher tem de se submeter ao cabeça da casa. Então, essa mulher, que está com a autoestima lá embaixo, que apanha do marido - inclusive pelo Código Civil Brasileiro ele teria de ser punido - pede um conselho pastoral e o pastor acaba pisando mais nela ainda. E ele usa a Bíblia para isso. Esse é um tipo de abuso que não está apenas na igreja pentecostal ou neopentecostal, como dizem. É um caso da Igreja Batista, em que, teoricamente, os protestantes históricos têm uma reputação melhor.

ÉPOCA – Seu livro questiona a autoridade pastoral. Por quê?
Marília – As igrejas que estão surgindo, as neopentecostais, e não as históricas, como a presbiteriana, a batista, a metodista, que pregam a teologia da prosperidade, estão retomando a figura do “ungido de Deus”. É a figura do profeta, do sacerdote, que existia no Antigo Testamento. No Novo Testamento, não existe mais isto. Jesus Cristo é o único mediador. Então o pastor dessas igrejas mais novas está se tornando o mediador. Para todos os detalhes da sua vida, você precisa dele. Se você recebeu uma oferta de emprego, o pastor pode dizer se deve ou não aceitá-la. Se estiver paquerando alguém, vai dizer se deve ou não namorar aquela pessoa. O pastor, em vez de ensinar a desenvolver a espiritualidade, determina se aquele homem ou aquela mulher é a pessoa da sua vida. E o pastor está gostando de mandar na vida dos outros, uma atitude que abre um terreno amplo para o abuso.

ÉPOCA – Você também fala que não é só culpa do pastor.
Marília – Assim como existe a onipotência pastoral, existe a infantilidade emocional do rebanho, que é o que o Sérgio Franco, um dos pastores psicanalistas entrevistados no livro, fala. A grande crítica do Freud em relação à religião era essa. Ele dizia que a religião infantiliza as pessoas, porque você está sempre transferindo as suas decisões de adulto - que são difíceis - e a figura do sagrado, no caso aqui o líder religioso, para a figura do pai ou da mãe - o pastor, a pastora. É a tendência do ser humano em transferir responsabilidade. O pastor virou um oráculo. É mais fácil ter alguém, um bode expiatório, para pôr a culpa nas decisões erradas tomadas.

“O pastor está gostando de mandar na vida dos outros
e receber presentes. Isso abre espaço para os abusos”

ÉPOCA – Quais são os grandes males espirituais que você testemunhou?
Marília – Eu vi casamentos se desfazer, porque se mantinham em bases ilusórias. Vi também pessoas dizendo que fazer terapia é coisa do Diabo. Há pastores contra a terapia que afirmam que ela fortalece a alma e a alma tem de ser fraca; o espírito é que tem que ser forte. E dizem isso supostamente apoiados em textos bíblicos. Dizem que as emoções têm de ser abafadas e apenas o espírito ser fortalecido. E o que acontece com uma teologia dessas? Psicoses potenciais na vida das pessoas que ficam abafando as emoções. As pessoas que aprenderam essa teologia e não tiveram senso crítico para combatê-la ficaram muito mal. Conheci um rapaz com muitos problemas de depressão e de autoestima que encontrou na igreja um ambiente acolhedor. Ele dizia ter ressuscitado emocionalmente. Só que com o passar dos anos, o pastor se apoderou dele. Mas ele começou a perceber que esse pastor é gente, que gosta de ganhar presentes e que usa a Bíblia para se justificar. Uma das histórias que mais me tocou foi a de uma jovem que tem uma doença degenerativa grave. Ela foi para uma dessas igrejas e ouviu que se estivesse sentindo ainda doente era porque não tinha fé suficiente em Deus. Essa moça largou os remédios que eram importantíssimos no tratamento para retardar os efeitos da miastenia grave (doença auto-imune que acarreta fraqueza muscular). O médico dela ficou muito bravo e não a autorizou. Mesmo assim, ela peitou o médico e chegou a perder os movimentos das pernas. Ela só melhorou depois de fazer terapia. Ela entendeu que não precisava se livrar da doença para ser uma boa pessoa.

ÉPOCA – Por que demora tanto tempo para a pessoa perceber que está sendo vítima?
Marília – Os abusos não acontecem da noite para o dia. A pessoa que está sendo discipulada, que aprende com o pastor o que a Bíblia diz, desenvolve esse relacionamento aos poucos. No primeiro momento, ela idealiza a figura do líder, como alguém maduro, bem preparado. É aquilo que fazemos quando estamos apaixonados: não vemos os defeitos. O fiel vê esse líder como um intermediário, como um representante de Deus que tem recados para a vida dele, um guru. E o pastor vai ganhando a confiança dele num crescendo, como numa amizade. Esse líder, que acredita que Deus o usa para mandar recados para sua congregação, passa a ser uma referência na vida do fiel. O fiel, pro sua vez, sente uma grande gratidão por aquele que o ajudou a mudar sua vida para melhor. Ele se sente devedor do pastor e começa, então, a dar presentes. O fiel quer abençoar o líder porque largou as drogas, ou parou de beber, ou parou de bater na mulher, ou porque arrumou um emprego e está andando na linha. E começa a dar presentes de acordo com suas posses. Se for um grande empresário, ele dá um carro importado para o pastor. Isso eu vi acontecer várias vezes. O pastor, por sua vez, gosta de receber esses presentes. É quando a relação se contamina, se torna promíscua. E o pastor usa a Bíblia para dizer que esse ato é bíblico. O poder está no uso da Bíblia para legitimar essas práticas.

ÉPOCA – Qual é o limite da autoridade pastoral?
Marília – O pastor tem o direito de mostrar na Bíblia o que ela diz sobre certo tema. Como um bom amigo, ele tem o direito de dar um conselho. Mas ele tem de deixar claro que aquilo é apenas um conselho. Pode até falar que o resultado disso ou daquilo pode ser ruim para a vida do fiel. Mas ele não pode mandar a pessoa fazer algo em nome de Deus. O que mais fere as pessoas é ouvir uma ordem em nome de Deus. Se é Deus, então prova! Se Deus fala para o pastor, por que Ele não fala para o fiel? Eles estão sendo extremamente autoritários.

ÉPOCA – Você afirma que muitos dos pastores não agem por má-fé, mas por uma visão messiânica. Explique.
Marília – É uma visão messiânica para com seu rebanho. Lutero (teólogo alemão responsável pela reforma protestante no século XVI) deve estar dando voltas na tumba. Porque o pastor evangélico virou um papa que é a figura mais criticada no catolicismo, o inerrante. E não existe essa figura, porque somos todos errantes, seres faltantes, como já dizia Freud. Pastor é gente. E é esse pastor messiânico que está crescendo no evangelismo. Existe uma ruptura entre o Antigo e o Novo Testamento, que é a cruz. A reforma de Lutero veio para acabar com a figura intermediária e a partir dela veio a doutrina do sacerdócio universal. Todos têm acesso a Deus. Uma das fontes do livro disse que precisamos de uma nova reforma e eu concordo com ela. Essa hierarquização da experiência religiosa, que o protestante tanto combateu no catolicismo, está se propagando. Você não pode mais ter a conversa direta com o divino. Porque tem aquela coisa da “oração forte” do pastor. Você acha que ele ora mais que você, que ele tem alguma vantagem espiritual e, se você gruda nele, pega uma lasquinha. Isso não existe. Somos todos iguais perante Deus.

ÉPOCA – Se a igreja for questionada em seus dogmas, ela não deixará de ser igreja?
Marília – Eu não acho isso. A igreja tem mesmo de ser questionada, inclusive há pensadores cristãos contemporâneos que questionam o modelo de igreja que estamos vivendo e as teologias distorcidas, como a teologia da prosperidade, que são predominantemente neopentecostais e ensinam essa grande barganha. Se você não der o dízimo, Deus vai mandar o gafanhoto. Simbolicamente falando, Ele vai te amaldiçoar. Hoje o fiel se relaciona com o Divino para as coisas darem certo. Ele não se relaciona pelo amor. Essa é uma das grandes distorções.

ÉPOCA – Por que você diz que existe uma questão cultural no abuso religioso?
Marília – Porque o brasileiro procura seus xamãs, e isso acontece em todas as religiões. O brasileiro é extremamente religioso. A ÉPOCA até publicou uma matéria sobre isso, dizendo que a maioria acredita em algo e se relaciona com isso, tentando desenvolver seu lado espiritual. O brasileiro gosta de ter seu oráculo. A pessoa que vem do catolicismo, onde há centenas de santos, e passa a ser evangélica transfere aquela prática e cultura do intermediário para o protestantismo, e muitas igrejas dão espaço para isso. O pastor Edir Macedo (da igreja Universal) trouxe vários elementos da umbanda, do candomblé, porque ele é convertido. Ele diz que o povo precisa desses elementos -que ele chama de pontos de contato - para ajudar a materializar a experiência religiosa. A Bíblia condena tudo isso.

ÉPOCA – No livro você dá alguns alertas para não cair no abuso religioso. Fale deles.
Marília – Desconfie de quem leva a glória para si. Um conselho é prestar atenção nas visões megalomaníacas. Uma das características de quem abusa é querer que a igreja se encaixe em suas visões, como quere ganhar o Brasil para Cristo e colocar metas para isso. E aquele que não se encaixar é um rebelde, um feiticeiro. Tome cuidado com esse homem. Outra estratégia é perguntar a si mesmo se tem medo do pastor ou se pode discordar dele. A pessoa que tem potencial para abusar não aceita que discorde dela, porque é autoritária. Outra situação é observar se o pastor gosta de dinheiro e ver os sinais de enriquecimento ilícito. São esses geralmente os que adoram ser abençoados e ganhar presentes. Cuidado com esse cara.

Fonte: ÉPOCA
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quarta-feira, 24 de junho de 2009

A revolta dos perdigotos

João Ximenes Braga

Homoterrorismo é a desimportância em desespero. A sexualidade é inalterável e inatingível. E quando se trata de sexualidade, só existe uma coisa no mundo que consegue ser mais desprovida de importância que a opinião pessoal: o julgamento moral. Você pode julgar quanto quiser a sexualidade alheia. Não tem importância. Você pode ser hétero e fazer a elegia dos seus amigos gays. Não tem importância. Você pode ser gay e fazer piadas maldosas sobre o comportamento “careta” dos héteros. Não tem importância. Eles não deixarão de ser o que são.

Você pode ser conservador e barrar leis no Congresso, fazer passeatas pela família, dizer que o mundo está acabando, que Deus vai punir a todos. Não tem importância, não passa do registro da fofoca, ninguém vai deixar de se deitar com quem quer. Pode até deitar escondido, ou demorar a criar coragem, mas vai deitar. Deitar e suar e trocar saliva e outros fluidos que, com sorte, ficarão na camisinha.

E você pode achar isso nojento. Mas não tem importância. Pois a sua opinião e o seu julgamento sobre a sexualidade alheia não tem importância. Porque é alheia. Se é alheia, é do outro; se é do outro, não é sua; não sendo sua, não vai mudar por sua causa.

Você pode ser deputado crente ou padre pitboy, pode ser simpatizante ou skinhead, pode ser presidente do Irã ou suplente do PTC, grandes coisas, azar o seu, a sexualidade alheia continuará a não ser da sua conta. O pessoal vai continuar deitando e suando e trocando saliva enquanto você desperdiça os seus perdigotos uivando indignação pelas esquinas.

Aí, numa desesperada tentativa de não admitir que seu julgamento moral é inútil, você joga uma bomba. Você pode até matar alguns indivíduos. Ferir outros. Emperrar a vida de muitos. Vãs tentativas de ter importância, pois não vai, jamais, impedir que o mundo gire, a lusitana rode e as pessoas se deitem com quem quiserem, como quiserem. Seu julgamento moral e sua opinião, quaisquer que sejam, serão para sempre da mais profunda desimportância.

A não ser, claro, para você mesmo. Pois como diz Tennessee Williams na voz de Chance, o protagonista de “Doce pássaro da juventude”, a grande diferença entre as pessoas neste mundo “não é entre quem é rico e pobre, bom ou mau. É entre quem tem ou teve prazer no amor e quem nunca teve prazer no amor, apenas observou, com inveja, inveja doentia”.

Fonte: Ancelmo.com
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terça-feira, 2 de junho de 2009

A Igreja Universal e seus demônios

Há quase 20 anos o antropólogo Ronaldo de Almeida estuda as religiões pentecostais brasileiras. Em seu novo livro, "A Igreja Universal e seus demônios" (Terceiro Nome/Fapesp), ele faz um resumo da expansão do pentecostalismo no Brasil, e examina uma das protagonistas desse crescimento, a Igreja Universal do Reino de Deus. Pesquisador do Cebrap e professor da Unicamp, Almeida mostra como o antagonismo com outras religiões (em especial a umbanda) é fundamental para a Universal definir sua identidade. Nesta entrevista, o antropólogo analisa esse processo de "satanização da fé inimiga", e explica como o discurso da Universal se adapta às exigências do capitalismo contemporâneo.

Você diz que é no confronto com outras religiões que a Igreja Universal define seus contornos. Poderia falar um pouco sobre isso?


A tese do livro é que a Igreja Universal constituiu seu universo simbólico tendo como referência principal o seio do qual é fruto (os evangélicos pentecostais) mas também teve como contraponto esse caldo religioso "católico-afro-kardecista" disseminado pela sociedade brasileira. Ela é uma religiosidade que assimila e re-elabora conteúdos simbólicos e práticas rituais de outras religiões localizando-os no pólo negativo da fé cristã. Em resumo, suas práticas passam pela demonização do outro, mas ao mesmo tempo incorpora suas formas de apresentação. Assim, ela nos dá a impressão de combater aquilo do qual se alimenta o seu próprio discurso religioso. Daí o titulo "A Igreja Universal e seus demônios", que a meu ver sintetiza uma de suas formas de expansão.

A umbanda é a principal "antagonista" religiosa da Universal? Por que você acha que ela fez essa escolha?



A umbanda, devido à própria imagem de uma religião que trabalha com espíritos, alguns destes considerado "das trevas", é entendida pela Universal como a causadora dos males da vida (problemas familiares, financeiros, doenças etc). Isto fica mais explícito nos cultos de exorcismo. Mas também não podemos perder de vista que a Igreja Católica é pensada como uma adversária devido à devoção aos santos e às suas imagens, o que é considerada pela Universal como idolatria. Além disso, a Igreja Católica é um adversário forte devido ao enraizamento na sociedade brasileira. Mas o que é importante reter é que no processo de expansão da Universal ocorre este mecanismo de satanização da fé inimiga, que em outros países serão outras práticas religiosas.



Que tipo de ethos é formado e transmitido nos cultos da Universal?

Esta é uma questão ampla, mas destacaria dois aspectos: a intolerância com as religiões alheias e e um forte incentivo à prosperidade financeira, não propriamente por meio do trabalho formal mas a partir do estímulo a uma postura empreendedora por parte dos fiéis. A meu ver, este segundo aspecto está em sintonia com o contexto de crescente informalidade no mundo do trabalho que exigem soluções criativas e autônomas para a geração de renda. É menos uma ética do trabalho típica do protestantismo clássico e mais uma "viração" no mundo do trabalho para ter uma ascenção social sem culpa.


E como a Universal se relaciona com a tradição pentecostal brasileira? O que a distingue de outras pentecostais?

Além dessa questão da prosperidade financeira, destaco a interação entre os fiéis. Uma das características do meio protestante e pentecostal é a lógica congregacional, onde templos abrigam uma comunidade de fiéis que convivem por muitos anos entre si, gerando forte lações de amizade e parentesco. Não quero dizer que isto não ocorra na Universal, mas a arquitetura de seus templos (grandes salões), as várias reuniões que são realizadas diariamente, a rotatividade dos pastores entre os templos, entre outros aspectos, não favorecem o fortalecimento dos laços horizontais entre os fiéis como nas igrejas pentecostais mais clássicas. Parece-me uma religiosidade muito mais de massa, de fluxo e midiática que se contrapõe ao ethos congregacional dos "irmãos de fé" encontrado mais explicitamente nas igrejas protestantes como Batista e Presbiteriana e pentecostais tradicionais como a Assembléia de Deus e Congregação Cristã do Brasil. Convém destacar, no entanto, que devido ao sucesso deste modelo no arregimento de fiéis, algumas igrejas mais tradicionais começam a copiar o modelo da Universal.



Como se deu a chegada e expansão do pentecostalismo no Brasil?

A literatura sobre o tema costuma organizar a expansão do pentecostalismo em três momentos. O primeiro deu-se com a chegada em São Paulo, em 1910, de um missionário presbiteriano italiano que conheceu o recém-nascido pentecostalismo nos Estados Unidos e fundou a Congregação Cristã do Brasil no bairro do Brás; e a vinda de missionários suecos para Belém do Pará, em 1911, também via Estados Unidos, que fundaram a Assembléia de Deus. O segundo momento refere-se ao surto de expansão nos anos 50, sobretudo com a Cruzada Nacional de Evangelização, também vinda dos Estados Unidos e liderada pela Igreja do Evangelho Quadrangular, que gerou posteriormente as igrejas Deus é Amor e o Brasil Para Cristo. O terceiro momento, também chamado de neopentecostalismo, ocorreu como um processo autóctone a partir do final dos anos 70, do qual surgiram a Igreja Universal, a Internacional da Graça do Reino de Deus, a Renascer em Cristo, dentre outras. Creio que o importante a reter é que se o pentecostalismo é um fenômeno planetário, o Brasil se tornou um pólo emissor dessa religiosidade para outras partes do mundo, sobretudo África, América Latina e mais timidamente para Europa e o próprio Estados Unidos.



É possível hoje traçar um perfil do fiel pentecostal? Quem seria?

No ano que vem, 2010, o pentecostalismo completará 100 anos de Brasil, e o que vemos não é apenas a sua expansão numérica mas também a sua diversificação interna. Creio que falar genericamente do perfil do fiel pentecostal é simplesmente redutor. Temos aquele da teologia da prosperidade, outros ligados a movimentos sociais com militância política, outros mais voltados para uma estética e estilo de vida "gospel", como também aquele crente mais tradicional com homens usando ternos e as mulheres usando obrigatoriamente vestidos e cabelos compridos. Enfim, meu livro sobre a Igreja Universal, sem perder de vista esta diversidade interna, concentra-se em um determinado perfil, que embora específico é um exemplo paradigmático do pentecostalismo contemporâneo.

Fonte: Prosa Online - O Globo
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