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quarta-feira, 13 de junho de 2012

Sobre o Ver

Por Bianca Assis, educadora.

Sou defensora da autonomia e do desenvolvimento da capacidade de expressão própria. Como professora de Artes Visuais, meu objetivo não é somente possibilitar o reconhecimento de códigos gráficos e obras importantes, mais que isso, por militância, é a busca de uma identidade, e o empoderamento de instrumentos para a expressão do que se é genuíno a indivíduos, coletivos, povos.

 Acredito que a voz ativa seja um direito, e um símbolo da dignidade. [Como expressei no texto “sobre o ouvir”] Mas o texto que elogia a voz trata da importância da audição. Neste texto, sobre expressão visual, quero tratar da importância do saber ver.

É comum ouvir que o individualismo pós-moderno nos torna cada vez mais sozinhos em nossa caminhada. Eu discordo. É enorme a necessidade de adaptação e de culto ao “parecer”, se não fosse assim, não existiria o status quo, a vontade incontrolável de se trocar de carro ou de aparelho celular, a fórmula social de sucesso, a moda, os cabelos alisados, as fôrmas...

A individualidade neste sentido, nada mais é do que a forma de se obter recursos, ganhar vantagem, e passar por cima de interesses coletivos, para se mostrar aos outros o quão poderosos se é. Status. As mídias ditam o padrão estético nortista, europeu, dos grupos economicamente dominantes.

Neste ponto sou testemunha do poder que possuem, pois, muitas vezes vi meus alunos negros fazendo auto-retratos com a pele branca e os cabelos amarelos, mesmo segurando o espelho em suas mãos!

Já vi também, nos primeiros meses na Escola de Belas Artes, os olhos dos exímios desenhistas treinados pelas revistas de super-heróis norte-americanos, no primeiro dia de aula com um modelo vivo negro, pequeno, fora dos padrões com os quais estamos acostumados a ver representados, daqueles que exigiriam mais dos nossos olhos na produção do seu desenho, e os produtos finais depois de 30 minutos de observação e riscos no papel, serem bizarros super-heróis na posição que o modelo havia feito. Será possível que ninguém o enxergou? Ou os olhos não são suficientes para VER as coisas?

Eu sou muito distraída quando se tratam de lugares e referências geográficas. Meu mapa seria em branco, e os prédios surgiriam de um dia para o outro, depois que sou obrigada a repará-los. Faço o mesmo caminho em Macaé há 3 meses para chegar em certo ponto, e o prédio da UFRJ só surgiu depois que precisei dobrar a sua exata esquina.

Neste ponto preciso transcrever o que o Augusto Boal diz em seu último livro “A Estética do Oprimido” porque ele diz muito do que me move, enquanto profissional, e ser político:

“... O analfabetismo é usado pelas classes, clãs e castas dominantes como severa arma de isolamento, repressão, opressão e exploração. Mais lamentável é o fato de que também não saibam falar, ver, nem ouvir. Esta é igual, ou pior, forma de analfabetismo: a cega e muda surdez estética. Se aquela proíbe a leitura e a escritura, esta aliena o indivíduo da produção da sua arte e da sua cultura, e do exercício criativo de todas as formas de Pensamento Sensível. Reduz indivíduos, potencialmente criadores, à condição de espectadores...

...Temos que repudiar a ideia de que só com palavras se pensa, pois se pensamos também com sons e imagens, ainda que de forma subliminal, inconsciente, profunda! O pensamento sensível, que produz arte e cultura, é essencial para a libertação dos oprimidos, amplia e aprofunda sua capacidade de conhecer. Só com cidadãos que, por todos os meios simbólicos (palavras) e sensíveis (som e imagem), se tornam conscientes da realidade em que vivem e das formas possíveis de transformá-la, só assim surgirá, um dia, uma real democracia.

* Para que se compreenda com clareza que existem tantas estéticas quantos grupos sociais organizados, comparem estas duas imagens: Jesus com seus apóstolos vestidos com andrajos e com a alegria passional daqueles que sentem que dizem verdades; do outro lado, o Papa, envolto em ouro e ouropéis, no seu papamóvel blindado, cercado de guardas suíços, vestidos pela griffe Michelangelo, cercado pelos seus príncipes, ornados como ele. Jesus e o atual cristianismo têm pouca coisa em comum... Ou vocês acham que esses dois grupos estariam usando a mesma e única estética universal? Ou seriam seus caminhos tão exclusivos dos interesses e propósitos de cada grupo? Para que eu possa começar a acreditar em alguma coisa que ele diga, quero ver o papa quase nu, despojado de artifícios, pregando nas ruas e nos campos. Isso, sua estética não permite; a minha, exige!” [BOAL]

E como fechar um texto sobre a visão sem citar o Saramago em seu livro “Ensaio sobre a Cegueira”? Em algum sentido a visão norteia o coletivo e ajusta os interesses. A ausência dela no livro, revela a realidade. E a intrigante mulher do médico, única personagem na cidade que não perde a visão, do que se trata? Em certo ponto ela é advertida de que se revelar que consegue enxergar, poderia ser morta.

É o que a humanidade reserva aos que vêem. Os que entendem os mecanismos são perigosos. Vide a história de cada mártir. Seu maior instrumento não foram armas ou exércitos, foi a visão.

O perigo para as estruturas opressoras, dominantes, pecaminosas não é o fato dos cidadãos terem olhos. O perigo real é usá-los!


PS. Quero lembrar com doçura algo que ouvi da minha amiga cega, Camila: Enquanto trabalhávamos na exposição sobre o Miles Davis no CCBB em 2011, em uma das baias, separadas por cores, tocava o disco do Miles com mais influência do Blues. A sala era toda azul. Entramos, ouvimos por um tempo, sem que ela soubesse, a pergunta que fiz à Camila foi
-“Pra você, que cor teria esta sala?” no que ela respondeu
“Esta sala tem cor de chuva; de avião quando está no alto do céu”.

Ela leu a cor do som, e tudo ali era mesmo azul.
Os olhos precisam de todo o corpo para enxergar com ele.
Mais azul ainda foi o mar que me veio aos olhos!


quinta-feira, 8 de março de 2012

A Audição e o Dia da Mulher

Por Bianca Assis, educadora.

“Veja a única coisa maior que você”

Alex Haley, escritor americano do livro -Negras Raízes-, cresceu ouvindo histórias do seu avô sobre seu antepassado africano, Kunta Kinte, de nobres tradições tribais, raptado por quatro homens enquanto andava na floresta, sendo acorrentado e levado como escravo para a América. Contar histórias foi a forma encontrada para que as gerações não perdessem a identidade.

A frase que me marcou aparece no oitavo dia de vida do menino Kunta, após o ritual em que recebera seu nome. O pai, Omoro, sozinho com o filho o leva até a floresta, o levanta alto, voltado para o firmamento e diz em seu ouvido:
“Veja a única coisa maior que você”.

O homem e a mulher tem valor intrínseco. Inquestionável. Mas este texto foi importante por exibir a reverência pelo que é maior do que nós. O que não cabe no vocabulário.

“Os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo.”
-Wittgeinstein-

O mundo que é do tamanho do que a razão consegue apreender é pequeno demais, no mínimo, menor do que você. [Neste texto vou focar nas relações humanas, mas eu poderia desenvolver esta ideia relacionando-a ao mistério do mundo, ao divino, ao indizível.] O fato de alguém nunca ter tido contato com qualquer tipo de opressão deve ser motivo de gratidão, mas não lhe dá direito de reduzir o empenho da luta dos oprimidos cruelmente em seus mais diversos contextos. Sendo minoria ou maioria. A linguagem é fruto de determinada vivência, e esta reflete as fronteiras de cada mundo.

Lamentar o fato de que algum ser humano se suponha maior ou menor é óbvia. As opressões provenientes de homens ou mulheres que alegaram ter algum direito de dominar outra vida e as diversificadas formas [conscientes ou não] de fazê-lo, é grave e repugnante.

Hoje, no dia 08 de março de 2012, Dia Internacional da Mulher, eu, mulher, queria sugerir que a fala e a audição são fatores marcantes na construção dessas relações.

A FALA:
“Os movimentos de vários músculos que fazem as cordas vocais vibrarem e produzirem sons.”

A fala é ativa. É a característica masculina. Vem de dentro para fora. Rubem Alves diria que a fala é fálica, é a capacidade de penetrar o vazio que a aguarda, em forma de palavras, ruídos, canções. A fala é o semear, é o fecundar: O cérebro engravida, floresce de ideias.

A AUDIÇÃO:
“É a capacidade de reconhecer o som emitido pelo ambiente. O órgão responsável pela audição é o ouvido. As ondas sonoras chegam até o aparelho auditivo, fazem o tímpano vibrar, as vibrações viram impulsos nervosos que são transmitidos ao cérebro pelo nervo auditivo.”

A audição é o vazio sem o qual a fala não faz sentido. É a característica feminina de receber a semente, de acolher em si o mundo, de conceber e transformar através do que se recebe. Não é exclusiva das mulheres, a audição é a manifestação feminina necessária em toda a humanidade, assim como a fala, a característica masculina que em todos deve se manifestar.

A fala representa a ideia. É instrumento de poder, que pode ser agradável, comovente e transformadora, mas quando abusiva e autoritária, fere, agride, violenta. Pode ser tanto a fonte das opressões quanto a representação da conquista da dignidade.

A audição é condição para alcance da mente. Só quando o vazio se oferece, há fecundação, frutificação, Vida.

Com isso, queria que a característica feminina celebrada do dia, e fundamental em cada homem e em cada mulher, imprescindível para o desenvolvimento do mundo, levasse seu merecido destaque. Nada de lógicas invertidas, e de mulheres impenetráveis abusando de suas falas. Nada de homens incapazes de serem fecundados e transformados pela contato com os/as semelhantes.

Feliz dia Internacional das Semelhantes.
Vamos todos OUVIR?

“O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas, o que sai da boca, isto é o que contamina o homem.” Mat. 15:11.

“Nada há, fora do homem, que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai dele isto é o que contamina o homem.” Mar. 7:15

“Sabeis isto, meus amados irmãos; mas todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.” Tiago 1.19


quarta-feira, 27 de abril de 2011

A Insegurança das Identidades Sob Ataque

Por Nilton Bonder, rabino e escritor.

O Eclesiastes diz que há um tempo para tudo, tempo de alegria, tempo de tristeza, tempo de paz e tempo de guerra. É muito possível que, quando ele foi escrito, o mundo vivesse um momento em que realmente a situação se assemelhasse a nossa experiência contemporânea.

Nos anos 90 vivemos com a nítida sensação de que o período de paz experimentado, ou os processos de pacificação que se estabeleceram, representava o início de uma definitiva forma de convivência pacífica. Estaríamos iniciando o tão esperado e milenarmente sonhado futuro de harmonia, justiça e paz. Somos então surpreendidos por tempos de guerra como se isso fosse realmente um destino sobre o qual não temos nenhum poder. A guerra seria como a chuva. Nossa sensação de impotência diante de tempos disso ou tempos daquilo pareceria fazer-nos fantoches da realidade.

Mas eu tenho a impressão que o Eclesiastes estava falando de uma outra coisa. Não se trata de resignação ou de uma proposta reacionária, mas algo similar ao que Morin nos diz ao falar que "não temos para onde ir". Isso porque o refrão marcante e chocante deste livro diz: Não há nada novo sob o sol.

À primeira vista esta frase parece extremamente pessimista: não podemos fazer nada; tudo vai ser igual; geração vem, geração vai os seres humanos são prisioneiros de uma natureza humana da qual não tem como "sair desse lugar". De certa maneira, mais do que nos percebermos como parte Gaia, de um planeta onde temos que conviver porque não temos para onde ir, compartilhamos mais do que tempo e espaço, compartilhamos naturezas.

Vivemos mais que no mesmo local cósmico, somos conterrâneos de essência. Eu acho que é isso que o Eclesiastes está dizendo: temos que lidar com uma estrutura humana que de geração em geração vai precisar de um processo de amadurecimento, vai precisar de uma educação para o futuro que não virá pronta, geneticamente feita. O bebê que, como o cachorro, identifica o outro como um igual, é o mesmo bebê capaz de grandes violências em disputas por posse ou atenção, e será este o bebê do futuro.

As diferenças do que experimentamos hoje não têm a ver com transformações de nossa natureza. Tem a ver com a maior compreensão e o aumento de recursos para que possamos promover nosso amadurecimento pessoal e coletivo. Um amadurecimento que sempre será um processo no qual teremos não só poderes, mas a responsabilidade de intervir. Vamos poder melhorar as condições de nossa civilização, mas mesmo assim teremos tempos de paz e tempos de guerra. Não necessariamente guerras em que a gente pegue avião e jogue bombas, mas guerras travadas dentro de nós mesmos. Seus armistícios serão celebrados pelo amadurecimento de não mais termos que recorrer a métodos infantis de posse, de controle e de triunfo, que hoje, como no passado, vemos tão presente na realidade.

Duas questões em relação ao diálogo me parecem importante compreendermos porque são, por um lado, a razão da existência do fundamentalismo, e, por outro, território eterno de batalhas. Transformar as espadas em arados, como o profeta Isaias sugeriu, é um processo, mas não de transformação da espécie humana e sua natureza.

Muitas vezes queremos viver no espaço da mágica ou da fantasia. Queremos exorcizar de nós o "eu" de que não gostamos, que identificamos como não sendo ideal. Isaias falava, no entanto, de substituir instrumentos de destruição por outros que propiciassem plantio. Referia-se ao processo de criar ferramentas para amadurecer as pessoas extinguindo os instrumentos que infantilizam as pessoas.

Não há dúvidas de que o mais importante instrumento é o diálogo, nos moldes que a professora Lia Diskin coloca: não pessoas em disputa, mas trafegando pelas idéias. A passagem desse diálogo de discórdia, de busca de triunfo para o diálogo verdadeiro se traduziria pela mudança do jargão da "tolerância", que é uma palavra horrível porque dela se infere um consentimento precário, para a idéia de "apreciação". Apreciar significa celebrar juntos e pensar juntos, independentemente de concordância. E este é o campo das "guerras de tempos em tempos" com as quais cada geração terá que lidar.

Há uma reflexão sobre o diálogo entre mestres Chassídicos que elucidam algumas das dificuldades e que ajudam a compreender, ou melhor, apreciar as "batalhas" que para sempre serão travadas. O Rabino de Kotzk dizia: "Se eu sou eu porque você é você, e se você é você porque eu sou eu, então eu não sou eu e você não é você e a gente não tem o que falar. Mas, se eu sou eu porque eu sou eu, e você é você porque você é você, então eu sou eu e você é você e podemos conversar".

O rabino aponta para o fato de que as inseguranças humanas se depositam todas no espaço das interações e das comparações. Quando eu sou eu porque você é você, significa que só consigo ter uma noção de identidade quando me comparo a você. A raiz desta relação de diálogo ou não-diálogo se fundamenta na questão da insegurança; uma insegurança tão profunda que na verdade nos coloca numa existência paralela, de impossibilidade de encontros e nunca poderemos conversar. Para o diálogo não importa se há discórdia ou convergência de idéias, é apenas fundamental que você esteja falando não de um lugar de insegurança, mas de um lugar de identidade, de crença, de visão.

O fenômeno do fundamentalismo em nosso tempo é basicamente produto da insegurança de identidades que se encontram sob ataque, identidades vacilantes e que se valem mais de aspectos daquilo que não são do que de suas próprias raízes e valores. Essa atitude torna as pessoas, as tribos e as identidades enganchadas a quem o outro é.

Vemos aqui nitidamente a batalha por amadurecimento que se trava em nós e que extravasa para a realidade social. Somos muitas vezes crianças transvertidas em adultos e reproduzimos relações sociais e políticas típicas desta infantilidade mascarada. A grande batalha é o fortalecimento das identidades individuais e coletivas para que possa existir mais diálogo - mais instrumentos para tornar espadas em arados. Precisamos fortalecer as culturas e as tradições religiosas para que não se sintam criticadas ou julgadas de fora, mas que elas mesmas possam fazer isso de dentro.

O primeiro passo para este mundo de diálogo é que cada um faça o seu dever de casa, o dever de casa de amadurecimento, de poder realmente desenvolver uma identidade, uma identidade que seja o fruto da sua própria história, produto de sua própria crítica e aperfeiçoamento.

O que nós vemos nas tradições religiosas do Ocidente (não falo do Oriente por sentir-me um leigo no assunto) é, por exemplo, a questão emblemática sobre Jerusalém. Essa briga por Jerusalém é basicamente uma disputa em torno de inseguranças internas das tradições ditas bíblicas. Jerusalém só será Jerusalém se ela for a Jerusalém dos judeus. Ou Jerusalém só será Jerusalém se ela for a Jerusalém dos muçulmanos, ou seja, contanto que não seja a Jerusalém dos judeus, ou então que não seja a Jerusalém dos cristãos.

Os textos sagrados que são matriz da reflexão religiosa, seja o Alcorão seja o Novo Testamento, ou o Antigo Testamento, refletem essa questão da insegurança na identidade. O Antigo Testamento precisa afirmar o quão diferente os hebreus eram da civilização egípcia ou dos povos dos canaãnitas. O Novo Testamento e o Alcorão, por sua vez são marcados por esta visão enganchada. Nestes textos os judeus, por exemplo, se prestam ao papel de um legítimo outro para estas tradições.

No Alcorão, judeus são apresentados como um modelo do "que não se é", mas mesmo que esse judeu seja um judeu simbólico, que não seja o povo judeu, a marca dessa insegurança é evidente. Já no Novo testamento o judeu é apresentado como aquele que você não quer ser, aquele que renega. Encontramos aqui resquícios desse recurso do qual todas as tradições lançam mão, umas mais outras menos, qual seja, a criação de teologias usando o outro para afirmar o que não eram, nitidamente visando fortalecer sua própria identidade.

Enquanto as tradições religiosas não entenderem que elas têm que fazer uma limpeza, livrando nossas identidades de suas inseguranças infundadas, ficará difícil o diálogo verdadeiro e processos de guerras mais internas e menos externas. Todos os líderes, sejam de uma cultura, uma nação ou uma tradição espiritual, têm como obrigação se envolver nesse processo de autodiagnóstico de suas inseguranças e buscar vencê-las com maturidade, distanciando-se de processos infantis de apontar o outro e dizer: "foi ele!".

Uma segunda questão em relação ao diálogo e que raramente paramos para pensar, é um diálogo não entre os que estão aqui na nossa geração, mas o diálogo intergerações e suas violências. Outro dia eu escrevia sobre uma história no Talmud, uma história muito simples, mas que desperta para esta questão. Conta que um rabino comprou uma tâmara tão maravilhosa que impregnava o ambiente com sua fragrância. O filho do rabino entrou na casa e disse: que cheiro fantástico é esse? O pai disse: meu filho essa tâmara é para você. O filho ficou feliz e levou a tâmara. Como viviam na mesma casa o rabino ouviu quando seu filho no outro cômodo disse a seu próprio filho, a seu neto: Veja que tâmara fantástica, é para você! Imediatamente o rabino fez um comentário que reputo importante. Disse ele: "Quando meu filho cedeu a tâmara, por um lado estremeci de tristeza, por outro, fiquei extremamente feliz. Fiquei triste porque ele me preteriu ao seu próprio filho; mas fiquei feliz porque o que ele fez era certo".

Devemos prestar atenção na tensão que existe aqui. O que o rabino fez: ele abre mão de um prazer para possibilitá-lo a seu filho que por sua vez faz o mesmo com o seu filho. O pai se sente traído por que havia aberto mão do prazer, mas não esperava ser preterido pelo neto - para seu filho era mais importante o neto uma vez que privara o pai do prazer da tâmara, propiciando-o a seu filho. Ao mesmo tempo ele se contenta, pois compreende que seus próprios valores estão presentes em seu filho e que este procedeu da mesma maneira que havia feito. Ele reconhece um vetor de preocupação prioritário para com a geração do futuro e não para a geração do passado. Essa é uma tensão extremamente difícil. Quando os pais não elaboram esta tensão em si, como no caso do rabino, eles produzem mensagens contraditórias e extremamente violentas.

Não é simples honrar os diálogos entre gerações. Devemos respeito às gerações anteriores, mas é fundamental que estas gerações anteriores assumam a responsabilidade de uma atitude madura em relação à sua tristeza por ser preterida e ter que, por vezes, abrir mão daquilo que acreditam ser certo. Cabe a essas gerações temperar sua tristeza com a alegria de reconhecer processos que favorecem e renovam as gerações futuras. A exigência de lealdade para com as instituições e os poderes que representam o passado muitas vezes rompem o diálogo com as instâncias que representam o futuro.

Essas duas questões de amadurecimento influenciam a qualidade e a disponibilidade ao diálogo. E ambas as questões aparecem nitidamente no discurso fundamentalista: 1) identificar inimigos para fortalecer sua identidade e 2) promover um vetor de compromisso mais forte do pai para com o avô do que para com o neto.

Há um detalhe nessa questão de maturidade que gostaria de ressaltar. Quando o rabino de Kotzk dizia que "se eu sou eu porque você é você" então eu não posso ser eu e não podemos dialogar, um outro aspecto fica evidente. E outro rabino Chassídico, o Ishbitzer, se preocupou em apontar. Ele dizia o seguinte: se eu sou eu e você não é você, então você não gosta de mim.

Esse é um aspecto da natureza humana e que tange a frustração e a inveja. Quando não estamos bem, qualquer um que esteja bem é o nosso inimigo; qualquer um que esteja com uma identidade fortalecida nos lembra de nossas vulnerabilidades. Muitas vezes se chega a ponto de acreditar que nossa infelicidade é produto deste que nos lembra de nossa insatisfação ou de nossa insegurança. Guerrear com este inimigo externo fica mais fácil do que se defrontar com seus inimigos e fantasmas internos.

Em outras palavras, nossa luta é por propiciar o máximo de instrumentos culturais e tradicionais que visem ao amadurecimento das pessoas. Essa luta será constante. Fazer com que ela seja travada na esfera da educação e não das guerras é o desafio maior para nossa civilização. Haverá momentos mais propícios para que uma geração experimente essa maturidade, haverá outros, sejam no âmbito da sobrevivência ou da continuidade, que serão mais difíceis. Viver é lidar com tempos disso, tempos daquilo. Fantasiar que a vida possa ser uma homeostase, um equilíbrio permanente, é abandonar a própria definição de vida.

De que maneira nós geramos processos que infantilizam as nossas populações? Como engendrar uma educação que vise a este amadurecimento?

As conquistas da civilização, particularmente o avanço científico, que amplia nossa longevidade e nos faz sonhar inconscientemente com a possibilidade da imortalidade, não ajudam a promover este amadurecimento. O mundo fica muito marcado por este aspecto jovial e imaturo que se constrói da perspectiva de um futuro infinito. O jovem e o conquistador têm todos os lugares para ir e todos os prazeres por provar. A grande bênção de saber que não há para onde ir - não porque a Terra é limitada, mas porque somos todos inquilinos temporários da existência - é em si o lugar de encontro com todos esses conterrâneos e contemporâneos, com quem dividimos, acima de tudo, nossa condição finita. Precisamos de uma cultura amadurecida que ensine isso sem morbidez. Ao invés temos, por um lado uma cultura jovial que é uma cultura de consumo, uma cultura imatura que acha que a vida é ilimitada, que os recursos são ilimitados; por outro, uma cultura de anciãos que se sentem muito ameaçados em sua identidade e que não acreditam no que ensinaram a seus filhos. Daí a criação de culturas aprisionadoras ou fundamentalistas.

As ferramentas para esta educação estão hoje mais disponíveis do que nunca. Dispomos da psicanálise que nos traz um melhor conhecimento de nós mesmos, além de entendermos melhor os processos históricos e sociais e dispomos de forma globalizada de toda a herança sapiencial de nossa civilização.

Investir na possibilidade de tornar disponíveis estes instrumentos de amadurecimento a todos os seres humanos, visando as supri-los de recursos materiais e recursos pessoais para seu desenvolvimento parece ser a única chance de diálogo e paz. Só assim promoveremos uma "liberdade tranqüila" independente de se os tempos sejam de tranqüilidade ou adversidade.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

‘Alguns choravam’, diz pastor que negociou rendição de traficantes

Evangélico que acompanhou líder do AfroReggae no Complexo do Alemão defende anistia como forma de resolver confrontos no Rio
Por Flávia Salme, iG Rio de Janeiro | 01/12/2010 04:51

Na véspera da invasão da polícia ao Complexo do Alemão, um grupo de cinco pessoas da ONG AfroReggae decidiu subir o conjunto de 14 favelas na Penha, zona norte do Rio de Janeiro, e tentar convencer os traficantes a se entregarem. Liderados pelo diretor-executivo da organização, José Junior, eles argumentaram que a polícia venceria um possível confronto e que inocentes seriam as maiores vítimas. Ao lado de Junior estava um dos coordenadores da área social da entidade, Rogério Menezes, respeitado por traficantes, viciados e detentos do sistema penitenciário do Estado.

Evangelizador da Assembleia de Deus, Rogério é chamado de pastor. Em meio à negociação com os criminosos, no sábado (27), José Junior recorria ao Twitter para mandar informações em tempo real. "Pastor Rogério é o cara que mais salvou vidas que eu conheço. Muitas, inclusive, na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão. Homem de Deus", escreveu o líder do AfroReggae na ocasião.

Ex-viciado, pastor Rogério admite que já traficou drogas, pegou em armas e cometeu crimes. Foi preso. Sobreviveu a duas overdoses de cocaína, até receber um "sinal" e "ser salvo por Jesus”. Hoje, ele diz que sua vida pregressa o permite compreender o que passa pela cabeça de criminosos e apresentar argumentos para tirar muitos da marginalidade. “Já salvei uns 300 que estavam amarrados para morrer”, garante.

Sobre a ação de retomada do Complexo do Alemão pelo Estado, o pastor diz acreditar “que a intenção foi uma das melhores”. Segundo ele, “o governador tem feito um trabalho muito bom”. Contudo, o religioso defende que somente uma anistia aos traficantes será capaz de pôr fim à ameaça de guerra no Rio. “Proponho que essa decisão seja avaliada pelo governo, pelos parlamentares e pela Justiça.”

A seguir, leia mais sobre o que pensa o pastor.

iG: Às vésperas da polícia invadir a favela, no sábado (27), o senhor e o José Junior entraram no Complexo do Alemão para conversar com os traficantes. Na sua avaliação, esse gesto ajudou a evitar derramamento de sangue?

Rogério Menezes: Sim. Eu e o José Junior estávamos todo o tempo juntos. Ele virava para mim e falava “pô, Rogério, o que a gente pode fazer para ajudar?”. Eu respondia: “Junior, eu sei que é perigoso e arriscado, mas imagina se a polícia entrar? Vai morrer muita gente. Temos de ir lá”. Expliquei que o máximo que poderia acontecer era a gente ser tomado como refém. Falei: “Deus está nos mandando ir”.

iG: O que o senhor pensava naquele momento?

Rogério Menezes: Se houvesse confronto, eles iriam enfrentar, como foi noticiado, 2.600 policiais civis, militares, homens do Exército e da Marinha. Sem contar os inocentes, os jornalistas. Imagina o derramamento de sangue que poderia existir... Eu só pensava nisso.

iG: Como vocês chegaram até os traficantes?

Rogério Menezes: Entramos na favela e perguntamos onde eles estavam. Nos orientaram a chegar até a parte mais alta. Encontramos um grupo de cerca de 60 homens, os mais perigosos. Conversamos olho no olho.

iG: E como foi a conversa?

Rogério Menezes: Eles vieram até a gente. Estavam cansados, sem forças até para falar. Nós argumentamos que não dava para eles encararem. E muitos diziam “pastor, me ajuda. Pelo amor de Deus. O que o senhor pode fazer por mim?” O José Junior respondeu que não havia nada que a gente pudesse fazer e que o melhor seria se renderem à polícia; que a única garantia que a gente podia dar era a de que ninguém seria assassinado se aceitasse a rendição.

iG: E eles estavam inclinados a aceitar a proposta?

Rogério Menezes: Um dos chefões virou para mim e falou: “Pastor, o senhor me conhece. Sabe que a minha vida todinha eu tirei dentro da cadeia. O senhor quer que eu volte?” Respondi: “Rapaz, é melhor você se entregar do que ser morto. Você tem uma vida, tem família. Pensa muito bem no que você vai fazer.”

iG: E qual foi a reação?

Rogério Menezes: Muitos deles estavam desesperados, amedrontados. Alguns tremiam, estavam com os olhos arregalados. Outros olhavam para a gente como se fôssemos uma saída, um porto seguro. E a gente foi tentando acalmá-los. Mas eles diziam que era complicado se entregar. Em determinadas facções, se entregar é complicado. Eu sei disso. Hoje sou pastor, mas já fui do crime. Entendo a posição deles. Mas é aquele negócio, para o homem é impossível, mas para Deus tudo é possível.

iG: Quer dizer que alguns queriam se render, mas tinham medo de ser assassinados na cadeia por retaliação da facção criminosa a que pertencem?

Rogério Menezes: É por aí. Cada caso é um caso. Depois dessa conversa que tivemos com eles, 37 se entregaram. Um se apresentou na delegacia com a mãe, a imprensa acompanhou. É o Mister M. Teve um pai que foi entregar o filho por acreditar que isso era melhor do que vê-lo morto pelo Bope. Acredito que eles não viam saída. Eu e o José Junior os motivamos a não irem para o confronto. Ninguém imaginava que o Alemão poderia ser ocupado da forma como foi. O maior mérito foi de Deus. Mas há também o mérito do AfroReggae, do José Junior, que foi muito corajoso.

iG: Qual foi o diálogo com os traficantes que mais marcou o senhor?

Rogério Menezes: Vi homens de alta periculosidade me chamarem no canto e se abrirem para mim e para o José Junior. Teve gente que chorou. Não de medo. Chorou porque não queria o confronto, porque pensava na família. Foi o momento que mais me compadeceu. Eu ficaria o tempo todo ao lado daquelas pessoas, ainda que a polícia entrasse.

iG: Nesse grupo havia chefes do tráfico?

Rogério Menezes: Positivo. Mas não vou falar disso em detalhes. Meu trabalho é religioso e eles confiam em mim. Quero apenas afirmar que eles não queriam guerra.

iG: Quem falou mais, os senhores ou os traficantes?

Rogério Menezes: Eles ficaram mais tempo calados. Queriam ouvir a gente, queriam uma luz. Eles não estavam conversando com traficantes, mas com pessoas que simbolizavam a paz, a vida. Tem pessoas ali que me conhecem desde 1993, quando comecei a pregar. Muitos eu vi ir para a cadeia, sair da cadeia, visitei na favela. Havia homens com armas nas mãos, mas os que conversavam com a gente não estavam armados. Em momento algum eles diziam que iriam meter bala ou que optariam pelo confronto. Isso eu não vi.

iG: O senhor diz que muitos traficantes não querem se render porque temem retaliações de colegas de facção dentro da cadeia; outros que já ficaram muito tempo presos e não aceitam voltar. A polícia afirma que vai permanecer na favela até realizar as prisões e recuperar as armas. O senhor defende alguma proposta para que não aconteçam novos conflitos?

Rogério Menezes: Sou a favor da anistia. Converso muito com traficantes e com viciados, visito muita boca de fumo. Eu evangelizo muito. Faço um trabalho de Deus, um trabalho do bem, espiritual. Já tirei muitos dessa vida e encaminhei para um emprego. E já vi caso também de pessoas que largaram o crime, se mudaram para outro estado, mas não conseguiram emprego porque devem à Justiça. Tiveram de voltar e retornar para o crime, tinham família. Mas eles me diziam “pastor, o senhor viu que tentei. Voltei para o tráfico, mas não bebo, não me drogo mais, nem a baile funk eu vou. Vai acabar meu plantão na boca e vou para casa ficar com meus filhos”.

iG: O senhor não acha difícil propor para a sociedade que essas pessoas sejam anistiadas sem pagar pelos crimes que cometeram?

Rogério Menezes: É muito difícil responder sobre isso. Como religioso, acho que o culpado disso tudo são as forças espirituais do mal. Vou dar um testemunho da minha vida. Eu trabalhava, ganhava bem, três salários mínimos. Não era de uma vida errada. Mas em um determinado momento me senti sem chão. Tudo começou quando perdi meu pai. Minha mãe arrumou outro homem logo em seguida e eu não aceitei. Ela então me expulsou de casa. Eu tinha 16 anos. Bateu uma depressão tão grande, que perdi meu emprego, não conseguia trabalhar. Era morador da Baixada Fluminense, morava numa comunidade carente, conhecia bandido, conhecia traficante, mas eu era trabalhador. Nem todo mundo que mora dentro de uma comunidade é bandido. Minha família me deu estudo, o melhor que pôde dar. Mas eu caí na vida do crime, me entreguei à bebida, às drogas, fui preso. Houve momentos em que me vi sentado, chorando, querendo sair dessa. Eu despertei, procurei uma casa de recuperação. Tive apoio.

iG: Apesar da visão religiosa do senhor, a anistia não é uma proposta polêmica?

Rogério Menezes: Cada caso é um caso. Proponho que essa decisão seja avaliada pelo governo, pelos parlamentares, pela Justiça. Caso a caso, insisto. Mas, particularmente, eu acredito que num universo com 100% de criminosos, se você oferecer uma oportunidade pelo menos 40% aceitam largar essa vida. É preciso considerar que muitos temem por suas famílias. Se forem presos, quem vai sustentar suas mulheres, seus filhos? Tem que haver um projeto social também.

iG: Muitos bandidos fugiram e a polícia diz que vai capturá-los. O senhor acredita que esses traficantes vão voltar para o Complexo do Alemão futuramente? Ainda pode haver enfrentamento?

Rogério Menezes: Acredito que muitos homens que estavam ali no meio, inclusive os que fugiram, não têm antecedentes criminais. Às vezes até segura uma arma, mas é só um viciado. A polícia tem feito seu trabalho. E cabe à polícia e ao governo continuarem a fazer o seu trabalho. Contudo, também acredito que aquilo ali foi a mão de Deus a fim de despertar esses jovens. Acredito que muitos vão analisar e ver que não vale a pena se envolver com o crime. É a resposta que posso dar para essa pergunta.


iG: O senhor está certo da recuperação dessas pessoas?

Rogério Menezes: Vou dar um exemplo. Trabalha com a gente lá no AfroReggae o Gaúcho. Durante muitos anos ele foi o chefe do Alemão, era um dos mais temidos na área. Ele tirou 28 anos de cadeia e hoje está aí, fora do crime, trabalhando com carteira assinada. Isso é a prova de que enquanto há vida, há esperança. O Bem-te-vi, aquele que morreu na Rocinha, ele vivia me dizendo que queria sair do crime. Eu ia para lá pregar umas sete da noite e ele não me deixava ir embora antes das três, quatro horas da manhã. Ele tinha o prazer de estar do meu lado. Muitas vezes o vi chorar. Ele me dizia “pastor, me ajuda. Quero sair dessa vida, mas não tenho forças. A sociedade me marginaliza, não acredita em mim”. Eu dizia, “rapaz, o mais importante é Deus estar olhando para você. Deus tem um plano para sua vida. Você não pode se entregar à criminalidade”.

iG: Por que evangélicos são tão respeitados pelos criminosos?

Rogério Menezes: No sábado, na hora em que a polícia se posicionou para invadir o Complexo do Alemão, tinha um pastor na entrada da favela de terno e com a Bíblia na mão. Estava ele e a mulher dele. Aliás, havia mais de um, eram muitos. Eles ficaram entre os militares da polícia, do Exército e da Marinha, e os jovens. E eles procuravam esses jovens e diziam para que saíssem dessa vida. Ofereciam apoio: “quer se entregar comigo?”, perguntavam. No momento mais difícil, havendo risco de vida, eles estavam ali. E tem os testemunhos daqueles que saíram do crime e hoje estão aí, vivendo com dignidade. Isso mostra para eles que é possível.

Fonte: iG