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terça-feira, 26 de novembro de 2013

'Pedagogia do terror': testemunho de um ex-preso político da democracia

Por André Antunes e Cátia Guimarães, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio. Entrevista com Paulo Roberto de Abreu Bruno, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP), da Fundação Oswaldo Cruz.

Ele foi um dos presos políticos da atual democracia brasileira. Participando de uma manifestação organizada pelos professores municipais e estaduais do Rio de Janeiro, que estavam em greve, Paulo Roberto de Abreu Bruno, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP), da Fundação Oswaldo Cruz, foi detido junto com dezenas de outras pessoas no dia 15 de outubro. Acusado sem provas e sem direito à informação ou à presença de advogados, foi encaminhado para a delegacia e, na sequência, para dois presídios, incluindo Bangu 9. Segundo ele, circulou pelos “porões da democracia brasileira”. Desde o início de junho, Paulo Bruno vinha filmando as manifestações que tomaram as ruas do Rio de Janeiro como parte do seu trabalho de pesquisa. Levou algum tempo para que conseguisse falar sobre o assunto, mas nesta entrevista ele narra as humilhações e violências sofridas pelos presos políticos, descreve a rotina de violação de direitos do sistema carcerário brasileiro, destaca a solidariedade dos presos comuns e chama a atenção para a fragilidade das lutas políticas diante do terror que o Estado, representado no caso pelo governo estadual, pode provocar. Como, na prisão, não tiveram acesso sequer a papel e caneta, os registros que se seguem ficaram registrados, até então, apenas na memória do entrevistado.

Você está sendo acusado de quais crimes?

Dano ao patrimônio, roubo, incêndio e organização criminosa. Eu fui preso por volta de 22h30 do dia 15/11 e, no entanto, no documento que assinei no IML constava como se eu tivesse quebrado alguma coisa, por volta das 18h nas proximidades da rua Evaristo da Veiga. Não há nada quebrado lá. Além disso, nesse horário estava a caminho da Avenida Presidente Vargas, depois de embarcar num trem do metrô na estação de Del Castilho, acompanhado de duas pessoas com as quais trabalho.

Vocês sabiam que estavam sendo presos, para onde estavam indo e por que?

Não. Estava na escadaria da Câmara dos Vereadores e o policial só me puxou. Eu tropecei na alça da mochila e minhas moedas se espalharam. Reclamei disso e, autorizado a recolhê-las, pude me recompor. No ônibus, outro policial mais novo, com pouco menos de 30 anos talvez, ficou perto da porta e mandou entrar. Nisso foram entrando pessoas. Na Evaristo da Veiga, próximo à avenida Rio Branco, alguns manifestantes ainda tentaram impedir que o ônibus saísse e os policiais que estavam em frente ao Municipal jogaram bomba de efeito moral para dispersá-los. O ônibus foi embora com uma escolta, vinham dois de moto — de negro também, acho que eram do choque —, com a arma apontada para a gente, dizendo para fechar a janela, xingando. Tentamos abrir a janela e um deles dizia: ‘fecha a janela senão jogo gás de pimenta em vocês’. Aí fechamos a janela. Até então o pessoal estava revoltado, ninguém tinha noção do que iria acontecer. Eu falava para ter calma, era o mais velho. A gente tinha que estar sempre calado e em nenhum momento falaram para onde iríamos. Na delegacia, permanecemos a maior parte do tempo no ônibus. Ficamos lá de molho até 12h30 do outro dia. Soubemos que duas pessoas que estavam na 25ª, se não me engano, ficaram em condições bem piores, num lugar alagado, com um banheiro. No nosso caso, ficamos em lugares da delegacia sentados ou de pé e depois retornamos para o ônibus. Recebemos orientação dos advogados que chegaram à 37ª DP algum tempo depois de só depormos em juízo. Passamos uma procuração para os advogados do DDH [Instituto de Defesa dos Direitos Humanos] e não depusemos. 

Como foi a transferência para o presídio?

Pouco antes de 12h30 os carros começaram a se movimentar, vimos chegar aquele furgão usado pelo batalhão de choque, começaram a deslocar os carros em frente à delegacia, a gente previu que fosse acontecer alguma coisa. Imaginamos que iríamos ser transferidos, mas não sabíamos para onde porque não falaram. Alguns PMs começaram a ser mais irônicos e mais agressivos com palavras. Quando alguém pedia alguma coisa, respondiam de forma irônica. Sempre de forma intimidatória. Até que meio dia e pouco — imagino que nesse horário porque também não tínhamos relógio —, colocaram a gente na traseira desse furgão, que era dividido no meio, com dois bancos laterais. Ia uma pessoa em pé e outra sentada, algemadas. Eu não tinha noção de que algema era objeto de tortura, para mim, era só para segurar a mão do preso. Mas conforme você vai mexendo, ela vai apertando. Então, assim que o carro saiu, a algema encaixou no osso do meu pulso, causando uma sensação muito ruim, eu tentei mexer e percebi que ela apertou. Fomos para o IML [Instituto Médico Legal]. Nessa hora eu já não aguentava mais, pedi para tirarem e acabaram abrindo [a algema] lá. Mas isso nem contou lá no exame de corpo delito porque é uma coisa muito rápida, os caras não querem muita conversa. O tratamento que a gente recebeu em todo momento, a não ser em poucas ocasiões no interior da 37ª DP, era como se fôssemos criminosos. Dali saímos também sem que falassem nada. Nos algemaram de novo, colocaram no furgão e fomos para São Gonçalo, para o presídio Patrícia Accioly, no bairro Guaxindiba. Nas transferências, você é sempre humilhado, chamavam a gente de ‘black bosta’, criminosos, assassinos, vagabundos, vândalos etc. Na saída da 37ª, dois policiais nos chamaram de criminosos, falando que seríamos estuprados no presídio. Diziam que iríamos pagar por termos nos metido com policial, que tínhamos matado o amigo deles, incendiado o carro [da polícia]. Tentavam nos filmar com seus celulares. Quando chegou lá, em Guaxindiba, novamente um cardápio de ofensas e atos para nos amedrontar. Você entra, tira a roupa, fica de cócoras, levanta a sola do pé, mão, tudo para ver se está com algum objeto, e depois te encaminham nu para receber calção e camiseta. Para lá a gente foi com a roupa do corpo. Na delegacia da Ilha do Governador, deixamos as coisas com os advogados, porque tinham avisado que iríamos perder tudo no presídio. Primeiro ficamos acocorados num corredor dos presos de alta periculosidade (segundo eles próprios). A primeira pergunta de um desses presos foi se a gente tinha dinheiro. Todo mundo de mão para trás e cabeça para baixo, em pé ou sentado. Não demos ouvido. Começaram a perguntar o que a gente fez, mas ninguém respondeu. Por fim, ele perguntou se a gente estava em manifestação. O preso da frente falou ‘esse Cabral é um filho da puta, tem que sair!’ e o da cela de trás concordou: ‘É isso mesmo!’.

Dali fomos para uma cela num corredor e ficamos só nós, os presos políticos. Eram celas para seis pessoas, com três beliches de cimento. No canto, o banheiro, com um buraco no chão — um vaso sanitário, chamado de “boi” na linguagem da cadeia — e um chuveiro no alto, sem registro. A gente descobriu que a água era aberta duas vezes ao dia. Foi ato contínuo entrarmos na cela e todo mundo se apresentar. As pessoas não se conheciam. A sensação de solidariedade coletiva minimizava a apreensão causada nos deslocamentos (DP-IML-presídio). Entrar na cela naquela circunstância era como “chegar em casa”: enfim, apesar da falta de banho, teríamos a possibilidade de deitar e descansar.

Como foi a rotina dentro do presídio?

Inicialmente fomos informados sobre como funciona o sistema. Rasparam a nossa cabeça também antes de entrarmos na cela. Recebemos sabonete, escova de dente e creme dental. Toalha não! Os presos mais antigos e com bom comportamento fazem o serviço de cortar o cabelo, dar informes sobre o funcionamento, servir as refeições. Eram feitos três “conferes” ao dia: gritavam no corredor (Confere!), ou tocavam na grade e você teria que se posicionar (erguido, mãos para trás e olhar para o chão) para eles contarem. Tinha pão e café pela manhã, almoço, jantar e um copo de uma bebida que parecia guaravita. A gente foi se acostumando com a rotina. No primeiro dia, não chegou água. Chegamos ao presídio quatro horas da tarde talvez, estando desde o dia 15 sem tomar banho — já era dia 16 anoitecendo. Falaram que abririam a água por dez minutos. Nesse dia abriram a água devia ser 3h da manhã. Tinha muito mosquito nesse presídio. Já trabalhei na Amazônia, andei em várias aldeias, mas nunca vi coisa igual. Não dava para dormir. Eles deram um cobertor e a esperança era que o cobertor ajudasse. No meu caso, era velho e furado, então não adiantava porque os mosquitos entravam. Essa primeira noite foi sofrida. A gente meio que fica na expectativa de sair, mas já estava conversando e encarando a possibilidade de ficar mais tempo. As longas conversas entre o grupo que dividia a cela e a comunicação com outros presos políticos de outras celas serviram para nos mantermos num estado emocional equilibrado. Na segunda noite nesse presídio já havíamos aprendido a fazer incensos com papel higiênico, o que afastava os mosquitos, mas deixava a cela esfumaçada.

Vocês receberam a visita de alguém?

Primeiro, recebi visita dos advogados da Asfoc [Sindicato dos Trabalhadores da Fiocruz], Jorge da Hora e Fábio. Eles falaram da mobilização que era prevista para acontecer na Fiocruz e perguntaram sobre o meu estado. Receber notícias de fora do presídio causou um sentimento desconhecido. Não tinha a menor ideia do que poderia estar acontecendo do lado de fora. Era como se estivesse também com o pensamento aprisionado, apesar de consciente do que acontecia. Depois, na tarde do dia 17, chegaram os advogados do DDH junto com uma advogada ligada a uma ONG que trabalha com direitos humanos em presídios. O trabalho dela consiste em visitar todos os presídios do sistema do Rio de Janeiro e ver as condições dos presos. Acho que tinha alguém da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia [Legislativa]. Um pouco depois chegou o [deputado estadual] Marcelo Freixo. Fizemos duas reuniões num refeitório onde tivemos a primeira oportunidade de ver o conjunto dos presos. Dos 19 que éramos quando chegamos à 37ª delegacia, ali já éramos 62. Todo mundo se cumprimentava, apertando a mão. Recebemos uma carta de pessoas de fora. Foi um momento de muita emoção e houve um agradecimento a elas. Aquilo foi muito bom porque a gente estava isolado. É outro universo: no presídio você não tem essa dimensão do que acontece do lado de fora. É outro mundo. Tínhamos consciência de que éramos presos políticos. Foi nosso primeiro contato coletivo com o mundo. O Marcelo Freixo me pareceu muito abatido, falando que a situação era grave, que ele nunca tinha presenciado uma situação dessa no Rio de Janeiro. Comentou que se falava em colocar as forças de segurança nacional na rua e que o Beltrame chegou a aventar isso. E a imprensa estava jogando pesado na nossa criminalização.

E a transferência para Bangu 9?

Na madrugada do dia 17 para o 18, umas 3h30 da manhã, fomos acordados pelos caras batendo [na grade]. “Sai, sai. Deixa tudo!!!”, gritavam. E os meus óculos ficaram na cela. Foi o momento de maior tensão: escuro, aqueles caras enormes todos de preto, gritando muito. A sensação, pelo tratamento, era de que iriam executar a gente. Colocaram a gente num pátio externo, sempre gritando, humilhando, xingando. Eu não fui agredido, mas uma parte do grupo foi agredida com palmatória. Eles queriam que o pessoal dissesse por que o estuprador da Rocinha estava com a orelha cortada e o rosto queimado. Tinha três presos comuns com a gente, um deles era esse estuprador e alguém queimou o cara, só que ele não dividiu cela com a gente em nenhum momento. Mas os caras queriam que a gente dissesse quem foi. Isso eu ouvi do lado de fora de um portão grande de ferro. Fui colocado para fora com outro grupo, de cabeça baixa. Chovera e o chão estava molhado e todos nós estávamos descalços (desde são Gonçalo até a libertação permanecemos nesse estado). Começamos a ouvir interrogatório e, em seguida, batidas e as pessoas gritando. Depois soubemos que era a palmatória de madeira. Isso durou alguns minutos. Fomos colocados num ônibus todo escuro. Dessa vez, sentamos quase todos. Um dos presos políticos estava por desmaiar e outros se esforçavam para mantê-lo acordado. Não era possível ver os rostos mesmo dos que estavam mais próximos de nós. Havia pouca circulação de ar. O Freixo havia dito que possivelmente iríamos para um presídio próximo para aguardar uma solução na justiça. Seria um presídio em São Gonçalo, que ele disse que era mais tranquilo, que estava disposto a aceitar o grupo, tinha espaço. Como eles tiraram a gente de madrugada, só podíamos imaginar para onde estávamos indo, porque estava escuro e, sem relógio nem nada, você perde a noção de espaço e tempo. Só sentíamos o balanço do ônibus, só sabíamos que estávamos em rua esburacada. Depois de algum tempo, pela batida e por alguma luz que entrava, nos demos conta de que estávamos cruzando a ponte Rio-Niterói. Mas, adiante alguém exclamou: “Deodoro!”. Pouco depois chegamos ao Complexo Penitenciário Gericinó, mais especificamente, no presídio Bangu 9 e foi novamente aquela coisa de os caras nos tratarem mal. A fala e a atitude de um policial ficou impregnada na minha memória: ‘Só tem vocês dois de pretos aqui?’. Em seguida segurou a cabeça de um deles e bateu algumas vezes contra a parede. Teve outro preso político que pedia insistentemente para ir ao banheiro, que não aguentava mais. Estavam muito próximo de mim. Gemia... Eu sussurrava para ele: respira fundo. Os caras apenas ironizavam e procuravam humilhá-lo. Mesmo depois de uns cinco pedidos desesperados, o rapaz não teve autorização e evacuou nas calças. Depois disso ordenaram que lavassem o chão.

Fomos para a cela. Quando a gente passa pela triagem, perguntam qual a nossa facção e são apresentadas as seguintes opções num formulário: Comando Vermelho, Amigo dos Amigos, Povo de Israel, milícia ou neutro. Nos identificamos como neutros e ficamos numa galeria juntos com o Povo de Israel, que são os presos que se converteram. O melhor de Bangu é que tinha uma torneira com água 24 horas; no outro não tivemos nem água para beber até a primeira abertura do chuveiro, para banho muito menos. Se quiséssemos beber aquela água imunda, pelo menos havia água, não iríamos morrer de sede. Mas a cela era mais estreita, escura, úmida e quase não tinha espaço para circular. Parece que circulou a informação de que haveria visita do pessoal dos direitos humanos. Aí deram um jeito de transferir a gente para outra cela no final do corredor, onde entrava luz no final da tarde, tinha sol, foi um alento. Além de um pardal que entrava e saía da cela através da grade no alto da parede (no final da tarde ele se alojou num buraco no teto da cela). Dessa cela ouvíamos cantos de outros pássaros. Recebemos somente um lençol branco e limpo que, pelo fato de ser bem largo, dava para cobrir a espuma sobre a qual deitava e, ao mesmo, servir de coberta. As poucas horas que restavam da madrugada permitiram um breve cochilo. No dia 18, acordei com a sensação de que sairia: lavei minha camiseta no banho com caneco e sabonete. Eu pretendia sair limpinho do presídio, estava imundo. Nessa passagem por Bangu, os presos receberam a gente bem. Eles falavam que a gente representava os parentes deles do lado de fora, que a luta era por eles também. Foram acolhedores e respeitosos conosco.

Quando você soube que seria solto?

Durante reunião com o pessoal dos direitos humanos, que aconteceu justamente no corredor, diante da cela onde eu e mais cinco presos estávamos, deram a informação de que tinha saído um habeas corpus. E que a partir desse habeas corpus, em meu nome, a juíza estendeu o benefício para os outros. Dali, voltamos para a cela. O habeas corpus só chegou ao presídio no final da tarde. Nesse meio tempo, chegaram advogadas do DDH, a Luiza maranhão e mais duas que conheciam pessoas comuns a mim e a outros dois presos. A gente foi conversar com as advogadas e, na volta, foi interessante porque um preso parou a gente para conversar no corredor, onde havia outros dois presos soltos. Esse preso falou: ‘Pára que aqui é tranquilo, pode parar’. Parei. ‘Aperta minha mão aí’. Apertei. Tinha outros três na grade festejando a gente e que também queriam apertar as nossas mãos. Eu saí, o Deo [professor da rede municipal do Rio, companheiro de cela] veio mais atrás, parou um pouco e conversou com eles. Eles falaram: ‘Ah, você é professor?A gente é aluno do crime, a gente veio agradecer vocês’. Surpreendeu a gente: por incrível que pareça, tivemos a solidariedade de quem – os policiais falaram – iria nos maltratar. Enfim, foi o ultimo dia lá, saímos à noite. Durante a oração que é feita sempre às 18h, segundo comunicara o preso que servia as refeições, momento em que os presos leem trechos da Bíblia, discursam, cantam — as falas e canções pareciam ter sido construídas no próprio espaço carcerário, pois falavam, muito da situação dos presos —, um dos carcereiros fez uma chamada no início do corredor, o que interrompeu a oração e criou um estado de suspense. Chamaram os nomes dos nove primeiros libertos. A nossa saída pela galeria foi algo comovente! Braços eram estendidos para fora das celas para nos cumprimentar. Olhos brilhantes nos acompanhavam enquanto aguardavam cumprimentos. Ouvia-se um grito: Liberdade! Esperamos quase duas horas fora da cela. Depois saberíamos que foi feito de tudo para que ficássemos mais tempo presos, apesar de os advogados da Asfoc já terem obtido dois habeas corpus antes do que definiu a saída do nosso grupo, detido na 37ª DP. 

Dá para descrever os momentos de pavor?

Tem um pavor que é para disciplinar o corpo e, no nosso caso, intimidar. A todo momento falavam que, como era a primeira vez, a gente estava sendo tratado como homem, e que da próxima seríamos tratados de forma diferente. Falavam para que tomássemos cuidado para não voltar para lá. E funciona: nessa noite mesmo tive um sonho com um monte de policial de fuzil atirando nas pessoas aleatoriamente. Isso num nível psicológico. [Mas teve] o físico também, eles bateram em algumas pessoas. Imagino que elas estejam mais frágeis do que eu. Tem essa coisa de incutir o medo. É uma espécie de pedagogia do terror, de você ser educado para não se manifestar, não questionar. Tanto que os últimos atos estiveram meio vazios, as pessoas estão recuando porque foi feita uma coisa exemplar. Isso me faz pensar que essa estrutura de terror não se extingue com mudança de governo, eleições, ela está muito bem estruturada como sistema de tortura... Aparentemente é um sistema legal, no entanto, é uma estrutura em que você entra e é engolido. Quando vem pressão de fora, é diferente. Fora isso, é o sistema de terror. É impossível ressocializar (como sugere o calção que recebemos, com a sigla SEAP e a palavra ressocialização) em tais condições. 

Você diz que existe uma pedagogia do terror que funciona. Como é voltar a uma manifestação agora? 

Eu soube de pessoas que não pretendem voltar a manifestações por enquanto. Para mim foi difícil. Nos arredores da Cinelândia, uns dias depois da minha libertação, quando vi o carro e um micro-ônibus da polícia, foi uma sensação muito estranha. Eu fui para casa. A sensação é de que iria repetir tudo que eu falei anteriormente, uma coisa incontrolável, não de ser preso, mas de sentir tudo o que eu senti, de escuridão, de ser puxado para o escuro. De ter sido sequestrado. Mudou também o meu olhar com relação aos policiais. Eu tinha a expectativa de que pudessem se portar como trabalhadores, servidores públicos. Agora eu até entendo a situação de precariedade, que os caras têm que fazer isso para sobreviver, a questão da hierarquia militar etc., mas os possíveis resquícios de solidariedade diminuíram muito. Com a forma como muitos deles tratam as pessoas, não dá para perceber qualquer sinal de compaixão.

Qual a sua avaliação com relação ao sistema judiciário e carcerário brasileiro considerando a situação daqueles que passaram por essa experiência?

Se você está na mão do Estado, está refém do Estado. Estamos em situação de fragilidade. Hoje os grupos mais conservadores estão unidos em torno de um projeto que, a pretexto de viabilizar a Copa do Mundo e as Olimpíadas, visa frear manifestações para assegurar o uso da máquina e dos recursos públicos para garantir os grandes investimentos, o lucro, a expropriação de terras. Não temos certeza se, quando formos a julgamento, podemos ganhar. Essa sociedade democrática que a gente vive é para quem não está dentro desse sistema prisional, só serve para quem nunca passou por lá. Depois que você cai ali, vê que é tudo muito frágil. No escravismo brasileiro, até o século XIX, os escravos que cometiam os “crimes” de fuga das fazendas ou atentado ao “seu senhor”, por exemplo, eram marcados/queimados com a letra “F”. Algo aparentemente superado historicamente se repete com a “marca” que a “passagem” pelo “sistema” deixa em nós. Qualquer um pode ser pinçado, cair ali e pronto! O objetivo dos grupos que controlam as estruturas de poder do Estado é ter você na mão e prorrogar esse processo por anos. Qualquer um de nós, se voltar, com certeza, terá outro tratamento. Eles nos avisaram! Há os que ainda acreditam na possibilidade da luta, garantida nos “direitos constituídos”. Penso que não tem mais direito constituído... Se por um lado a solidariedade presente entre companheiros da Fiocruz e de Manguinhos, em especial, foi extremamente importante para mim, por outro, é surpreendente o silêncio por parte de algumas entidades de classe e parte do meio acadêmico com relação a esse estado de coisas, onde cresce a opressão contra a expressão popular nas ruas, o que coloca o Estado Democrático de Direito como privilégio para poucas pessoas. Também é desprezível o reacionarismo expresso em artigos e ações de intelectuais que, outrora, eram consideradas referências importantes para a crítica ao autoritarismo.

Ainda tem gente presa...

Tem o Jair e o Rafael, um morador de rua. Ambos negros. Segundo as notícias que circulam na internet o Rafael foi preso num prédio abandonado na Lapa, onde ele estava morando. Foi no dia 20 de junho, aquele em que a polícia saiu jogando bomba de gás para todo lado. Ele estava caminhando para o lugar onde iria dormir com uma garrafa plástica de detergente e uma de água sanitária e alegaram que ele estava com material inflamável, com líquidos para produzir incêndio. Foi preso. O cara é morador de rua, está há cinco meses preso, e esteve, durante algum tempo, sem defesa. Já o Jair parece que foi preso por averiguação, e pelo fato de ter passagem anterior, estão dificultando o caso dele. Na reunião com as advogadas, no Bangu 9, foi falado que estava sendo difícil conseguir o habeas corpus para ele.

Você falou que estávamos muito fragilizados e houve uma grande união de forças para acabar com as manifestações. Mas mesmo depois dessa experiência traumática, você continua indo. Por quê?

O que impulsiona a gente a participar é a solidariedade. Aqueles que decidiram o que fazer conosco não têm noção de que, dentro da cadeia, possibilitaram a construção de uma solidariedade entre pessoas que nem se conheciam. Criaram uma liga entre essas pessoas, conheci pessoas de caráter muito firme. A grande maioria lá ficou muito solidária. Eu vejo que de toda essa experiência ruim, de aprisionamento, de repressão, está consolidando um grupo de muitas pessoas com discernimento sobre os fatos e sobre as injustiças presentes em nossa sociedade. Tive oportunidade de rever pessoas que dividiram cela comigo num ato recente de solidariedade aos presos e ex-presos. Algo inexplicável, a repressão produzira laços de amizade e confiança.

Eu volto para as manifestações com a vontade de filmar, mas não sei se vou continuar filmando por enquanto, apesar de querer dar continuidade aos registros históricos e etnográficos que iniciei em junho. Vivemos um processo histórico muito vigoroso e complexo sobre o qual precisamos refletir muito e para isso é necessário que ele seja registrado a partir de olhares diversos. Sou apenas um deles. Também não dá para abdicar de questionar o sistema da forma como está colocado. Afinal de contas, é difícil pensar na construção de um conhecimento científico neutro, principalmente, se levarmos a sério o que sugeria Paulo Freire ao dizer que toda neutralidade afirmada corresponderia a uma opção escondida.

Assim, a passagem pelo sistema prisional e carcerário não poderia ofuscar o nosso olhar sobre a sua dinâmica, sobre a forma como atuam os servidores públicos que os mantêm ativos e, sobretudo, sobre as condições nas quais se encontra seu “público-alvo”, formado por pobres, negros e mestiços em sua grande maioria. Nessa perspectiva, é difícil observar sem críticas um serviço público, financiado com recursos públicos, utilizado para punir parte desse público (presos, seus parentes e amigos). A crítica a esse tipo de serviço não pode ser colocada sem a devida correlação com toda a estrutura de governo do qual faz parte. Na atual conjuntura, essa crítica pode resultar na marcação de um “F” nas nossas costas ou no nosso encarceramento.

Fonte: EPSJV/Fiocruz

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Até quando?

Por Eduardo Galeano, jornalista e escritor.

Esta carnificina de civis começou a partir do seqüestro de um soldado. Até quando o seqüestro de um soldado israelense poderá justificar o seqüestro da soberania palestina? Até quando o seqüestro de dois soldados israelenses poderá justificar o seqüestro de todo o Líbano?

A caça aos judeus foi, durante séculos, o esporte preferido dos europeus. Em Auschwitz desembocou um antigo rio de espantos, que havia atravessado toda a Europa. Até quando os palestinos e outros árabes continuarão pagando por crimes que não cometeram? O Hezbolá não existia quando Israel arrasou o Líbano em suas invasões anteriores. Até quando continuaremos acreditando no conto do agressor agredido, que pratica o terrorismo porque tem direito de se defender do terrorismo? Iraque, Afeganistão, Palestina, Líbano... Até quando se poderá continuar exterminando países impunemente?

terça-feira, 6 de março de 2012

Agressividade e comportamento sexual

Por Drauzio Varella, médico e escritor.

“Não existe atividade, movimento ou comportamento que não seja influenciado por um programa genético.” A frase é de Ernst Mayr, um dos maiores biólogos do século 20.

Há cerca de um ano comentei nesta coluna uma pesquisa publicada na revista Cell, sobre o papel de um gene (batizado de fru) no comportamento sexual das drosófilas, as mosquinhas que sobrevoam bananas maduras; modelo de inúmeros estudos genéticos.

O gene fru se caracteriza por coordenar um circuito de 60 neurônios responsáveis pela condução de estímulos sexuais. Basta lesar um deles para que o inseto não consiga se acasalar adequadamente.

Na pesquisa, autores austríacos transplantaram a versão masculina do gene fru das drosófilas, para um grupo de fêmeas. E, num experimento paralelo, a versão feminina do mesmo gene, para um grupo de machos.

Para espanto geral, as fêmeas que receberam a versão masculina de fru, quando levadas à presença de outra fêmea, adotavam os rituais de comportamento sexual masculino: quando colocadas em ambientes com moscas de ambos os sexos, perseguiam sexualmente outras fêmeas sem dar a mínima para o sexo oposto. Ao contrário, quando a versão feminina de fru foi transplantada para os machos, eles se tornaram mais passivos, indiferentes à presença das fêmeas e atraídos por outros machos.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O aniquilamento da não-violência

Por Paulo Brabo, escritor e pensador.

Minha ideia – embora tenha sido inteiramente mal compreendida pelos ecologistas – é que o progresso não é uma ameaça à natureza, mas à liberdade.
Bernard Charbonneau, falando em nome do anarquista cristão Jacques Ellul

Aquilo que o diabo sonhou por milênios, um mundo em que não fosse mais possível viver uma vida de não-agressão, o capitalismo neoliberal possibilitou, evangelizou e metastaseou planeta afora. O nosso é um mundo em que não há mais santos, pacifistas ou mesmo gente boa. Ele foi de fato concebido, no seu ventre ideológico, de modo a que não subsista a virtude nem tenha como subsistir.

Houve épocas em que bolsões de paz e de boa vontade, muitos deles sustentados diretamente pelo sopro de Jesus de Nazaré, proveram santuário a este mundo. Os ramos da família anabatista em particular (por exemplo, os irmãos menonitas) foram por séculos os portadores de uma longa e radical tradição cristã de não-violência – inspirando e sendo inspirados por gente como Erasmo, Tolstoi, Gandhi e Martin Luther King. Um fogo semelhante nunca deixou de arder no coração da experiência católica, encarnado (por exemplo) nas paixões de Francesco, no ideal da aventura monástica e na lucidez de Dorothy Day. A não-agressão está, além disso, muito entranhada no ideário de tradições religiosas não-cristãs, em especial no budismo e no jainismo.

Esses, no entanto, foram ideais e realidades de uma outra era, açudes esgotados e sonhos anulados pela amoral capitalista. Ninguém mais é livre, por isso ninguém mais tem como dar-se ao luxo de ser bom.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A cultura cristã é superior à islâmica

Por Gabriel Bonis, da CartaCapital.

Em 1992, Ayaan Hirsi Ali foi para a Holanda fugindo de um casamento arranjado pelo pai. No pequeno país europeu, onde viveu como refugiada e depois cidadã, a somali viu seus valores islâmicos entrarem em colapso. Passou de militante da Irmandade Muçulmana à agnóstica, parlamentar e crítica ao Islã.

Na Holanda, despertou a ira dos muçulmanos ao produzir o curta Submissão (2004), no qual uma muçulmana aparece vestida com uma burca parcialmente transparente, enquanto reza e critica o Islã. O vídeo resultou no assassinato de Theo van Gogh, diretor holandês do filme, por um extremista religioso.

Mutilada genitalmente na infância, a autora do best seller de memórias Infiel virou alvo de extremistas religiosos. Atualmente vive sob escolta nos EUA, de onde conversou com o site de CartaCapital, por telefone, sobre seu novo livro, Nômade (Companhia das Letras, 392 págs., R$ 46,00).

O trabalho traz uma postura polêmica da autora: o Ocidente precisa enxergar o perigo do Islã. Ali sugere também que o cristianismo conquiste os muçulmanos para conter os extremistas.

Na íntegra da entrevista abaixo, a somali fala, entre outros tópicos, sobre os valores que enxerga no cristianismo, a proibição do uso de trajes cobrindo o rosto em diversos países europeus e do sexo para as muçulmanas no Ocidente.

CartaCapital – No livro Nômade, a sra. afirma que o Ocidente precisa reconhecer a ameaça do Islã e sugere uma aproximação da Igreja Católica para converter imigrantes muçulmanos. Sua justificativa é de que o cristianismo tem melhores valores que o Islã. Quais seriam esses valores?

Ayaan Hirsi Ali – Como analistas, podemos olhar para diversas religiões e culturas e dizer qual é melhor. Para os politicamente corretos, analisando a perspectiva do multiculturalismo, não há como compará-las, não se deve fazer isso. Contudo, creio que é um desperdício de oportunidade não fazê-lo devido aos desafios do Islã. Olho a cultura islâmica e a cristã e vejo que a cristã passou por um longo período de esclarecimento. As pessoas aceitaram a separação entre a religião, Estado e assuntos de sexualidade, embora isso não se aplique a todos os cristãos. Muitos deles são incapazes de fazer essa separação, mas em geral na cultura cristã ocidental essa separação foi reconhecida e aplicada. Neste sentido, creio que essa nova cultura cristã, que passou por uma reforma e esclarecimento, é superior à cultura islâmica, isenta desse processo. No Ocidente, a Igreja não é a legisladora, a lei é feita de forma independente no Parlamento e no Congresso. As pessoas que as produzem são eleitas por outras pessoas, o presidente dos EUA não é eleito por Deus. Isso é um grande progresso em termos de humanidade se compararmos o cristianismo ao islamismo, um progresso que os muçulmanos ainda não enfrentaram por completo.

CartaCapital – Mas esses itens apontados não estão relacionados apenas com o cristianismo, há aí valores da Revolução Francesa, por exemplo...

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Ainda o fundamentalismo

Por Leonardo Boff, teólogo e escritor.

O ato terrorista perpetrado na Noruega de forma calculada por um solitário extremista norueguês, de 32 anos, trouxe novamente à baila a questão do fundamentalismo. Os governos ocidentais e a mídia induziram a opinião pública mundial a associar o fundamentalismo e o terrorismo quase que exclusivamente a setores radicais do islamismo. Barack Obama, dos EUA, e David Cameron, do Reino Unido, se apressaram em solidarizar-se com governo da Noruega e reforçaram a ideia de dar batalha mortal ao terror, no pressuposto de que seria um ato da Al Qaeda. Preconceito. Desta vez era um nativo, branco, de olhos azuis, com nível superior e cristão, embora o The New York Times o apresente “sem qualidades e fácil de se esquecer”.

Além de rejeitar decididamente o terrorismo e o fundamentalismo, devemos

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A Solução Final de Lutero

Por Paulo Brabo

“O que devem fazer os cristãos contra este povo rejeitado e condenado, os judeus?”

Há alguns anos perdi instantaneamente um amigo luterano quando citei, numa conversa, trechos das fortíssimas diatribes que Lutero escreveu contra os judeus. Ao mesmo tempo em que recusou-se a acreditar que Lutero tivesse dito aquilo, meu amigo decidiu que não queria ter nada com alguém como eu que recusava-se a crer que seu herói não havia sido infalível. Lembro ter achado curioso que Lutero, que lutou com todas as forças para derrubar o dogma da infabilidade papal, tivesse de alguma forma adquirido entre os seus seguidores a fama de infalível.

“Em primeiro lugar, queimem-se suas sinagogas e suas escolas.”

Lutero era um sujeito de extremos. Identifico-me às vezes com ele. Como eu, o reformador cometia a indiscrição de escrever demais, publicando às vezes centenas de panfletos por ano; como eu, ele caiu mais de uma vez na armadilha da própria retórica.

“Em segundo lugar, recomendo que suas casas sejam também arrasadas e destruídas.”

No começo da sua carreira, quando simpatizava com os judeus, Lutero chegou a identificar-se com eles:

Os judeus são parentes de sangue do Senhor; se fosse apropriado vangloriar-se na carne e no sangue, os judeus pertencem mais a Cristo do que nós. Rogo, portanto, meu caro papista, que se te cansares de me vilipendiar como herético, que comeces a me injuriar como judeu.

Essa atitude logo mudou quando os judeus recusaram-se a converter-se como moscas diante da sua pregação, e – pior – quando Lutero viu alguns de seus cristãos convertendo-se às “mentiras” do judaísmo. Embora seja lembrado como um ardente defensor da graça, Lutero, como todos, não foi capaz de viver à altura dela. Da mesma forma que incontáveis cristãos antes e depois dele, o reformador perdeu de vista o cerne escandaloso da mensagem do Reino, a espantosa notícia de que Deus não tem favoritos e derrama sua gentileza e sua graciosidade mesmo sobre os que o rejeitam da forma mais deliberada.

“Terceiro, recomendo que todos os seus livros de oração sejam tirados deles.”

Hoje em dia, lendo essas passagens, é muito fácil lembrar que a Alemanha de Lutero seria mais tarde berço de Hitler e das atrocidades nazistas. Somos tentados a associar rapidamente as duas coisas e, na verdade, ninguém deveria ousar separá-las. Duas observações importantes são no entanto necessárias: primeiro, Lutero não estava escrevendo algo de que seus contemporâneos discordariam. Quando maldizia os judeus ele apenas colocava a sua pena em favor da maré cultural do seu tempo. Na Europa medieval, em que todas as pessoas que se davam a algum respeito eram cristãos, os judeus eram (e apenas em parte trocadilho) tomados para Cristo. Judeus eram culpados de todos os males, acusados de todos os crimes, responsabilizados por todas as pragas. Quando uma colheita falhava, você não tinha duvidas sobre quem havia jogado sobre ela o seu mal-olhado. Quando uma criança desaparecia, você não tinha dúvidas de na faca de quem ela havia sido sacrificada. Os judeus eram “o outro”, os estranhos, aqueles dos quais a gente de bem desvia o rosto. Eram, em tudo e para todos, o bode expiatório.

“Quarto, recomendo que seus rabis sejam proibidos de ensinar, sob pena de morte ou de amputação.”

Segundo, há uma diferença importante entre a posição nazista e a hostilidade medieval aos judeus, tendência que o reformador apenas seguia. Lutero era anti-judeu, Hitler era anti-semita; a primeira questão é religiosa, a segunda, racial. Lutero abraçaria um judeu que se convertesse ao cristianismo; sob Hitler, os judeus convertidos ao cristianismo foram perseguidos e mortos.

“Quinto, recomendo que o salvo-conduto para o livre-trânsito nas estradas seja completamente negado para os judeus.”

Nenhuma dessas coisas, naturalmente, justifica as declarações e a posição de Lutero – mas devem ser levadas em conta na análise do que ele estava dizendo e das suas implicações.

“Sexto, recomendo que todo o dinheiro e peças de ouro e prata sejam tomados deles e colocados sob custódia.”

Vale ainda lembrar que, embora pareça extremamente virulenta, a posição radical de Lutero não difere muito das duríssimas objeções que muitos cristãos levantam nos nossos dias contra outros grupos. O “outro” nos nossos dias é outro. Os cristãos escolheram novos alvos: dependendo da sua inclinação, os bodes expiatórios são hoje em dia os comunistas, os homossexuais, os muçulmanos, os católicos, os evangélicos, os negros, os pobres, os ricos ou uma informe combinação de todos esses.

“Sétimo, recomendo que se coloque um malho, um machado, uma enxada, uma pá, um ancinho ou um fuso nas mãos dos jovens judeus e judias.”

Continuamos a agir como se houvesse diferença. São sempre eles que carecem da graça. O coração duro é sempre dos outros.

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Sobre os Judeus e Suas Mentiras
Por Martinho Lutero, 1543

O que devem fazer os cristãos contra este povo rejeitado e condenado, os judeus? Já que eles vivem entre nós, não devemos ousar tolerar a sua conduta, agora que sabemos das suas mentiras e suas injúrias e suas blasfêmias. Se o fizermos, tornamo-nos participantes de suas mentiras, sua injúria e sua blasfêmia. Portanto não temos como apagar o inextinguível fogo da ira divina, da qual falam os profetas, e tampouco temos como converter os judeus. Com oração e temor de Deus devemos colocar em prática uma dura misericórdia, para ver se conseguimos salvar pelo menos alguns deles dentre as chamas crescentes. Não ousamos vingar a nós mesmos. Vingança mil vezes pior do que qualquer uma que poderíamos desejar já os toma pela garganta. Quero dar-lhes minha sincera recomendação:

Em primeiro lugar, queimem-se suas sinagogas e suas escolas, e cubra-se com terra o que recusar-se a queimar, de modo que homem algum torne a ver deles uma pedra ou cinza que seja. Isso deve ser feito em honra de nosso Senhor e da Cristandade, de modo que Deus veja que somos cristãos, e não fazemos vista grossa ou deliberadamente toleramos tais mentiras, maldições e blasfêmias públicas tendo como alvo seu Filho e seus cristãos. Pois o que quer que tenhamos tolerado inadvertidamente no passado – e eu mesmo estive ignorante dessas coisas – será perdoado por Deus. Mas se nós, agora que estamos informados, protegermos e acobertarmos essa casa de judeus, deixando-a existir debaixo do nosso nariz, na qual eles mentem, blasfemam, amaldiçoam, vilipendiam e insultam a Cristo e a nós, seria o mesmo que se estivéssemos fazendo tudo isso e muito mais nós mesmos, como bem sabemos.

Em segundo lugar, recomendo que suas casas sejam também arrasadas e destruídas. Pois nelas elem perseguem os mesmos objetivos que em suas sinagogas. Eles devem ao invés disso ser alojados debaixo de um único teto ou pavilhão, como ciganos. Isso fará com que eles aprendam que não são senhores no nosso país, da forma como se vangloriam, mas que vivem em exílio e no cativeiro, da forma como gemem e lamentam incessantemente a nosso respeito diante de Deus.

Terceiro, recomendo que todos os seus livros de oração e obras talmúdicas, nos quais são ensinados tais idolatrias, mentiras, maldições e blasfêmia, sejam tirados deles.

Quarto, recomendo que seus rabis sejam de agora em diante proibidos de ensinar, sob pena de morte ou da amputação de algum membro. Pois eles perderam da forma mais justa o direito a tal posição ao manterem os judeus cativos com a declaração de Moisés (em Deutoronômio 17:10ss) na qual ele ordena que obedeçam os seus mestres sob pena de morte, embora Moisés acrescente claramente: “o que eles ensinam segundo a lei do Senhor”. Esses desprezíveis ignoram isso. Eles arbitrariamente empregam a obediência do pobre povo de forma contrária à lei do Senhor, infundindo neles esse veneno, essa maldizer, essa blasfêmia. Do mesmo modo o papa nos manteve cativos com a declaração de Mateus 16, “Tu és Pedro,” etc, induzindo-nos a crer em todas as mentiras e falsidades que provinham de sua mente diabólica. Ele não ensinava em conformidade com a palavra de Deus, e perdeu portanto seu direito a ensinar.

Quinto, recomendo que o salvo-conduto para o livre-trânsito nas estradas seja completamente negado para os judeus. Eles não tem o que fazer no campo, visto que não são proprietários de terras, oficiais do governo, mercadores ou coisa semelhante. Que fiquem em suas casas.

Sexto, recomendo que sejam proibidos de emprestar a juros, e que todo o dinheiro e peças de ouro e prata sejam tomados deles e colocados sob custódia. O motivo de tal medida é que, como foi dito, eles não possuem qualquer outro modo de ganhar a vida que não seja emprestar a juros, e através da usura furtaram e roubaram de nós tudo que possuem. Esse dinheiro deveria ser agora usado para nenhum outro fim que não o seguinte: quando acontecer de um judeu se converter, serão dados a ele cem, duzentos ou trezentos florins, da forma como sugerirem suas circunstâncias pessoais. Com isso ele poderá estabelecer-se em alguma ocupação de modo a sustentar sua pobre mulher e filhos e dar suporte aos velhos e fracos. Pois tais ganhos malignos são amaldiçoados se não colocados em uso com a benção de Deus numa causa digna e justa.

Sétimo, recomendo que se coloque um malho, um machado, uma enxada, uma pá, um ancinho ou um fuso nas mãos dos jovens judeus e judias, e deixe-se que eles ganhem o seu pão com o suor do seu rosto, como foi imposto sobre os filhos de Adão (Gênesis 3:19). Pois não é justo que eles deixem que nós, os gentios malditos, labutemos debaixo do nosso suor enquanto eles, o povo santo, gastam o seu tempo atrás do fogareiro, banqueteando-se e peidando, e acima de tudo isso vangloriando-se blasfemamente do seu senhorio sobre os cristãos através do nosso suor.

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terça-feira, 21 de junho de 2011

Mártires ou overdose

Por Nilton Bonder, rabino e escritor.

Quando os judeus pelo mundo afora se reúnem para celebrar a Páscoa, o Pessach, há dor e constrangimento. Há dor pela violência sofrida e constrangimento pela violência perpetrada. O aspecto mais difícil é relembrar o êxodo dos hebreus no antigo Egito em meio à luta do povo palestino por autodeterminação. Falar sobre a obrigação de respeito ao estrangeiro ("por que estrangeiro fostes na casa do Egito") e ensinar os filhos sobre a liberdade como um direito inalienável do ser humano gera, no mínimo, questionamentos.

Há, no entanto, uma importante reflexão para aqueles que se sublevam e rejeitam a opressão do status quo. O Êxodo em direção à terra prometida não acontece por meio de revolução, mas resolução. A lógica das revoluções é uma rotação brusca e triunfal sobre uma condição. A resolução, por sua vez, é uma determinação que produz um processo que transforma a realidade. É isso que os hebreus conheceram a 3000 anos e reviveram há 50 anos com o Estado de Israel.

As revoluções buscam transformações radicais, vias de regra violentas. Repletas de causa, manifestam a vitalidade da juventude e, ao mesmo tempo, a imaturidade da adolescência. Quem participou de revoluções conhece a glória das causas e o vazio profundo deixado por seus custos. A violência pode parecer um recurso eficiente, mas ela é traiçoeira, pois faz mudar de mãos a "causa" toda a vez que é utilizada.

No ritual dos judeus, em momento imortalizado por Jesus na última ceia, o partir do pão ázimo produz invariavelmente dois pedaços desiguais. Este pão representativo da "pobreza" humana, fala contundentemente da desigualdade. O universo não é simétrico. Irmãos aprendem isso dentro de suas próprias casas. Mesmo o amor materno produz sentimentos de profunda desigualdade e injustiça. Suportar a assimetria do mundo é parte do crescimento do ser humano. Nosso único poder de interferência nessa faceta da realidade é através de processos e não de mudanças bruscas e radicais. Gerar uma realidade mais simétrica é tanto sonho como esforço milenar da humanidade.

Os pais têm como tarefa maior ajudar seus filhos a mediar entre a realidade e estes sentimentos de injustiça. Ensiná-los a não se deixar seduzir pelas ilusões da juventude amplia suas chances de sobrevivência. Quando os pais não fazem isso, seus filhos tornam-se presa fácil para os "traficantes". Afinal as injustiças do mundo são iscas poderosas. Elas arrebatam milhares de jovens em torno da luta por ideais e não é tão estranho que jovens queiram ser "mártires". Ser mártir é chamar para si a atenção da mãe, é cativar a fantasia de virgens, não no paraíso, mas aqui mesmo na terra.

Os adolescentes-bomba da palestina ou mesmo os "bravos" guerreiros da Al-Qaida não estão morrendo como mártires, estão morrendo de overdose. Não é a toa que a religião é muitas vezes apontada como o ópio do povo. Pode ser uma droga e em excesso ela mata. A patologia mais do que a ideologia se faz presente nestes mártires que não morrem, mas se matam. E quando alguém se mata está querendo provar algo para os seus, algo que não é coletivo ou nacional, mas algo pessoal. E a violência põe seus ovos nestes vazios, em particular nestes vazios da juventude.

Triste é ver mães e pais celebrando o ato heróico de seus filhos. A realidade dramática de ver pais regozijando-se na overdose de seus filhos quando desesperadamente tentam ocultar sob bandeiras e símbolos pátrios a culpa dos vazios que geram tanta violência.

Este ato derradeiro de brincar de Deus, de poder olhar nos olhos das pessoas e escolher quem você irá matar: seja a bela jovem que você sempre quis e de quem não obteve atenção, seja uma família que inspira a sensação de nunca poder desfrutar de tanto calor. Os vazios contêm as violências. Como uma dengue espiritual o mundo precisa de um mutirão. A dengue espiritual está na casa de cada um. Erradicar os vazios onde as larvas se proliferam é a missão da maior das revoluções - estabelecer processos e não soluções impostas, em particular pela violência. É preciso mais coragem para lidar com as assimetrias da vida do que para estourar-se sob a ilusão de que a simetria será alcançada.

O ritual judaico do Pessach termina com uma canção-depoimento. Ela fala do ciclo de violência e sua infindável cadeia. "Meu pai tinha um cabrito, veio gato e o comeu, e veio o cão e dilacerou o gato, e veio o bastão e espancou o cão, e veio o fogo e consumiu o bastão, e veio a água e apagou o fogo, e veio o boi e bebeu a água, e veio o açougueiro e sacrificou o boi, e veio o anjo da morte e deu fim ao açougueiro".

Deter esse ciclo absurdo que está gerando listagens não de mártires, mas de overdoses, é prioritário. Não significa não usar a força, seja a força da opinião pública, seja a força da verdade ou seja a força da luta, desde que não se esconda no vazio e na dor de sua juventude. Talvez esteja também na força da imaginação. Foi com ela que o rabino Wolfe Blank refez a canção: "e veio o gato e miou para o cabrito, e veio o cão e brincou com o gato, e o bastão batucou para o cão, e veio o fogo e dançou para o bastão, e a água acalmou o coração agitado do fogo, e veio o boi e banhou-se na água, e veio o açougueiro e fez uma massagem no boi, e veio o anjo da transformação e gentilmente ajudou o açougueiro a compreender sua finitude e fazer a transição tão sonhada para outra profissão".

sexta-feira, 11 de março de 2011

Trechos do livro 'Os Lucros da Religião' (1918)

Por Upton Sinclair

Verme maldito

Na mais significativa das lendas a respeito de Jesus, conta-se que o diabo tomou-o a uma montanha muito alta e mostrou-lhe todos os reinos do mundo num único momento de tempo; e o diabo disse a ele: “Dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória; porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero”. Jesus, como sabemos, respondeu e disse “Vai-te para trás, Satanás!” E estava sendo sincero: ele se recusaria a ter qualquer coisa em comum com a glória do mundo, com “poder temporal”; ele escolheu a carreira de um agitador revolucionário, e morreu a morte de um perturbador da paz. E por dois ou três séculos a sua igreja seguiu os seus passos, promovendo o seu evangelho proletariado. Os cristãos primitivos tinham “tudo em comum, exceto suas esposas”; viviam à margem da sociedade, escondendo-se em catacumbas desertas, sendo atirados aos leões e fervidos em óleo.

Mas o diabo é um verme sutil; ele não desiste diante da primeira derrota, pois conhece a natureza humana e a intensidade das forças que batalham em seu favor. Ele não conseguiu pegar Jesus, mas voltou para pegar a igreja de Jesus.

Ele veio quando, através do poder da nova ideia revolucionária, a Igreja havia conquistado uma posição de tremenda influência no Império Romano decadente; e o verme sutil assumiu a aparência de ninguém menos do que o próprio Imperador, sugerindo que ele deveria converter-se à nova fé, de modo que a Igreja e ele pudessem trabalhar juntos para a maior glória de Deus. Os bispos e pais da Igreja, cheios de ambição para a sua organização, caíram no estratagema, e Satanás saiu rindo à valer consigo mesmo. Ele tinha conseguido tudo que havia pedido a Jesus trezentos anos antes; tinha conseguido a maior religião do mundo. O quão completo e rápido foi o seu sucesso pode ser julgado pelo fato que cinquenta anos mais tarde encontramos o Imperador Valentiniano vendo-se compelido a publicar um edito limitando as doações das sensibilizadas mulheres das igrejas de Roma.

Daquele tempo em diante o cristianismo tem se mostrado… o principal inimigo do progresso social. Dos dias de Constantino até os dias de Bismarck e Mark Hanna, Cristo e César tem sido um, e a Igreja tem servido de escudo e armadura para o poder econômico predatório. Com apenas uma ressalva digna de nota: a Igreja nunca foi capaz de suprimir por completo a memória de seu fundador proletário. Ela fez o máximo nesse sentido, naturalmente; temos visto os seus acadêmicos distorcendo por completo o sentido das palavras dele, e a Igreja Católica chegou mesmo a manter o uso de uma língua morta, de modo que suas vítimas não pudessem ouvir as palavras de Jesus numa forma que pudessem entender.



Das tais

O fundador do cristianismo era homem especializado em crianças. Ele não tinha medo de ver seus discursos perturbados por elas, e não as considerava supérfluas. “Das tais é o reino dos céus”, ele disse; e sua igreja herdou essa tradição – “apascentai meus cordeirinhos”. Havia crianças na Grã-Bretanha na primeira parte do século XIX, e podemos saber o que era feito delas recorrendo à História Industrial da Inglaterra, de Gibbins:

Algumas vezes traficantes comuns tomavam o lugar dos donos de indústrias e transferiam um certo número de crianças para uma região fabril e ali as mantinham, em algum porão escuro, até que pudessem repassá-las para um dono de moinho que precisasse de mão de obra, o qual então viria e examinaria sua altura, força e habilidades corporais, exatamente como faziam os proprietários de escravos nos mercados da América. Depois disso as crianças estavam simplesmente à mercê dos seus proprietários, nominalmente na qualidade de aprendizes, mas na verdade como meros escravos, sem direito a salário, que não valia à pena sequer alimentar e vestir de forma adequada, pois eram muito baratos e podiam ser facilmente substituídos. Normalmente as autoridades paroquianas providenciavam, a fim de livrar-se dos deficientes mentais, que um idiota fosse assumido pelo proprietário do moinho a cada vinte crianças sadias. O destino desses infelizes deficientes mentais era ainda pior que o dos outros. O segredo de seu destino final nunca foi revelado, mas podemos gerar uma idéia de seus pavorosos sofrimentos pelas tribulações enfrentadas pelas outras vítimas da ganância e da crueldade capitalistas. As horas de trabalho eram limitadas apenas pela exaustão, depois que diversos modos de tortura haviam sido aplicados sem resultado para obrigá-los a continuar trabalhando. As crianças freqüentemente trabalhavam dezesseis horas por dia, dia e noite.

No ano de 1819 foi proposta no Parlamento uma lei que limitava o trabalho de crianças de até nove anos de idade a quatorze horas diárias. Essa pareceria ser uma providência muito razoável, com grande probabilidade de ganhar a aprovação de Cristo; ainda assim a proposta foi violentamente oposta pelos empregadores cristãos, apoiados pelo sacerdócio cristão. Ela interferia na liberdade de contratação e portanto na vontade da Providência; era anátema para uma igreja estabelecida, cuja função era em 1819, como é em 1918 e como era em 1918 a.C., ensinar a origem e a sanção divinas da ordem econômica vigente. “Anu e Baal convocaram-me, ó Hamurabi, adorador dos deuses…” é como começa o código legal mais antigo que chegou até nós, de 2250 a.C., e a cerimônia de coroação da igreja da Inglaterra está fundamentada na mesma tese. O dever de submissão, não apenas ao rei divinamente escolhido, mas ao divinamente escolhido Latifundiário e ao divinamente escolhido Dono de Indústrias, está implícita em cada cerimônia da igreja, e explícita em inúmeros de seus credos. Na litania o povo suplica por mais abundante graça de modo a ouvirem mansamente “a Tua Palavra”; e transcrevo a seguir a “Palavra” na forma que obriga-se as criancinhas a decorarem. Se existe no mundo um sumário mais perfeito da ética escravagista, desconheço-o.

Meu dever para com meu próximo é [...] honrar e obedecer ao Rei e a todos que são colocados em posição de autoridade abaixo dele; submeter-me a todos os meus governantes, professores, pastores espirituais e mestres; conduzir-me de forma subserviente e reverente diante de todos que gozam de padrão social superior ao meu; não cobiçar os bens de outros homens, mas aprender a trabalhar verdadeiramente de forma a merecer meu sustento e cumprir meu dever dentro daquele nível social para o qual agradou a Deus chamar-me.

Fonte: Bacia das Almas => Verme maldito, Das tais

quarta-feira, 9 de março de 2011

Carta de um prisioneiro de Guantánamo

Por Jumah Al-Dossari, 11/01/2007
Base Naval Americana da Baía de Guantánamo, Cuba


Estou escrevendo na escuridão do campo de detenção americano de Guantánamo com a esperança de que eu consiga fazer com que nossas vozes sejam ouvidas pelo mundo. Minha mãos tremem enquanto seguro a caneta.

Em janeiro de 2002, fui apanhado no Paquistão, vendado, acorrentado, drogado e despachado em um avião para Cuba. Quando descemos em Guantánamo, não sabíamos onde estávamos. Eles nos levaram para o Campo Raio – X e nos trancaram em jaulas com apenas dois baldes, um vazio e outro cheio de d’água. Fomos instruídos a urinar em um deles e a nos lavarmos com o outro.

Em Guantánamo, soldados me agrediram, me colocaram em confinamento solitário, ameaçaram matar a mim e a minha filha e me disseram que eu iria passar o resto da minha vida em Cuba. Eles me privaram de sono, me forçaram a ouvir música em volume extremamente alto e iluminaram meu rosto com luzes fortíssimas. Eles me mantiveram em salas geladas durante horas, sem comida, água ou o direito de ir ao banheiro ou me limpar antes das minhas orações. Eles me embrulharam na bandeira israelense e me disseram que está havendo uma guerra santa da estrela de Davi e da Cruz contra a Lua Crescente. Eles me bateram até eu perder a consciência.

O que escrevo aqui não é fruto da minha imaginação ou algo ditado pela minha insanidade. São fatos testemunhados por outros detentos, representantes da Cruz Vermelha, interrogadores e tradutores. Durante meus primeiros anos em Guantánamo fui interrogado muitas vezes. Meus interrogadores me disseram que queriam que eu confessasse ser da Al-Qaeda e que eu estava envolvido de alguma forma com os ataques terroristas contra os Estados Unidos. Disse que não tenho conexão alguma com nada disso. Não sou um membro da Al-Qaeda. Nunca encorajei ninguém a lutar pela Al-Qaeda. Osama bin Laden e a Al-Qaeda não fizeram nada além de matar e denegrir uma religião. Nunca lutei ou carreguei uma arma comigo. Gosto dos Estados Unidos e não sou um inimigo. Já morei nos Estados Unidos e quis me tornar um cidadão americano. Sei que os soldados que fizeram mal a mim representam eles mesmo, e não os Estados Unidos. E eu tenho de dizer que nem todos os soldados americanos em Cuba nos maltrataram ou torturaram. Há soldados que nos tratam de forma humana. Alguns deles até choram quando nos vêem nessas situações. Uma vez, no Campo Delta, um soldado pediu desculpas a mim e me ofereceu chocolate quente e biscoitos. Quando agradeci, ele disse: “ Eu não preciso que você agradeça a mim”. Escrevo isso para que os leitores não pensem que acuso todos os americanos.

Mas, por que, depois de cinco anos, não há conclusões a respeito da situação em Guantánamo? Por quanto tempo pais, mães, esposas, irmãos e filhos irão chorar pelos seus entes queridos aprisionados? Por quanto tempo minha filha terá que perguntar quando irei voltar? As respostas só poderão ser encontradas entre as pessoas justas na América.

Eu prefiro morrer a permanecer aqui para sempre. Já tentei cometer suicídio várias vezes. O propósito de Guantánamo é destruir pessoas, e eu fui destruído. Não tenho esperanças, porque nossas vozes não são ouvidas aqui das profundezas do campo de detenção.

Se eu morrer, por favor lembrem-se de que houve um ser humano chamado Jumah em Guantánamo, cujas crenças, dignidade e humanidade foram abusadas. Por favor, lembre-se de que há centenas de detentos em Guantánamo que sofrem as mesmas coisas. Eles não são acusados de cometer crimes. Eles não foram acusados de praticar nenhuma ação contra os Estados Unidos.

Por favor, mostrem minhas cartas ao mundo. Deixem o mundo lê-las. Deixem o mundo conhecer a agonia dos detentos em Cuba.

Fonte: Revista Galileu - Abril/2007 - Nº189

quinta-feira, 3 de março de 2011

O Mito da Violência Redentora

Por Ron Claassen, tradução de Paulo Roberto Purim

Existirá uma alternativa para a vingança e para a retribuição na resposta a um dano, uma injustiça? Walter Wink (em Engaging the Powers: Discernment and Resistance in a World of Domination) afirma que a resposta preferencial da nossa sociedade é a vingança, aquilo que Wink rotulou de “mito da violência redentora”.

O mito da violência redentora, ele diz, é a crença de que a violência é uma resposta necessária e apropriada e até mesmo curativa, especialmente quando administrada pelo Estado em favor da vítima. Wink salienta que Jesus rejeitou claramente a violência como meio construtivo de responder ao dano ou à injustiça, e ajuda-nos a compreender que há algumas alternativas para a violência.

Uma passagem da escritura que Wink usa para ajudar-nos a compreender que há alternativas para a violência encontra-se no quinto capítulo de Mateus, no qual Jesus diz: “Vocês ouviram o que foi dito, 'olho por olho e dente por dente', mas eu digo a vocês”. Segue-se uma série de declarações que soam terrivelmente irreais e parecem convidar a parte ofendida a tornar-se um verdadeiro “capacho”.

Jesus diz coisas como: “Se alguém bater na sua face direita, ofereça também a outra” e “Se for forçado a carregar um fardo por uma milha, carregue-o por duas” e “Se alguém tomar o seu casaco, dê a ele também a capa”. Então, como isso já não aparentasse passividade suficiente, Jesus acrescenta: “Vocês já ouviram o ditado 'ame seu próximo e odeie o seu inimigo', mas eu digo a vocês “amem os seus inimigos”. Aqui nós sem sombra de dúvida perdemos a sintonia, porque simplesmente não somos capazes de nutrir sentimentos ternos e efusivos por alguém que acaba de cometer uma ofensa séria contra nós.

Então de que forma, quando ofendidos, devemos entender e levar a sério o que Jesus está dizendo? Achei muito útil o esforço de Wink em descrever o contexto em que Jesus está falando, a fim de compreender como Jesus poderia estar querendo que respondêssemos. A mais fácil de explicar das três sugestões “capacho” é a que fala sobre carregar um fardo. O contexto era o seguinte: os soldados da força de ocupação romana freqüentemente carregavam mochilas pesadas, e tinham o costume de obrigar os habitantes locais a carregá-las para eles. Era uma prática degradante e muito incoveniente, e era interpretada como uma injustiça ofensiva pelos habitantes locais. Os soldados, por outro lado, consideravam-no seu “direito”, já que, afinal de contas, eram eles que detinham o “poder”. As autoridades do exército apoiavam o direito dos soldados a essa prática, mas perceberam também que ela deveria ser limitada para não tornar-se “abusiva demais”. Por essa razão impuseram um limite de uma milha para a distância que um soldado podia obrigar um habitante local a carregar a sua mochila.

É portanto nesse contexto que Jesus fez a declaração “Se for forçado a carregar um fardo por uma milha, carregue-o por duas”. Essa deixa então de parecer uma reação “capacho”. De fato, torna-se até um tanto agressiva. É uma reação não violenta e assertiva – e não passiva. Tente imaginar a situação. Creio que seria algo mais ou menos assim: para começar um soldado obriga um habitante local a carregar sua mochila. No final da milha, o soldado pede que o homem devolva o fardo. Mas, de acordo com a sugestão de Jesus, aquele que foi obrigado a carregar a mochila deve simplesmente continuar andando, recusando-se a obedecer a ordem de devolvê-la e sabendo que isso poderia colocar o soldado sob o risco de uma possível punição. A iniciativa foi tomada agora pela vítima, aquele que há pouco havia parecido impotente. Não apenas essa não é uma reação passiva, é muito possível que pudesse tornar-se por sua vez uma reação abusiva. Parece que é por isso que imediatamente depois de sugerir essas reações Jesus diz “amem (agape significando mais literalmente 'sejam construtivos para com') seus inimigos”.

A Justiça Reparadora não deve ser confundida com aprovar, ignorar ou afirmar que é “tudo bem” fazer o que é errado. A Justiça Reparadora precisa desenvolver reações assertivas e construtivas que tragam atenção apropriada para o problema de modo a encorajar o ofensor a reconhecer e aceitar a responsabilidade pela ofensa. Isso feito, as vítimas mostram-se surpreendentemente dispostas a considerar soluções para que a eqüidade possas ser restaurada e acordos sejam realizados para o futuro, a fim de que a injustiça não seja repetida. Se o ofensor aceita a responsabilidade e cumpre os acordos, a confiança cresce e a reconciliação (movimento ao longo de um contínuo que vai de “ódio crescente” a “afeição crescente”) acontece.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Paz sem perdão

Por Nilton Bonder

Encravado na liturgia do Dia do Perdão, o Iom Kipur dos judeus, está o Livro de Jonas. Um Livro pouco compreendido cuja notoriedade se dá mais pelo incidente de ser o herói engolido por um grande peixe, do que por seu conteúdo. O enredo do Livro nada mais é do que a banal convocação de um profeta para que sirva de mensageiro de uma advertência do Criador à cidade de Ninive exortando que esta se arrependesse. O profeta reluta em aceitar a intimação divina mas acaba por fim cumprindo-a. A cidade de Ninive se arrepende, o profeta fica deprimido e o Criador lhe dá uma lição de moral mostrando que toda a relação verdadeira implica em responsabilidade e esta, por sua vez, em flexibilidade.

Na realidade, o Livro esta mais preocupado em mostrar uma dimensão da persona de todos nós que é representada por Jonas. O profeta fica deprimido com a missão com a qual é incumbido porque sabe que este D'us de Israel é um D'us compassivo. Um D'us que é capaz de conceder perdão até mesmo a Ninive, cidade da Assíria, arquiinimiga de Israel, é insuportável para um nacionalista ardente como Jonas. Mais que isto, como é comum a textos bíblicos onde o personagem é uma representação de um traço humano, o nome do herói é revelador. Ele é Jonas filho de Amitai. A raiz da palavra "Amitai" é a palavra "verdade". Jonas-o-filho-da-Verdade não consegue suportar o D'us do arrependimento, o D'us de um olhar distinto para o que já foi rotulado de "o outro".

Perdoar é um comportamento que exige uma redefinição do outro. Passa pela flexibilização das verdades já assumidas. Jonas fica constrangido por um D'us que abre mão da verdade ou das verdades. Mas o mais doloroso do perdão é que este exige uma redefinição de nós mesmos. É mais fácil que o outro permaneça perverso do que ter que refazer toda a nossa compreensão do mundo e da realidade.

A paz é uma espiral do perdão. Quanto mais dizemos: "eu sinto muito", menos provavelmente teremos que dizer. Quanto mais precisarmos ouvir "eu sinto muito", menos provável que o aceitemos.

O problema israelense-palestino fica fora do enquadramento das fotos da mídia do soldado israelense perseguindo a criança palestina. Perseguindo este soldado estão por um lado as ditaduras e o fundamentalismo árabe com suas verdades e por outro o radicalismo religioso e o pânico histórico por segurança presentes em camadas da população israelense com suas verdades. O filósofo Martin Buber dizia que o drama israelense-palestino estava no fato de ambos se apoiarem sobre verdades. E a verdade de um, incontestavelmente, legitima a demonização do outro.

Talvez fosse necessária uma nova partilha da Palestina. Onde dois povos já existentes - israelense e palestino - convivessem em harmonia pela ordem do perdão; e onde outros dois povos - israelense e palestino - vivessem em conflito preservado pelo zelo de suas verdades. Poderíamos então entender que já há uma paz feita e uma paz ainda por fazer. Uma paz a se fazer, para constrangimento de todos, na qual o D'us da verdade de um venha a se revelar o mesmo D'us da verdade do outro.

Ou talvez outros tempos venham a chegar onde não se faça necessária qualquer partilha seja entre povos distintos ou dentro de um mesmo povo. Uma cena permanece viva na memória de minha última visita a Jerusalém. Era um dia de celebração para o Islã e a esplanada das mesquitas, onde a verdade do Islã construiu sobre a verdade de Israel, estava repleta por 1/4 de milhão de muçulmanos. Num dado momento, desde o bairro judeu da cidade velha, deparei-me com a seguinte vista: os judeus rezavam para o Muro das Lamentações, enquanto os muçulmanos eram visíveis no topo da colina em suas orações e, ao fundo, as igrejas se sobressaiam com suas torres e com os sons de seus sinos. Tive então um estranho insight. Do que é visto desde às alturas, desde a perspectiva deste D'us para quem oram, não há diferença nenhuma entre os tempos messiânicos de harmonia absoluta e estes tempos que vivemos de confronto e conflito. O sonho, a utopia, que perpassa estas três civilizações não se encontra meramente no futuro, mas aqui mesmo, neste lugar... em outro lugar. Aquilo de que os profetas falavam: aqui há outra forma de enxergar a realidade. Este enxergar é toda a distância que existe entre o possível e o impossível deste lugar.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

‘Alguns choravam’, diz pastor que negociou rendição de traficantes

Evangélico que acompanhou líder do AfroReggae no Complexo do Alemão defende anistia como forma de resolver confrontos no Rio
Por Flávia Salme, iG Rio de Janeiro | 01/12/2010 04:51

Na véspera da invasão da polícia ao Complexo do Alemão, um grupo de cinco pessoas da ONG AfroReggae decidiu subir o conjunto de 14 favelas na Penha, zona norte do Rio de Janeiro, e tentar convencer os traficantes a se entregarem. Liderados pelo diretor-executivo da organização, José Junior, eles argumentaram que a polícia venceria um possível confronto e que inocentes seriam as maiores vítimas. Ao lado de Junior estava um dos coordenadores da área social da entidade, Rogério Menezes, respeitado por traficantes, viciados e detentos do sistema penitenciário do Estado.

Evangelizador da Assembleia de Deus, Rogério é chamado de pastor. Em meio à negociação com os criminosos, no sábado (27), José Junior recorria ao Twitter para mandar informações em tempo real. "Pastor Rogério é o cara que mais salvou vidas que eu conheço. Muitas, inclusive, na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão. Homem de Deus", escreveu o líder do AfroReggae na ocasião.

Ex-viciado, pastor Rogério admite que já traficou drogas, pegou em armas e cometeu crimes. Foi preso. Sobreviveu a duas overdoses de cocaína, até receber um "sinal" e "ser salvo por Jesus”. Hoje, ele diz que sua vida pregressa o permite compreender o que passa pela cabeça de criminosos e apresentar argumentos para tirar muitos da marginalidade. “Já salvei uns 300 que estavam amarrados para morrer”, garante.

Sobre a ação de retomada do Complexo do Alemão pelo Estado, o pastor diz acreditar “que a intenção foi uma das melhores”. Segundo ele, “o governador tem feito um trabalho muito bom”. Contudo, o religioso defende que somente uma anistia aos traficantes será capaz de pôr fim à ameaça de guerra no Rio. “Proponho que essa decisão seja avaliada pelo governo, pelos parlamentares e pela Justiça.”

A seguir, leia mais sobre o que pensa o pastor.

iG: Às vésperas da polícia invadir a favela, no sábado (27), o senhor e o José Junior entraram no Complexo do Alemão para conversar com os traficantes. Na sua avaliação, esse gesto ajudou a evitar derramamento de sangue?

Rogério Menezes: Sim. Eu e o José Junior estávamos todo o tempo juntos. Ele virava para mim e falava “pô, Rogério, o que a gente pode fazer para ajudar?”. Eu respondia: “Junior, eu sei que é perigoso e arriscado, mas imagina se a polícia entrar? Vai morrer muita gente. Temos de ir lá”. Expliquei que o máximo que poderia acontecer era a gente ser tomado como refém. Falei: “Deus está nos mandando ir”.

iG: O que o senhor pensava naquele momento?

Rogério Menezes: Se houvesse confronto, eles iriam enfrentar, como foi noticiado, 2.600 policiais civis, militares, homens do Exército e da Marinha. Sem contar os inocentes, os jornalistas. Imagina o derramamento de sangue que poderia existir... Eu só pensava nisso.

iG: Como vocês chegaram até os traficantes?

Rogério Menezes: Entramos na favela e perguntamos onde eles estavam. Nos orientaram a chegar até a parte mais alta. Encontramos um grupo de cerca de 60 homens, os mais perigosos. Conversamos olho no olho.

iG: E como foi a conversa?

Rogério Menezes: Eles vieram até a gente. Estavam cansados, sem forças até para falar. Nós argumentamos que não dava para eles encararem. E muitos diziam “pastor, me ajuda. Pelo amor de Deus. O que o senhor pode fazer por mim?” O José Junior respondeu que não havia nada que a gente pudesse fazer e que o melhor seria se renderem à polícia; que a única garantia que a gente podia dar era a de que ninguém seria assassinado se aceitasse a rendição.

iG: E eles estavam inclinados a aceitar a proposta?

Rogério Menezes: Um dos chefões virou para mim e falou: “Pastor, o senhor me conhece. Sabe que a minha vida todinha eu tirei dentro da cadeia. O senhor quer que eu volte?” Respondi: “Rapaz, é melhor você se entregar do que ser morto. Você tem uma vida, tem família. Pensa muito bem no que você vai fazer.”

iG: E qual foi a reação?

Rogério Menezes: Muitos deles estavam desesperados, amedrontados. Alguns tremiam, estavam com os olhos arregalados. Outros olhavam para a gente como se fôssemos uma saída, um porto seguro. E a gente foi tentando acalmá-los. Mas eles diziam que era complicado se entregar. Em determinadas facções, se entregar é complicado. Eu sei disso. Hoje sou pastor, mas já fui do crime. Entendo a posição deles. Mas é aquele negócio, para o homem é impossível, mas para Deus tudo é possível.

iG: Quer dizer que alguns queriam se render, mas tinham medo de ser assassinados na cadeia por retaliação da facção criminosa a que pertencem?

Rogério Menezes: É por aí. Cada caso é um caso. Depois dessa conversa que tivemos com eles, 37 se entregaram. Um se apresentou na delegacia com a mãe, a imprensa acompanhou. É o Mister M. Teve um pai que foi entregar o filho por acreditar que isso era melhor do que vê-lo morto pelo Bope. Acredito que eles não viam saída. Eu e o José Junior os motivamos a não irem para o confronto. Ninguém imaginava que o Alemão poderia ser ocupado da forma como foi. O maior mérito foi de Deus. Mas há também o mérito do AfroReggae, do José Junior, que foi muito corajoso.

iG: Qual foi o diálogo com os traficantes que mais marcou o senhor?

Rogério Menezes: Vi homens de alta periculosidade me chamarem no canto e se abrirem para mim e para o José Junior. Teve gente que chorou. Não de medo. Chorou porque não queria o confronto, porque pensava na família. Foi o momento que mais me compadeceu. Eu ficaria o tempo todo ao lado daquelas pessoas, ainda que a polícia entrasse.

iG: Nesse grupo havia chefes do tráfico?

Rogério Menezes: Positivo. Mas não vou falar disso em detalhes. Meu trabalho é religioso e eles confiam em mim. Quero apenas afirmar que eles não queriam guerra.

iG: Quem falou mais, os senhores ou os traficantes?

Rogério Menezes: Eles ficaram mais tempo calados. Queriam ouvir a gente, queriam uma luz. Eles não estavam conversando com traficantes, mas com pessoas que simbolizavam a paz, a vida. Tem pessoas ali que me conhecem desde 1993, quando comecei a pregar. Muitos eu vi ir para a cadeia, sair da cadeia, visitei na favela. Havia homens com armas nas mãos, mas os que conversavam com a gente não estavam armados. Em momento algum eles diziam que iriam meter bala ou que optariam pelo confronto. Isso eu não vi.

iG: O senhor diz que muitos traficantes não querem se render porque temem retaliações de colegas de facção dentro da cadeia; outros que já ficaram muito tempo presos e não aceitam voltar. A polícia afirma que vai permanecer na favela até realizar as prisões e recuperar as armas. O senhor defende alguma proposta para que não aconteçam novos conflitos?

Rogério Menezes: Sou a favor da anistia. Converso muito com traficantes e com viciados, visito muita boca de fumo. Eu evangelizo muito. Faço um trabalho de Deus, um trabalho do bem, espiritual. Já tirei muitos dessa vida e encaminhei para um emprego. E já vi caso também de pessoas que largaram o crime, se mudaram para outro estado, mas não conseguiram emprego porque devem à Justiça. Tiveram de voltar e retornar para o crime, tinham família. Mas eles me diziam “pastor, o senhor viu que tentei. Voltei para o tráfico, mas não bebo, não me drogo mais, nem a baile funk eu vou. Vai acabar meu plantão na boca e vou para casa ficar com meus filhos”.

iG: O senhor não acha difícil propor para a sociedade que essas pessoas sejam anistiadas sem pagar pelos crimes que cometeram?

Rogério Menezes: É muito difícil responder sobre isso. Como religioso, acho que o culpado disso tudo são as forças espirituais do mal. Vou dar um testemunho da minha vida. Eu trabalhava, ganhava bem, três salários mínimos. Não era de uma vida errada. Mas em um determinado momento me senti sem chão. Tudo começou quando perdi meu pai. Minha mãe arrumou outro homem logo em seguida e eu não aceitei. Ela então me expulsou de casa. Eu tinha 16 anos. Bateu uma depressão tão grande, que perdi meu emprego, não conseguia trabalhar. Era morador da Baixada Fluminense, morava numa comunidade carente, conhecia bandido, conhecia traficante, mas eu era trabalhador. Nem todo mundo que mora dentro de uma comunidade é bandido. Minha família me deu estudo, o melhor que pôde dar. Mas eu caí na vida do crime, me entreguei à bebida, às drogas, fui preso. Houve momentos em que me vi sentado, chorando, querendo sair dessa. Eu despertei, procurei uma casa de recuperação. Tive apoio.

iG: Apesar da visão religiosa do senhor, a anistia não é uma proposta polêmica?

Rogério Menezes: Cada caso é um caso. Proponho que essa decisão seja avaliada pelo governo, pelos parlamentares, pela Justiça. Caso a caso, insisto. Mas, particularmente, eu acredito que num universo com 100% de criminosos, se você oferecer uma oportunidade pelo menos 40% aceitam largar essa vida. É preciso considerar que muitos temem por suas famílias. Se forem presos, quem vai sustentar suas mulheres, seus filhos? Tem que haver um projeto social também.

iG: Muitos bandidos fugiram e a polícia diz que vai capturá-los. O senhor acredita que esses traficantes vão voltar para o Complexo do Alemão futuramente? Ainda pode haver enfrentamento?

Rogério Menezes: Acredito que muitos homens que estavam ali no meio, inclusive os que fugiram, não têm antecedentes criminais. Às vezes até segura uma arma, mas é só um viciado. A polícia tem feito seu trabalho. E cabe à polícia e ao governo continuarem a fazer o seu trabalho. Contudo, também acredito que aquilo ali foi a mão de Deus a fim de despertar esses jovens. Acredito que muitos vão analisar e ver que não vale a pena se envolver com o crime. É a resposta que posso dar para essa pergunta.


iG: O senhor está certo da recuperação dessas pessoas?

Rogério Menezes: Vou dar um exemplo. Trabalha com a gente lá no AfroReggae o Gaúcho. Durante muitos anos ele foi o chefe do Alemão, era um dos mais temidos na área. Ele tirou 28 anos de cadeia e hoje está aí, fora do crime, trabalhando com carteira assinada. Isso é a prova de que enquanto há vida, há esperança. O Bem-te-vi, aquele que morreu na Rocinha, ele vivia me dizendo que queria sair do crime. Eu ia para lá pregar umas sete da noite e ele não me deixava ir embora antes das três, quatro horas da manhã. Ele tinha o prazer de estar do meu lado. Muitas vezes o vi chorar. Ele me dizia “pastor, me ajuda. Quero sair dessa vida, mas não tenho forças. A sociedade me marginaliza, não acredita em mim”. Eu dizia, “rapaz, o mais importante é Deus estar olhando para você. Deus tem um plano para sua vida. Você não pode se entregar à criminalidade”.

iG: Por que evangélicos são tão respeitados pelos criminosos?

Rogério Menezes: No sábado, na hora em que a polícia se posicionou para invadir o Complexo do Alemão, tinha um pastor na entrada da favela de terno e com a Bíblia na mão. Estava ele e a mulher dele. Aliás, havia mais de um, eram muitos. Eles ficaram entre os militares da polícia, do Exército e da Marinha, e os jovens. E eles procuravam esses jovens e diziam para que saíssem dessa vida. Ofereciam apoio: “quer se entregar comigo?”, perguntavam. No momento mais difícil, havendo risco de vida, eles estavam ali. E tem os testemunhos daqueles que saíram do crime e hoje estão aí, vivendo com dignidade. Isso mostra para eles que é possível.

Fonte: iG