quinta-feira, 14 de abril de 2011

Escritor inglês lança a “Bíblia humanista”

Como seria a Bíblia se ela não falasse o tempo todo sobre Deus? O filósofo A C Grayling (foto) tentou responder a essa questão com The Good Book: A Humanist Bible [O Bom Livro: uma Bíblia Humanista]. Saem os profetas e os apóstolos, entram os grandes filósofos e escritores. Grayling, novo presidente da Associação Humanista Britânica, explica: “A ética humanista não pretende ser originada em uma divindade. (Eles) começaram a partir de uma compreensão solidária da natureza humana e aceitaram que há uma responsabilidade para que cada indivíduo lute pelos valores em que acreditam”.

Não há menção a deuses, alma, vida após a morte, religião ou qualquer assunto do gênero. O livro é sobre a experiência humana neste mundo, analisando a sabedoria humana de todas as idades e lugares para oferecer consolo, inspiração, orientação, e causar uma reflexão sobre como viver uma vida boa.

As mais de 600 páginas de The Good Book estão divididas em capítulos e versículos, com duas colunas em cada página. Portanto, se parece muito com uma Bíblia. Também começa com uma cena no jardim, embora seja Newton e sua macieira, não Adão, Eva e uma árvore desconhecida. O livro termina com uma versão secular dos 10 Mandamentos:

1) Ame muito
2) Busque o que há de bom em todas as coisas
3) Não prejudique os outros
4) Pense por si mesmo
5) Seja responsável
6) Respeite a natureza
7) Faça sempre o seu melhor
8) Informe-se
9) Seja gentil
10) Seja corajoso

Pelo menos, tente sinceramente fazer essas coisas.

O livro foi lançado perto da data comemorativa dos 400 anos da tradução mais popular da Bíblia para a língua inglesa, a King James. E a divisão e o nome dos “livros” também lembra os da Bíblia: Gênese, Sabedoria, Parábolas, Concórdia, Lamentações, Consolação, Sábios, Canções, Histórias, Provérbios, o Legislador, Atos, Epístolas e o Bem.

A intenção, diz ele, não era criar algo que sirva para brigar, “É uma oferta modesta (...) mais uma contribuição para a conversa que a humanidade deve ter com si mesmo”. Afinal, o livro é para todos, mesmo aqueles que já têm uma Bíblia em suas prateleiras.

Não há previsão de lançamento no Brasil, mas o livro custa cerca de 60 reais impresso ou 35 em formato digital na Amazon.

Fonte: Agência Pavanews, com informações de Newser e CNN.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Deus me livre de ser feliz

Por Luiz Felipe Pondé

Deus me livre de ser feliz. Existem coisas mais sérias que a felicidade. Algum sabichão por aí vai dizer, sentindo-se inteligentinho: "Existem várias formas de felicidade!". E o colunista dirá: "Sou filósofo, cara. Conheço esse blá-blá-blá de que existem vários tipos de felicidade, mas hoje não estou a fim". Um bom teste para saber se o que você está aprendendo vale a pena é ver se o conteúdo em questão visa te deixar feliz.

Se for o caso e você tiver uns 40 anos de idade, você corre o risco de sair do "curso" engatinhando como um bebê fora do prazo de validade. A mania da felicidade nos deixa retardados. Querer ser feliz é uma praga. Quando queremos ser felizes sempre ficamos com cara de bobo. Preste atenção da próxima vez que vir alguém querendo ser feliz.

Mas hoje em dia todo mundo quer deixar todo mundo feliz porque agradar é, agora, um conceito "científico". Quem não agrada, não vende, assim como maçãs caem da árvore devido à lei de Newton.

Mas eu, talvez por causa de algum trauma (fiz análise por 20 anos e acho que Freud acertou em tudo o que disse), não quero agradar ninguém. Não considero isso uma "vantagem moral", mas uma espécie de vício. Claro, por isso tenho poucos amigos. Mas, como dizem por aí, se você tiver muitos amigos, ou você é superficial, ou eles são, ou os dois.

Quanto aos meus alunos e leitores, esses eu nunca penso em deixar felizes, graças a Deus.

Desejo para eles uma vida atribulada, conflitos infernais com as famílias, dúvidas terríveis quanto a se vale a pena ou não ter filhos e casar. Desejo que, caso optem por não ter família, experimentem a mais dura solidão da existência humana, porque, no fundo, não passam de egoístas. Mas se tiverem família, desejo que percebam como os filhos cada vez mais são egoístas porque querem ser felizes e livres.

Desejo para eles pressões violentas no mercado de trabalho. E jantares à meia-noite diante de um trabalho que não pode ficar para amanhã porque querem viajar e ter grana para gastar.

Quem quiser ser livre, que aguente a insegurança da liberdade. Quem for covarde e optar por uma vida miseravelmente cotidiana que veja um dia sua filha jogar na sua cara que você foi um covarde. Especialmente, desejo um futuro cruel para quem acredita que "ser uma pessoa de bem" a protege de ser infiel, infeliz, abandonada e invejosa. Espero que um dia descubram que, sim, eles têm um preço (apenas desejo que seja um preço alto) e que se vendam.

Espero que percebam que seus pais não foram santos e parem com essa coisa de gente brega de classe média que tenta inventar uma "tradição ética familiar" que só engana bobo.

E por que digo isso? Porque hoje todos nós estamos um tanto infantilizados e só queremos que nos digam o que achamos legal. O resultado é uma massa de obviedades. A tendência é transformar o pensamento público em autoajuda ou em "compromisso com um mundo melhor", o que é a mesma coisa.

Quem quer agradar é, no fundo, um frouxo. Vejamos alguns exemplos do produto "querer ser feliz". Comecemos por quem acha que o seu "querer ser feliz" é superior e espiritualizado. Talvez você queira virar luz quando morrer porque ser luz é legal (risadas). Deus me livre de querer virar luz quando morrer. Prefiro as trevas.Se for para continuar vivendo depois de morto, prefiro viver no "meu elemento", as trevas, porque sou cego como um morcego. Normalmente, quem quer virar luz quando morrer é gente feia ou magra demais. Mulheres bonitas vão para o inferno, logo...

E gente que acha que frango tem mãe (só porque ele "descende" do ovo de uma galinha, e ela de outro...) e por isso é crime matá-los? Trata-se de uma nova forma de compromisso com a "felicidade social e política". Entre esses "felizes que desejam a felicidade para os frangos" existem pessoas de 40 anos com cérebro de dez e pessoas de dez anos que um dia terão 40, mas com o mesmo cérebro de dez. Não creio que mudem.

Hoje é Carnaval. Espero que você não tenha pegado aquele trânsito idiota de cinco horas para ser feliz na praia.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Pau n0 s1stema

Leonardo Sakamoto está à frente da ONG que é a maior pedra no sapato de empresários picaretas

Aos 33 anos, à frente de uma ONG respeitada no mundo todo, Leonardo Sakamoto luta contra o lado obscuro da sociedade de consumo – e coleciona inimigos poderosos. Revelando segredos e mentiras, bate forte onde mais dói: no bolso das empresas mais picaretas do país

Esqueça o “Será um pássaro? Será um avião?” e a sunga vermelha sobreposta na malha azul justinha. Nosso herói é um mezzo japa/mezzo italiano criado no Campo Limpo. Tem o tipo de corpo que as avós chamam de “forte” e manca nos dias mais frios, por conta de um pepino crônico na cabeca do fêmur direito. Mas um Leonardo Sakamoto incomoda muita gente, e como. Aos 33 anos, Léo preside uma ONG que é uma das maiores – se não a maior – pedra no sapato de muito empresário, político e fazendeiro picareta Brasil afora. Esse pedregulho sansei aperta o calo de gente que faz coisa feia de verdade, tipo manter trabalhadores escravos em pleno século 21, expulsar índios de suas terras ou desmatar grandes porções da Amazônia. E nosso homem sabe bem qual é a kriptonita da vida real. “Não fazemos protesto, não fechamos estrada, não ficamos na frente de usina nem ocupamos terra. Nada disso. Fazemos uma coisa que pra eles é muito pior: mexemos no bolso.”

A organização não governamental Repórter Brasil, da qual é presidente e fundador, faz um trabalho inédito: mapeia todo o caminho de cada produto, do comecinho da produção até sua casa. Assim eles descobrem quem acaba financiando, mesmo sem querer ou indiretamente, as mais cruéis condições de trabalho e as mais vorazes motosserras. Por exemplo: um carro da ONG faz tocaia na porta de uma fazenda de gado que desmata áreas gigantes e trata seus trabalhadores de forma desumana. Quando sai o caminhão com os bois, seguem o veículo até o frigorífico e, dali, continuam atrás do rastro da carne, documentando toda a logística até chegar à bandejinha de isopor com coxão mole do seu freezer. Com essa informação em mãos, batem direto na porta da presidência da rede de hipermercados: “Olha, sei que não deve ser de propósito, mas você está financiando o fim da Amazônia e o trabalho escravo”. O dono do supermercado (ou pelo menos a maioria deles) se apressa em cortar o frigorífico em questão de seu rol de distribuidores. Esse, por sua vez, cai em cima das fazendas irregulares – e das regulares também, para evitar novo problema. Como um bem-acabado exemplo de ativista na era do Wikileaks, Sakamoto sabe que é revelando segredos de empresas e governos que o sistema sente o tranco. “É gerado um impacto forte, que reverbera na cadeia toda”, explica.

Muito peixe grande já caiu na sua rede. A Cosan é um bom exemplo. Maior produtora de álcool e açúcar do Brasil, é responsável, entre outros, pelo fornecimento às marcas União e da Barra. Graças ao trabalho da turma de Sakamoto, foi flagrado trabalho escravo no interior de São Paulo, em uma usina que fornecia cana-de-açúcar à companhia. A Cosan foi corresponsabilizada, e a conta foi alta. Três dias após o flagra, Walmart e Carrefour cancelaram a compra de açúcar União e da Barra. “O Walmart do Brasil divulgou nota pública e ameaçou tirar os produtos das gôndolas. O BNDES, um dos nossos parceiros, bloqueou na hora o crédito da Cosan inteira, suspendendo R$ 800 milhões. Em um dia, a companhia caiu 6% na Bovespa e 3,5% na bolsa de Nova York.”

Sua trajetória de jornalismo heroico começou em seu TCC da faculdade de jornalismo da USP, o famoso Trabalho de Conclusão do Curso que muita gente faz meio nas coxas. O então estudante abriu uma linha direta com a guerrilha timorense, conseguiu documentos falsos, passou uma semana na selva com os combatentes contrários ao regime indonésio e de quebra entrevistou na cadeia o líder da resistência, Xanana Gusmão, poucos meses antes de ele se tornar o primeiro presidente do recém-liberto Timor-Leste. Passou de ano.

Depois, se embrenhou na guerra civil angolana, passou por um bando de outros países encrencados e rodou as regiões mais pobres do Brasil, fazendo reportagens por conta própria. “Eu vendia a ideia para algum editor e fazia tudo na raça, de ônibus.” Daí surgiu a ideia da Repórter Brasil. De lá pra cá se tornou requisitado na comunidade internacional que luta por direitos humanos.

Com iPhone, sem jipe Willys

Aos 29 anos, discursou sobre seu trabalho no exterior em Washington, no Congresso americano, simplesmente. Voltou lá ano passado. Também já falou no Parlamento alemão, em diversas organizações internacionais e recebeu prêmios como o Freedeom Awards 2008 – o principal do mundo a quem combate o trabalho escravo.

Ainda assim o rapaz não corresponde ao estereótipo do “ativista contra o sistema” ou algo que o valha. Mora sozinho em um apartamento no Sumaré, tem iPhone e laptop moderno e usa terno e gravata com muito mais frequência do que gostaria, ao menos em todas as visitas quase semanais a Brasília. Não tem carro por opção há anos – “me sentia muito culpado”–, mas lembra sentido de seu jipe Willys 1964 azul, “com capota conversível, lindo”. Recém-separado e sem filhos, sai à noite, toma uma cervejinha e se diverte como qualquer solteiro de sua idade. Aliás, foi numa madrugada de sexta pra sábado, em uma festa, que foi travada a primeira da nossa série de conversas. Seu maior diferencial, contudo, é saber usar as regras do jogo a favor de suas causas. O radicalismo de Sakamoto e sua equipe está na rigorosíssima apuração do que farejam. Como, por exemplo, no relatório divulgado recentemente que explica, por A + B, como o padrão de consumo de São Paulo é o responsável maior pelo desmatamento na Amazônia.

Na festa citada acima, Sakamoto estava cansado. Tinha chegado de Detroit há menos de 24 horas, onde fora libertar escravos do interior do Mato Grosso e Tocantins, entre outros estados. Isso mesmo. Léo foi à América do Norte tentar resolver uma treta forte do interiorzão do nosso norte. Falou com executivos de empresas como Ford, Toyota e GM. Pediu que pressionassem suas subsidiárias brasileiras para acabar com o trabalho escravo em sua cadeia de produção. “Nenhuma montadora no Brasil nos ouviu, então fomos aos EUA falar com os ‘chefes’”.

O problema, no caso, começa longe da sua garagem: nas carvoarias que abastecem os fornos das siderúrgicas onde é produzido o aço das peças dos nossos carros, encontrar gente tratada como animal é comum. “As grandes empresas sempre dizem que não têm nada com isso, que não têm como fiscalizar. Como assim? É a demanda deles por quantidade e custo baixo que gera tudo isso. Depois, porra, como uma ONG mequetrefe como a nossa consegue mapear tudo isso e eles não?”

Vale esclarecer. A palavra “escravo” remete a senzalas, grilhões, chibatadas. Hoje essa exploração assume outras formas – todas definidas por lei no Brasil. “O exemplo clássico é a servidão por dívida”, explica Sakamoto. “É aquela história de o cara ter uma dívida inicial sobre itens como passagem, ferramentas, alojamento e comida. Aí toda vez que vai receber o salário tem tantos descontos que não se livra nunca. Tem ainda a retenção de documentos ou o isolamento geográfico. O agenciador pega o cara no interior do Maranhão e joga ele no fundão do Pará, a 12 horas de barco de qualquer lugar. Mesmo que queira, não consegue sair de lá”, explica, enquanto mostra em seu iPad fotos horrorosas de condições consideradas escravagistas.

E eu com isso?

Triste constatação: é difícil achar um setor que não esteja “contaminado”. Mas há empresas que se preocupam em resolver o problema, assinaram um pacto e de fato se esforçam. É o caso, exemplifica Léo, de Pão de Açúcar, Walmart, Carrefour, Itaú, Petrobras, entre outras.

O ativista também tem noção de que seu trabalho, aliado a outras ações em prol de um mundo melhor, gera culpa e cobranças sem fim sobre quem, em princípio, não tem nada a ver com isso... como você, leitor. “As pessoas reclamam que é impossível seguir tudo o que falamos. Têm razão. O jeito é passar um corte racional, pessoal, escolher o que mais o preocupa. Se você for criterioso ao extremo, não come, não bebe, não se veste, não faz nada. Nada mesmo”, enfatiza, sério. “E tô responsabilizando todo mundo, não dá pra livrar ninguém. Tem que cobrar o produtor, o supermercado, as fazendas, os frigoríficos, os exportadores, a indústria... e o consumidor também.”

E segue com o diagnóstico de quem estudou a fundo a “doença”: “Dizem que ‘o consumidor está mais consciente’. Está nada. Todo mundo fala em tirar do poder político picareta mas ninguém fala em tirar do mercado empresa picareta”. E deixa a dica: “Quando você compra, deposita seu voto na empresa, na forma como aquela mercadoria foi produzida. É uma ferramenta que pode até ser mais forte do que o voto eleitoral, porque você tá ‘votando’ todo dia. O ato de compra é um ato político”.

Praga das plantações

A senadora pelo DEM de Tocantins Katia Abreu, famosa pela defesa dos interesses ruralistas, atacou Sakamoto em discurso. “Quero dizer-lhe, de público, que vou processá-lo por calúnia e difamação. O senhor é um irresponsável que mama nas tetas do governo, não tem crédito”, esbravejou na tribuna, em setembro de 2007. Presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, Katia se indignou com o flagra em um dos filiados, que mantinha escravos no Pará. Sakamoto comemorou abertamente a ameaça de processo, que permitiria mostrar todos os detalhes da barbárie do chegado de Katia. A ação nunca veio. “Ela me detesta de verdade”, diverte-se. “E tem gente de tudo que é canto me atacando”. O deputado Aldo Rebelo (PC do B), criticado por sua atuação como relator da revisão do código florestal, assinou artigo chamando o ativista de “vaca holandesa” (em uma analogia rocambolesca com subsídios europeus), o acusou de fazer “caricatura de opiniões” etc.

Léo, que não é filiado a partido algum nem tem a menor intenção de ser político, mantém postura crítica diante do governo federal. Sua ONG desenvolve ações em parceria com Ministério da Educação, Secretaria dos Direitos Humanos e bancos públicos, entre outros. Por outro lado, bate forte em iniciativas como a usina de Belo Monte e no Ministério da Agricultura. “Reinhold Stephanes [na pasta de 2007 a 2010] era um tosco”, decreta. E o atual ministro, Wagner Rossi? “É tosco também.”

O hábito de Léo de meter a boca, como era de se esperar, causa efeitos colaterais. Basta ver seu blog. Com o dobro de acessos do portal de sua ONG, chega a mais de 50 mil acessos em alguns posts e teve mês que bateu a casa do meio milhão de visitantes. Nos muitos comentários, coisas assim: “Para que libertar escravos se eles vão gastar com cachaça?”; “antes de falar mal de um pecuarista, saiba que ele coloca a comida na sua mesa”; “Volta para o Japão”; “você tem cara de pirralho” e segue. Léo libera quase tudo, e ainda se diverte fazendo posts bem-humorados comentando o best of de seus detratores.

O mundo vai acabar?

“Sim, o mundo está fodido de verdade [risos]. Nos esforçamos muito para ajustar o termostato do planeta pra função gratinar. E conseguimos, a Terra tá tostando. E as pessoas não ligam, acham que estarão mortas quando o mundo tiver virado um ovo frito.” Pelo raciocínio de Léo, vamos morrer pelo consumo. “Estamos produzindo como nunca e tudo vira lixo rapidamente. Tudo é produzido pra durar pouco, pra você comprar mais e logo. Você é se você tem. Se não tem, você não é. Vira um bosta. Não tem uma Brastemp? Você é um bosta. Não tem iPad? Você é um bosta. Não tem carro novo? E por aí vai...”

O agravante, diz Léo, é que há uma gigantesca massa emergente não só no Brasil, mas no mundo. “Aí o norte do planeta vai falar: ‘Vocês têm que consumir menos se não vai ferrar tudo.’. Aí o pessoal do sul, da periferia do mundo, vai responder com razão: ‘Durante séculos vocês poluíram à vontade, consumiram o que quiseram e têm um padrão de vida ótimo. Também queremos!’. E aí?”

Mas nosso herói vê uma pontinha de esperança (possivelmente sincera, já que sonha até em pôr um filho no mundo): “A solução passa por rediscutir o que é necessário, realmente preciso. O padrão das empresas e do consumo tem que mudar. Criamos as piores condições para o ser humano, temos que reverter”. Pede desculpas, atende o celular pela última vez durante o papo e completa: “Você acha que vai ter só convulsão ambiental? Tem também uma convulsão social que nos espreita no horizonte, e eu torço por ela. As pessoas que estão fora da festa em algum momento vão querer entrar, de uma forma ou de outra. Ou o mundo vai ser um lugar decente pra todo mundo ou não vai ser decente pra ninguém”.


sexta-feira, 8 de abril de 2011

Liberais e conservadores tem estruturas cerebrais diferentes

As pessoas com inclinações políticas liberais têm cérebros estruturalmente diferentes dos conservadores, revela nesta quinta-feira um estudo divulgado na revista especializada "Current Biology".

Os liberais têm mais matéria cinzenta em uma região do cérebro associada à compreensão da complexidade, enquanto que o cérebro dos conservadores é maior na região vinculada ao processamento do medo.

Outra pesquisa mostra que há uma maior atividade cerebral nessas áreas, de acordo com a postura política da pessoa, mas se trata do primeiro estudo a mostrar uma diferença física no tamanho das mesmas regiões.

PERSONALIDADE E CÉREBRO

"Anteriormente, sabia-se que alguns traços psicológicos poderiam predizer a orientação política de um indivíduo", diz Ryota Kanai, da Universidade College London, onde a pesquisa foi realizada. "Nosso estudo agora vincula esses traços da personalidade com estruturas cerebrais específicas."

O estudo baseou-se em 90 "adultos jovens saudáveis" que classificaram sua postura política em uma escala de um a cinco, de muito liberal a muito conservador, e que depois concordaram em ter o cérebro escaneado.

As pessoas com uma amígdala cerebral maior são "mais sensíveis ao desgosto" e tendem a "responder a situações ameaçadoras com mais agressividade que os liberais, além de serem mais sensíveis a expressões faciais ameaçadoras", indica o estudo.

Os liberais, por outro lado, estão vinculados a uma região que controla a incerteza e os conflitos --o cíngulo anterior do córtex cerebral.

"Portanto, é concebível que os indivíduos dessa categoria tenham mais capacidade de tolerar a incerteza e os conflitos, o que lhes permite ter pontos de vista mais liberais."

No entanto, ainda não se sabe se as desigualdades estruturais causam as diferenças nos pontos de vista políticos ou se ocorre o contrário, ou seja, são efeitos destes últimos.

O fato é que os pontos de vista políticos parecem girar em torno da forma com a qual as pessoas reagem ao medo.

"Nossos resultados são coerentes com a proposta de que a orientação política associa-se aos processos psicológicos que controlam o medo e a incerteza", diz a pesquisa.

Fonte: Folha.com

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Espiritualidade

Por Chögyam Trungpa Rinpoche
Tradução e adaptação por Marcelo Carahyba

Espiritualidade é um termo específico que, na verdade, significa lidar com a intuição. Na tradição teísta existe uma noção de apego as palavras. Um determinado ato é considerado desagradável ao princípio divino. Um outro é agradável para o divino... enfim. Na tradição não-teísta, contudo, isto é muito direto - de forma que a investigação histórica não é particularmente importante. O que realmente importa é o aqui e o agora. Agora é definitivamente agora. Tentamos experimentar o que está disponível lá, no ponto. Não faz sentido pensar que podemos ter um passado que certa vez existiu.

Isto é o agora: este preciso momento. Nada místico, apenas agora. Muito simples, bem direto. E desta agoridade, contudo, emerge sempre um senso de inteligência de forma que se está constantemente interagindo com a realidade; passo-a-passo. Ponto a ponto. Constantemente. Também experimentamos uma precisão fantástica, sempre. Mas [quando] nos sentimos ameaçados pelo agora, então pulamos para o passado ou para o futuro. Dando atenção a materialidade que existe em nossa vida - esta vida rica que levamos.

[Diversas] escolhas acontecem o tempo todo, mas nenhuma delas é considerada má ou boa em si - tudo que experimentamos são experiências incondicionais. Elas não vem com um rótulo dizendo 'isto deve ser considerado ruim' [ou] 'isto é bom'. As experimentamos porém não damos a devida atenção a elas. Realmente não nos damos conta de que estamos indo para algum lugar. Encaramos isso como aborrecimento. [E] esperamos morrer. Isto é um problema: não acreditar propriamente na agoridade; que é a experiência atual que possui uma série de coisas poderosas. É tão poderosa que não podemos enfrentá-la. Portanto, precisamos pedir emprestado ao passado e convidar o futuro o tempo todo. Talvez seja por isso que procuramos religião. Talvez seja por isso que protestamos nas ruas. Talvez seja por isso que reclamamos com a sociedade. Talvez seja por isso que votamos para presidentes. É bastante irônico... Muito engraçado mesmo.