sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O enigma da monogamia

Por Drauzio Varella, médico e escritor.

Monogamia social é uma coisa, monogamia genética é outra. A social acontece quando dois indivíduos de sexo oposto se unem para formar um casal. Já a genética é a monogamia sexual; para ocorrer, cada membro do par precisa garantir exclusividade de acesso sexual ao outro.

Monogamia social é fenômeno raríssimo entre os animais. Monogamia genética, então, nem se fala. Até nos pássaros que formam pares amorosos, como o joão-de-barro (acusado injustamente de emparedar no ninho a fêmea infiel), o DNA dos filhos muitas vezes não bate com o do pai social.

Na evolução, o enorme esforço exigido na construção do ninho conferiu vantagens reprodutivas aos pássaros que dividiam essa tarefa com suas fêmeas. Os folgados, que deixavam a fêmea trabalhar sozinha, podiam não ter o ninho pronto no momento propício ou serem preteridos por machos mais

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Santos entre taças de vinho

Entrevista com Luiz Felipe Pondé, filósofo e escritor.


Luiz Felipe Pondé, de 52 anos, é um raro exemplo de filósofo brasileiro que consegue conversar com o mundo para além dos muros da academia. Seja na sua coluna semanal na Folha de S.Paulo, seja em livros como o recém-lançado O Catolicismo Hoje (Benvirá), ele sabe se comunicar com o grande público sem baratear suas ideias. Mais rara ainda é sua disposição para criticar certezas e lugares-comuns bem estabelecidos entre seus pares. Pondé é um crítico da dominância burra que a esquerda assumiu sobre a cultura brasileira. Professor da Faap e da PUC, em São Paulo, Pondé, em seus ensaios, conseguiu definir ironicamente o espírito dos tempos descrevendo um cenário comum na classe média intelectualizada: o jantar inteligente, no qual os comensais, entre uma e outra taça de vinho chileno, se cumprimentam mutuamente por sua “consciência social”. Diz Pondé: “Sou filósofo casado com psicanalista. Somos convidados para muitos

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Na mesma moeda

Por Paulo Brabo, escritor.

(...)

Por motivos que terei de abordar em outra ocasião, os cristãos evangélicos fogem do COMUNISMO mais do que o diabo da cruz; dito de outra forma, fogem mais do COMUNISMO do que do diabo, e tendem também a substituir um pelo outro.

O capitalismo de certa forma sempre existiu, sendo devidamente denunciado por todos os profetas, até Jesus (na linguagem dele “vem fácil vai fácil” escreve-se “de graça recebestes, de graça dai”) e depois. O mérito de Marx está em que ele expôs claramente o mecanismo econômico da exploração: demonstrou que no capitalismo todos trabalham um preciso tanto a mais do que deveriam se trabalhassem apenas para merecer o que ganham. Essa “contribuição extra”, essa mais-valia, serve para sustentar o sujeito posicionado acima de cada um na Grande

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Bestices

Por 'Carrie, a Estranha'.

Eu tenho orgulhos bestas. Orgulhos bestas são orgulhos sem razão, sem justificativa. Porque existem os orgulhos-não bestas. Sim, existem. Nem todo orgulho é besta. Orgulho de ter feito um trabalho de qualidade, de ter contribuído para determinada coisa. Eu tenho um orgulho besta de ser quem eu sou. Eu me acho especial. Muito especial. Mais especial do que a maioria das pessoas - e também tenho a sorte e a bênção de ser cercada de pessoas especiais. Eu me isolo num campo gravitacional de pessoas especiais. Por mais na merda que eu esteja, e que eu reclame horrores (e eu reclamo por qualquer coisinha), eu sei, lá no fundo, que tudo vai dar certo, afinal eu sou eu. Porra. Veja bem: não é que eu me ache melhor do que as outras pessoas. Mas eu tenho orgulho de mim, das coisas que eu fiz e faço, das coisas que já enfrentei, das pessoas que eu atraio pra perto de mim, em suma: do que eu me torno a cada dia, a cada instante e do que eu ainda

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Ainda o fundamentalismo

Por Leonardo Boff, teólogo e escritor.

O ato terrorista perpetrado na Noruega de forma calculada por um solitário extremista norueguês, de 32 anos, trouxe novamente à baila a questão do fundamentalismo. Os governos ocidentais e a mídia induziram a opinião pública mundial a associar o fundamentalismo e o terrorismo quase que exclusivamente a setores radicais do islamismo. Barack Obama, dos EUA, e David Cameron, do Reino Unido, se apressaram em solidarizar-se com governo da Noruega e reforçaram a ideia de dar batalha mortal ao terror, no pressuposto de que seria um ato da Al Qaeda. Preconceito. Desta vez era um nativo, branco, de olhos azuis, com nível superior e cristão, embora o The New York Times o apresente “sem qualidades e fácil de se esquecer”.

Além de rejeitar decididamente o terrorismo e o fundamentalismo, devemos