Por Bianca Assis, educadora.
Sou defensora da autonomia e do desenvolvimento da capacidade de
expressão própria. Como professora de Artes Visuais, meu objetivo não é
somente possibilitar o reconhecimento de códigos gráficos e obras
importantes, mais que isso, por militância, é a busca de uma identidade,
e o empoderamento de instrumentos para a expressão do que se é genuíno a
indivíduos, coletivos, povos.
Acredito que a voz ativa seja um direito, e um símbolo da dignidade.
[Como expressei no texto “
sobre o ouvir”] Mas o texto que elogia a voz
trata da importância da audição. Neste texto, sobre expressão visual,
quero tratar da importância do saber ver.
É comum ouvir que o individualismo pós-moderno nos torna cada vez mais
sozinhos em nossa caminhada. Eu discordo. É enorme a necessidade de
adaptação e de culto ao “parecer”, se não fosse assim, não existiria o
status quo, a vontade incontrolável de se trocar de carro ou de aparelho
celular, a fórmula social de sucesso, a moda, os cabelos alisados, as
fôrmas...
A individualidade neste sentido, nada mais é do que a forma de se obter
recursos, ganhar vantagem, e passar por cima de interesses coletivos,
para se mostrar aos outros o quão poderosos se é. Status. As mídias
ditam o padrão estético nortista, europeu, dos grupos economicamente
dominantes.
Neste ponto sou testemunha do poder que possuem, pois, muitas vezes vi
meus alunos negros fazendo auto-retratos com a pele branca e os cabelos
amarelos, mesmo segurando o espelho em suas mãos!
Já vi também, nos primeiros meses na Escola de Belas Artes, os olhos dos
exímios desenhistas treinados pelas revistas de super-heróis
norte-americanos, no primeiro dia de aula com um modelo vivo negro,
pequeno, fora dos padrões com os quais estamos acostumados a ver
representados, daqueles que exigiriam mais dos nossos olhos na produção
do seu desenho, e os produtos finais depois de 30 minutos de observação e
riscos no papel, serem bizarros super-heróis na posição que o modelo
havia feito. Será possível que ninguém o enxergou? Ou os olhos não são
suficientes para VER as coisas?
Eu sou muito distraída quando se tratam de lugares e referências
geográficas. Meu mapa seria em branco, e os prédios surgiriam de um dia
para o outro, depois que sou obrigada a repará-los. Faço o mesmo caminho
em Macaé há 3 meses para chegar em certo ponto, e o prédio da UFRJ só
surgiu depois que precisei dobrar a sua exata esquina.
Neste ponto preciso transcrever o que o Augusto Boal diz em seu último
livro “A Estética do Oprimido” porque ele diz muito do que me move,
enquanto profissional, e ser político:
“... O analfabetismo é usado pelas classes, clãs e castas dominantes
como severa arma de isolamento, repressão, opressão e exploração. Mais
lamentável é o fato de que também não saibam falar, ver, nem ouvir. Esta
é igual, ou pior, forma de analfabetismo: a cega e muda surdez
estética. Se aquela proíbe a leitura e a escritura, esta aliena o
indivíduo da produção da sua arte e da sua cultura, e do exercício
criativo de todas as formas de Pensamento Sensível. Reduz indivíduos,
potencialmente criadores, à condição de espectadores...
...Temos que repudiar a ideia de que só com palavras se pensa, pois se
pensamos também com sons e imagens, ainda que de forma subliminal,
inconsciente, profunda! O pensamento sensível, que produz arte e
cultura, é essencial para a libertação dos oprimidos, amplia e aprofunda
sua capacidade de conhecer. Só com cidadãos que, por todos os meios
simbólicos (palavras) e sensíveis (som e imagem), se tornam conscientes
da realidade em que vivem e das formas possíveis de transformá-la, só
assim surgirá, um dia, uma real democracia.
* Para que se compreenda com clareza que existem tantas estéticas
quantos grupos sociais organizados, comparem estas duas imagens: Jesus
com seus apóstolos vestidos com andrajos e com a alegria passional
daqueles que sentem que dizem verdades; do outro lado, o Papa, envolto
em ouro e ouropéis, no seu papamóvel blindado, cercado de guardas
suíços, vestidos pela griffe Michelangelo, cercado pelos seus príncipes,
ornados como ele. Jesus e o atual cristianismo têm pouca coisa em
comum... Ou vocês acham que esses dois grupos estariam usando a mesma e
única estética universal? Ou seriam seus caminhos tão exclusivos dos
interesses e propósitos de cada grupo? Para que eu possa começar a
acreditar em alguma coisa que ele diga, quero ver o papa quase nu,
despojado de artifícios, pregando nas ruas e nos campos. Isso, sua
estética não permite; a minha, exige!” [BOAL]
E como fechar um texto sobre a visão sem citar o Saramago em seu livro
“Ensaio sobre a Cegueira”? Em algum sentido a visão norteia o coletivo e
ajusta os interesses. A ausência dela no livro, revela a realidade. E a
intrigante mulher do médico, única personagem na cidade que não perde a
visão, do que se trata? Em certo ponto ela é advertida de que se
revelar que consegue enxergar, poderia ser morta.
É o que a humanidade reserva aos que vêem. Os que entendem os mecanismos
são perigosos. Vide a história de cada mártir. Seu maior instrumento
não foram armas ou exércitos, foi a visão.
O perigo para as estruturas opressoras, dominantes, pecaminosas não é o fato dos cidadãos terem olhos. O perigo real é usá-los!

PS. Quero lembrar com doçura algo que ouvi da minha amiga cega, Camila:
Enquanto trabalhávamos na exposição sobre o Miles Davis no CCBB em 2011,
em uma das baias, separadas por cores, tocava o disco do Miles com mais
influência do Blues. A sala era toda azul. Entramos, ouvimos por um
tempo, sem que ela soubesse, a pergunta que fiz à Camila foi
-“Pra você, que cor teria esta sala?” no que ela respondeu
“Esta sala tem cor de chuva; de avião quando está no alto do céu”.
Ela leu a cor do som, e tudo ali era mesmo azul.
Os olhos precisam de todo o corpo para enxergar com ele.
Mais azul ainda foi o mar que me veio aos olhos!